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Reflexões em forma de notícia

Publicado a 18/12/2010, 15:45 por Luís Gonçalves   [ atualizado a 18/12/2010, 16:21 ]

Depois de um afastamento motivado pelos meus problemas de visão e pela recuperação de duas intervenções cirúrgicas a que fui submetido na tentativa de minorar os referidos problemas oculares, cujo sucesso só poderei avaliar dentro de alguns dias, volto ao contacto com os meus estimados leitores, com duas reflexões em forma de notícia, que se relacionam com o óbito recente de dois queridos amigos: a D. Maria Manuel Serras Pereira (08/08/2010) e o Cónego António Esteves (03/12/2010).

Começo pela mais recente, transcrevendo a notícia dada no site da Diocese de Portalegre e Castelo Branco:


«Faleceu o Reverendo Cónego António Esteves

As exéquias serão celebradas amanhã dia 4 de Dezembro, às 11 horas da manhã, no Sardoal, onde ultimamente residia no Lar da Santa Casa da Misericórdia.

Nascido a 27 Outubro 1930, em Cabeça das Mós, freguesia e concelho de Sardoal, Filho de António Esteves e de Luísa Pires Carinhas, ingressou no Seminário de Gavião em Outubro de 1942, frequentou os nossos seminários, foi ordenado Presbítero a 15 de Julho de 1956, na Igreja matriz de Sardoal. 

Desempenhou o seu ministério presbiteral como Pároco de Malpica do Tejo, Monforte da Beira, Pároco de Santa Margarida da Coutada, acumulando com o cargo de Capelão do Exército Português, funções que desempenhou com elevado mérito e espírito de serviço à Igreja e à Pátria, tendo passado pelo Ultramar, a Academia Militar. Regimento de Comandos de Amadora e, como Chefe de Capelães, esteve no Estado Maior do Exército, tendo atingido a patente de Coronel. Já na reserva, desempenhou as funções de Capelão da Senhora da Saúde, em Lisboa.

Regressado à Diocese, foi-lhe confiada em Agosto de 1994 a paroquialidade de Sardoal e Valhascos, tendo sido Arcipreste, membro do Conselho Presbiteral, Vigário Episcopal para a zona de Abrantes e Cónego honorário da Sé de Portalegre.

Que Deus o tenha na sua glória e aos seus familiares e amigos endereçamos as mais sentidas condolências.»

Tive o privilégio da Amizade do Cónego António Esteves, desde o início da década de 70 do século passado, quando me cruzei com ele em Angola, numa altura em que ele foi Capelão do Regimento de Comandos de Luanda, onde eu frequentei o Curso de Comandos, como cadete do Curso de Oficiais Milicianos.

Ao longo dos quase quarenta anos em que convivemos, sempre o conheci como um homem frontal, sem medo de dizer o que pensava, às vezes de uma forma brusca, o que fazia com que muitas pessoas tivessem receio de falar com ele, mas sempre pronta a ajudar quem precisasse de ajuda.

Dotado de uma excelente bagagem cultural, era um orador distinto e muitas pessoas recordarão com saudade as suas homilias e os sermões que pregou mutas vezes nas Procissões dos Passos, na Vila de Sardoal.

Enquanto responsável pela Paróquia de S. Tiago e S. Mateus de Sardoal, deixou uma obra notável na recuperação e preservação do património religioso da Paróquia, tarefa em que gastou uma parte das suas economias, num exemplo mobilizador de muitas boas vontades.

Oxalá que esse seu exemplo pudesse inspirar os responsáveis municipais, na recuperação do património municipal em avançado estado de degradação, como é o caso da Capela de Nossa Senhora do Carmo, anexa à Casa Grande ou dos Almeidas, ou o edifício do antigo Externato Rainha Santa Isabel, para citar apenas dois exemplos de edifícios que podem sofrer danos irreparáveis se não foram rapidamente intervencionados.

Em próxima oportunidade darei nota mais detalhada da vida e obra deste ilustre sardoalense, em relação ao qual prevalece a velha máxima do saudoso Padre Eduardo: «Atrás de mim virá quem bom de mim fará!»


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Faleceu D. Maria Manuel Serras Pereira

Tive o privilégio de conviver durante muitos anos com D. Maria Manuel Serras Pereira que me tratava por «Primo». Tinha descoberto uma linha familiar comum entre nós, originária em Cabeça das Mós, sendo os nossos antepassados comuns de apelido Pequeno. Acredito que assim fosse porque o meu trisavô, José dos Santos Pequeno, era de Cabeça das Mós, onde viveu em meados do século XIX.
Nos quinze anos em que fui vereador a tempo inteiro da Câmara Municipal de Sardoal, foram inúmeras as vezes em que a D. Maria Manuel me visitou no meu gabinete, preocupada com o desenvolvimento do Concelho de Sardoal e, nos últimos anos, com o processo de revisão do PDM de Sardoal, cuja lentidão muito a preocupava e revoltava. 
Foi sempre uma cidadã interveniente e interessada, participando activamente na vida da nossa comunidade, sempre respeitada, mesmo quando se não concordava com as suas posições.
Tomo a liberdade de publicar neste espaço, um texto do seu sobrinho, o Padre Nuno Serras Pereira, que transcrevi, com a devida vénia e homenagem, do seu site: jesus-logos.blogspot.com/.../m-manuel-serras-pereira-perspectiva-de.html. Trata-se de um interessante e fiel retrato da ilustre falecida, para além de conter várias notas biográficas:

M. Manuel Serras Pereira – a perspectiva de um sobrinho

Maria Manuel Serras Pereira foi dada à luz em Abrantes no dia 11 de Fevereiro de 1917. O dia do seu nascimento é o de Nossa Senhora de Lurdes e o ano, do mesmo, o das aparições de Fátima e da revolução comunista na Rússia. Todos saberemos que a Virgem Maria, revelando-Se como a Imaculada Conceição, apareceu a Bernardette em Lurdes fazendo desse santuário um lugar de acolhimento e cura de enfermos. Maria Manuel foi toda a vida doente parecendo ter-lhe sido concedida a Graça de participar nos sofrimentos de Cristo em favor da salvação do mundo. Foi sempre muito devota de Nossa Senhora e uma acérrima inimiga do comunismo. Deus chamou-a para Si no dia da Natividade de Maria Santíssima, 8 de Setembro do corrente ano, no hospital de Abrantes, dando a impressão que a Virgem a veio buscar. Nasceu para o Céu no dia em a Mãe de Deus nasceu para este mundo. 

Filha de David e de Maria Guilhermina Serras Pereira, viu-se órfã de pai pelos vinte anos de idade. Tinha como irmãos mais novos a Maria de Jesus (Májú) e o João Nuno. A irmã partiu muitos anos antes dela, o irmão é vivo e conta 90 anos.

Desde cedo amou a vida com intensidade, vendo nela um dom precioso de Deus, e foi dotada de um espírito de aventura, talvez raro para uma mulher naquele tempo. Gostava muito de equitação, cavalgando por montes e vales, e aos 18 anos já a vimos feliz voando naqueles aviões como os da primeira guerra mundial (1925).

Na sua mocidade dedica-se ao apostolado e evangelização tendo liderado a juventude católica feminina em Abrantes. Quando vai a férias em Coimbra a casa do tio João Serras e Silva, Lente da Universidade, trabalha com as noelistas e as criaditas dos pobres, ajudando no cuidado dos mesmos e dos enfermos.

Durante a segunda guerra mundial funda a “Malta Brava” organizando acampamentos, na quinta de família na Venda Nova, perto do Sardoal, acompanhada de uma amiga e do seu irmão João Nuno. A malta brava era composta de rapazes, mais novos, que ela procurava educar na Fé cristã. Como alguns eram dotados de forte agressividade uns para com os outros ensinou-os a dirigi-la para o demónio, de modo que em vez de se escavacarem entre si, exerciam um autodomínio, uma contenção, que significava um espancamento do diabo. Cada vez que não faziam o que ele queria mas sim a vontade de Deus isso correspondia a uma tareia no mafarrico. Como era dotada de uma autoridade natural, sem ponta de autoritarismo, nunca precisou, para pôr a malta na ordem, de bater em algum. Lembro-me de há alguns anos caminhando com ela nas ruas de Abrantes, quando a sua memória já se delia e tinha dificuldade em reconhecer algumas pessoas, de alguns homens se aproximarem cumprimentando-a e dizendo “Eu sou fulano, da malta brava”. Descobri depois, acompanhando como sacerdote peregrinações de jovens a Fátima, que numa terra entre Alcanena e Minde, Moitas Vendas, existia um grupo denominado com o mesmo nome, seguramente organizado por um desses rapazes que tinha passado pelo original.

Maria Manuel matrimoniou-se com Fernando Côrte-Real Alves Amaro, oficial de cavalaria, vindo a enviuvar aos 13 anos de casada, devido a uma acidente de automóvel, perto de Almeirim. Para grande desgosto dos dois não puderam ter filhos. Aconteceu, por isso, que nós os sobrinhos viemos a ser tratados como se fôramos tais.

Quando a tia Maria Manuel tentava ensinar a sua sobrinha mais velha, a Margarida (Begui), com pouco menos de dois anos, a pronunciar o seu nome esta não conseguia senão articular a palavra Mená, pelo que a partir daí a Maria Manuel, em família, passou a ser tratada por esse nome.

Foi a Mená que me preparou, juntamente com o filho mais velho do jardineiro, o Armando, para a primeira Comunhão. Lembro a Fé o carinho com que o fez e em especial o facto de me ter dito que quando comungasse a minha alma ficaria mais branca do que o Sacrário, o que me pareceu algo de verdadeiramente extraordinário e só possível por milagre. Naquele tempo o Sacrário era reconhecido como tal, isto é, como o lugar onde verdadeira e realmente está Deus humanado e, por isso, era imponente como o Santo dos Santos de um templo e rodeado de todas a reverências e adorações. Hoje, com o que para aí anda de pechisbeque, irreverências e indiferenças parece quase impossível que os católicos ainda acreditem na Presença real de Jesus na Eucaristia.

Esta “catequese” que então me proporcionou continuou com o exemplo da sua vida, pois ia diariamente ao hospital da Misericórdia ajudar as Irmãs enfermeiras, levando-me algumas vezes consigo, e não poucas vezes a acompanhei a visitar enfermos pobres a quem levava consolo e cabazes de alimento.

Uma das vezes em que me levou ao hospital obrigou-me a ver, com grande repugnância minha, o tratamento nas urgências de uma moça, mais ou menos da minha idade, com o corpo todo queimado devido ao descuido com uma lareira. Foi um verdadeiro acto de amor não me deixar ir embora nem virar a cara porque tanto eu como meus irmãos tínhamos o costume temerário de brincar com o fogo da lareira quando apanhávamos os adultos desprevenidos. Ora naquela região havia muitas crianças que morriam por causa dos descuidos com as lareiras. Ficou-me de lição.

A tia Mená, juntamente com a sua mãe e minha Avó, e durante algum tempo o tio Fernando, educou e formou, durante largos períodos, nove sobrinhos e uma catrefada de sobrinhos netos. Na nossa meninice, adolescência e parte da juventude ora por motivos de dificuldades de emprego do pai ora pelas férias de Natal, da Páscoa e as intermináveis (mais de três meses) de Verão passávamos o tempo em Abrantes.

A sua relação connosco embora fosse de grande afectividade nunca teve nada de lamechas, coisa aliás a que era completamente alérgica. Dotada de uma imaginação prodigiosa e de um “magnetismo” singular contava-nos narrações coloridas, cromáticas, embevecedoras, cheias de peripécias e graças que nos faziam mergulhar num mundo outro, fantástico. A mais das vezes eram histórias dos “nossos amigos” - um grupo de animais - de fazer inveja ao Walt Disney, ou do castelo dos anões que havia na Venda Nova, outras vezes “delírios” que nos faziam susto com os seus fantasmas, como o “Padre das batatas”, assim chamado pelos altos que tinha na cabeça, antigo vizinho, já falecido, mas cujos passos e rumores se ouviam ainda por noite dentro, ou o lobisomem que corria sete serras vagueando por Alcaravela, Vila de Rei e mais além.

Sendo uma entusiasta de S. Francisco de Assis com quem se identificava muito no seu amor à natureza e aos animais (pelo contrário, tinha uma dificuldade grande com a espiritualidade de S. João da Cruz) tinha com estes uma relação extraordinária. Parece que não havia bicho que ela não encantasse ou “hipnotizasse”. Os cães mais ferozes e bravos amansavam diante da sua voz maviosa e do seu olhar doce, para grande espanto dos seus donos que a precaviam com sérias admoestações. Domesticou, e teve em casa, raposas, ouriços-cacheiros, mochos, corujas, coelhos, gatos, cães e, para grande horror da minha avó, um rato – no jardim, e as aranhas do quintal a que dava festinhas sem que elas fugissem ou a picassem. Sempre que íamos a Abrantes era certo haver uma ninhada de gatinhos que nos deliciava e com que brincávamos. Uma vez que morreu a mãe de uma ninhada a tia Mená conseguiu que a bigodaças, uma coelha que se passeava pela casa em companhia de um cão fox-terrier e dos gatos, amamentasse a ninhada órfã, e assim esta sobreviveu.

Connosco tinha um enorme bom humor, até nos ralhetes ou castigos que nos dava. Às vezes, para nos pôr na ordem, dizia pausadamente, com voz grave uma frase de Aquilino Ribeiro: olhem que “eu bato com o malho no talho, deito a carvalhosa abaixo e como melros e melráchos.” Na sua voz nunca havia agressividade ou desdém embora raramente pudesse haver alguma irritação. Se nos portávamos mal à mesa mandava vir um alguidar da cozinha, virava-o ao contrário e punha-nos a comer no fundo do alguidar, como se fora uma grande humilhação, mas sempre temperada de muito bom humor. Tinha uma vergasta com que nos ameaçava mas que só usava quando ultrapassávamos todos os limites. Então dava-nos com ela na barriga das pernas de modo a que doesse um bocadinho mas não magoasse verdadeiramente. Que limites eram esses? Dou dois exemplos para que se perceba: uma vez deu connosco debaixo da cama do nosso pai, que estava para Lisboa, fazendo uma fogueira, a brincar aos índios…; outra: como tantas vezes acontecia avisaram que a água ia faltar por dois ou três dias. Como era costume enchiam-se jarros, alguidares, lavatórios e banheiras. Pois foi dar connosco esvaziando alegremente as águas armazenadas – eu tinha dois anos e já ajudava à festa.

No seu quarto tinha guardado, numa gaveta, a “trela russa” que era uma espécie de correia ou chicote entrelaçado reservada para os “grandes” castigos. Quando acontecia apanharmos, coisa raríssima, com ela era com a mesma debilidade com que nos dava com a vergasta, nem uma mínima marca ficava, nem ligeiro rubor, mas a solenidade do nome dava um peso maior ao acontecimento. Mas o pior dos castigos era a “sova fora do rabo”. Isso sim era terrível. Combinada com as empregadas domésticas ameaçava-nos com a sova fora do rabo e elas numa aflição gritada e gesticulada clamavam: “Ó minha senhora, isso não! Tudo menos isso! Dê-lhes antes com o cavalo-marinho!” Mas a tia Mená implacável punha-nos em cima da sua cama de rabo para o ar e com quantas forças tinha batia rijamente no colchão palmadas medonhas. E nós chorosos pela crueldade dos tormentos e dos tratos…

Quando nos armávamos em inteligentes com a idiotia presunçosa da adolescência logo nos desarmava dizendo “Ai que tenho um sobrinho estaburro (sic), animal de cabresto, habitante do pocilgo”.

Mas uma vez dado o raspanete ou o castigo não voltava ao assunto, nem repisava, nem humilhava, mas dava-nos rédea solta para andarmos à vontade.

E tantas vezes nos acompanhou na doença e a mim na quase morte quando estive em coma por vários dias.

A Mená foi o único jornalista português presente no Concílio Ecuménico Vaticano II – escrevia crónicas para o jornal A Voz e o Diário da Manhã. Aí conheceu e entrevistou muitos Bispos e Cardeais, entre os quais, Karol Wojtylia, futuro Papa João Paulo II, o Irmão Roger, fundador de Taizé, com quem depois se carteou, o então jovem teólogo Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, o Patriarca de Alexandria que lhe falou num português correctíssimo, para grande espanto dela, pois era um admirador e leitor assíduo do Eça de Queirós, etc. Ouvi-lhe muitas histórias muitas vezes sobre esses tempos que passou em Roma, o que viu, as conversas que teve, as personagens e prelados que conheceu, tantas coisas que soube interessantíssimas. (Há vários anos, creio que há oito, falei a uma jornalista de RR nesta minha tia. Pelos vistos não houve interesse em conhecê-la e ouvi-la sobre esses tempos, agora é tarde.). Ficou fascinada com Roma e com a Itália em geral: Assis, Sena, Florença, Veneza, etc.

Depois como aventureira que era viajou por França e pela Suíça de onde nos trazia uns chocolates magníficos – naquele tempo não havia nem por sombras a variedade de chocolates que agora se encontram em qualquer hipermercado, tanto quanto me lembro havia duas ou três das quais só uma era comestível.

Mais tarde, devido aos desmandos pós Conciliares, feitos em nome do Concílio Vaticano II mas cujo intuito real era o de destruir a Igreja, ignorar a Tradição e subverter as verdades de Fé insere-se, para além da Acção Católica, a que já pertencia, em grupos e movimentos de resistência e fidelidade a Santo Padre, à Igreja, a Fé verdadeira.

Impelida por um desejo missionário resolveu-se a ir a Moçambique onde passou largos meses ajudando as freiras nos seus trabalhos. Em outra altura foi também a Angola. Como o dinheiro lhe escasseava não o tinha para pagar essas viagens como um passageiro normal. Mas uma vez que era viúva de militar concediam-lhe que apanhasse boleia nos aviões militares a hélice. Apanhou alguns sustos com grandes poços de ar e tempestades, mas como sempre foi muito corajosa não se deixou atemorizar.

Mais tarde virá a ser crítica de programas da então Emissora Nacional. Embora ganhasse um magro ordenado servia-lhe de ocupação e entretenimento.

Depois que Deus chamou a si a sua mãe e minha Avó resolveu-se a ir morar no Sardoal. A casa era mais pequena, mais aconchegada, e em virtude da população ser menor sentia-se mais em família, tanto mais que ali tinha muitas raízes.

Para prover ao seu sustendo, começou a meter-se em negócios de venda e urbanização de terrenos que por aqueles sítios tinha herdado. Ao princípio a família temeu, uma vez que, exceptuando um dos meus irmãos, parecia que havia como que uma sina genética, de ambos os lados, para o desastre em matéria de negociações. Depois, a sua idade era tão avançada que esperava-se o pior. Para surpresa geral teve bom sucesso assegurando a autonomia, que sempre muito estimou.

As suas enfermidades que a acompanharam toda a vida foram-se agravando e as suas forças debilitando. Apesar disso teimou sempre em continuar a viver sozinha. Que não lhe falassem em ir viver com a família para Lisboa e em lares muito menos. No entanto, pelo Natal vinha de boa vontade e com muita alegria passar essa festa em casa do irmão ou da sobrinha Marta.

Como ela outrora correu levando-nos ao hospital, normalmente por cabeças partidas, nestes últimos anos de vida também nós a levámos inúmeras vezes ao hospital e consultas, pois sempre que cá vinha apanhava alguma pneumonia ou outra maleita.

No último ano de vida, para além da sua Anabela que a servia como fosse sua filha, com enorme dedicação, muito lhe valeu o seu primo António João e sua mulher Pilar, que foram incansáveis e de uma generosidade sem limites. Também vários sobrinhos e sobrinhos netos a acompanharam com muito amor nos últimos tempos.

Depois de uma queda no Sardoal a sua decadência física foi-se agravando velozmente. Ainda foi ao jantar dos 90 anos do seu irmão meu pai a 16 de Julho. Os últimos tempos, passou-os quase sempre no hospital de Abrantes, onde foi muito bem tratada.

Confessei-a, e o seu Pároco, o Padre Carlos, deu-lha a Santa Unção. Mais tarde rezei com ela, dei-lhe de novo a absolvição e a indulgência plenária. Nunca desistiu da vida apesar de tanta maleita mas aceitou com grande paz quando Nossa Senhora a veio buscar. Sempre soube e nos ensinou que a vida, esse esplêndido dom de Deus, vale a pena ser vivida, mesmo com sofrimento e tribulações, mas que ela é sinal e caminho para aquela Vida eterna, que Deus quer para todos, onde encontraremos a felicidade absoluta e reencontraremos os nossos que nos precederam. “À medida que o exterior se vai degradando o interior se vai renovando”, poderia ela repetir com S. Paulo.

Teve os seus pecados, defeitos e limitações. Mas arrependia-se, confessava-se e andava para a frente não desistindo nunca. Agora, como dizia numa carta que nos deixou para ser lida após a sua partida, está junto a Deus com a “trela russa” olhando por nós e se for preciso pedirá ao Senhor que a deixe usar para nos corrigir. É sem dúvida alguma a tia a que todos estamos mais ligados, a que mais estimamos e a que deixa mais saudades. Foi a melhor tia do mundo.

Nuno Serras Pereira

21. 09. 2010


Tive o privilégio de merecer a confiança da D. Maria Manuel na transcrição de uma parte das suas memórias, de que ela me ofereceu alguns trechos.

Tomo a liberdade de publicar aqui um pequeno texto cuja acção se passa em Entrevinhas, minha aldeia natal e cujo personagem principal, o Sr. Eleutério eu conheci muito bem.

VILA – 1980

Eleutério de nome, analfabeto por destino e bruxo de ofício.

Nunca gostei dele e nem o conhecia, mas ouvia contar.

Bruxo se fez, nem sei como e fortuna arranjou a iludir papalvos. Vêem de longe em carros de luxo tratar-se de toda a espécie de moléstias: ervas, benzelhices e conversa para males de coração e guerras de família.

Senti sempre revolta quando me contavam as histórias. Como podia aquele pobre diabo que nem conhece as letras iludir gente endinheirada e bem apessoada? Nunca me souberam explicar, mas a conta no banco e as propriedades compradas atestam a verdade do ofício e dos lucros que lhe dá.

Sempre gostei da aldeia onde vive por ficar mais perto da quinta e por serem sempre de lá os caseiros e sua família. Por lá íamos muita vez calcorreando os seus caminhos de cabras em sobe e desce cheios de pedras roliças que embaraçavam os passos e faziam escorregar na descida. As casas, de reboco algumas, nem conheciam cal. Meia dúzia, para aí, e dos mais endinheirados.

Passaram anos e a aldeia foi evoluindo: caminhos alcatroados, casas todas caiadas, três ou quatro no “estilo maison” trazido por emigrantes, mas outras apenas alindadas pelo reboco, caiação e exuberância de flores em cima dos muros e nas frontarias rente às paredes.

Respira alegria no ar lavado com vista ao redor porque fica num alto. Está bonita a aldeinha. Sente-se que é amada pelos seus moradores.

E foi lá que alguém deu maçãs a um membro da família. Tinha ido buscar água da fonte – a da Vila não é apetecível com o lixo que traz e os desinfectantes mal gostosos. Foi um delírio: o gosto da infância nas maçãs nunca mais comidas. Lariôa (?) é o seu nome e nunca mais foi saboreada desde que as macieiras da Quinta foram arrancadas por rodem de um engenheiro agrícola cheio de ciência e ausência de sensibilidade gustativa.

E quem deu? Dificuldade de procura numa aldeia com tão pouca gente. Pedia “garfos” para fazer enxertia em macieiras quase bravas, mas ninguém descortinava o proprietário de tais delícias.

É fulano...” e lá se buscava o fulano. “Que não senhor, não tinha sido ele, mas talvez beltrano...” E de horta em horta, de casa em casa, lá veio quase sussurrando a indicação: Foi o Eleutério, e ele que tem essas maças e contou-me o acontecido. Pois vamos ao Eleutério. “É o ervanário” – disse-me um pouco a medo o taxista. O Bruxo, ia finalmente travar-me de conversas com o Bruxo!

Parámos junto à casa; o taxista foi por ele que andava na horta. Casa corrida de rés-do-chão e varandim à frente a abarrotar de frézias de todas as cores e “alegrias da casa”, tão variadas de colorido como as frézias. Uma beleza! Dentro trabalhava um tear. Entrei. A mulher é surda, mas simpática, avezada às visitas do marido que deixam proveitos.

O Bruxo não vinha e fui-me até ele.

É um homem obeso de voz rouca e ofegante de asmático. Confirmou a história e disse ter dezenas de macieiras e que de todas me daria “garfos”. Insisti na Lariôa, expliquei detalhadamente que precisava, apenas, de “garfos” para meia dúzia de arvorezinhas nascidas da raiz da macieira cortada. Ele teimava, teimava e eu, cada vez mais espantada com a parvalheira dos seus pacientes que conseguiam tirar proveito de criatura tão pouco esperta. Depois em gesto largo mostrou os terrenos ao redor, todos seus e mais além um que lhe andava no goto; queriam dois mil e embora os tivesse na banca, achava demasia para o tamanho. E depois de discussões que me iam pondo ao rubro, acabou por condescender mandar-me para a Vila “garfos” de três qualidades. Despedimo-nos e já dentro do carro, na descida, ouvimos a sua voz: “Minha senhora, minha senhora”. Mandei parar o carro e ele quase rebolava na ladeira e freneticamente tentava abrir a porta do carro: “Menina, ó menina, lembra-se dum garotinho que durante três anos esteve no hospital do Convento com uma perna que era uma lástima? A menina e os seus manos levavam-me pacotes de bolos, lembra-se? Eu lembrava-me lá, tantos foram os garotos que ao longo desta longa vida receberam guloseimas em camas de hospital, mas disse que sim, claro que disse que sim. Ele mais arfante a espelhar alegria na sua cara redonda, ia dizendo: “Eu sabia, eu sabia que a Menina não me tinha esquecido. O seu Pai até queria que a Misericórdia me adoptasse por filho, mas a minha mãe não quis. Eu sabia, eu bem sabia que a Menina se lembrava de mim.”

E de repente todo o desprezo que sentia pelo Bruxo se transformou numa ternura enorme por aquele rapazinho que durante três anos, dos sete aos dez, agonizou dores cruciais na sua perna com osteomielite que o deixou marcado, claudicando no andar. Aquele menino que não conheceu pai, que esteve três anos na enfermaria dum hospital junto de velhos gemebundos, assistindo a mortes e dores alheias, roidinho de sofrimento. A osteomielite era ao tempo doença terrível pelo sofrimento que causava e pela dificuldade da cura – aquele menino que não teve letras por ter passado num hospital o tempo escolar, estava ali à minha beira, radiante por ter sido lembrado e eu olhei-o com toda a minha ternura.

O Bruxo afinal é alguém que foi menino sofredor e não esqueceu nunca um gesto de carinho.

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