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FUS – APONTAMENTOS I

Uma explicação necessária

A Filarmónica União Sardoalense (FUS) foi fundada em 1911 em resultado da fusão das duas filarmónicas que então existiam na Vila de Sardoal. A Sociedade Filarmónica Sardoalense e a Sociedade Fraternidade Sardoalense.

A Sociedade Filarmónica Sardoalense foi fundada em 3 de Agosto de 1862, sendo legítimo considerar-se esta data como a data da fundação da FUS, pelo que no dia 3 de Agosto de 2012 se comemorará o seu 150º aniversário.

A Sociedade Fraternidade Sardoalense foi fundada em Dezembro de 1901 e das vicissitudes desta fundação dar-se-á nota noutro local.

Convém referir que o único documento que se conhece dos arquivos destas filarmónicas é o primeiro livro de actas da Sociedade Filarmónica Sardoalense que se guarda no Arquivo Municipal de Sardoal e mesmo da própria FUS apenas foi possível localizar documentos das últimas décadas, sendo muito difícil reconstituir a sua história.

Ficou o recurso à imprensa regional, com muitas notícias, especialmente doa primeiros anos do século XX quando co-existiram duas filarmónicas na Vila de Sardoal.

 

FUNDAÇÃO DA SOCIEDADE FILARMÓNICA SARDOALENSE

 

Vale a pena ler com atenção a acta de fundação da Sociedade Filarmónica Sardoalense, em que se percebe que a génese desta agremiação mobilizou as principais figuras da sociedade sardoalense de então que contribuíram, através de uma avultada jóia para as elevadas despesas que foi necessário realizar com a aquisição de instrumentos e fardamentos.

Três desses fundadores fazem ainda parte da toponímia sardoalense: casos de António Duarte Pires e Máximo Maria Serrão e Giraldo Costa, tendo sido os dois primeiros Presidentes da Câmara Municipal e o terceiro médico do partido municipal. Entre os fundadores estão cerca de uma dezena de sacerdotes e entre eles o Padre Gregório Pereira Tavares que foi o herdeiro do último elemento da família Moura Mendonça, ficando a pertencer-lhe, por isso, a Casa Grande, que viria a ser dividida por três dos seus herdeiros.

Entre os fundadores estão, também, outros presidentes da Câmara Municipal de Sardoal, administradores do concelho, presidentes da Junta de Paróquia, magistrados, médicos, farmacêuticos e oficiais públicos, para além de grandes proprietários rurais daquela época e comerciantes.

Por curiosidade transcrevo a lista de Presidentes da Câmara Municipal de Sardoal entre 1849 e 1904:

02/01/1840  EGM´LIDIO ANTÓNIO MORA

21/01/1852   ANTÓNIO DUARTE PIRES

02/01/1860    MÁXIMO MARIA SERRÃO

02/01/1864   JOSÉ DE ALBUQUERQUE  AMARAL CARDOSO

02/01/1870    MÁXIMO MARIA SERRÃO

02/01/1872    ANTÓNIO DUARTE PIRES

02/01/1874    AGOSTINHO FRANCISCO MOREIRA CARDOSO

02/01/1876    MÁXIMO MARIA SERRÃO

02/01/1882    JOSÉ ALEXANDRE DAVID PINTO SERRÃO

02/01/1886    ANTÓNIO JOAQUIM PINTO CERQUEIRA

02/01/1890    JÚLIO BIVAR D'AZEVEDO SALGADO

02/01/1891    MIGUEL SERRÃO BURGUETE

02/01/1899    JÚLIO BIVAR D'AZEVEDO SALGADO

02/01/1901    JOSÉ ALEXANDRE DAVID PINTO SERRÃO

02/01/1902    JOÃO BAPTISTA  SALDANHA FONSECA SERRA

 

 

ACTA

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e sessenta e dois, aos três dias do mês de Agosto, nesta Vila de Sardoal e em uma das casas da Administração deste Concelho, sendo para isso convidados foram presentes como sócios da Filarmónica a organizar-se nesta Vila que se subscreveram com a promessa de mil e duzentos réis de jóia e duzentos e quarenta réis de quota mensal, por tempo de dois anos a contar da presente data. os seguintes senhores: Emídio António Mora - Fernando Augusto de Figueiredo - Reverendo Pedro Maria Pereira - António Duarte Pires - José Alexandre David Pinto Serrão - João Saldanha da Fonseca e Serra - Máximo Maria Serrão - Simão Serrão Burguete - Doutor José Maria da Silva Ferreira - Reverendo António da Silva Ramos Ferreira - José Santos e Silva - Francisco de Oliveira  Mendonça - Joaquim Batista Rosa - Manuel Gaspar - Pedro de Matos - Joaquim Ribeiro - José Maria da Silva - Miguel Serrão Burguete, todos desta Vila - Joaquim Apolinário Ferreira da Silva e João Vaz Soares, da Vila de Abrantes; não compareceram os senhores - José de Albuquerque do Amaral Cardoso - Reverendo Francisco de Oliveira - Ricardo Frederico Guimarães - Reverendo António da Silva e Moraes - Reverendo Joaquim Manuel da Fonseca Moraes - Reverendo Luís de Oliveira Brigas - Reverendo Francisco Ferreira de Figueiredo - António Batista - João Ribeiro - Inácio Maria Xavier de Oliveira - Reverendo Gregório Pereira Tavares - José da Silva - António Dias Jorge - todos desta Vila; - Reverendo António Rodrigues Falcão, dos Andreus - Manuel Heitor Deus, da Conheira - José Maria Serrão, de Belver - Silvério Marques, da Recez - Sebastião Tavares, do Rossio - Diogo Alexandrino de Figueiredo, de Castelo Branco - António Carlos da Rocha Vieira e Joaquim José Lima, da Vila de Abrantes, tendo contudo mandado pedir desculpa de não poderem comparecer por afazeres, anuindo a tudo o que os sócios concorrentes fizessem a bem da organização da Filarmónica desta Vila e confirmando a promessa da jóia  e quota retro-declarada: pelo que se procedeu à leitura dos estatutos que hão-de regular o serviço e boa administração da dita Filarmónica, os quais foram aprovados plenamente por todos os sócios presentes; em seguida nomearam de entre si para compor a Mesa Provisória e procederem à eleição da Comissão Administrativa da Filarmónica, o Doutor José Maria da Silva Ferreira, para Presidente e António Duarte Pires para escrutinador e a mim Miguel Serrão Burguete, para Secretário, os quais tomando os seus respectivos lugares, procederam à eleição por escrutínio secreto, da dita Comissão, recebendo o Presidente, de cada um dos sócios presentes, uma lista que deitou dentro de uma urna, depois do que, todas recebidas, procedeu o escrutinador à leitura delas e saíram votados: Fernando Augusto de Figueiredo, com vinte votos - Emídio António Mora, com dezanove, Reverendo Pedro Maria Pereira, com dezoito, Miguel Serrão Burguete, com dezoito, Francisco de Oliveira Mendonça, com onze, António Duarte Pires, com seis, Joaquim Batista Rosa, com cinco, Doutor José Maria da Silva Ferreira, com um, Máximo Maria Serrão, com um e Manuel Gaspar, com um. Pelo que o Presidente proclamou membros da Comissão os cinco mais votados: Fernando Augusto de Figueiredo, Emídio António Mora, Reverendo Pedro Maria Pereira, Manuel Serrão Burguete e Francisco de Oliveira Mendonça, que todos aceitaram o cargo para que foram eleitos.

     E para constar se lavrou a presente acta que depois de lida foi por todos assinada. E eu, Miguel Serrão Burguete, Secretário, escrevi.

                                        (Seguem 35 assinaturas)

 

ESTATUTOS PELOS QUAIS SE DEVE REGER A FILARMÓNICA DESTA VILA DO SARDOAL

 

TÍTULO 1º

DA ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE

 

ARTIGO 1º - A sociedade denomina-se “SOCIEDADE FILARMÓNICA     SARDOALENSE” a qual tem por fim promover a instrução e recreio tanto em instrumental como de canto, de certo número de alunos para dizerem em orquestra peças de música

 

ARTIGO 2º  - São sócios todas aquelas pessoas que voluntariamente se inscreveram para satisfazer a arbitrária jóia de entrada de mil e duzentos réis e a quota mensal de duzentos e quarenta réis e bem assim todas as que de futuro forem admitidas pela Comissão.

 

ARTIGO 3º - Os sócios actuais e os que de futuro se inscreverem são os indivíduos competentes em quem devem recair os cargos e Direcção da Sociedade, contanto que sejam residentes dentro deste Concelho;

 

ARTIGO 4º - No primeiro domingo de Agosto de cada ano se reunirão em Assembleia Geral todos os sócios; no mesmo dia a Comissão apresentará o relatório dos seus trabalhos, para análise dos quais se elegerá uma comissão de três membros dos sócios presentes que dará o seu parecer no mesmo acto, em Assembleia Geral;

PARÁGRAFO ÚNICO: - Quando não seja possível reunir-se o número total de sócios conforme o artigo antecedente, a sociedade se constituirá com qualquer número deles.

 

ARTIGO 5º - Depois de satisfazer ao que recomenda o art.º 4º se fará a eleição da Mesa futura a qual será composta de um Presidente, um Vice-Presidente, um Fiscal, um Tesoureiro e um Secretário. Durará por tempo de um ano podendo ser reeleita e servir, aceitando;

PARÁGRAFO ÚNICO: - Estes cinco indivíduos eleitos, escolhem-se de entre si para os diferentes cargos.

 

ARTIGO 6º -  Os cinco indivíduos eleitos pelo artigo antecedente compõem a Mesa propriamente dita, cujas atribuições são dirigir os trabalhos da Sociedade e decidir  sobre quaisquer objectos da mesma, sendo o Presidente especialmente  a manter a polícia em Assembleia e convocar, extraordinariamente, a Sociedade quando para isso tenha motivos ou proposta.

PARÁGRAFO ÚNICO: -Esta proposta poderá ser feita por quaisquer sócios, não sendo nunca o seu número inferior a cinco, que assinando-a a entregarão ao Presidente, declarando nela o motivo que lhe dá lugar.

 

ARTIGO 7º - Dos indivíduos eleitos pelo art.º 5º formarão a Direcção o primeiro e terceiro, cujas atribuições são as seguintes:

PARÁGRAFO 1º -Fazer arrecadar as jóias e quotas mensais de cada sócio já inscrito ou que de futuro se inscrever.

PARÁGRAFO 2º - Convocar os alunos que se julguem necessários para a execução instrumental  e de canto, tendo os seguinte requisitos:

1º - Probidade

2º -Aptidão para a música

3º - Naturalidade nesta terra ou nela domiciliado

4º -Com a necessária docilidade para se sujeitar como discípulo às obrigações e regulamento da Escola.

PARÁGRAFO 3º - Apresentar na Sessão Ordinária uma conta corrente de Deve e de Haver que será transcrita num livro da Sociedade e bem assim a conta do custo dos instrumentos já comprados, cujo adiantamento foi generosamente feito pelo actual sócio Fernando Augusto Zuchenbuch de Figueiredo, para a pouco e pouco lhe ser satisfeita pelo remanescente dos fundos da Sociedade e bem assim o custo de quaisquer outros que de futuro se comprem. 

PARÁGRAFO 4º - Vigiar pelo bom arranjo e polícia na casa do ensino, podendo delegar este encargo no respectivo Mestre e bem assim pela conservação e asseio dos instrumentos.

PARÁGRAFO 5º - Propor a exclusão de qualquer discípulo que seja inepto para a música ou incorrigível no seu comportamento, o que será decidido pela Comissão.

PARÁGRAFO 6º - Propor novos sócios que satisfaçam  às indicações destes estatutos e cuja admissão será resolvida pela Comissão.

PARÁGRAFO 7º - Deliberar de acordo com a Comissão qualquer ajuste para a execução da música em arraial ou festa de Igreja e bem assim as tocatas mensais para recreio   da Sociedade e povo.

PARÁGRAFO 8º - Despender as quantias necessárias e indispensáveis para quaisquer despesas.

 

ARTIGO 8º - As despesas que se fizerem serão satisfeitas pelo Tesoureiro à vista do mandado que lhe for apresentado, indo competentemente assinado por um dos membros da Direcção.

 

TÍTULO 2º

DA INSTRUÇÃO E OBRIGAÇÃO DOS ALUNOS

 

ARTIGO 9º - Haverá um Conselho Disciplinar que será composto dos dois indivíduos da Direcção, do Mestre ou Contra Mestre, na falta deste.

PARÁGRAFO ÚNICO - O fim deste Conselho é  conhecer da falta dos alunos para lhe serem aplicadas as penas destes estatutos.

 

ARTIGO 10º - A Direcção com o Mestre da Filarmónica combinarão quantas lições os alunos devem ter por semana, bem como a hora e duração das mesmas, contanto que de oito em oito dias, haja uma reunião para dizerem a compasso e harmonia o que na semana tiverem estudado.

 

ARTIGO 11º - Todo o aluno é obrigado a cumprir o que estes estatutos lhe impõem e bem assim receber com docilidade as admoestações que lhe forem feitas pelas pessoas competentes para isso, que é o Conselho Disciplinar.

 

ARTIGO 12º - Os alunos depois de matriculados no competente livro para isso destinado, assinarão no mesmo um termo pelo qual se obriguem à satisfação do que impõem estes estatutos que durará por tempo de dois anos, como garantia que dão à Sociedade que desveladamente promove a sua instrução.

PARÁGRAFO ÚNICO - Este contrato só poderá ser alterado com consentimento da Comissão e aluno, para salvar força maior.

 

ARTIGO 13º - Os alunos são obrigados a concorrer às lições ou tocatas que legitimamente lhe forem ordenadas, bem como à boa conservação e asseio do instrumento que a cada um for confiado, por que fica responsável, não podendo ausentar-se para fora da terra sem ter sido previamente licenciado pelo Conselho.

 

ARTIGO 14º - Quatro meses depois de leccionados os alunos devem estes fardar-se, com o seguinte uniforme: Calça de pano azul claro, sendo branca no Verão, jaqueta à cavalaria, de pano ou briche cor de pinhão, chapéu de pelo ordinário preto, copa baixa, aba levantada na frente, avivado ou debruado de galão amarelo, pluma branca, tombada na frente do chapéu para o lado esquerdo; o chapéu na frente uma lira galvanizada, tendo no centro em gótico dois SS que denominam Sociedade Sardoalense.

PARÁGRAFO ÚNICO - Além do grande uniforme supra descrito poderá haver outro pequeno e à deliberação da Comissão.

 

TÍTULO 3º

DAS DISPOSIÇÕES PENAIS

 

ARTIGO 15º - Todo o sócio que perturbar a polícia e boa ordem da Assembleia será advertido pelo Presidente para entrar na ordem e reincidir, o mesmo Presidente proporá à Sociedade a sua expulsão.

 

ARTIGO 16º - Todo o sócio que por espaço de três meses deixar de satisfazer a quota mensal, será expulso.

 

ARTIGO 17º - Todo o aluno filarmónico obrigado a comparecer com o seu uniforme como fica determinado nos actos públicos em que lhe for ordenado. Deixando de o fazer pagará de multa, por cada vez, 120 réis.

 

ARTIGO 18º - Todo o aluno que não levar consigo para qualquer festa ou tocata a sua caderneta de música e que por essa causa deixe de tocar alguma peça pagará de multa, por cada vez, 120 réis.

 

ARTIGO 19º - Todo o aluno que sem causa justificada deixar de comparecer a qualquer festa ou tocata pagará uma multa igual à parte que lhe competir da mesma festa e sendo gratuita será a multa arbitrada pelo Conselho.

 

ARTIGO 20º - Todo o aluno que faltar a qualquer reunião tendo para isso sido avisado ou deixar de comparecer meia hora depois da hora marcada pagará 80 réis de multa e 120 réis, excedendo uma hora.

 

ARTIGO 21º - Todo o aluno que em qualquer festa ou reunião  não se apresentar prontamente à chamada feita pelo bombo, como é costume, pagará por cada falta 40 réis.

 

ARTIGO 22º - Todo o aluno que não puder comparecer a qualquer ensaio e o não fizer saber ao Mestre três horas antes da marcada, pagará 80 réis de multa.

 

ARTIGO 23º -  Todo o aluno que nos ensaios ou actos públicos suscitar disputas desagradáveis e depois de admoestado pelo Mestre ou pela Direcção não entrar na ordem será punido com a multa arbitrada pelo Conselho Disciplinar, conforme a gravidade do caso.

 

ARTIGO 24º - As faltas cometidas por insulto grave, embriaguez com escândalo, serão julgadas pela Direcção, ouvido o delinquente e podem dar lugar à expulsão dele.

 

TÍTULO 4º

DO MESTRE E SUAS OBRIGAÇÕES

 

ARTIGO 25º - A Filarmónica terá um Mestre para ensino dos alunos que lhe forem apresentados pela Direcção, que será pela sua parte, obrigado a satisfazer o que lhe impõem estes estatutos e bem assim:

1º - A fazer a distribuição dos instrumentos pelos alunos conforme julgue conveniente ao bom desempenho e capacidade de cada um.

2º - A empregar os meios ao seu alcance para obter o bom desempenho de qualquer peça de música;

3º - A escrever para o Arquivo da Sociedade todas as peças de música que a Direcção lhe exigir, prontificando esta o necessário papel quer seja música composta pelo mesmo Mestre, quer outra que lhe seja apresentada para a competente partitura;

4º - Acompanhar e dirigir a Filarmónica a qualquer festa ou tocata para que a mesma seja competentemente chamada;

5º-Distribuir alternadamente a parte obrigada das diferentes peças de música pelos discípulos, segundo a aptidão ou inteligência de cada um e em harmonia com o instrumento.

 

ARTIGO 26º - As disposições penais aplicadas igualmente o são ao respectivo Mestre, na parte que lhe corresponder, sendo em dobro a multa, pois que dele deve partir o exemplo para os discípulos.

 

ARTIGO 27º - Nas festas ou concertos  ajustados em que a Filarmónica tocar, terá de gratificação o Mestre a sexta parte da importância ajustada.

 

TÍTULO 5º

DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS

 

ARTIGO 28º - O produto de qualquer festa ou concerto tocado pela  Filarmónica, será arrecadado pelo Tesoureiro da Comissão por uma ordem da Direcção  e aplicado às despesas da Sociedade, até que a mesma tenha satisfeito a importância dos instrumentos. Igualmente será arrecadado o produto das multas.

PARÁGRAFO ÚNICO - Os concertos ou tocatas que a Filarmónica fizer, competentemente autorizada, que forem de graça e disso resulte qualquer gratificação, será esta distribuída igualmente por todos os filarmónicos.

 

ARTIGO 29º - A Filarmónica tocará de graça a música necessária na Festa do Bodo do Espírito Santo e em todas as Festas Nacionais e regozijo público.

 

ARTIGO 30º - Quando por fatalidade a Sociedade se dissolva e que a Filarmónica se não possa sustentar porque ao menos cinco indivíduos não constituam uma Comissão para dirigir e regular a mesma Filarmónica, os instrumentos serão arquivados na Administração do Concelho ou na Junta de Paróquia se a primeira não existir.

PARÁGRAFO ÚNICO - Os instrumentos assim entregues a qualquer daquelas autoridades voltarão ao uso e recreio logo que se organize na devida forma a sociedade suficiente para deles se utilizar.

 

ARTIGO ÚLTIMO - Estes estatutos poderão ser alterados as vezes que a Sociedade o entenda, fazendo para isso proposta em Assembleia Geral e passados os dois primeiros anos de existência.

PARÁGRAFO ÚLTIMO - Haverá um contínuo a quem a Comissão  arbitrará uma gratificação suficiente para paga do seu trabalho.

 

             Sardoal, 6 de Agosto de 1862

 

 

    O Livro de Registos que tenho vindo a transcrever tem, ainda, algumas actas de eleição de corpos gerentes e as contas de gerência dos anos 1862/63 a 1866/67.

 

     Por questão de espaço não as transcrevo, resumindo apenas o seu conteúdo:

 

1863-1864: Corpos gerentes

                    Presidente: António Duarte Pires

                    Vice-Presidente: Dr. Giraldo Joaquim Maria da Costa

                    Fiscal: António Joaquim Pinto Cerqueira

                    Tesoureiro: Joaquim Batista Rosa

                    Secretário: Padre Luís de Oliveira Brigas

 

1864-1865: Os mesmos

 

1865-1866:

                    Presidente: José de Albuquerque do Amaral Cardoso

                    Vice-Presidente: Máximo Maria Serrão

                    Fiscal: Padre António da Silva Morais

                    Tesoureiro: Francisco de Oliveira Mendonça

                    Secretário: Miguel Serrão Burguete

 

1866-1867:

                    Presidente: José de Albuquerque do Amaral Cardoso

                    Vice-Presidente: Máximo Maria Serrão

                    Fiscal: Padre António da Silva Morais

                    Tesoureiro: Bento Xavier Moreira Cardoso

                    Secretário: Miguel Serrão Burguete

 

     Das contas de gerência constam algumas curiosidades que pelo seu interesse transcrevo:

     Foi o primeiro Mestre Pedro Gregório Correia Branco, com o ordenado mensal de 9$600 e foi primeiro contínuo da Sociedade João da Silva Casimiro, com a gratificação mensal de $480.

     Existe uma referência à aquisição de um saxtrompa comprado em Abrantes por 9$000.

     A primeira receita de uma festa é de 16$000 e respeita à festa do Souto, de que deduzida a parte do Mestre, resultou darem entrada nos cofres 13$335. Registaram-se, também, saídas para Vila de Rei, Tramagal, Carvalhal e Abrantes. Como elemento de comparação direi que um alqueire de azeite custava em Junho de 1863, 1$600, como se vê nas contas, pela aquisição de azeite para iluminar a casa dos ensaios.

 

     Entre 1867 e 1895, não consegui localizar, ainda, outras referências à Sociedade Filarmónica Sardoalense.

     A primeira referência encontrei-a, no jornal “O ABRANTES”, publicado em 29 de Dezembro de 1895 (Domingo), sob a epígrafe

 

NOTÍCIAS DO SARDOAL”:

     “ Sr. Redactor

     Certo que V.Exª dispõe um cantinho do seu jornal, tomo a liberdade de lhe enviar umas notícias deste pacato Sardoal.

     Éden formoso em que as ninfas são belas e sedutoras e os dandis lindos e garbosos, como os lírios das Hespérides.

     Aqui tudo é belo e sublime!... A instrução caminha a passos agigantados.

     A literatura é cultivada com dedicado esmero e primor; As artes professadas sob todos os aspectos e a religião católica - romana, com o seu Largo à frente conta com um sem número de prosélitos! Belo e sublime, não acham?

     No dia 25 do corrente realizou-se na sede da Sociedade Filarmónica Sardoalense, a eleição da comissão que deverá dirigir a Sociedade durante o ano de 1896.

     Os eleitos foram:

     Presidente: João D. Pinto Serrão

     Secretário: António Henriques da Silva

     Tesoureiro: Manuel Alves Milho

     Vogais: Pedro Barneto Nogueira e João Saldanha

 

     Esta lista foi muito bem recebida, pois os cavalheiros que a compõem são dignos da estima e consideração de todos os Sardoalenses.

     Na tarde do dia da eleição a filarmónica foi dar as boas festas à nova Comissão e em seguida foi tocar para um bazar em benefício dos rapazes pobres, promovido por uma comissão de senhoras desta Vila. Foi uma festa agradável.

     O bazar continua no dia 1º de Janeiro.

 

     A referência seguinte que encontrei, vem no “ECHO DO TEJO”, de 21 de Abril de 1901:

     “A excelente Filarmónica Sardoalense tocou 3 lindas ‘marchas fúnebres’ nas procissões da Semana Santa.”

 

     No mesmo jornal, em 5 de Maio de 1901:

     Motivado pelo mau tempo não se realizou como tínhamos anunciado o arraial que devia ter lugar no dia 21 do passado mês de Abril. Transferido pela Comissão, realizou-se no dia 28, apresentando-se o dia verdadeiramente primaveril. Pelas três horas da tarde deu entrada no arraial a nossa Filarmónica que despertou naquela massa alegre e folgazã uma animação tal que tocou as raias do delírio. Formaram-se vários bailes de guapas moçoilas e rechonchudos Romeus que davam uma nota alegre ao arraial.

     As Julietas cantavam ao desafio como que a encantar os seus pares de dança.

     À noite a iluminação produzia óptimos efeitos dos pontos mais altos da Vila e pela Rua Serpa Pinto de onde se desfrutava melhor iluminação a vista era deslumbrante. A calçada que serve de entrada para o adro do Convento, onde teve lugar o arraial, era ladeada por balões à veneziana, sendo o que produziu melhor e mais bonita vista. Por isto tudo é digna de todo o elogio a Comissão que promoveu o arraial, mas, especialmente, por ter tirado o povo da apatia em que sempre está mergulhado.”

 

 

FUNDAÇÃO DA SOCIEDADE FILARMÓNICA SARDOALENSE

 

No panorama associativo do Sardoal emergem, nos primeiros anos do século XX, duas figuras importantes: Francisco Augusto Simões Abílio da Fonseca de Mattos e Silva.

 

Pouco se conhece sobre a vida de Francisco Augusto Simões até ao seu aparecimento no Sardoal por volta de 1900.

É na imprensa regional que se encontram as primeiras referências à sua presença no Sardoal, relacionando-se, algumas, com a construção do seu palácio, cuja imponência denota ter sido pessoa dotada de avultados meios financeiros. Esta construção deve ter terminado em 1905, como se comprova pelo painel de azulejos da frontaria com as iniciais F.A.S. do proprietário e a data de 1905.

 

No jornal ECHO DO TEJO, que se publicou em Abrantes, na sua edição de 1001, vem a seguinte notícia:

     “O nosso amigo Francisco Augusto Simões, que actualmente aqui reside, acaba de comprar mais uma porção de terreno para maior formoseamento do seu grande palácio em construção. Este nosso amigo que tanto tem beneficiado o Sardoal com algumas obras de valor e dignas de admiração de quantos o têm visitado, é digno de todo o elogio, pelo muito que tem feito em prol do Sardoal. Sentimos bastante que com a coragem do nosso amigo Simões, não haja no Sardoal meia dúzia de cavalheiros, porque com certeza, dia-a-dia, veríamos a nossa querida terra progredir! Segundo informação que colhemos o palácio que este nosso amigo anda construindo vai ser uma maravilha pois que ele não se poupa a trabalhos nem despesas. Bem-haja quem tanto tem ajudado os pobres dando-lhes trabalho! Que veja coroados de bom êxito os seus trabalhos é o que lhe desejamos.

 

 

 

Outra notícia relacionada com aquela construção:

 

“ECHO DO TEJO” - 1 de Junho de 1902

SARDOAL - AO CORRESPONDENTE DE “O DIA”

    São 10 da manhã. Temos na nossa mão a presença de “O DIA” de 14 do corrente que obsequiosamente nos foi fornecido por um amigo, no qual vem inserida uma correspondência desta Vila, que se refere a umas modestas correspondências daqui, que temos enviado ao ‘ECHO DO TEJO’, apreciando de modo pouco lisonjeiro.

     Muito longe estávamos nós de pensar que as nossas correspondências escritas simplesmente no intuito de dar notícias do que se passa na terra podiam desagradar a quem quer que fosse e serem dignas da censura do correspondente de ‘O DIA’.

Enganámo-nos. Mas que culpa temos nós que haja no mundo invejosos?... Não o prolóquio que é infinito o mundo da... seja inveja?

     No Sardoal também os há. E foi isso que levou o tal senhor correspondente, por si ou levado por outrem a embirrar com as correspondências do ECHO, por nelas se fazer justiça ao nosso amigo F.A. Simões, residente nesta Vila, dizendo-se que ele tem prestado à Vila bastantes melhoramentos e que é digno das simpatias dos povos do Concelho, etc. Diz o articulista ‘que não conhece o Sr. Simões.’.Talvez tenha razão, pois provavelmente traz os pés na terra e a cabeça na lua e por isso não pode prestar atenção a tudo que os restantes homens conhecem e sabem, porque vêem.

     ‘Cônscios do que escrevemos, vamos verberar legitimamente que são desconhecidos os melhoramentos por este Sr. Simões prestados ao Sardoal.”

     Cônscios do que escrevemos; já o mel anda por bocas por onde nunca devia ter entrado.

     São desconhecidos os melhoramentos, etc. Bateu certo...

     Há certos homens para quem não existe a diferença entre o dia risonho de Primavera ou um triste dia de Inverno. O seu espírito não se extasia as maravilhas da natureza na bela das estações, por não saber reflectir ou não apreciar uma terra civilizada com as suas fontes, seus jardins, suas ruas alinhadas, seus prédios de cores esbranquiçadas onde se revela a mão de artistas, do que uma aldeia sertaneja onde medram os sargaços e as casas se cobrem de colmo.

     Contudo haja pão. Tudo o mais para ele está bem.

     Tirada a prova, o resto está bem, não há dúvida.

     ‘O Simões há tempos fez uma demolição de alguns prédios, de modo que hoje há pobres que querem uma casa para habitarem e não a têm. ‘

     Aqui há uma intenção malévola. Mas o articulista terá de ferrar os dentes na calúnia. O Sr. Simões se demoliu os prédios, eram seus. Comprou-os com o seu dinheiro, pagou-os pelo triplo ou o quádruplo, talvez, do que eles valiam, beneficiou os antigos possuidores dos mesmos prédios.

     Honra lhe seja feita, porque assim é um benemérito que emprega o seu dinheiro embelezando a Vila e dá que fazer aos operários.

     Não temos procuração do Sr. Simões, nem pretendemos lisonjeá-lo. O que escrevemos é, simplesmente, por respeitar a justiça, se bem que a correspondência a que nos referimos é daquelas que não ofendem ninguém.

 

Em meados do século XX esta casa passou a ser a residência do Dr. Manuel Ribeiro que durante várias décadas foi médico no Sardoal, desconhecendo se chegou à sua posse por compra ou por herança, sendo ainda hoje propriedade dos seus herdeiros.

O Sr. Simões mandou ali construir uma sala de teatro.

A casa tem, sob a varanda térrea das traseiras, ema enorme cisterna onde se recolhia, as águas pluviais que, depois serviam para regar a horta e o pomar anexos.

 

A primeira referência que se encontra a Francisco Augusto Simões na imprensa regional é a seguinte:

 

“ECHO DO TEJO” - 9 de Junho de 1901

     “Consta que vai ser nomeada uma nova comissão para a direcção da Sociedade Filarmónica desta Vila e que tomam parte os seguintes cavalheiros:

     -Francisco Augusto Simões - Presidente

     -Luís Conceição - Vice-Presidente

     -Artur dos Santos - Tesoureiro

     -Manuel Lopes – Secretário

 

“JORNAL DE ABRANTES “, 3 de Novembro de 1901:

     “DECLARAÇÃO: -A nova Direcção eleita pelos sócios da Sociedade Filarmónica Sardoalense em Assembleia Geral de 24 de Outubro findo, vem agradecer a todos os seus amigos tal fineza e pede desculpa de não aceitar tal encargo visto não poder chegar a acordo com parte dos músicos em reunião para que hoje foram convocados. Pela Direcção: Francisco Augusto Simões

 

“ECHO DO TEJO” - 24 de Novembro de 1901

     “É a desagradável notícia que temos para comunicar aos nossos leitores e conterrâneos ausentes.

     Não nos surpreendeu este desenlace, que há muito se esperava desde que a nossa Filarmónica sofreu uma bicada de um pavão que por aí estadeia a sua longa cauda.

     É deveras para lamentar que esta Vila e o Concelho inteiro estejam submetidos aos caprichos de um homem que vai sacrificando tudo à sua vaidade e ao seu orgulho. E se no Sardoal não cobrar a tempo o jugo que sobre ele pesa verá desaparecer algo que de bom ainda lhe resta, sacrificado à vaidade da nefasta política que aqui impera.

     Historiemos os factos...

     Em Janeiro de 1900 saiu, em um dia de festa a Filarmónica, por ordem da Comissão Administrativa, a dar as boas-festas aos sócios que contribuíram com as suas quotas para despesas da mesma Filarmónica. Note-se que as boas-festas eram dadas aos sócios contribuintes e não aos nominais.

     Houve, porém, um estadista de alto coturno que figurava como sócio de nome, apenas, que quis compartilhar as honras dos contribuintes vendo e ouvindo tocar a música à porta. Como não conseguiu procurou desafrontar a sua vaidade ferida exigindo satisfações aos dirigentes da Música. O desprezo com que por todos  foi recebido foi uma nova alfinetada a esvaziar mais e mais aquele saco de orgulho. Daqui nasceu o ódio votado à Música e o desejo de uma vingança mesquinha. E as tricas empregadas pelo senhor destes sítios contra a Filarmónica e a sua comissão regente foram de tal ordem, julgando impróprio da sua dignidade medir-se com tal potentado, houve por bem atirá-lo às moscas e demitir-se para não o aturar.

     Ficou, pois, a Música sem Direcção, que atentas as circunstâncias da sua organização e segundo as quais se administrava, lhe eram indispensáveis para continuar a existir. A sorte que a esperava era, portanto, esta: Dissolver-se, porque não há corpo que possa existir sem cabeça, nem sociedade sem direcção. Está, portanto, vingado o nosso homem que jurou guerra de morte a todos que não se prestam a satisfazer os seus caprichos.

     Um golpe vibrado pelo seu orgulho deu morte à Música, senão a única distracção que tínhamos nesta Vila e uma nota alegre para as nossas aldeias nos seus dias de festa.

     Aqui está para que serve a política que temos ajudado a manter.

     É tempo de abrirmos os olhos para conhecermos os nossos amigos.

  

     Sardoal, 16 de Novembro de 1901

 

     Ainda no “ECHO DO TEJO”, de 15 de Dezembro de 1901:

 

     “Diz-se que a Música não acabará se o Sr. Simões a proteger. Oxalá assim suceda. Vai brevemente aparecer esta Filarmónica nesta Vila.

     É divertir rapazes, tristezas não pagam dívidas.

 

     “ECHO DO TEJO”, 29 de Dezembro de 1901:

     “BOATOS E NOTÍCIAS

     Saiu a tocar em público a nova zanguizarra.

     Vinha bem amestrada.

     Cuidado com algum pavão.

 

     É de supor que nas próximas eleições gerais de deputados que se hão-de realizar quando este governo esticar a canela, há-de haver neste Concelho grande apanha de votos. Para os mesmos já os mais importantes vultos da política local fizeram uma larga encomenda de cestas.

     E alforges?!!...

 

Pelo que se deduz das correspondências seguintes publicadas na imprensa regional, o Sr. F.A. Simões terá ficado na Sociedade Filarmónica Sardoalense (Música Velha), resultando da dissidência a fundação da Sociedade Fraternidade Sardoalense (Música Nova), a que estaria ligado o Sr. Abílio da Fonseca de Mattos Silva:

 

     “ECHO DO TEJO” - 4 de Maio de 1902

     “Realizou-se no último 13 de Abril, na Igreja do Convento desta Vila a Festa do Senhor dos Remédios, que todos os anos é feita a expensas  da Santa Casa. Esteve bastante concorrida apesar de estar mau dia, contribuindo para isso a circunstância de ser mercado mensal, que atrai a esta Vila, não só os povos do Concelho, como de muitos outros pontos limítrofes.

     Tocou a Filarmónica Nova, o que foi muito estranhado por algumas pessoas da Vila, pois que, estando contratada a outra filarmónica, sem mais quê, nem porquê, foi despedida e chamada a nova. A que se há-de atribuir isto? A quem quiser, que faça o comentário.

 

 **************

     No dia 6(domingo passado) domingo de Pascoela, foi a festa de Cabeça das Mós que este ano excedeu em brilho os limites do costume.

     Foi abrilhantada pela velha e popular filarmónica desta Vila que ali foi desempenhar muitas e variadas peças do seu reportório. O Sr. Simões, que é quem dirige esta filarmónica, composta de rapazes de boa vontade, muito concorreu, também, para o maior brilho daquela festa, pois forneceu grande quantidade de bandeiras para adornar o adro da Capela. ‘Nunca na Cabeça das Mós se viu uma festa assim’, era o que todos diziam. Ninguém quis ficar em casa na tarde desse dia. Todos os habitantes daquela aldeia, velhos e novos, saíram de suas casas para virem presenciar o espectáculo que  oferecia o adro da Capela. A mocidade folgava por ver o arraial com uma animação desusada e poder dar maior realce à sua expansão juvenil. Os velhos e aqueles a quem os anos, as lutas da vida, já trouxeram reflexões, deixavam transparecer na fisionomia uma tal ou qual admiração.

     Todos, enfim, se julgavam agradecidos ao Sr. Simões, que foi, decerto, a alma de tanto entusiasmo.

     Nós pela nossa parte aqui deixamos consignados os nossos parabéns ao Sr. Simões pela sua boa vontade em ser útil a esta Vila e pela vida e animação que imprime a qualquer acto em que toma parte.

     Bem haja ele pelo muito que está fazendo, a favor desta Vila.

     18-4-1902            THOMÉ

 

     “ECHO DO TEJO” - 11 de Maio de 1902

     “SARDOAL _ CORRESPONDÊNCIA (Sobre o Bodo do Espírito Santo)

     (...) No dia 8 já teve lugar a colocação do grande mastro com a bandeira. A direcção dos trabalhos coube ao nosso amigo Sr. Simões, que sem o mais leve incidente concluiu.

             **************

     Levantou-se o pau do bodo, assistindo muita gente. Tocou a Velha e popular Filarmónica Sardoalense nas varandas da Câmara Municipal. Há grande entusiasmo com a Festa do Bodo, que promete ser esplêndida, para a qual a Comissão tem muitos donativos.

     Logo que o pau foi levantado, certa personagem pertencente à família dos pavões, deu mostras de grande satisfação. Parece que tinha visto no ar alguma nuvem indicadora do desastre para o marco fontenário, situado no meio da praça, com o que não podia estar tranquilo, mas logo sossegou, porque nada ocorreu de maior. Ainda bem.”

 

“JORNAL DE ABRANTES” - 18 de Maio de 1902

     “FESTAS DE S.TIADO: Em S. Tiago de Montalegre realizaram-se no passado domingo as festas daquela terra, abrilhantadas pela “A Nova Filarmónica” que executou magistralmente várias peças do seu reportório.”

 

Desconhecemos que se terá passado nos meses seguintes, mas em Agosto de 1902 esta situação directiva aparece alterada passando Sr. Simões a surgir como Presidente da Sociedade Fraternidade Sardoalense, como se percebe pelas notícias seguintes:

 

“JORNAL DE ABRANTES” - 3 de Agosto de 1902:

    “ABRANTES/SARDOAL

   É hoje que a banda do Grémio Instrução Musical, desta Vila (Abrantes) acompanhada pela sua ilustríssima direcção, vai até ao Sardoal, agradecer à Filarmónica Fraternidade Sardoalense as deferências havidas para ela durante a quermesse realizada no passado domingo.

     Consta-nos que a direcção e a banda do Grémio serão recebidas festivamente.

     Apraz-nos registar estes actos de fraternidade e boas relações. Diremos, mais uma vez que Abrantes e Sardoal são dois povos que se prezam, que se estimam e que se auxiliam mutuamente. Por isso mesmo a visita a Sardoal dos representantes de uma associação abrantina é duplamente significativa e certamente há-de contribuir para aquelas relações mais se estreitarem.”

 

“JORNAL DE ABRANTES” - 10 de Agosto de 1902

     “ABRANTES/SARDOAL

     Conforme anunciámos realizou-se no domingo passado a visita de agradecimento da direcção e banda do Grémio Instrução Musical da Vila de Abrantes aos seus colegas e camaradas da Fraternidade Sardoalense.

     Dissemos então e repetimos mais uma vez que estas visitas tão louváveis, simpáticas, muito contribuem para estreitar relações, sobretudo entre dois povos que hoje, como sempre, se irmanam e se auxiliam.

     A Filarmónica do Grémio acompanhada da sua direcção partiu de Abrantes em direcção ao Sardoal, pelas duas horas da tarde, chegando ali às três. Eram aguardados à entrada da Vila por toda a Direcção e centenas de pessoas.

    Imediatamente se organizou um cortejo que seguiu até à residência do Sr. Administrador do Concelho, velho amigo Batista Saldanha, onde a direcção apresentou cumprimentos, sendo amavelmente recebidos por aquele magistrado.

     Seguiram depois até à sede da Associação, de que o incansável protector Francisco Augusto Simões, um dos poucos que no Sardoal, promove, por meios ao seu alcance, o engrandecimento da terra.

     Durante o trajecto queimaram-se imensos foguetes e chegando à sede da Associação ali se achava a excelente Filarmónica Sardoalense, tocando com a nossa os devidos cumprimentos. Em seguida o nosso amigo Patronilho, em nome dos sócios executantes do Grémio, apresentou os seus agradecimentos pela deferência havida com eles por ocasião da quermesse.

     Respondeu o Sr. Simões que a sua Filarmónica cumprira um dever de boa camaradagem e então como em qualquer outra ocasião estava ao serviço de todas as causas abrantinas, justas e benemerentes, folgando em ter ensejo em afirmar que não faz uma afirmação gratuita, mas sincera.

     Depois de um mimoso copo de água oferecido pela direcção dos representantes do Grémio, de novo se formou um cortejo, então com muito maior número de pessoas até à magnífica quinta do nosso velho e respeitável amigo Senhor Miguel Serrão, onde grupos de belas moças, espalhavam flores sobre os nossos filarmónicos e sobre a direcção do Grémio, ouvindo-se frenéticos vivas a Abrantes e Sardoal, aos protestos sinceros das duas povoações, etc, etc...

     A nossa filarmónica, fez então ouvir a Guerra de África, primorosamente executada, o que lhe valeu prolongada ovação.

     Podemos calcular que se encontravam ali duas mil pessoas, de todas as condições sociais.

     Pouco depois serviu-se um opíparo jantar de 70 talheres ao ar livre, oferecido pelo benemérito Sr. F. Augusto Simões.

     Ao toast, os brindes sucediam-se com entusiasmo. Um delírio!

     Apareceu por esta ocasião o Sr. Miguel Serrão, sendo recebido com brilhante manifestação de júbilo.

     Findo o jantar, as duas filarmónicas tocaram alternadamente num largo na mesma quinta, até às nove horas, vendo-se muitos bailes, reinando sempre muita ordem e grande contentamento.

     O Sr. Miguel Serrão convidou então as direcções e vários cavalheiros das suas relações a servirem-se de um delicado copo de água, erguendo-se recíprocos brindes de extraordinária alegria.

     Às 10 horas as duas filarmónicas reunidas, executando o hino real e centenas de pessoas seguiram para o Sardoal, trocando-se as despedidas.

     O povo sardoalense teve todas as atenções possíveis para os nossos patrícios, o que agradecemos em nome desta terra, onde infelizmente abundam críticos e onde predomina o egoísmo, precisamente o contrário que vemos no Sardoal e mesmo nas freguesias rurais. O nosso Grémio não pôde como muito desejava cumprimentar outras entidades do Sardoal, o que aliás não envolve qualquer desconsideração, atendendo ao pouco tempo de que se dispunha e principalmente ao fim especial da sua visita. É a informação que temos e que reputamos de verdadeira.

 

“JORNAL DE ABRANTES” -  17 de Agosto de 1902

     “SARDOAL/ABRANTES

     A direcção da Sociedade Fraternidade Sardoalense e os  sócios executantes da mesma sociedade, agradecem altamente reconhecidos aos seus colegas do Grémio Instrução Musical, as inequívocas provas de sincera estima que lhes têm dispensado e muito principalmente pela gentileza da visita com que os honraram no dia 3 do corrente.

     Acções destas deixam no coração de todos inolvidáveis recordações de afectuosa amizade e leal camaradagem.

     Ao Exmº Sr. Miguel Serrão Burguete, desta Vila, cavalheiro venerando e em extremo, obsequiador, agradecem a forma cativante e bizarra como cedeu a sua agradável e pitoresca Quinta das Gaias, a fim de que ali se reunissem as duas sociedades, em alegre convívio e fraternal colectividade.

     A todas as pessoas que espontaneamente auxiliaram e concorreram para o luzimento da festa, tão íntima e tão sincera, testemunham a sua gratidão.

     À redacção deste jornal, cumpre-nos o dever de agradecer tudo quanto o seu número de 10 do corrente se dignou publicar em prol nosso e desta terra, cujas referências exprimem com entusiasmo a forma precisa da ideia que não nos abandona.

     Pela Direcção e pelos Sócios da Sociedade Fraternidade Sardoalense.

     Sardoal, 12 de Agosto de 1902

                                                      O Presidente

                                             Francisco Augusto Simões

 

 

     No mesmo número:

     “Esclarecendo

                           Como esclarecimento à notícia publicada no nosso número de domingo, com respeito ao jantar oferecido à banda do Grémio, na quinta do Senhor Miguel Serrão, pede-nos o nosso amigo Sr. Simões para esclarecer que o aludido jantar não foi oferecido por ele, mas sim, também, por todos os sócios da Filarmónica Fraternidade.

     A César...

 

     “ECHO DO TEJO” - 17 de Agosto de 1902

 

     “SARDOAL - Correspondência

     Foi ontem, nesta Vila, dia de festa. No dia 27 de Julho a nossa popular filarmónica Sociedade Fraternidade Sardoalense, dirigida pelo Sr. F.A. Simões, foi generosamente a Abrantes, tocar na kermesse que nesta Vila se realizou em benefício do Grémio Instrução Musical.

     À entrada de Abrantes, a nossa filarmónica que estreava um elegante fardamento oferecido pelo Sr. Simões, era esperada pela direcção do Grémio de Abrantes e foi cavalheirescamente recebida pela filarmónica dessa Vila e muito elogiada por todos, tocando as duas filarmónicas alternadamente.

     O Grémio Instrução Musical com a sua direcção à frente, movido de nobres sentimentos que a todos animam, querendo dar um público testemunho do apreço em que tinha a nossa filarmónica, veio ontem ao Sardoal cumprimentar esta e pagar a visita que lhe tinha sido feita na ocasião da festa.

     Ao entrar nesta Vila, foram aí, amavelmente, recebidos, como é próprio de pessoas de bem para com os seus hóspedes. Depois seguiram para a Quinta das Gaias, onde houve um lauto jantar a que assistiram as duas filarmónicas e respectivas direcções, sempre muito animadas em presença de muito povo de muitas aldeias que ali se juntaram. Depois do jantar tocaram as duas filarmónicas, alternadamente, as bem escolhidas peças do seu reportório, havendo um arraial, muito animado. Foi um dia alegre para todos, como ainda não houve aqui.

     O nosso amigo ilustre Sr. F.A. Simões, é que foi a alma de todo este entusiasmo.

     A nossa filarmónica Sociedade Fraternidade Sardoalense, à cuja frente está, para animar, já muito tem prosperado como auxílio que S. Exª lhe tem dispensado apesar das invejas das abelhas zangãos. O Sr. Simões a nada se poupa para fazer dela uma filarmónica digna da confiança que de toda a parte lhe dispensam. São os povos deste Concelho, mais ainda das freguesias mais distantes. Bem haja, ele!

     A outra música (a da garrilha) também foi tocar para a Taberna Seca, o que foi muito notado. Disseram que foi para afastar a concorrência da Quinta das Gaias.

     Quando lá passámos estavam a tocar e pouco mais do que pardais a ouvir.

     Sardoal: 04-08-1902                  THOMÉ

 

     “ECHO DO TEJO” - 24 de Agosto de 1902

 

     “Acabam de nos afirmar que esta Vila vai em breve ser dotada de um teatro, que será feito a expensas do Sr. F. A. Simões. Oxalá que semelhante boato se confirme e que aquele benemérito não desista de tão louvável propósito.     THOMÉ

 

 

Segundo a tradição oral, que não consigo fundamentar, por volta do ano de 1900 existiam duas Bandas a que chamavam a do “Pau - Teso”  e a do “Cu Aberto”. Acabou o “Cu Acerto” e ficou só o “Pau - Teso”. Mais tarde, isto nos finais de 1901, houve zangas no “Pau - Teso”  e formaram-se duas Bandas que ficaram conhecidas como “Os Carapaus”  e  “Os Ciganos”.

Segundo me contou a Senhora Leonor Chambel, falecida há alguns anos, com perto de 100 anos, foi o João Dionísio, Tio do Dionísio da Farmácia, quem disse uma vez: “ hoje houve dois baptizados!” . Perguntaram-lhe de quem era, respondendo ele que era das Músicas. A do Simões ficava com o nome de “Carapaus”, a do Máximo Serras, a dos “Ciganos”.

Dois irmãos da Senhora Leonor (ao que julgo) pertenciam, o Francisco à dos “Carapaus” e o Miguel à dos “Ciganos”. Quando a Banda dos  “Carapaus” estreou a farda (tinha duas: uma branca para o Verão e uma azul para o Inverno), o pai que pertencia à dos”Ciganos”, disse ao Francisco que se vestisse a farda não o autorizava a entrar em casa. Ele teimou na sua e teve que sair de casa e era a irmã que lhe ia levar a comida.

Sempre que as bandas saíam levava, cada uma, grande número de adeptos, onde nunca faltavam muitas mulheres. A Ermelinda Coxa, como não podia andar, ia de burro, fazendo claque pelos “Ciganos”.

Uma vez foram tocar as duas à Festa do Pego e acabaram à pancada.

Foram presidentes dos “Ciganos”, o Máximo Serras e Abílio da Fonseca Matos Silva, que saíram, sendo depois presidente o Honório Mascarenhas.

O presidente dos “Carapaus” era o Simões (Francisco Augusto Simões), que em tudo mandava.

 

Ficam por esclarecer algumas dúvidas sobre o que se terá passado no panorama musical sardoalense nos primeiros anos do século XX, uma vez que não conseguimos localizar mais documentação sobre o tema.

 

 

UM DOS GRANDES IMPULSIONADDORES DA FUNDAÇÃO DA  FUS.

 

 

Abílio da Fonseca de Mattos e Silva

Nota biográfica

* Vila Franca de Xira 22.09.1881 + Óbidos, Quinta da Serrada 27.12.1941

Pais

Pai: João Rodrigues de Mattos e Silva * 13.10.1848
Mãe: Carlota Georgina Barbosa Pinheiro da Fonseca Motta * 05.06.1849

Casamentos

Sardoal, Capela da Casa dos Moura e Mendonça 31.03.1902
Maria Judith Leal de Gouvea Pinto e Cerqueira * 30.11.1879

Filhos

(a)- Morreu em Timor durante a Segunda Guerra Mundial, em 8 de Maio de 1944.

 

A primeira referência que encontrámos do Sr. Abílio da Fonseca de Matos e Silva é a seguinte:

 

     “JORNAL DE ABRANTES” - 27 de Setembro  de 1902

     “CORRESPONDÊNCIA DO SARDOAL

     Temos seguido com grande interesse no ‘ECHO DO TEJO’, uma série de correspondências daquilo que recebem do deu autor, uma subtileza e finura de crítica - tais, que nos tem causado assombro.

     Não era nossa intenção tomar a sério o escrevinhador das dúzias, que nos tem querido assaltar as canelas, mas a paciência tem limites e visto querer, ir-lhe-emos aplicando, de vez em quando, uma escovadela para ver se lhe tiramos a poeira dos olhos.

     O ilustre parodista e correspondente do’ ECHO DO TEJO’ nesta Vila, o Sr. Tomé, como à cautela se assina, caluniador emérito, deve ficar surpreendido, mas tenha paciência, a máscara com que se tem ocultado cairá um dia e, então, saldaremos contas.

     Como contava o ilustre Sr. Tomé, a música apareceu em público como seu estandarte, como que muito nos regozijamos, não veio da Pérsia e, quanto a ter sido feito de esmolas, temos nisso muita honra: “A pobreza não é vileza”

     É simplesmente triste que tão conspícuo cidadão, não tenha percebido que são mais honrosas as esmolas das pessoas de bem, que as grandezas dos beneméritos, que sua excelência por cá tem encontrado. Voltamos ao assunto.

     Espera-se que o Sr. Tomé responda às acusações que lhe fazemos, firmando de hoje em dia os seus escritos com o seu nome e que deixe de usar o processo seguido.

     17-09-1902        O Pai da Música :  Abílio da Fonseca Mattos Silva”

 

Esta correspondência motivou as seguintes réplicas:

     “ECHO DO TEJO” - 28 de Setembro de 1902

     “CORRESPONDÊNCIA - AO PAI DA MÚSICA

     Sim Senhor!

     Mal supúnhamos nós que o progresso um dia pudesse ir tão longe. Grandes maravilhas se revelam aos nossos olhos e não será de todas a menor, esta de haver no Sardoal um homem que deu à luz uma música inteira e direita.

     O que o progenitor não explica e é pena, é como foi esse parto monstro que roça bem pelas raias da maravilha. Devia ter uma boa hora a parturiente. Ainda assim, quantas vezes sopraria ele na garrafa? Posto isto, vamos lá a ver o que nos diz este privilegiado pai de todos os filarmónicos... Mas agora reparamos. O milagre ainda é maior do que se nos afigura à primeira vista. Pela gramática, parece-nos que se trata antes de um aprendiz de ABC, do que um abençoado pai de tanta gente junta.

     Eis uma amostra: O correspondente do ECHO deve ficar surpreendido, mas tenha paciência, a máscara, ora isso é que é um engano. O correspondente não ficou surpreendido com a máscara. O que ele ficou surpreendido foi com a mascarada, com um pai de tantos e tão grandes filhos - pessoa sisuda, certamente, espere que se responda às acusações que o Sr. Abílio faz.

     Foi coisa que não vimos no escrito do Sr. Abílio, foi a acusação a que tenhamos de responder. Sua paternidade limitou-se, no meio de 30 linhas que cerziu, que tem seguido com interesse as nossas correspondências do Sardoal - obrigado - a explicação que ‘a pobreza não é vileza’ e a confessar que era o pai da música. Nada mais. E como a acusação que mais nos deu no goto foi esta última, sempre deduzimos a nossa defesa como pudemos e soubemos. Contestamos-lhe que seja o pai da música. Provará primeiro que trouxe ao mundo os músicos com instrumentos e tudo. Sem isso não podemos crer em tal. Que o seu ventre despejasse de uma assentada 20 músicos no orbe terrestre, com trompas, contrabaixos e tambores, já nos parece história. E os pratos e a zambumba? Pode lá ser!... Entretanto nos tempos modernos já não há impossíveis. Mas sem uma demonstraçãozinha, ainda que pequena, é como cova de abóboras semeadas ao rego. Bem faz, pois Sr. Abílio, em prometer que há-de continuar, para nos convencer da sua proliferação multiforme. De resto, é provável que naquele respeitável e prolífero fole, haja tamanho para dar filhos em barda e de toda a casta.

     Mas, meu velho, deve ser um tal ventre para se diferenciar em tanto e vário mister, mais velho que a própria eternidade.

     Até dá vontade de exclamar, como o poeta:

     Quando a velha eternidade

     Por este Abílio passou

     Disse-lhe respeitosa

     Sua bênção, meu Avô!

 

     E por último pedimos aos nossos ouvintes um Padre Nosso e uma Avé Maria, para que Deus não se lembre de levar esta raridade tão depressa. Porque se um dia quisermos fazer uma música já sabemos a quem havemos de recorrer e fecundar.

     E por hoje, nada mais. Cá ficamos esperando mais dois dedos de graça do Sr. Abílio O Pai da Música.

     THOMÉ - Neto do pai da Música da Cesta.”

  

     “ECHO DO TEJO” - 5 de Outubro de 1902

     “SARDOAL - CORRESPONDÊNCIA

     Há aqui certa individualidade vinda da aldeia e que sempre em tudo tem patenteado o tipo de verdadeiro aldeão. Um dia um dos seus amigos de boa roda que há tempo aqui havia e que começou a frequentar, diz-lhe: Homem! Você usa todos os dias uma farpela que não é própria cá da Vila. Na sua posição precisa de usar outra coisa. O que lhe fica bem é um fato completo de sobrecasaca, botas em vez de sapatos e um chapéu alto, para ser mais considerado na sua posição. E foi dito e feito. Passados poucos dias o fato apareceu e tão ajustado que nunca mais o largou. O bom do homem tomava a encadernação pela manhã e só a largava à noite. Era para a Vila, era para o termo, era para casa, era para o passeio, etc., etc.

Pois Srs., este homem, já lá vão bons 20 anos, depois disto suceder, foi agora copiado por uma música que existe nesta Vila já há algum tempo. Depois de gerada e dada à luz, a música passou os dias da infância e meninice, envolvida em faixas e paninhos, tratados pelo seu pai e padrinho com todos os cuidados devidos a uma existência tão delicada.

     Depois quando já se lembrava de alguns dias decorridos da sua vida, assim como os rapazes quando chegam ali pelos 12 anos, já querem usar modos de homem feito e querem um fato, porque se envergonham do saiote ou calção, lembrou-se o pai da criança de lhe dar um fato de chita, com alamares e mais apêndices. Mas ainda não bastava a alta progenie donde provinha a recém-nascida.

Os filhos do morgado devem ter mais alguma coisa do que os filhos dos burgueses. Pareceu a sua paternidade que uma bandeira à frente da música era coisa que deslumbrava toda a gente e veio a bandeira. Muito bem! Muito bem! Diz toda a gente e a menina que gestou que diga que é bonita, lá vai de bandeira à frente para toda a parte e para o termo e para o Concelho. Assim fazia o indivíduo de outros tempos com o fato novo.

 

     “JORNAL DE ABRANTES” - 12 de Outubro de 1902

     CORRESPONDÊNCIA DE SARDOAL

     Meu caríssimo neto

     É com o maior prazer e satisfação que te vou responder, pois não calculas as saudades que tinha das tuas notícias.

     Pelas apreciáveis emanações do teu subtil talento, bem revelas o lusitano sangue que te gira nas veias e se continuares assim, crê, que virás a ser a honra dos teus maiores.

     Sinto-me compungir-se-me o coração quando me recordo dos suaves instantes que passei com a tua avó (meu amantíssimo neto) e que alegria doida ela teria em ver que um filho dum fruto de uns amores tão ideais viria a ser um redentor da pátria oprimida, qual Gama ou Albuquerque, que de pena em punho obrará façanhas sem igual!...

     Pobre pateta e meu caríssimo neto!...

     Quem te poderá levar a sério?...

     Então tu tinhas a ousadia de me quereres dar lembrete em gramática, meu mariola?!...

     Não se falta ao respeito ao avozinho e nem se ataca com baldas certas, por outra não me deves ser ingrato pois bem sabes quanto te estimo e o prazer que sentiria em te poder puxar as orelhas.

     Mas, enfim, bem se vê, que tens presente na mioleira algumas das regras que o mestre escola te ensinou, apesar de te escaparem outras, pelo que mereces palmatoadas.

     Repara bem, que encontrarás no que escreveste vários pontapés na gramática!

    Mas ainda agora reparo!... Não te conhecia a bossa poética. Cultiva-a, menino, que virás a ser um génio.

     Mas sempre te direi pela prosa vais melhor e termino esta, desejando-te que sonhes bem e ao mesmo tempo peço-te vénia ao autor, para te consagrar o seguinte soneto, imagem perfeita das tuas avariadas prosas.

     O original vai um tudo nada modificado, mas não perdes com isso.

 

I

Fanfarronices, farófias, bagatelas

Galhasdíferas naus, ondas letárgicas

D’Apelética mão, pinturas trágicas

Trambulhões altos, couces, cambadelas

 

II

Polvorias bombásticas, panelas

Cheiros típicos, prados, flores vergiais

Vozes sexiquepedais, espalhofórgicas

Cutelos, dardos, chuços, esparrelas

 

III

Mimidórmicos povos, Deus Cambraias

Do faético amante, auxílio imploro

Pavilhão azulado, ignoto mais,

Choro, morro, cangueio é desaforo

Aqui firo, ali mato, acolá caio

Eis as tuas prosas Thomé? Era

Um pobre palerma a quem se lembram

Atribuir uma tradução de Horácio,

De Rita Clara Freire de Andrade

 

IV

Adeus, meu patetinha das luminárias

Não tornes a cair noutra e aceita

Muitos beijinhos do teu Avô

 

Abílio da Fonseca Matos Silva

 

“ECHO DO TEJO” - 12 de Outubro de 1902

BOATOS E NOTÍCIAS

     Mestre Abílio, o progenitor célebre e magno do Sardoal, não nos explicou como se diferenciaram tão maravilhosamente as aptidões genéricas do seu ventre. É velha demais; por isso não admira que tenha falta de azeite nas molas da palavra que lhe demos. Daí o cansaço prematuro. Admira como não inspirou nas faculdades da cesta. Esperamos por ele. Até ver não é tarde.

 

     CORRESPONDÊNCIA

     Um pai tinha uma filha rabugenta que roçava aí por 23 primaveras. Diz-lhe um dia: - Oh! Menina é tempo de passares a outro estado. Isto assim não está bem! Trata de te mostrares para te conhecerem. Oh! Meu pai, que devo eu fazer? Para sair são precisos vestidos da última moda e eu não tenho. Envergonho-me de sair!

Oh! Filha, não me digas tal coisa. Tu, uma morgadinha como és, estares em casa por falta de vestidos, é coisa que eu não consentirei. Tu és filha única, tens a esperar uma boa herança do teu pai; o padrinho estima-te. Hás-de casar, hás-de ter muitos pretendentes. Vou comprar-te um fato novo, melhor que o das outras moças e veremos...

     E era ver os dois de festa em festa. O pai a querer que a filha fosse a mais galante e apreciada. Oferecia-a a todos. A palavra, a sua gentileza. Os leitores sabem quem são estas duas figuras?

     A música que chamam a da cesta, também assim fez. Nasceu, criou-se e assim ia vivendo sem ser vista, sem ser conhecida, sem ninguém dar por ela e sua existência. O que o quietismo em que ela se conservava. “Não pode ser isto!”-dizia.

Todas as mulheres vão às festas, todas são procuradas e ninguém se lembra da minha filha?!... Pelas minhas barbas e pelo valor e importância do padrinho, meu compadre, a minha filha ainda há-de figurar. Há-de casar-se com a opinião pública de um modo que as outras ainda não conseguiram.

     Vai ter o que as outras ainda não tiveram. Compro-lhe uma bandeira. Com este estandarte fará o pasmo e admiração de todas as pessoas deste Concelho e vizinhos e toca 30 peças em cada dia. Que feliz lembrança a minha!... Veio a bandeira e a menina aí anda toda repenicada, em companhia do pai, em busca do noivo.

     Se alguém a vir para aí para Vila de Rei, digam que o padrinho manda para lá dizer. Se souberem que aí há algum noivo festeiro que queira casar com a nossa afilhada, cá está.

     Diz mais que o padrinho vai pedir satisfação a quem pedir outra música, que não seja a afilhada.

     Querem casar a menina custe o que custar, mas ainda é muito criança...

 

 

     “ECHO DO TEJO” - 21 de Dezembro de 1902

     “A BODA DA MENINA

     A música nova (a da menina) festejou no dia 14 o seu aniversário natalício. Era domingo. À hora oportuna reuniu na praça desta Vila acompanhada da sua inseparável menina. Tocou as 30 peças do costume em cestas - o mestre dirigente solta com um discurso que parecia Demóstenes, ao que dizem. Foi ouvido de pé e barrete na mão por uma ordem superior. Dizem que mandou o pai da menina.

     À distância que estávamos nada pudemos perceber do discurso. Dizem outras pessoas que foi o maior elogio que se podia fazer a esta música...Entre outras coisas, dizem que o discurso tinha o seguinte: Que festejavam naquele dia a fundação daquela música, formada há um ano pela boa vontade dos seus músicos (apoiados dos compadres), que o Sr. Abílio era o homem mais prestante do Sardoal (bravo!) por ter criado aquela música que ali estavam vendo! Que aquela era uma música às direitas (isso, isso) que tinha começado pequena como as formigas e que estava naquele estado e que ainda ia crescer (upa!upa!Vai mais).

     Isto é o que nos dizem e parece que os homens chegam ao que queriam. Formaram-se para rir e parece que fizeram rir bastante. Muito obrigado pelos alegres momentos que nos trazem. Ainda não vimos coisa mais engraçada. Cada vez que saem com uma das suas é um riso por todos os lados. Ainda bem, nem todos conseguem o mesmo. Acabada a festa da música e informado o público do que se tratava fez-se a boda da menina. Houve banquete, soiré e muitas mais que convinham à princesa. E dizem que a sala da festança não desmerecia nada da menina e suas galas. Em uma das paredes dizem que estava o retrato do pai da música, cercado de louros, oferta dos músicos, que por baixo lhe puseram o dístico ‘Ao nosso querido paizinho’. Bons filhos, bem ensinados, bem empregadas lições que têm recebido! Toda a gente se admira desta criação. Se não é desmandarem, ainda havemos de vê-los conduzir o paizinho em triunfo, pelas ruas, às costas, vestido de louros. Isto fica para outro dia, quando fizer os dois anos do nascimento da música. Então, sim, é que há-de ser bonito e também a menina há-de estar mais gordinha. E hoje fica por aqui.

     “6/12/1902    THOMÉ   

         

     “ECHO DO TEJO” - 24 de Maio de 1903

 

     SARDOAL - Correspondência

     O assunto de todas as conversas nesta Vila é o fiasco da “música da cesta” nas festas das Mouriscas no último domingo. Foram lá buscar lã e ficaram pelados.

     Para aquela festa foi convidada a dita música da cesta, com a sua menina (sem esta não vista). E quem sabe isto não foi feito de encomenda. Festeiro e festa para a dita se mostrar?

     Mas vamos ao caso: Os geradores da cachopelha, que não comem bem, por verem a popularidade da acreditada filarmónica Sociedade Filarmónica Sardoalense, ofereceram aos festeiros 6 000 réis e uma fogaça para a festa, se ela convidasse esta filarmónica e ela aceitasse. O fim de tal oferecimento está à vista.

     Dito e feito! Lá vai a filarmónica sem medo de fumaças de quem quer que seja.

Mas, lá te quero apanhar! Quando a cerimónia da igreja acabou é que foram elas.

A da cesta, com a sua menina à frente, desata a tocar que  parecia uma trovoada, com o fim de cansar e vencer a nossa filarmónica!...

     Mas, oh, desgraçada sorte! Em alturas tais, o mestre general entrega a espada e toca a retirar o resto. Dizem que ficou um só a tocar pífaro, em cima de uma parede. O que não sei e tenho pena de lá não estar para apreciar o espectáculo, que devia ter pilhas de graça. A maceta do bombo chegou por mãos estranhas que a vieram trazer à filarmónica da Sociedade Fraternidade Sardoalense que não arredou pé e ficou sempre no seu posto a tocar. E o general, vencido, entrega a espada. Deviam entregar também a menina, visto que nem a presença da cachopelha puderam vencer. A festa das Mouriscas foi um certame musical que devia ficar assente na cabeça da música da cesta, para não se meterem noutra.

     Que dirão disto os progenitores dela? E o pai e o tio-avô? Consta que um andava nas Mouriscas murcho que nem uma papoila seca! Queriam tirar lã, mas ficaram sem pelo. Na segunda seguinte a nossa popular filarmónica foi tocar à Quinta das Gaias, onde foi muito bem recebida.

     A outra também ali passou com alforges e um couro num burro (consta que os alforges levavam batatas que foram semear e o couro água para regar alfaces.)

     Mais queria dizer, mas são horas do correio. Fica para a outra vez.

     A nossa filarmónica, habilmente regida pelo Sr. Vicente Monteiro Galamba, tocou  hoje na praça, onde foi muito aplaudida pela boa execução das suas peças.

 

     “JORNAL DE ABRANTES” - 7 de Junho de 1903

 

     SARDOAL

     Com toda a pompa realiza-se nesta Vila nos dias 13 e 14 do corrente a Festa de Santo António para o que já há preparados grandes divertimentos. Abrilhanta toda a festa a excelente banda de música ‘OS CIGANOS”-Filarmónica Nova, para o que estão ensaiando um reportório à altura dos créditos que esta banda está gozando. Não publicamos já o programa pelo motivo de os festeiros ainda não o terem elaborado.

 

     “ECHO DO TEJO” - 14 de Junho de 1903

     “SARDOAL - Correspondência

     As festas do Bodo foram este ano de uma pompa desusada e deixaram a todos que as presenciaram as melhores das impressões. Uma coisa que atraiu para estas festas muitas simpatias foi o bodo dos pobres que se realizou por proposta do Sr. Simões, sendo contemplados 100 pobres de todas as freguesias do Sardoal. O Sr. Simões tem-se mostrado amigo desses pobres, a quem beneficia com as obras que tem construído nesta Vila e tem feito muito bem dando pão a muitas famílias e fazendo muito bem à nossa terra. Bem haja!

     A nossa acreditada filarmónica apresentou-se nas festas que vamos referir, com um instrumental novo que o Sr. Francisco A. Simões trouxe de Lisboa, na qual se viam alguns instrumentos modernos, despertando, por isso, muitas atenções de todos. A nossa filarmónica com os melhoramentos que tem introduzido vai correspondendo à geral estima em que é tida. A grande prova do seu merecimento deu-se na festa das Mouriscas onde foi no dia 17 de Maio.

     A música da cesta que agora adoptou o nome da música dos ciganos, bem lhe assenta, principalmente desde o último domingo, em que um burro, segundo se diz, desafiou-a para a dita festa pensando dar-lhe uma batida, mas a nossa filarmónica mereceu as simpatias gerais, pela maneira como se desempenhou. A prova é o modo como a população das Mouriscas se manifestou para com a nossa filarmónica. A música da cesta ou dos ciganos levou de encomenda uma fogaça para lhe ser entregue depois da festa, querendo significar que tinham ganho a fogaça e a vitória, quando ela lhe saiu do bolso ou de quem lhe dirige todas estas manobras. Mas em vez de merecerem a fogaça, mereceram as antipatias gerais. Como se vai ver. O povo das Mouriscas, representado pelos seus festeiros, conhecendo a história da fogaça, espontaneamente, veio oferecer uma bela fogaça à nossa filarmónica, percorrendo com ela, acompanhada da filarmónica, no último domingo, as ruas desta Vila. Foi um triunfo completo. Parabéns à filarmónica!

     Por ocasião das festas do bodo recebeu a filarmónica, de um amigo, mais um belo carneiro enfeitado com fitas. A música da cesta quer imitar a nossa filarmónica, como não recebe carneiros, porque ninguém lhe oferece. Mas, enfim, cada um tem o que merece...

     A música da cesta teve presente no domingo. Foram aos Mógãos e lá deram-lhe um burrito de dois dias, que eles trouxeram num caixote. Diz-se que o foram preparar aí algures, não sabemos onde, nem para quê, não que não os deixaram concluir a função. Está na conta, a fazenda dos ciganos são os burros.

     Esta música devia ir tocar todos os meses ao mercado de Santa Cita, para chamar freguesia...

 

     “ECHO DO TEJO” - 21 de Junho de 1903

 

     “ Foi aqui muito estranhado este ano a música dos ciganos ir tocar à procissão do Corpo de Deus. Não se sabe bem a que atribuir isso e algumas pessoas apresentam motivos vários. O que todos sabem é que a dita música foi por consentimento da Irmandade e tocou alternada com a nossa filarmónica. Já nos disseram e parece que dizem algumas pessoas que a Irmandade falou àquela música para agradar ao Dr. Felicíssimo que é, dizem muitos, o chefe encapotado da mesma música (a dos ciganos) e já não estava contente por ver que a desprezavam. Nós temos pensado bem no caso e não parece que isso seja verdade. Não acreditamos que o Sr. Dr. Felicíssimo esteja metido nesta música dos ciganos.

     O Sr. Dr. Felicíssimo é um homem que na sua posição de médico deve colocar-se acima de baixas questões e não deve querer que o seu nome ande misturado nestas questões de ciganos (até este nome repugna), o Sr. Dr. Felicíssimo é um homem que tem um curso superior e que é ilustrado, que deve conhecer bem a posição em que se colocava envolvendo-se nos negócios dos ciganos. Se o fizesse daria prova de falta de senso que ninguém lhe desculparia. Por isso não se pode acreditar que o Dr. Felicíssimo ande envolvido nestas questões, ou seja protector da música dos ciganos, embora seja aparentado com o chefe dessa música.

     Mas deixemos isso. Damos de barato que isso fosse verdade, que não é viável.

      A Irmandade não podia nem devia aceitar imposições de ninguém, fosse quem fosse. E cremos que os indivíduos que compõem a Irmandade têm a independência bastante para repelir qualquer imposição contra a sua liberdade. Não acreditamos, também, que a Irmandade aceitasse essas imposições, se alguém tentasse fazê-las.

     Mas deixamos isso mais uma vez. Apreciamos o que aconteceu. É certo que a música dos ciganos foi tocar à procissão, que todos viram. E a opinião de muitas pessoas é de que não devia ir. Temos uma filarmónica decente e honesta, que tem vivido em paz nesta Vila, que vive com muita independência e que nunca provocou desordens e que tem merecido as simpatias gerais, tem satisfeito cabalmente, o que dela se exige em todas as festas. Que necessidade havia de chamar para tocar na procissão uma música que não só tem as antipatias gerais, mas tem sido provocadora dos ódios e ditos que por aí correm e que além disso adoptou um nome que, por si, basta para que não seja chamada para actos sérios - o nome de ciganos.

Responda quem souber. Do que apurarmos diremos mais alguma coisa.

     A música dos ciganos também no domingo último fez a sua festa de Santo António. Já que não a chamam para tocar e eles querem mostrar a sua arte fazem eles as festas e chamam-se a eles próprios para mostrar as suas vozes. O fogo preso é que deixou muito a desejar. E dizem que tinham melhor fogo preso que a festa do bodo. Tudo saiu furado a estas pessoas e por mais que queiram agradar não conseguem. Eles bem querem, mas não são capazes: Isto é um dito de um homem do termo; Outra coisa, outra coisa, digo eu e até para a semana.

      !7-06-1903          THOMÉ “

  

     “JORNAL DE ABRANTES” -14 de Julho de 1903

     “FESTAS DE ABRANTES

     Inscreveu-se no certame das Festas de Abrantes, a Filarmónica Sardoalense (a Nova). Aderiu ao certame não com a ideia de colher e cingir os louros da vitória, mas para os filarmónicos que constituem a Filarmónica Sardoalense (a Nova), ocorram a dar brilho a uma festa promovida pela benemérita Sociedade Soares Mendes, cujos fins altruístas lhes calam no ânimo e a que prestam a merecida homenagem.

     Que a modéstia dos seus recursos artísticos, não emparelhando com a boa vontade e bons desejos, não consente que o seu concurso aumente o brilho, o esplendor e valor do grandioso festival de Agosto.

     Serão uma parcela mínima, mas desculpar-se-á a pequenez por não se negarem à chamada. O que faltar em arte, sobejará em boa vontade.

     A Banda da Fraternidade Sardoalense por intermédio do seu zeloso presidente oficiou sentindo que os compromissos para algumas festividades, tomadas antes de conhecidas as condições e realização do certame, a inibem de concorrer, a não ser que o festival se efectuasse no último domingo de Agosto. Testemunha depois os seus muitos e ardentes desejos de cooperar para tudo quanto deve elevar Abrantes e as suas Associações, especialmente o Montepio, pelos muitos benefícios que presta às classes trabalhadoras.

 

     “ECHO DO TEJO” - 20 de Setembro de 1903

     -Saiu o Mestre Madeira da música da cesta. Esta agora já tocou uma moda nova, a que se chamava uma ordinaríssima.

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     Dizem que se vai arranjar outra música nova de que é regente o Sr. Ovo. Já lá estiveram a ensaiar no dia em que a música velha andou a dar um sol e dó à noite.

     Dizem que o Sr. Ovo é que faz os instrumentos na oficina dele. Dizem que o pai da música e o cachopelho público estiveram já a tocar, mas o Sr. Ovo acha-os muito desafinados e não aprova. São palavras textuais, como disseram.

 

***********************

     Passado este período de intensa polémica entre os dois jornais sobre as duas filarmónicas, cujas direcções eram de quadrantes políticos diferentes, poucas referências se encontram sobre esta rivalidade musical.

     Nos programas das diversas festas que então se realizavam na Vila do Sardoal, constam muitas vezes actuações alternadas das duas bandas, que às vezes acabavam em pequenas zaragatas entre os músicos, fruto, talvez, dos vapores do álcool, mais do que das querelas políticas que animavam os dirigentes.

     Para terminar esta recolha sobre as duas filarmónicas daremos apenas nota da sua fusão, de que resultou a criação da Filarmónica União Sardoalense, que aconteceu em Março de 1911, quando da visita ao Sardoal do Governador Civil do Distrito de Santarém, Dr. Ramiro Guedes, que é assim noticiada pelo “JORNAL DE ABRANTES”, de 12 de Março de 1911:

     “(...) A visita do Sr. Dr. Ramiro Guedes deu causa a um facto que o Sardoal há muito desejava:

     -A fusão das duas filarmónicas, que se fez depois da retirada do Sr. Dr. Ramiro Guedes, devido aos esforços do Sr. Aurélio Neto (Administrador do Concelho) e Matos Silva, levando este a sua generosidade até onde a podia levar, oferecendo à filarmónica mais antiga o instrumental da outra.

     Esta fusão representa para o Sardoal a realização de um desejo antigo e com ela acabarão umas pequenas questões que por vezes surgiam e levantavam atritos.”

 

     Ainda no “Jornal de Abrantes”, de 16 de Abril de 1911:

     “Daqui a algumas horas deve apresentar-se pela primeira vez nas ruas desta Vila, a Filarmónica União Sardoalense.

     É formada por músicos das duas que aqui existiam, que num gesto nobre e sublime, congregaram os seus esforços e uniram as suas vontades para trazer ao Sardoal, alguns trechos de deliciosa música.

     Os rivais de ontem, são companheiros de hoje; por isso, se em alguns ainda existe o ressentimento ou paixão oriunda de lutas atrasadas, bom será que tudo se esqueça, para se pensar no futuro com ardor e entusiasmo para que o Sardoal progrida e possa apresentar uma banda digna de ser apreciada pelos mais exigentes amadores da arte de Mozart.

     Deve ser este o ideal de todos os executantes, para que o seu gesto tome mais realce e dignificação e para que todos os que têm contribuído com os seus esforços e boa vontade para esta união, continuem a dispensar o seu auxílio e apoio para que prossigamos na estrada do progresso da civilização, até que essa divina arte nos traga a harmonia dos sons e harmonia de todos os Sardoalenses. A banda é composta de 34 executantes que se apresentarão com os seus novos fatos  de ka-ki.

     A Direcção tenciona promover uma quermesse para os dias das festas do Senhor dos Remédios, que se realiza nos dias 29 e 30 do corrente, para atender às despesas com a compra de fardamentos e instrumentos novos.”

 

Os actuais estatutos da FUS datam de 1070, tendo sido elaborados pelo Dr. Edmundo Marques e no seu art´107º dispõe, que a Banda de Música actuará graciosamente nas procissões do Corpo de Deus e de Quinta-Feira Santa e nos actos oficiais, bem como noutras situações que a Direcção decidir.

 

FESTAS E ROMARIAS

 

A Festa do Espírito Santo ou Festa do Bodo que já se realizava por volta de 1470 (reinado de D. Afonso V), foi durante séculos a festa mais importante que se realizava, anualmente, no Sardoal, de tal forma importante que a Sociedade Filarmónica Sardoalense, no art.º 29º dos seus estatutos, assumia o compromisso de participar graciosamente naquela festa.

Do que se conhece da realização das festas populares dos finais do século XIX e das primeiras décadas do século XX, estas tinham um carácter misto, ou seja, tinham uma componente religiosa e uma componente profana e a Filarmónica participava nestas duas componentes Na componente religiosa, acompanhando a procissão que seguia à missa solene e na componente profana animando o arraial que se seguia.

 

No Jornal “ECHO DO TEJO” de 19 de Maio de 1901, noticiava-se o seguinte:

A GRANDE FESTA DO BODO

 

Reina grande entusiasmo pelas Festas do Bodo que este ano são imponentíssimas. Projectam-se muitos e variados divertimentos de que não podemos dar notícia, porque até agora a Comissão só nos apresentou um resumo do programa, que é o seguinte:

DIA 23: À tarde percorrerá as ruas principais da Vila o gado que há-de ser abatido.

DIA 24: Alvorada anunciada por uma girândola de foguetes. Em seguida marcha em cortejo a Comissão com todos os populares que se juntem e a tradicional gaita-de-foles à frente para o local onde é abatido o gado. À tarde, distribuição das rações aos mordomos: pão, carne e vinho.

DIA 25: De manhã, bodo geral de pão, assistindo a este acto imponente e majestoso, a Filarmónica desta Vila. Arraial à tarde, fogo do ar e iluminação à noite.

DIA 26: Alvorada pela Filarmónica. Festa solene de manhã e procissão. À tarde, arraial.

É para este dia que se projectam grandes divertimentos. Às festa do Sardoal!”

 

Também sobre as Festas do Bodo, no “ECHO DO TEJO”, de 26 de Maio de 1901:

O povo desta Vila que continuamente vive num labor insano sai nestes dias da monotonia em que jaz adormecido. É a grande festa do Bodo que nos convida a passar uns belos três dias. Tudo é entusiasmo, alegria e loucura!...

Todos nestes dias se esquecem das suas tristezas e infortúnios, procurando cada um alegrar-se de qualquer maneira para diante dos demais não aparecer triste.

Hoje é o dia em que mais divertimentos nos deleitam: sabemos que há cavalhadas, corridas de rapazes em sacos, etc., etc.,. À noite fogo e iluminação à veneziana e sobretudo não será encantador mirar e admirar o bando de frescas e guapas moçoilas, quais pombinhas brancas, que garridamente vestidas, nos despertam a vontade de as devorar com os olhos?!!!...

Por isso, às festas do Sardoal, se quereis passar uns bons três dias.

 

Ainda no “ECHO DO TEJO”, de 2 de Junho de 1901:

 

Terminaram as festas que tantas saudades nos deixaram. É impossível descrever minuciosamente a imponência destas festas porque tínhamos de ocupar muito espaço. A Comissão que desejava imenso que o festejo fosse superior ao do ano passado, viu coroados de êxito feliz os seus esforços.

Domingo 26 e segunda-feira 27, foram para nós os dias mais alegres porque mais divertimentos nos deleitaram. No domingo à tarde, cavalhadas por simpáticos rapazes desta Vila, distinguindo-se o nosso amigo Bento Felicíssimo, porque tirou maior número de prémios, sendo alvo de uma grande manifestação por ter oferecido a seu sobrinho, o menino João, filho estremecido do Sr. Dr. José Felicíssimo, o primeiro prémio que lhe coube.

À noite houve iluminação e arraial, abrilhantado pela nossa Filarmónica, que executou regularmente, algumas peças de música do seu vasto reportório.

Segunda-Feira 27, de manhã, festa de igreja a grande instrumental cantando brilhantemente o solo de “Laudamus” da grande missa de Araújo, o nosso amigo Luís António, que na nossa fraca opinião a cantou melhor que os “celebrados cantores” cá do sítio. À tarde, corrida de burros, que conservou em hilaridade geral todos os assistentes.

À noite o nosso amigo Sr. Manuel Matos Valério, para ser agradável a um grupo de alegres rapazes desta Vila que desejavam imenso que esta festa acabasse com uma nota bem alegre, ofereceu o seu vasto salão para que ali se realizasse uma “soirée, dançando-se animadamente até às 3 horas da manhã.

Foi uma noite cheia de encantos e especialmente cá para o “Zero” que há muito tempo não se divertia com tanta satisfação e... por outros motivos que aqui não se relatam por causa de “coisas ó Rosa”...

Nesta noite, cheia de entusiasmo e loucura, tiveram as honras da noite as Exmªs Senhoras D. Antónia de Matos Valério, desta Vila e D. Eufrázia Rosa Alves, de Alvega.

Todos os convidados se retiraram penhoradíssimos para com os donos da casa, pela maneira assaz delicada como foram recebidos, bem como todos levaram bem gravadas na memória aquelas horas tão alegres e divertidas. O pobre “Zero”, à despedida, chegaram-lhe as lágrimas aos olhos por uma célebre “paixãozita” que dele se apossou, mas, coitado, é provável que tenha que chuchar no dedo.

(...) Aos dignos festeiros, os nossos amigos Abílio Matos Silva, Anacleto Bexiga, Bento Felicíssimo e Máximo Serras, os nossos sinceros parabéns pelo bom resultado que tiraram do seu muito trabalho.

Em relação às Festas do Bodo de 1902, o Jornal “ECHO DO TEJO”, noticia o seguinte na sua edição de 11 de Maio de 1902:

“SARDOAL -CORRESPONDÊNCIA

Realiza-se nesta Vila nos dias 15 a 20 do corrente, o grande bodo geral com luzidias festas, arraial, fogo, iluminações e muitos mais atractivos, superiores ao que se costuma fazer nesta ocasião nos festejos do Divino Espírito Santo.

Tomou conta da bandeira, à última hora, uma comissão de 3 ou 4 homens que, cheios de coragem e boa vontade, têm conseguido os aplausos de todo o povo e têm feito renascer a simpatia que esta festa sempre teve, pois que estava condenada a não se fazer, como à última hora foi anunciado pelos festeiros transactos.

Bem hajam, pois, os que trazem a alegria de não se aniquilarem de todo os progressos do nosso concelho.

Segundo o programa vão ser vistosas e lindamente embandeiradas todas as ruas desta Vila, para o que muito concorreu o incansável trabalhador e nosso amigo, Sr. Francisco Augusto Simões.

Este cavalheiro, pela sua modéstia e energia, sempre pronto a coadjuvar os que trabalham, confortando os pobres e enriquecendo a Vila com os seus melhoramentos, está causando a admiração geral dos povos do concelho, que muito o estimam e respeitam.

No dia 15 serão inspeccionados e apresentados ao povo três corpulentos e lindos bois, percorrendo enfeitados as ruas da Vila.

No dia 16, de madrugada, proceder-se-á à matança dos ditos bois e em seguida à divisão das rações, havendo nesta ocasião um beberete com todos os convivas.

Em seguida um grupo de formosas raparigas, caprichosamente vestidas, acompanhadas pelos festeiros, acarretarão o pão para o local da distribuição, dando o Revº Pároco desta Vila, a bênção sobre as rações do pão, carne e vinho, que começarão a ser distribuídas por todos os mordomos que se dignaram contribuir com o seu óbolo.

No dia 17, finda a distribuição, começará o grande arraial. À noite, vistosa iluminação e mais atractivos.

No dia 18, o grupo vistoso das raparigas, começará de manhã a conduzir o pão que está nas diversas capelas desta Vila para a Igreja do Divino Espírito Santo, para no dia seguinte ser repartido pelo povo.

De tarde vai a Procissão do Divino Espírito Santo para a Matriz, continuando o arraial, iluminação e mais distracções.

No dia 19, de manhã, terá lugar o bodo geral aos pobrezinhos que apareçam. Em seguida Festa de Igreja do Divino Espírito Santo, regressando esta Imagem em grande procissão para a sua capela, depois de dar a volta à Vila. Continuará o grande arraial, iluminação à veneziana, terminando a festa com bonito a variado fogo de artifício.

Toda esta festa será acompanhada pela Filarmónica desta Vila - Sociedade Fraternidade Sardoalense, que executará o seu vasto reportório, muito apreciado pelas pessoas autorizadas que a têm chamado para abrilhantar os seus festejos em diversas terras.

 

No dia 8 já teve lugar a colocação do grande mastro com a bandeira. A direcção dos trabalhos coube ao nosso amigo Sr. Simões, que sem o mais leve incidente desagradável a concluiu.

Levantou-se o pau do bodo, assistindo muita gente. Tocou a velha e popular Filarmónica Sardoalense nas varandas da Câmara Municipal. Há grande entusiasmo com a festa do bodo, que promete ser esplêndida, para a qual a Comissão tem muitos donativos.

Logo que o pau foi levantado, certa personagem pertencente à família dos pavões, deu mostras de grande satisfação. Parece que tinha visto no ar alguma nuvem indicadora de desastre para o marco fontenário situado no meio da Praça, com o que não podia estar tranquilo, mas logo sossegou, porque nada ocorreu de maior.

Ainda bem!

 

Em 25 de Maio de 1902, ainda no Jornal “ECHO DO TEJO”:

“SARDOAL - CORRESPONDÊNCIA

Terminaram as Festas do Bodo com geral aplauso, deixando em todo o povo uma inolvidável recordação. Há muitos anos que nesta Vila não se realizava uma festa assim tão concorrida. A Comissão que tomou a seu cargo a realização dos festejos cumpriu à risca o programa anunciado, com tanto zelo e dedicação que todos aqui são unânimes em lhe tecer elogios.

No dia 15 percorreram as ruas 3 corpulentos bois que foram abatidos para rações destinadas aos mordomos. Em seguida um grupo de galantes raparigas conduzia o pão das rações para o local onde devia ser benzido.

No dia 17 a distribuição. Houve arraial, não podendo à noite haver iluminação, para a qual havia 200 balões venezianos, porque forte ventania não o permitiu.

No dia 18 houve de tarde cavalhadas, procurando cada cavaleiro desempenhar o seu papel o melhor que podia, para merecer os aplausos e palmas do público. Nesta diversão apareceu, porém uma nota destoante. Um cavaleiro merecia as atenções de certas figuras espectadoras que se desfaziam em aplausos, acompanhados de cómicos esgares quando o dito cavaleiro apanhava a argola. Embezerravam quando os restantes cavaleiros recebiam as competentes salvas do público.

Isto não mereceria reparo se o mencionado cavaleiro se não proporcionasse meio fácil de melhor apanhar a argola, como nos quis parecer e outras mais a quem o caso não passou despercebido, salvo erro...Mas adiante.

No dia 19 houve a missa do Divino Espírito Santo, na Igreja Matriz para onde foi a imagem e a distribuição de pão para todas as pessoas que compareceram. Tinha a Comissão 5 000 pães, que distribuiu, tanta era a quantidade de povo.

Todos se retiraram satisfeitos para as suas casas, elogiando a distinta Comissão que empreendeu e levou a efeito uma festa e bodo, como de há anos aqui não se via.

De tarde houve arraial na Praça, num elegante coreto móvel, construído sob a direcção do nosso amigo Sr. Francisco Augusto Simões, a popular Filarmónica “Sociedade Fraternidade Sardoalense”, que todos os dias abrilhantou os festejos com muitas e variadas peças do seu vasto reportório, merecendo o elogio de muitas pessoas estranhas que assistiram à execução de algumas peças. Muito bem!

À noite houve iluminação à veneziana para a qual o Sr. Simões tinha 600 velas de estearina, que forneceu à sua conta.

Todas as ruas da Vila se achavam embandeiradas com muito gosto, com bandeiras de todas as nações fornecidas pelo Sr. F.A. Simões, que possui delas um bastante número considerável.

Assim terminaram as festas que deixaram, não só na Vila, mas em todos os povos do concelho e muitas pessoas estranhas que estiveram entre nós, a mais agradável impressão. Bem-haja a Comissão que tão bem soube desempenhar-se do cargo que tomou e que lhe custou bastante trabalho.

A todos os nossos parabéns, especialmente ao Sr. F.A. Simões, que para dar o maior lustre aos festejos, não se poupou a trabalho e despesas.

Para o ano ficou eleita a mesma Comissão.

 

Diz-se que houve quem aconselhasse as raparigas para que não quisessem conduzir o pão, o que provocou a indignação de todas as pessoas que tiveram conhecimento do facto. Se assim é, simplesmente, lastimamos.

 

Esquecia-me ainda uma referência: No coreto em que tocava a Filarmónica pendiam dois quadros colocados ali pelo Sr. F.A. Simões, num dos quais se lia “O IDEAL NÃO MORRE” e noutro “AVANTE LEAIS COMPANHEIROS”.

Escusado será dizer que produziam um efeito surpreendente.”

 

Na primeira década deste século são diversas as referências que se encontram à realização, na Vila de Sardoal, da Festa do Bodo do Divino Espírito Santo, mais ou menos idênticas às que antecedem, sendo por vezes bem nítida a guerrilha política que se viveu nessa época.

 

Para terminar a transcrição de algumas notícias publicadas na Imprensa Regional de então, transcrevo uma correspondência do “JORNAL DE ABRANTES”, de 1 de Maio de 1910, a poucos meses da implantação da República:

“SARDOAL - FESTAS DO ESPÍRITO SANTO: DIAS 12, 13, 14 e 15 de MAIO

 

Segundo informações vamos ter festa rija este ano.

A Comissão dos festejos tem à sua frente um rapaz patriota, amigo da sua terra, Abílio da Fonseca Matos Silva, que não se poupa a sacrifícios de toda a espécie que esta festa acarreta e de resto toda a Comissão que é composta de homens trabalhadores que capricham em imprimir à festa o maior esplendor e brilho.

A festa constará, um pouco mais ou menos, do seguinte:

DIA 12: Chegada das rezes pelas 5 horas da tarde.

DIA 13: Matança de 6 ou 7 rezes pelas 5 horas da manhã, seguindo-se a distribuição das rações. Do meio-dia até à noite, distribuição das rações aos mordomos que concorrem com a sua esmola para a festa, segundo o tradicional uso e costume. Durante o dia, condução do pão por duas grandes alas de raparigas vestidas de branco, para a capela do Espírito Santo, acompanhadas da tradicional gaita-de-foles.

DIA 14: Bodo geral pelas 9 horas da manhã, música e arraial e abertura de uma kermesse caprichosamente levada a efeito por uma distinta comissão de senhoras composta de D Maria Judite Leal Matos e Silva, D. Maria Clementina Caldeira Serrão Leal e D. Maria Inês Pequito Caldeira Serrão.

DIA 15: Arraial, música, kermesse e diversas diversões, tais como cavalhadas, corridas de resistência de bicicleta (se houver inscrições de corredores), sendo-lhes oferecidos dois prémios, corridas de saco, etc. À noite iluminação e talvez fogo de artifício.

DIA 16: Festa de Igreja a grande instrumental pela Orquestra Sardoalense, procissão, na qual se faz a apresentação da nova comissão para o futuro ano, arraial, música, kermesse e à noite iluminação.

São estes os detalhes que à última hora nos informaram, do que constarão os festejos, pois que o programa definitivo da festa não está organizado, devendo por estes dias ser publicado nos jornais.

Lembramos o quanto seria agradável, porque sabemos também ser em grande número, que a Junta de Paróquia tenha aberto ao público a famosa Igreja Matriz, que conceda licença a qualquer pessoa que queira ir à varanda da torre ver o soberbo panorama que dali se desfruta.

A Mesa da Santa Casa da Misericórdia, o Hospital e suas dependências, abertas ao público, assim como a antiquíssima Igreja da Misericórdia.

A Câmara Municipal, o depósito das águas e o cemitério.

Da mesma forma que ela fizesse aformosear as ruas da Vila, mandando desobstruir todas as pedras, ervas, etc., que nelas se encontram.

Aplicar, desde já, os artigos do Código de Posturas: nº 6, para a prática do qual, mas só para os pobres, como tal reconhecidos, um anónimo oferece à sua parte 30 arrobas de cal branca, cuja oferta será administrada por pessoa por esse anónimo encarregada.

Aplicação dos artº’s33-45 e 48.

O 45 proibindo mais a proibição de certas vendas se fazerem dentro de carroças.

O 48, abrangendo mais o dia 15, dia talvez de maior concorrência dos festejos, não devendo, por isso, dentro das artérias da Vila, no local dos festejos, admitir-se o trânsito constante de carros e cavalgaduras.

Mais lembramos a aplicação de melhor água, sabão e pano, nos vidros dos candeeiros da iluminação pública.

Ao Sr. Administrador lembramos o policiamento, ordeiro e rigoroso, durante os 4 dias de festa.

O Sardoal pode e deve fazer uma festa à altura, proporcionando aos seus visitantes a passagem de algumas horas aprazíveis, especialmente este ano, em que conta com bons recursos.

A Empresa Gualter, de Abrantes, faz carreiras. Quem queira pode também tomar o ramal dos Beirins, pois que já liga com a estrada 122 e por conseguinte, com o Sardoal.

Nesta Vila encontrarão também os Srs. forasteiros duas casas de hóspedes, com bom serviço.”

 

As Festas do Bodo do Espírito Santo, realizaram-se, ainda, alguns anos. A última referência que encontrei refere-se a 1935.

 

 

 

Com o declínio da Festa do Bodo, a festa mais importante do Sardoal passou a ser a Festa do Senhor dos Remédios, isto até 1924, ano em que se realizaram, pela primeira vez, as Festas de Santa Maria da Caridade, que viriam a assumir a primazia das festas do Sardoal, até por volta de 1980, quando deixaram de realizar-se.

 

 

SARDOAL

FESTAS EM HONRA DE SANTA MARIA DA CARIDADE

 

Só em 1924 tiveram início as Festas de Santa Maria da Caridade, por iniciativa da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal, conforme relata o “Jornal de Abrantes”, de 3 de Agosto de 1924:

 

SARDOAL -GRANDES FESTEJOS NOS DIAS 23-24 e 25 de AGOSTO

 

Sardoal, nos dias 23, 24 e 25 está em festa, feita a Santa Maria da Caridade, padroeira do Hospital desta Vila.

É a primeira vez que se realiza esta festividade, por isso a Mesa da Misericórdia não se poupa a trabalho para que ela tenha um brilhantismo invulgar.

Foi esta Santa que deu o nome ao Hospital desta Vila, por isso, tratando-se de um festejo cujo fim é arranjar receita para sacudir a situação precária em que esta instituição de caridade se encontra, não podia ser mais acertada a escolha do título.

Em todo o concelho se trabalha com afinco e persistência para que a receita seja avultada, estando constituídas comissões em todas as aldeias do concelho para esse fim.

O programa ainda não está definitivamente organizado, no entanto já sabemos que haverá uma exposição de produtos agrícolas, a que concorrem todas as povoações do concelho, produtos que serão vendidos, revertendo o seu valor a favor do Hospital, fogos de artifício nos dias 23, 24 e 25 e diversos divertimentos.

No próximo número falaremos mais detalhadamente sobre a festa e daremos o programa. No entanto, o que podemos asseverar é que os atractivos e comodidades, tê-las-ão os visitantes em larga escala, de modo a poderem passar três dias de alegre convívio.

Às festas do SARDOAL!!!!

 

Em 17 de Agosto de 1924, no mesmo Jornal e com o título:

 

IMPONENTES FESTEJOS A FAVOR DO HOSPITAL DE SARDOAL

 

Dia a dia vai aumentando o entusiasmo pela festa que se realiza nesta Vila, nos dias 23, 24 e 25 a favor do Hospital desta Vila.

As ornamentações já começaram, esperando-se que a festa se revista de uma grande imponência, não só pela variedade de atractivos, mas também pelo esmero que os seus organizadores empregam na sua preparação.

O serviço de bufete está sendo montado nos claustros do hospital, com farta iluminação à moda do Minho.

Os produtos agrícolas serão expostos em barracas ao longo do adro, onde depois serão vendidos, revertendo o seu produto a favor do Hospital.

Haverá também outras rifas. No domingo venda da flor por gentis meninas desta Vila. No domingo à noite fogo de artifício confeccionado pelo hábil pirotécnico Sr. Galinha e na segunda-feira, pelo não menos hábil Sr. Ameixoeira. Na terca-feira haverá tiro aos pombos e à noite récita ao ar livre na cerca do Hospital, apresentando-se pela 1ª vez em público o Grupo Dramático Sardoalense, que inicia as suas récitas oferecendo o produto do primeiro espectáculo a favor do Hospital. Belo gesto que bastante os nobilita.

As festas de Igreja serão acompanhadas pela Orquestra Sardoalense e as festas civis pela Filarmónica desta Vila.

No dia 25 espera-se a vinda da Banda de Infantaria 2, dependendo apenas de autorização superior, pois os músicos e o chefe, da melhor vontade acederam ao pedido que lhe foi feito, vindo, assim, uma vez mais prestar o seu desinteressado concurso a favor do Hospital.

Que os organizadores da festa não esmoreçam, demais quando de todos os pontos do Concelho afluem boas vontades e incentivos.

Sardoal vai, pois, ter quatro dias de festa que a todos vai deixar satisfeitos.

 

Em 2 de Agosto de 1925, noticiava, o “Jornal de Abrantes”:

 

FESTAS DE SANTA MARIA DA CARIDADE - 22, 23 E 24 DE AGOSTO

 

A Comissão organizadora destes festejos, cujo produto reverte a favor do Hospital, já tem delineado o programa que este ano promete ser grandioso pela qualidade de atractivos que a todos deixarão satisfeitos.

Vamos ter três dias de festa que em tudo excederá o ano passado, apesar destas terem tido um brilho invulgar. Iremos informando os leitores dos detalhes do programa que está entregue à Santa Casa da Misericórdia, que se esmerará na sua confecção.

 

Em 16 de Agosto de 1925, no mesmo Jornal:

 

FESTAS NO SARDOAL

 

Por conveniência da Comissão que devia promover nos próximos dias 22, 23 e 24 do corrente a festa de Santa Maria da Caridade, na Vila de Sardoal, ficam as mesmas transferidas para os dias 12, 13 e 14 de Setembro próximo.

 

Ainda no mesmo Jornal, do dia 13 de Setembro de 1925:

 

GRANDES E IMPONENTES FESTEJOS NO SARDOAL

 

À hora a que este jornal começar a circular nesta Vila de Sardoal, inicia-se a grande festa anual à Santa Maria da Caridade, cujo produto é para o Hospital.

Sardoal está animadíssimo, havendo grande profusão de bandeiras e muitos forasteiros.

Hoje, domingo, dia 13, o programa é o seguinte: Venda da flor, venda dos produtos agrícolas, das ofertas resultantes do cortejo agrícola. À tarde, torneio de tiro aos pombos e à noite récita por amadores.

Amanhã, 14: quermesse, festa de Igreja no Convento, continuação da venda dos produtos agrícolas. À tarde exercício de acrobacia por aeroplanos de Tancos que generosamente se prontificaram ir ali. À noite, fogo de artifício.

Pelos preparativos que vimos, a festa reveste-se de um brilhantismo invulgar, havendo no local da festa um excelente bufete e vários jogos desportivos.

Todos à festa do Sardoal!!!!

 

Ainda nos anos 20, aparecem outras referências às Festas de Santa Maria da Caridade, como por exemplo no “JORNAL DE ABRANTES” de 19 de Agosto de 1928:

FESTAS NO SARDOAL - PROGRAMA

 

Como prometemos vimos hoje anunciar o programa da festa que constará de missa, arraial, quermesse e fogo de artifício e diferentes divertimentos desportivos, nos dias 26 e 27.

Em todos os dias haverá um esmerado serviço de bufete, cinema e uma aparatosa iluminação eléctrica.

A afluência de prendas é enorme, pois os filhos do Sardoal e outras pessoas a quem têm sido dirigidas circulares, têm a verdadeira noção que a vida do Hospital é difícil e de quantos sacrifícios é necessário para o manter.

Abrilhanta a festa de igreja a Orquestra desta Vila, o arraial a Filarmónica Sardoalense. O fogo de artifício é dos pirotécnicos de Valhascos, Ameixoeira e Galinha. Os nossos amigos Barroso e Florêncio estabelecem carreiras entre Alferrarede e esta Vila.

 

Sobre as Festas de Santa Maria da Caridade, noticiava o mesmo Jornal, em 20 de Agosto de 1933, o seguinte:

 

FESTAS NO SARDOAL:

 

Estiveram muito concorridas e produziram apreciável receita as festas que se realizaram nos dias 10 e 11 deste mês, em honra de Santa Maria da Caridade.

Estas festas tiveram a colaboração da Banda de Vila Nova de Ourém, cujo reportório bem escolhido e executado sob a hábil regência do Maestro Valente.

A referida Filarmónica que abrilhantou as ditas festas na segunda-feira, deixou a melhor impressão e agradou ao público do Sardoal, conhecedor de boa música.

O produto das festas foi destinado ao Hospital da Misericórdia.

 

Em 1938 e ainda no “JORNAL DE ABRANTES”, era  a seguinte a notícia sobre as Festas de Santa Maria da Caridade:

 

NOTÍCIAS DE SARDOAL: GRANDES FESTEJOS ANUAIS

 

Começaram ontem e prosseguem hoje e amanhã importantes festivais em benefício da Santa Casa da Misericórdia, que são abrilhantados por duas bandas e pelos Ranchos Folclóricos de Ponte de Sôr e Sardoal, este exibindo-se pela primeira vez, o que está despertando grande interesse.

A florescente Vila de Sardoal vai regurgitar de forasteiros, pois são bastante apreciáveis as belezas naturais dos seus arredores e deveras atraente o programa dos festejos em realização.

Hoje, dia 18, às 7 horas alvorada pela Filarmónica Sardoalense, que percorrerá as principais ruas da Vila, queimando-se numerosas girândolas de foguetes e muitos morteiros.

12H3oM: Chegada da excelente Banda do Tramagal.

13 Horas: Aparatoso cortejo folclórico, que será organizado junto da antiga Igreja da Misericórdia e dispersará no largo do Hospital.

15 Horas: Abertura da quermesse, bufete, barraca de chá, tômbola, barraca de tiro, etc., etc., seguindo-se o arraial de tarde com música, danças características e regionais.

17 Horas: Venda das ofertas na barraca agrícola. Chegada do Rancho da Ponte de Sôr, acompanhado da sua orquestra.

20 Horas: Exibição do Rancho da Ponte de Sôr.

23 Horas: Será queimado um lindo fogo de artifício, confeccionado pelos hábeis pirotécnicos de Valhascos, Srs. Galinha e Filhos e Ameixoeira e Filhos.

 

Segunda-Feira, 19, às 7 horas alvorada pela Filarmónica Sardoalense.

10 Horas: Missa rezada na Capela da Misericórdia por intenção dos beneméritos do Hospital.

15 Horas: Reabertura das diferentes barracas. Concerto pela Banda do Sardoal. Danças e descantes populares.

16 Horas: Corridas de Sacos, pratos e pedestres, com prémios.

20 Horas: Exibição do Rancho do Sardoal.

23 Horas: Queima de um lindo fogo de artifício. A seguir, hino cantado pelo Rancho Sardoalense, no coreto da música, com o que terminarão as festas.

 

7 de Setembro de 1941 - “JORNAL DE ABRANTES”

 

FESTEJOS NO SARDOAL

 

Têm lugar nos dias 14 a 21 deste mês os grandes festejos na Vila do Sardoal que constam dos programas profusamente espalhados, estando os números principais distribuídos pelos dias 14, 15 e 21.

Entre les consta uma Exposição Agrícola, Artística e Industrial. Será uma boa ocasião para os que não conhecem, admirarem as Tábuas do Sardoal, que figuraram na Exposição dos Primitivos.

Pena é que as providências relativas ao trânsito de automóveis impeçam os que têm de vir aqui nos dias principais.

Do Sr. Vice-Presidente da Misericórdia recebemos um ofício enviando os programas. A eles nos referiremos no próximo número.

 

14 de Setembro de 1941 - “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTAS NO SARDOAL

 

Começam hoje as festas que constam do programa e que se estendem pelos dias 15 a 21 de Setembro.

Hoje terá lugar o cortejo agrícola, abertura da Exposição Agrícola, Arte e Flores, arraial, récitas e fogo de artifício.

Nos outros dias abrem-se as barracas e as exposições e continuará o arraial. No dia 21, além dos números dos outros dias há uma sessão de cinema, distribuindo-se diplomas e fogo de artifício. No dia 15: arraial e fogo de artifício.

A exposição abrange os ramos agrícola, artístico, industrial e ainda uma secção de flores.

Além de dois programas que foram enviados pelo Vice-Provedor da Misericórdia, não nos foram fornecidos outros elementos, nem facultados outros meios, para podermos dizer mais alguma coisa, mormente no que diz respeito às exposições que interessam não só ao Sardoal, mas a toda a região.

 

28 de Setembro de 1941: “JORNAL DE ABRANTES”

 

AS FESTAS A FAVOR DA MISERICÓRDIA

 

Missão difícil e ingrata escrever para a Imprensa quando o temos de fazer em tom discordante, com pessoas que nos merecem a maior consideração e que algumas vezes temos elogiado e defendido e a quem reconhecemos qualidades de inteligência e trabalho fora do vulgar. Mas esta circunstância dá-nos mais autoridade para tratar do assunto em questão.

Realizou-se nos dias 14 e 15 do corrente , a festa a favor do Hospital desta Vila, festa que nasceu com um programa cheio de fantasias e exageros, que só servem para prejudicar em anos futuros, o fim que visam.

Raro é o programa que não tem algum exagero. No entanto tudo tem os seus limites, mas tanto que as censuras se têm acentuado cada vez mais.

Num dos dias da festa o que houve  foi arraial, quermesse  e exposição.

Na exposição que se dividia em quatro secções, temos a destacar a arte antiga, representada pelos nossos quadros Primitivos que figuraram na Exposição do Mundo Português, onde obtiveram o 2º prémio e que são o nosso maior orgulho e a nossa maior glória artística. A par deles estavam paramentos religiosos de grande valor artístico e real. Na Exposição Industrial viam-se meia dúzia de coisas que bastante honram a serralharia manual deste Concelho.

Exposição Agrícola bastante pobre porque o Sardoal não pode sair da vulgaridade, porque o seu solo é bastante fértil, mas a densidade arborizada é grande e traz o solo esgotado.

Exposição florícola: flores bem tratadas, com o carinho que os sardoalenses lhes emprestam. No entanto nada digno de menção especial ali se denota.

Enfim, o Sardoal é um Concelho pequeno e sem condições para organizar uma exposição que possa atrair visitantes, prendendo a sua atenção e bom será que no futuro nos restrinjamos, fazendo aquilo que as nossas possibilidades nos permitem.

Teatro: no primeiro dia agradou imenso e teve a casa à cunha. No segundo dia foi bastante prejudicado por um incidente desagradável ao máximo e que podia ter desagradáveis consequências, se não fora o critério, ponderação e prudência de muitos que acalmaram os ânimos, fazendo com que o espectáculo prosseguisse até final, quando inesperadamente queriam dá-lo por findo às 0 horas. O espectador que compra o seu bilhete não tem a responsabilidade do espectáculo começar tarde e tem o direito, salvo caso de força maior, de ver o programa cumprido.

Por isso os organizadores têm o dever de organizar programas compatíveis com o tempo que dispõem. Assim é que está certo.

Além disso organizar festas com teatro, arraial, música, etc. etc. e querer regulamentá-los com horas certas, locais para divertimentos por conta gotas, como se administra qualquer medicamento a um doente é, não só um erro de visão, mas também o desconhecimento dos direitos que todos nós usufruímos e que podem dar origem a factos lamentáveis.

O povo precisa e tem direito de se divertir, esquecendo um pouco as agruras da vida, direito este que tem sempre e o próprio Estado, organizando os cortejos folclóricos, criando o Teatro do Povo que anda por este País fora, criando Casas do Povo, quando a par da assistência há divertimentos de várias modalidades, reconhece-lhes esse direito, já citando-lhe o mesmo.

Como carácter impeditivo, revela uma autoridade que nós não toleramos. É uma ilusão que se há-de desprezar com o tempo.

Sobre o resto do programa, a pedra tumular do silêncio, porque quem não cala, nunca pode viver, glória ou ingloriamente.

Palavras simples, ditas sem azedume nem paixões, mas ditas contristadamente e que todos, de futuro, pensem calmamente no que vão fazer para evitar desgostos e dissabores de maior.

 

Sobre as Festas de 1946, traz, também, o “JORNAL DE ABRANTES” de 15 de Setembo de 1946, uma pequena nota:

FESTAS

Hoje dia 15 e amanhã 16, grandiosos festejos do Hospital da Santa Casa da Misericórdia do Sardoal, abrilhantados pela Filarmónica Sardoalense, devendo exibir-se na noite do dia 15 o Rancho Folclórico da Chainça.

 

Sem novidades é a seguinte a notícia publicada no “JORNAL DE ABRANTES”, de 22 de Agosto de 1950:

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA:

A Mesa da Misericórdia do Sardoal promove festas em benefício do seu Hospital, nos dias 16 a 19 de Setembro próximo.

No dia 16, no Teatro Gil Vicente será exibido um filme português.

No dia 17 haverá alvorada, missa cantada e sermão, recepção do cortejo de oferendas ao Hospital, arraial com barracas de bazar, chá e outras, concerto e bailes regionais e fogo de artifício, preso e do ar.

Dia 18: Alvorada, missa, lançamento de foguetes chineses, abertura das barracas, fogo preso e do ar.

Dia 19: Alvorada e de tarde reabertura das barracas, à tarde e à noite arraial, fogo preso e do ar.

 

18 de Setembro de 1960- “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTEJOS NO SARDOAL:

Em benefício do seu Hospital, começaram nos dias 11 e 12 do corrente e continuam hoje e amanhã as tradicionais festas de Verão em benefício do hospital concelhio.

No local mais aprazível desta pitoresca terra, lindamente ornamentado e com os mais variados atractivos constantes dos prospectos já distribuídos e a distribuir ainda, figurarão, também, ranchos folclóricos, bandas de música, etc. etc.

Um dos números que despertou grande entusiasmo foi a realização de um “Serão Para Trabalhadores”, um conjunto dos melhores artistas da F.N.A.T. que expressamente se deslocou de Lisboa a esta Vila e se fez aplaudir na noite de dia 11.

Alguns bairristas da colónia sardoalense em Lisboa, trabalham afanosamente em conjunto com a mesa da Santa Casa da Misericórdia para que estas festas tenham a maior projecção sob o ponto de vista de muita alegria, caridade e espiritualismo.

 

3 de Setembro de 1961- “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTEJOS:

Iniciam-se hoje, nesta Vila os tradicionais festejos em benefício da Santa Casa da Misericórdia, que continuam amanhã e nos próximos dias 9 e 10 do corrente.

O programa de hoje é o seguinte:

Alvorada pela Filarmónica Sardoalense. Às 9 horas peditório aos habitantes da Vila por alguns membros da Mesa Administrativa, acompanhados pela Filarmónica.

Às 20 horas, abertura da barraca de chá, a qual será animada pela Filarmónica Sardoalense e orquestra Figueira Padeiro, de Alpiarça.

Amanhã, além da alvorada o programa inclui pelas 15 horas, no Cine Teatro Gil Vicente, a exibição do excelente filme português “A LUZ VEM DO ALTO” e a abertura às 20 horas das barracas de chá e comes e bebes, igualmente abrilhantado pela Filarmónica Sardoalense e Orquestra “FIGUEIRA PADEIRO”.

 

10 de Setembro de 1961 - “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTEJOS

Realizou-se no passado domingo e segunda-feira, como foi anunciado, a 1ª parte dos festejos da Santa Casa da Misericórdia, que tiveram, conforme se supunha, grande afluência de forasteiros, especialmente no domingo.

Na segunda-feira, com a noite bastante fria, pouco público se juntou no Largo do Convento, pois em noites ventosas aquele local torna-se bastante desagradável. Tanto no domingo como na segunda-feira, fez-se ouvir a Filarmónica União Sardoalense e a Orquestra “FIGUEIRA PADEIRO”.

Hoje, domingo, terão as festas o seu final, ou seja a 2ª parte, havendo uma matiné com o filme português “RAPSÓDIA PORTUGUESA” e a presença da Orquestra “TULIPA NEGRA”, de Abrantes.

 

 

17 de Setembro de 1961 - “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTEJOS

Realizou-se conforme estava anunciado, nos passados dias 10 e 11, as Festas da Misericórdia, que como se calculava tiveram bastante afluência de forasteiros.

A Mesa da Misericórdia resolveu prolongar as festas. Assim temos hoje a abrilhantá-las a orquestra “TEATRO TRAMAGALENSE”, em mais uma noite de festas que se prevê animada.

O grande movimento que tivemos nos 4 dias é talvez devido a não ter havido outra qualquer no nosso Concelho este Verão, em virtude da hora grave que a Nação atravessa, mas estamos plenamente de acordo com as ideias da Mesa da Misericórdia em executar estes dias de festa previstas, aproveitando o facto de não haver outras, pois que os lucros como se sabe são destinados à manutenção do nosso Hospital e por isso nunca é demais para tão edificante obra a favor dos doentes pobres e desprotegidos da sorte.

Apesar de serem muitos os soldados do nosso Concelho e só da Vila são 13, que estão no Ultramar em missão de soberania, todos vieram com a sua presença em auxílio do nosso Hospital.

 

24 de Setembro de 1961 - “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTAS

Terminaram no passado domingo as festas em benefício do Hospital da Misericórdia, com a actuação da Orquestra “TEATRO TRAMAGALENSE”.

Devido à noite bastante fria, não teve a festa o brilho dos outros dias, mas mesmo assim grande multidão se juntou no Adro do Convento.

Vão-se ausentando dia a dia os sardoalenses que anualmente vêm passar as suas férias nesta ocasião, ao Sardoal, o que se vai notando no movimento que nos trazem neste mês de Setembro.

 

Nota: A Mesa da Misericórdia era nesta altura constituída pelo Sr. Manuel Lopes Alpalhão, como Provedor, Sr. Manuel Pires, Vice-Provedor, Sr. Armando Navalho, Secretário, Sr. José Alves, Tesoureiro e os Srs. Joaquim da Silva Lopes e Manuel Pires de Oliveira, como vogais.

 

26 de Agosto de 1962 - “JORNAL DE ABRANTES”:

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA

Foram já distribuídos os programas a anunciar os tradicionais festejos da Santa Casa da Misericórdia, em benefício do seu Hospital, que se realizam nos dias 2, 9 e 10 de Setembro.

Do programa constam variadíssimas atracções. Destacamos a colaboração da orquestra “FIGUEIRA PADEIRO”, de Alpiarça, além da Filarmónica União Sardoalense e uma excelente aparelhagem sonora, dancing, bufete e um óptimo serviço de barraca de chá e vistosa iluminação.

Portanto, sardoalenses, preparem-se para visitar a vossa terra natal, naqueles dias.

 

 

2 de Setembro de 1962 - “JORNAL DE ABRANTES”

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA

Conforme foi anunciado no último número, realizam-se hoje e nos dias 9 e 10 do corrente, as Festas da Misericórdia com aliciante programa, aos quais temos de acrescentar novas atracções anunciadas para hoje, por programas de última hora. Assim temos, hoje dia 2, a categorizada orquestra “TEATRO TRAMAGALENSE”, que abrilhantará o dancing até de madrugada.

No dia 9 teremos a apresentação da pequenina artista Victória Maria, uma promessa no futuro da canção nacional e disco.

Dia 10 continuará a actuar a graciosa artista de palmo e meio, que tem vindo a encantar todos quanto a escutam. Abrilhantará o dancing a orquestra “FIGUEIRA PADEIRO”.

Está reservado largo êxito às nossas festas e assim o desejamos, pois como sabe são em benefício do Hospital da Misericórdia.

 

16 de Setembro de 1962 - “JORNAL DE ABRANTES”

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA

Decorreram com brilho as Festas da Misericórdia, que no passado domingo e segunda tiveram o seu epílogo. Especialmente no domingo muita gente acorreu ao local da festa, o que encheu por completo a barraca de chá que aplaudiu com calor a pequena Victória Maria, que se exibiu naquelas duas noites, a quem a orquestra “FIGUEIRA PADEIRO” deliciou com o seu reportório de música de dança, que tanto animou o dancing.

 

27 de  Agosto de 1967 - JORNAL DE ABRANTES

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA

Como é tradicional, mais uma vez, a Santa Casa da Misericórdia da nossa Vila organiza as imponentes festas de caridade em benefício do Hospital e assim nos dias 9, 10, 11, 16 e 17 de Setembro, o Sardoal será cartaz com um extraordinário programa que resumidamente apresentamos: artistas da Rádio e T.V.: João Maria Tudela, Cecília Cardoso, Isabel Fontes, Carlos Areias com o se acórdeon electrónico e Victor Teixeira.

Agrupamentos musicais: “CONJUNTO MÓNACO”, “CONJUNTO MELODIA AZUL”, “CONJUNTO ZURITA DE OLIVEIRA”, todos de Lisboa e ainda a Filarmónica União Sardoalense.

Sorteios, fogo de artifício, barraca de chá, quermesse, bufete, e música constante para dançar.

 

31 de Agosto de 1968 - “JORNAL DE ABRANTES”

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA

Conforme já anunciámos vão realizar-se os tradicionais festejos em benefício da Santa Casa da Misericórdia, nos dias 14, 15, 16, 21 e 22 de Setembro.

Este ano com um programa sensacional e uma organização esmerada, teremos, além da colaboração da Filarmónica União Sardoalense, três categorizadas orquestras: “NOVA ONDA”, “OS MARIALVAS”, ambas de Bucelas  “WHITE STAR”, de Lisboa e sete consagradas estrelas da nossa Rádio  e T.V.: MARIA JOSÉ VALÉRIO, FERNANDO LITO, IDÁLIA MARIA, MARIA DA CONCEIÇÃO, MARIA GASCON E PEPE CARDINALE, além de valiosos sorteios entre o público, fogo de artifício, quermesse, bufete e barraca de chá e ainda uma gincana de perícia automóvel.

No próximo número do nosso jornal daremos novas e mais pormenorizadas informações sobre este extraordinário programa de festas e bem assim a distribuição, por dias, das várias atracções.

Para já, em perspectiva, uns festejos que, como é tradicional, são, de longe, os melhores da região.

Visitem pois o Sardoal nos dias das festas da Santa Casa da Misericórdia e não darão por mal empregue esse tempo.

 

7 de Setembro de 1968 - “JORNAL DE ABRANTES”

 

FESTAS DA MISERICÓRDIA

É já no próximo sábado que terão início as tradicionais Festas da Misericórdia na nossa Vila, para as quais podemos anunciar as seguintes atracções:

Dia 14: Conjunto “NOVA ONDA” e MARIA JOSÉ VALÉRIO.

Dia 15:Conjunto “NOVA ONDA” e FERNANDO LITO, IDÁLIA MARIA e ISABEL AMORA.

Dia 16: Conjunto “MARIALVAS” e outras surpresas.

Dia 21: Conjunto “WHITE STAR”, MARIA DA CONCEIÇÃO e PEPE CARDINALE.

Dia 22:Conjunto “WHITE STAR” e uma extraordinária sessão de fogo de artifício.

Em todas as noites das festas haverá, além do tradicional bufete, dancing e barraca de chá, onde se servem os mais variados e gulosos petiscos.

 

5 de Outubro de 1968 - “JORNAL DE ABRANTES”

 

Findou Setembro, última etapa das férias, chamadas grandes. O Verão com os seus dias grandes e quentes, a solicitar férias, vai quase no ocaso.

Mas para os Sardoalenses e muito especialmente para os ausentes, este é o grande mês, pois as suas festas anuais, realizadas por e em benefício da Santa Casa da Misericórdia, é neste mês que se realizam e é nesta altura que os sardoalenses se deslocam à sua terra para matarem saudades dos seus locais queridos, a escola, o local do nascimento e das brincadeiras  e muitos o local onde dormem o sono eterno os seus antepassados. Mas é, sem sombra de dúvida a festa, o grande local e a razão da confraternização dos sardoalenses. Os ausentes ou em férias, ou com um fim-de-semana, aqui vêm nesses dias e, assim a nossa terra viu a sua fisionomia tão pacata, transformada, com a presença de imensos sardoalenses e suas famílias.

É o Setembro, as Festas da Misericórdia e o Bairrismo dos Sardoalenses, a trilogia responsável por este fenómeno anual, que tanto movimenta alegra e dignifica a família sardoalense e esta nobre Vila do Sardoal.

 

Ao invés deste texto que elogia as Festas da Misericórdia, num artigo publicado no jornal “NOVIDADES” em Outubro de 1968, escrevia-se o seguinte:

 

“As Festas da Santa Casa da Misericórdia: - Todos os anos a Mesa da Santa Casa da Misericórdia desta Vila promove festas com o fim de angariar fundos para a instituição. Discorda-se, no entanto, do local das festas, o Largo do Hospital, por se perturbar o natural repouso e necessário descanso dos doentes, dias e noites consecutivos, até alta madrugada. Quando noutras localidades se tomam todas as precauções para evitar os barulhos junto dos hospitais, no Sardoal tudo se processa de modo diferente. E mais uma vez isto acontece este ano. Aqui os pobres doentes ou têm de suportar com paciência de Job os incomodativos barulhos da música e cantorio que potentes altifalantes avolumam, ou optam por ir para suas casas e não juntar aos seus males mais estes tormentos. Isto não pode estar certo.”

 

 

E mais adiante.

 

“Este ano a coisa deu brado na noite de 16 para 17. Em fila quase indiana, uns após outros, os do grupo convidam uma jovem para dançar. Esta resiste até final, permanecendo sentada à sua mesa. Ainda há gente digna.

Terminou a façanha num ensaio de pancadaria de que foi alvo um rapaz por verberar a atitude menos delicada de quantos quiseram obrigar a referida jovem a condescender com a sua vontade.”

 

E terminando:

 

“Pelo que fica exposto e não é tudo, não haja dúvida de que tal programação extra, é, sem dúvida um belo cartaz para o Sardoal...É o diabo à solta.

 

NOTA: O ano de 1968 é, na minha modesta opinião, o ano de referência dos míticos anos 60. Em termos internacionais, a Guerra do Vietname estava no auge e nos Estados Unidos alastrava um movimento de contestação à participação dos americanos naquele conflito. O movimento hippie continuava a implantar-se em força e em Paris, o famoso mês de Maio, gerou um movimento de luta e contestação que ganhou dimensão mundial.

Em Portugal a cena política foi, em 1968, dominada pela doença do Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, que em princípio de Outubro foi substituído nas suas funções pelo Professor Marcelo Caetano. Continuava a situação de guerra nas então chamadas Províncias Ultramarinas, que levavam à mobilização para “missões de soberania”, da maior parte dos jovens do sexo masculino de todo o País.

Na música pontuavam por cá alguns êxitos internacionais de 1966 e 1977, de que são exemplos inesquecíveis, “Michelle”, dos Beatles, “Black is black”, de Los Bravos, “Puppet on a String”, de Sandie Shaw, “ A Whiter Shade of Pale”, Procul Harum, “S.Francisco (Be Sure To Wear Some Flowers in Your Hair), Scott MacKensie, “Massachusetts”, Bee Gees e “Hey Joe”, de Jimi Hendrix, entre outros. Não possuo muitas referências sobre a música portuguesa daquele ano. Tanto quanto me lembro, o Festival da Canção da Canção da RTP de 1968 foi ganho pelo Eduardo Nascimento, com a canção “Ouçam”, depois de ter sido ganho em anos anteriores pelo António Calvário, pela Simone de Oliveira e pela Madalena Iglésias. Nas festas de Verão era ainda muito tocado uma música chamada “Juntos outra vez”,cantada pelo Victor Gomes, vocalista dos “ Gatos Negros”.

Na televisão pontificavam algumas séries famosas como, por exemplo, “Dr. Kildaire”, “O Santo”, “Os Vingadores”, “Bonanza”, e programas com “Melodias de Sempre”, “Riso e Ritmo” e as famosas crónicas do Professor Vitorino Nemésio “ Se bem me lembro...”

Os carros da moda  eram os minis Austin e Morris, o FIAT 600 e 850, o MG e sempre os “carochas” Volkswagen 1200 e 1300. Alguns anúncios publicados na imprensa regional, anunciavam camisas a 30$00, que antes custavam 60$00 e os andares e apartamentos construídos por J. Pimenta, SARL, com preços na ordem dos 150 contos. Um litro de gasolina andava pelos 5$00, uma cerveja Sagres (média, porque então ainda não existiam as minis), andava pelos 3$50 e um maço de cigarros com filtro, pelos 4$20.

São apenas algumas referências de uma época que foi vivida intensamente, apesar das muitas dificuldades impostas por razões de natureza económica e social, em que, por exemplo, nas escolas os pátios de recreio ainda eram separados por sexos e em que nas festas, as raparigas eram atentamente vigiadas pelas mães, que não permitiam qualquer veleidade ou aproximação física dos rapazes.

No Sardoal era Presidente da Câmara Municipal o Dr. Júlio Rodrigues Garcia, tendo em Março de 1969, tomado posse naquele cargo o Dr. Álvaro Andrade e Silva Passarinho.

 

As Festas de 1969, não tiveram a presença de artistas da Rádio e T.V.. Apenas os conjuntos e o Rancho Folclórico da Quinta da Alorna, Almeirim e a Filarmónica União Sardoalense.

 

Para ilustrar o espírito das Festas de 1970, 1971 e 1972, socorremo-nos de um trabalho elaborado pelo Mário Jorge de Sousa, publicado no Boletim Cultural “ATRIUM”, nº 8, de Abril de 1987, do GETAS - Centro Cultural de Sardoal, com o título:”Breves Memórias dos Anos de Oiro da Música Rock no Sardoal”:

 

“Boa noite! Somos os “CHINCHILAS” e estamos muito contentes por estar aqui!” - Foi com exactamente com estas palavras que Filipe Mendes, líder daquele grupo de música rock começou a sua actuação no Sardoal, já passava das 10 horas da noite.

 

QUE FRUSTRAÇÃO!

 

A nossa Vila não estava habituada a uma coisa daquelas. Uma hora depois, já dezenas de pessoas “menos jovens” tinham abandonado o Cimo do Convento, protestando contra aquela “música de malucos e guedelhudos”.

E à medida que as “mãezinhas” iam debandando para casa, levavam as filhas consigo, porque, sem a sua atenta vigilância, não havia bailação para ninguém.

Os jovens e os pares de namorados, frequentadores dos arraiais por via dos slows, tangos e marchinhas, repartidos por séries de três músicas, olhavam atónitos, porquanto aqueles sons agressivos não davam para dançar agarradinhos. Que frustação! Um dos elementos da organização chegou a ir ao palco pedir ao conjunto para “tocar mais baixo”.

No “dancing” foram ficando alguns resistentes. Uns porque vieram da capital e estavam acostumados àquela confusão; outros porque se consideravam “modernos” e não tinham coragem de “dizer mal”; ainda outros, indiferentes à potência dos decibéis, dançavam aos pares, como se ouvissem a “TULIPA NEGRA”, “OS 6 LATINOS”, a “FIGUEIRA PADEIRO”, a “LUA AZUL” ou a “ORQUESTRA BRASIL”, conjuntos de baile que, naquela altura, visitavam com frequência, as festas do Sardoal.

 

SENTIDO DE HOMENAGEM

 

Esta é uma possível caricatura daquilo que se passou no Sardoal, naquela sexta-feira, dia 12 de Setembro de 1970. Foi nesse ano que as tradicionais festas em honra de Santa Maria da Caridade, organizadas pela Misericórdia local, tomaram um rumo original, apostando em atracções musicais para a juventude, uma acção de muita ousadia para aquela época. Era então Provedor da Instituição promotora, Jorge Alves Paulino.

Apesar dos festejos sempre terem dado lucro, não se pode dizer que aquela iniciativa, em termos culturais, tivesse sido eficaz para o nosso meio.

Se hoje existe uma maior abertura sociológica, naquele tempo não era assim.

Os valores sociais eram conservadores e estagnados e a comunicação como “exterior” era menor, razão pela qual, a música rock e os seus executantes, de cabelos compridos e vestes bizarras, eram conotados como “coisas esquisitas”, que transcendiam o quotidiano dos nossos hábitos regionais.

Assim, o esforço de inovação tentado pela Mesa da Santa Casa, nem sempre foi compreendido pelo senso comum e grandes actuações dos melhores grupos e músicos portugueses, da altura, passaram despercebidos e sem o devido destaque.

A publicação destas “memórias” no “ATRIUM”, têm - por assim dizer - um sentido de homenagem, aos homens que, naquela data, tiveram a coragem de avançar com um projecto desta dimensão.

 

OS GRUPOS

 

Pelas suas constantes mutações, não se pode afirmar com segurança os elementos dos “CHINCHILAS” que actuaram durante dois dias no Sardoal, mas não andamos longe da verdade se avançarmos com os nomes (agora sobejamente conhecidos) de Guilherme Inês, Luís Pedro Fonseca, João Ribeiro e, claro, Filipe Mendes, tido como o melhor solista português daqueles tempos.

Os “CHINCHILAS”, formados em Junho de 1970, vieram ao Sardoal, após gravarem o seu single “Barbarela”, tema distinguido no concurso de música moderna “Barbarela-70”, realizado em Palma de Maiorca, Espanha.

No ano seguinte (1971), a Misericórdia brindou o Sardoal com mais dois grupos de grande qualidade: “OBJECTIVO”(dia 11 de Setembro) e “BEATNIKS” (dias 18 e 19).

“OBJECTIVO”, ainda hoje considerado como um dos melhores conjuntos portugueses de sempre, no género, era liderado por um escocês de nome Kevin. Fazia equipa com Mike Sergeant, Terry, Zé Nabo e Zé da Cadela (mais tarde Guilherme Inês). Gravaram um single denominado “Dance of Death”.

Quanto aos “BEATNIKS”, que em Maio desse ano venceram o “Festival Pop” de Coimbra, eram provavelmente formados por João Ribeiro, Mário Ceia, José Diogo e Rui Silva, “O Pipas”. Foram os representantes portugueses no Festival Internacional de Vigo, Espanha.

Mas, talvez, o concerto mais importante desse ciclo, se tenha realizado  em 1972, com os “HEAVY BAND”, cuja PRIMEIRA actuação em Portugal foi feita precisamente na nossa Vila, em Setembro, depois de uma digressão por Moçambique e Brasil. Gravaram dois discos (um no Brasil), outro (em Portugal) e sobre a sua actuação no Sardoal existem documentos seguros que comprovam a identidade dos músicos que aqui actuaram. Foram eles: Filipe Mendes (sempre ele), João Heitor, Basílio e Xico.

E pronto, no tocante à música Rock nada mais se passou no Sardoal que mereça relevo, se exceptuarmos a experiência (infelizmente pouco conseguida) de um concerto de rock organizado pelo clube “Os Lagartos”, em 1981, com o grupo “T.I.R.”, de Coruche.

Por isso, só nos vai restando a lembrança saudosa desses “Anos de Oiro”.

Até quando?”

 

Em 1973 as Festas de Santa Maria da Caridade voltaram a ter a presença de artistas da Rádio e T.V. (Artur Garcia, Gabriel Cardoso, José Freixo, entre outros).

 

Depois de 1974 ainda se realizaram algumas vezes, mas já sem o brilho e a adesão de outros tempos.

Recordo-me de na década de 50 do século passado as festas de Santa Maria da Caridade se realizarem na Praça da República.

Por volta de 1970 realizavam-se pelos Santos Populares, na Praça Nova, animados arraiais organizados pela FUS (Festas da Música) e pelo Centro de Recreio Popular (Festas da Bola), incluindo, estes, espectáculos musicais (Serões para Trabalhadores), patrocinados pela FNAT (actual INATEL).

 

Mas a participação da FUS em festas e romarias não era um exclusivo das que se realizavam na Vila de Sardoal.

Ao longo dos anos surgem na imprensa regional inúmeras referências à presença da FUS em festas e romarias da região, que chegou a ter lugar nas festas de S. Sebastião dos Amiais de Baixo, nos arredores de Santarém, por volta de 1970.

Nas festas que se realizavam no concelho de Sardoal e nas vizinhas freguesias do Souto e de Mouriscas, as deslocações eram feitas a pé, transportando, os músicos, os respectivos instrumentos e o farnel, sendo que, nas terras mais próximas, eram os familiares que, mais tarde, iam levar o almoço e o jantar, quando os horários de actuação justificavam esta segunda refeição.

A participação da Banda nas festas tinha momentos distintos. Começavam, normalmente, com uma arruada, seguindo-se o acompanhamento do peditório que quando a dimensão do percurso o justificava obrigava à divisão da Banda em vários grupos que percorriam os diversos núcleos da povoação ou freguesia.

Quando havia festa religiosa a Banda acompanhava a procissão, seguindo-se o leilão das fogaças, quando as havia.

O modelo das festas de verão foi sofrendo grandes alterações ao longo do século XX decorrentes, principalmente, da evolução das condições de iluminação que sofreram uma autêntica revolução com a massificação da utilização da energia eléctrica que, mesmo assim, demorou cerca de 50 anos a servir todo o concelho de Sardoal.

A partir da década de 50 do século passado a iluminação das festa passou a ser garantida com o aluguer de geradores eléctricos e de aparelhagens sonoras com altifalantes/cornetas cujo som estridente se fazia ouvia a quilómetros de distância, passando os programas das festas a anunciar «feéricas iluminações», num tempo em que esses programas ainda anunciavam «grandiosas alvoradas com foguetes e morteiros», «esmerado serviço de barraca de chá», «venda de flores por gentis meninas».

Na primeira metade do século XX as festas incluíam sempre uma sessão de fogo de artifício (fogo preso), normalmente a cargo dos pirotécnicos de Valhascos e, mais raramente, de Mouriscas.

 

O papel da FUS, que durante décadas teve o exclusivo da animação musical, nas festas foi ficando resumido, a partir da década de 60, aos peditórios e ao acompanhamento das procissões.

Ainda me recordo de, por volta de 1965, nas festas de Nossa Senhora da Caridade e nas festas de Santa Clara (Alcaravela), a Banda tocar alternadamente com o conjunto de baile, para desespero dos mancebos que, com muito sacrifício, compravam o seu bilhete para dançar e preferiam a chamada música moderna dos conjuntos musicais para dançar.

Estes conjuntos musicais eram, inicialmente, pequenas orquestras de instrumentos de sopro e percussão, às vexes um acordeão, com um vocalista, casos da «Orquestra Brasil» e «Canários do Pego». Lembro-me de ouvir, nas festas de Cabeça das Mós, a «Orquestra Ferrugem», de Portalegre, com o seu violoncelo. Em meados da década de 60 era muito apreciada, no Sardoal, a Orquestra de Figueira Padeiro com o seu acordeão electrónico que, para além de animar o baile, também fazia o acompanhamento dos artistas de variedades que actuavam nalgumas festas.

Foi então que começaram a aparecer os grupos musicais com guitarras e violas eléctricas, órgãos electrónicos e baterias que, associados a amplificadores de som cada vez mais poderosos, fizeram uma completa revolução da componente musical dos arraiais de verão, deixando à FUS o papel de fazer o acompanhamento musical das procissões e, às vezes, a realização de pequenos concertos.

 

Uma das tradições da FUS, cuja origem se perde na bruma dos tempos, é a realização de uma arruada  no dia 1 de Dezembro, Dia da Restauração da Independência Nacional, tocando o Hino da Maria da Finte (?) pelas ruas da Vila de Sardoal.

Nos tempos em que o 1º de Dezembro não era feriado nacional o cumprimento desta tradição obrigava a que os filarmónicos tivessem de se levantar de madrugada, por forma a poderem cumprir aquele ritual antes do início da sua jornada diária de trabalho.

 (Continua)

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