7. A Ceifa

As migrações anuais dos trabalhadores rurais do Concelho de Sardoal, para as ceifas, no Alentejo, onde eram conhecidos por ratinhos”, assumia grande importância na economia familiar, especial para os trabalhadores das aldeias e merece, por isso, um destaque especial.

Para o efeito, transcrevo, neste trabalho, um notável texto, escrito pelo Saudoso Cónego Anacleto Pires Martins, divulgado no mesmo número do “ATRIUM”-Boletim Cultural do GETAS - Cultural de Sardoal, em que se publicou o texto sobre as Tabernas do Sardoal, antes transcrito.

 

UM “TORNEIO” SINGULAR

PARA OS “RATINHOS”

DA BEIRA

POR: ANACLETO PIRES MARTINS

Estudos de Castelo Branco”-nº6 - Dezembro de 1981

Transcrito com autorização do Autor

 

Presa de Alcaravela, foi a aldeia em que nasci, há já passante de um moio de anos - lugar administrativamente ligado ao Ribatejo, mas geográfica e socialmente beirão. É uma região pobre. Para mais, há sessenta anos, a sua riqueza relativa - o pinhal - mal começava a ser aproveitado. Assim, a maior parte dos seus habitantes vivia dependente do dinheiro que, ciclicamente, ia buscar à “Ceifa” e à Azeitona”.

O “Tio Daniel”, da “Loja”, ia fiando e aquela gente, pobre mas honrada, em geral, não o deixava ficar mal. Quantas vezes tudo ou quase tudo o que se ganhava, era afogado a pagar as contas em atraso.

A ceifa, sobretudo, era a esperança de equilíbrio daqueles orçamentos bem modestos. Era pena que obrigasse a migrar. O afastamento da mulher e dos filhos pequenos, a interrupção do “derriço” ou namoro, para os mais novos, a ausência do noivo que tantas vezes, aguardava o dinheiro da ceifa para as últimas compras do reduzido enxoval - eram o senão daquela esperança.

 

Mas a ceifa tinha outro aspecto muito positivo, além do económico - concretamente para os jovens. Era a ocasião de um confronto competitivo, não à base do desporto, que não havia, mas do trabalho - competição psicologicamente necessária, esta ou outra, para que o jovem se possa rever naquilo de que é capaz.

Ir à ceifa representava, só por si, o sair do mundo infantil, deixar de ser a criança, a quem não se passa cartão, para entrar no mundo dos adultos.

A ceifa era, assim, desejada não só pelo aspecto económico ou ainda porque, para muitos (e eu estava nesse número), correspondia a calçar as primeiras botas e a ter uma série de objectos, de uso pessoal, até aí impensáveis, mas, sobretudo, porque, no caso concreto dos jovens, vinha responder a uma secreta, muito íntima, necessidade de romper com as fronteiras de um mundo demasiado acanhado e de dar expressão ao espírito de aventura que dorme no coração de cada adolescente. O gosto da afirmação, pela competição que, nos tempos medievais, explicava os torneios” com que, habitualmente, se antecediam à investidura” dos cavaleiros (e não só), ficou na alma do povo, ou melhor, esteve sempre na alma do povo e se, na idade média, se manifestava no terçar das armas pela suaDama”, para os jovens do meu tempo e da minha zona e condição, era, no aguentar do trabalho e deste trabalho concreto da ceifa, neste aguentar firme na linha do corte” e no alargar do espaço varrido pela foice, que surgia a ocasião propícia para a sua afirmação real e promoção social.

 

Havia umaescala” que importava subir, não aos olhos da Dama”( e, de algum modo, também, porque a namorada, a irmã ou a mãe acabavam por acompanhar e estar normalmente presentes naquela escalada), mas aos olhos doscamaradas” - termo, nessa altura, limpo de qualquer carga de sentido político.

Eles seriam árbitros quase sempre justos, daquela competição e, até, porque não se ia à ceifa, em geral, isolado. Estava o pai, o irmão mais velho, o tio ou, ao menos, um vizinho que apadrinhava” o jovem.

A escalada” tinha a sua praxe e, só em casos especiais, sempre justificados, se não respeitava.

 

De novel”, a começar, subia-se a sobre-novel”. Depois, a passagem a corte” e à soldada”, conforme o trabalho produzido o ia justificando e, por fim, a subida ao último escalão geral -camarada”, pagando-se, no primeiro ano, a patente”, ou se o jovem em causa assim o preferisse, ficava-se pelos meios interesses” - que correspondiam a metade do ganho ou importância registada entre a soldada” e a verba atribuída aos camaradas. Também o ser escolhido para ponta” direita ou esquerda, representava distinção - pedia-se-lhe mais esforço, correspondia-lhe especial retribuição.

Era todo um ritual que se respeitava religiosamente, em que se pressentia algo da consagração” das medievais investiduras” dos Cavaleiros”.

Também eu fui à Ceifa. Recordo hoje, com extraordinária emoção, o entusiasmo com que preparava as as armas” que utilizaria neste singular torneio”: a braceira”, o peitoral”, os safões”, e os plainitos”  - cota e escudo a proteger o corpo do brasido do sol, do afogueamento daspraganas”, e, ainda, os canudos”, à medida e jeito dos dedos, protegendo-se de algum desvio da foice.

Com que secreto orgulho e desvanecimento, me revia, frágil criança de 10 anos, nesses instrumentos de trabalho - as primeiras coisas verdadeiramente minhas, feitas à minha medida e para meu uso! Com que íntima satisfação eu passava a minha mão de criança, pelo fio da pequena foice - como o  donzel afagaria a espada, em véspera de torneio” e me imaginava já alinhado no corte”, entre os homens, cujo vigor e força eu tanto admirava. Eu ouvia falar, com encantamento, dos homens que aguentavam nabraceira”, no braço hercúleo, uma verdadeira paveia de trigo que, ao ser lançada no chão, quase bastava para formar um molho. Ouvira falar desses homens, com o mesmo enlevo, com que os donzéis medievais ouviriam contar as façanhas dos Cavaleiros” de Amadis de Gaula”, da “Távola Redonda”.

 

Lembro-me como se fosse hoje, não obstante a distância que me separa desse dia, em que, equipado a rigor, saia da minha aldeia, com os companheiros daquela aventura. Lembro o ar superior com que, ao entrar na garganta da Serra de Alcaravela”, que a ribeira do mesmo nome corta, no Cabril, olhei, a última vez, para trás. Era, realmente, um mundo novo que se me abria.Quinze ou vinte quilómetros vencidos, andados a pé, em festa, e eu chegava ao Rossio de Abrantes onde o comboio, tantas vezes sonhado, quase tantas como o mar, e ainda não visto, me transportaria a Ponte de Sor. Daí, uma nova e não menos longa caminhada, me levaria ao Monte da Rascôa”, próximo da Vila de Sousel. Dormi e acordei com o sol a levantar-se no horizonte, no lado contrário. Tinham sido voltas a mais, para não me desorientar. Seria aquele dia e os dois de folga”- “Corpo de Deus” e “S. Pedro” - os únicos em que o sol surpreenderia os ceifeiros a dormir.

Daí por diante, o horário seria diferente: ao raiar do dia e mal iniciada a madrugada, o manageiro” bradaria: Vá lá, arriba, ó família!” Noutras camaradas”, seria: Leva, arriba, ó filhos de Deus!”

    E ainda noutras: Quem tem a devoção de ganhar o seu, venha  a mais eu!

 

E a camarada” alinhava no corte”, sob o comando do manageiro” e nos lugares previamente estabelecidos, contando com os mais novos, que se intercalavam com os homens, procurando um equilíbrio que pudesse garantir o avanço uniforme da linha da frente”, sem exigir a ninguém um esforço desproporcionado. E tudo isto com regras de há muito seguidas - era preciso levar as hombreadas” ou pancadas”, ao jeito, nunca descendo e, naturalmente, nunca de rosto para o sol, estudando os talhões”, de modo a tornar o trabalho, o mais possível eficaz e o menos possível oneroso. Só quando o pão (trigo, aveia ou cevada) acamava, a estratégia habitual se alterava, já que a foice só se lhe metia do lado contrário àquele para onde caía.

Do raiar do dia até ao nascer do sol, aquela frente” de trinta a quarenta homens e rapazes, aproveitando a fresca”, deixara já, após si, farta sementeira de paveias” que alguns dos mais jovens ceifeiros não tardariam a juntar, para formar os molhos, atados com os caules do próprio cereal, se este dava comprimento, ou, caso contrário, com junça, procurada nos lugares frescos das proximidades. Os molhos seriam depois conduzidos para os rolheiros” ou rilheiros”, e, por fim, nos carros dos arrieiros, transportados, em geral para o “Monte”, formando a Meda” grande, designada fascal” que atingia, por vezes, proporções gigantescas, fazendo lembrar as pirâmides do Egipto.

 

Quando o sol desponta, faz-se uma pausa - a única feita na linha do corte”. O manageiro” tira o chapéu e brada: ó pessoal” e em outros casos, ó família, rezemos um Padre Nosso ao Santíssimo Sacramento!”.

Este momento era vivido intensamente, em cada manhã. Aqueles homens valentes, aqueles jovens irrequietos, imitando o o manageiro”, descobrem-se também e concentram-se. O pensamento voa: aldeia distante, família, noiva, Igreja da terra; eu sei lá que de recordações, que de emoções lhes invadem o coração. Por ali, não se via nem Igreja, nem povoado. Era tudo tão distante... Só trigais, folhas” sem fim, azinheiras e as cotovias - companheiras inseparáveis do ceifeiro, seguindo-o sempre com o seu voo e canto característicos.

 

E após aqueles momentos de oração, com o sol a emergir da névoa, habitualmente anunciadora da calmaria ( e  que muitas vezes mais parecia a lua cheia), vinha a bucha”, distribuída e comida ali mesmo, para não se perder tempo. Consistia nummassaquete” - pequeno pão de trigo, ao jeito do paposeco”, mas um pouco maior.

Comido num ai, logo recomeçava a faina até ao almoço, servido às sete horas solares e que, invariavelmente, era constituído pela açorda”.

Era um rito sempre igual: umbarranhão”, ao jeito das marmitas, para cada seis; pão migado à faca, fatias sobre fatias e depois, água quente com cebola e uma escassa colher de azeite, por cada pessoa.

Num instante se preparava e num instante se comia o almoça do ceifeiro. Quando terminava e assim se faria depois do jantar, o manageiro” dizia:sela louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!”. Assim, todos os dias.

E pegava-se logo no corte”. Era mais uma arrancada até ao jantar, comido às 12 horas solares.

Chegara, entretanto o mantieiro”, trazendo, na mula e em cangalhas”, (algumas vezes num carro), a sopa de grão ou feijão, invariavelmente, e que, três dias por semana, era de azeite e os outros de carne (toucinho), mais o pão e queijo (meio para cada ceifeiro), a água e os temperos necessários para as refeições frias do dia.

Recordo-me de que, em geral, os queijos eram guardados para trazer para casa. Aí dariam muito jeito para conduto” da família, ao longo do ano. Terminado o jantar, vinham as horas da sésta”, a coincidir com a hora sexta” da divisão romana do dia, assimilada pela Igreja e que corresponde, precisamente, às doze horas solares.

 

Esse descanso tira, assim, o nome da hora em que se goza. E como sabia bem aquele sono reparador, à sombra da azinheira, sempre que por ali houvesse exemplar desta árvore amiga, à hora mais calmosa do dia!

À voz do manageiro”: Água fresca!”, terminava a sesta” e recomeçava o trabalho até ao cair da tarde.

Com uma hora de sol, comia-se a ceia”, neste caso, o caspacho”, por lá e não só, também chamado sopa ferial” - de novo em manifesta  referência à designação latina com que a Igreja classifica os tempos em festivo e ferial. E era bemferial” aquela ceia!

Com o mesmo respeito pelo rito”, se tomam os barranhões”. Agora o pão (dois massaquetes” por pessoa) não é cortado às fatias, mas migado à mão. Entram no caspacho”, por cada barranhão”, para seis comensais, três dentes de alho, uma colher de sal, que se pisa com os dentes de alho, seis colheres de azeite, vinagre e água suficiente, sem esbater o agre do vinagre.

Com esta refeição fresca, o ceifeiro sentia-se capaz de aguentar o trabalho até à voz da solta” que, ao apagar-se o ar do dia”, quando não havia luar, o manageiro” lançava para a camarada”, em geito de pregão libertador.

E os dias eram assim todos iguais, nos horários e nas iguarias. Só o jantar variava, do azeite para a carne e do grão para o feijão.

Dois dias de folga - e só estes (já que não havia domingos para o ceifeiro), cortavam aquele mês e meio, quando não mais, de duro trabalho. Era empreitada. Daria mais jeito ao patrão. Seria também mais à vontade dos ceifeiros - “ratinhos” da Beira, como por lá os conheciam. Interessava acabar depressa, ganhando quanto possível.

O processo de retribuição também entrava na praxe”.

Omanageiro”, aí por meados de Abril, deslocava-se ao Alentejo, para ver o pão” que se teria de ceifar. Combinava com o patrão o número de homens com os quais faria a ceifa. O patrão, naturalmente interessado em reduzir esse número e o manageiro” em o aumentar, já que na paga, o patrão teria de multiplicar este número pela importância estipulada, a nível de região, como soldada”, para o ano.

 

Em 1926, creio que as soldadas” se fixaram em 400$00. Se o trabalho fosse feito só por homens -.Camaradas, cada um receberia 400$00, o que para cerca de 40 dias, equivaleria a 10$00 diários, com a comida à conta do patrão. Na aldeia não havia trabalho e um ou outro dia que se conseguisse, o salário não chegava ainda aos 5$00 e secos” ou a seco”, como se dizia. O alqueire de milho orçava então pelos 10$00.

 

Entretanto, a verba da soldada” era acrescida, para os camaradas”, pelo excedente dos noveis”, “sobrenoveis” e “cortes”, que ficavam abaixo da soldada”. A remuneração destes grupos era atribuída, naturalmente, em proporção com o seu trabalho, segundo o juízo do conselho dos camaradas”, realizado, em geral, nos dois ou três últimos dias da ceifa, após a solta”.

Sei que a mim, porventura o mais pequeno novel”, que terá entrado numa camarada de ratinhos”, (por vezes tinha que ceifar ao nível da cabeça, prendendo-se com frequência, o chapéu no restolho), me atribuíram 125$00, pelo período da ceifa. Creio que nem descontaram os onze dias que estive com sarampo, curtido, parte, debaixo de uma azinheira e os últimos três dias no cabanal” do Monte”, tendo por cama a manjedoira. Recordo com gratidão o carinho com que a mulher do Móral”(de maioral-chefe de abegões e arrieiros) me levava à hora das refeições, o prato de arroz, cozido com abundante toucinho que eu, nas suas costas, repartia com as galinhas e perus que ao cabanal” acorriam.

Não mais esquecerei aqueles quarenta dias, vividos numa comunhão de sentimentos e situações, desde o manageiro”, ao mais pequeno novel”, em que cada um dava o seu melhor, para maior rendimento daquela dura empreitada. Também, é verdade que se alguém cedesse à mandriice, não tardaria em ver a horta” talhada à sua frente e a sentir os torrões a cair, desapiedadamente, sobre ele.

Mas isto só muito excepcionalmente acontecia, porque o espírito competitivo, a ânsia da promoção, o sentido do torneio” eram estimulantes suficientes para o possível rendimento. Sim, na ceifa, a solidariedade era mais do que uma palavra - era a vida.

Castelo Branco, 12 - 2 -1980

 

Apesar de não se relacionar com o tema não resisto à tentação de transcrever um conjunto de trinta quadras do mesmo autor, constantes de um pequeno opúsculo manuscrito que o Reverendo Cónego Anacletome ofereceu.

É a minha sentida homenagem à memória de tão ilustre Sacerdote e Homem de Cultura.

 

NAS COMEMORAÇÕES DO 4º CENTENÁRIO

DO

SEMINÁRIO DIOCESANO

E DOS

5 SÉCULOS DE EVANGELIZAÇÃO

E

ENCONTRO DE CULTURAS


SARDOAL... Terra do meu querer, meu Encanto!

(Trinta quadras, a esmo...)


 Cónego Anacleto Pires da Silva Martins


De Abrantes, do Castelo altaneiro-

Da vigilante torre de menagem-

Testemunho de heróica coragem-

Contra o inimigo, sobranceiro,

 

Vasto panorama se desfruta:

Milriça, Picoto da Rainha,

Bandos e Sardoal, à beirinha,

Terra de paz... p’lo bem, sempre em luta...

 

Nele, beija o olival os pinhais-

Geografia diversa - as mãos dadas -

Hoje, para serem celebradas

Glórias do SEMINÁRIO DE ARRAIS...

 

Bem pitoresco é este SARDOAL -

De verde - raros tons - circundantes -

O eucalipto e a pinheira gigantes,

Entre sobreiros e Carvalhal...

 

Com ‘special registo, os carrasqueiros -

Outro nome, dizem, de sardão -

E daqui a grande confusão

Entre os “doutores bisbilhoteiros”!

 

Quem me diria, SARDOAL,

Que, em tempos, se duvidaria

Se esse nome significaria

Terra de lagartos ou carrascal ?

 

É verdade que o nome sardão,

Lá para os altos Trás-os-Montes,

Isso diz - é bom que o apontes -

Mas, aqui, já não é tradição.

 

Desde pequeno, sempre assim vi:

Aquele fiel e esquivo sardão.

No estranho concelhio brazão.

E outra coisa é que nunca ouvi.

 

Teu nome e glória perdem-se na história.

Que significa ? Ainda é mistério.

Vamos todos procurar, a sério,

Recorrendo à antiga “memória”...

 

Com este ou aquele sentido,

Vamos apontar todas as datas,

Tanto quanto possível exactas,

Em que o nobre Sardoal é referido.

 

Sabemos que o artista Gil Vicente

Em famoso auto que nos deixou,

Dum outro carrascal falou,

Aludindo ao Sardoal, claramente.

 

Será isto prova segura

De que o lagarto entrou, por engano,

(Sempre se ouviu : errar é humano)

No “campo” onde, vaidoso, figura?

 

Quem dá abalizada opinião,

Dizendo-nos, certo, qual a data,

Ou qual o livro que disto trata:

O lagarto, senhor, no brazão ?

 

Na, hoje renovada Cadeia,

Inda vemos antigo brazão.

Em “campo”, só besantes estão;

Nele, o verde lagarto não campeia...

 

SARDOAL - mil trezentos e vinte...

Stá, por ordem d’ El-Rei D.Diniz,

No Mapa da Bula, que assim diz.

Sem sardão, com sardão ? - Sem acinte !...

 

E já sete anos antes - é acta -,

A Rainha Santa, no Foral -

Primeiro dado ao Sardoal -

Asim o designa. Ouve e acata!...

 

É ‘inda Mestre Gil que o insinua -

Mais: diz que este povo do Sardoal -

Na arte de cantar não tem igual -

Então, p’los vistos, é fama sua.

 

E seus homens de Quinhentos,

Fizeram-nos ser mais Portugal...

Sim, como é grato ver o Sardoal,

Entre os grandes marcar reais tentos !...

 

Por aí, vem a MISERICÓRDIA,

Que todos as crises venceria,

Pois, cada “Irmão” ao outro diria:

Mais do que tudo vale a concórdia!...

 

Desse tempo, também é o Convento,

Com a Santa Casa, de mãos dadas,

Na Caridade, almas empenhadas,

Por Deus, p’lo irmão, cem por cento ...

 

Registe-se, mais, a Colegiada.

Deu luzimento e brilho ao culto;

E à  cultura do Sardoal deu vulto -

Fez mais rica a Matriz, tão prendada...

 

De então, ficaram ricos padrões:

O Pelourinho - Senhor da Praça -

A Matriz - marco de antiga traça -

Seu retábulo - a arte, aos montões...

 

Nos “Primitivos”, tem do melhor,

No Renascentismo, tal e qual;

E também, no Barroco, o SARDOAL

Tem acervo de raro valor.

 

Na Misericórdia, a “Janelinha”

É bem visível reprodução

Do “guarda-óleos”, de Ruão,

Na Igreja d’Atalaia - Barquinha

 

Que o Mestre da Igreja e Portado

Nessa fonte, é claro, se inspirou...

Mais uma prova - que Ruão levou

Sua arte e engenho, por todo o lado...

 

Quem der largas ao curioso olhar,

E partir do Convento ou Matriz,

A vista há-de fazê-lo feliz,

Por quanto, dali, pode admirar...

 

E falando, mais, dos corações:

-Que diz o sobreiro do Castiço ?

-O Evangelho num coucho d’água? - Isso!...

E durante quantas gerações !...

 

-Condição era de arrendamento -

-Mas quem, assim, cumpre, com amor,

Lá no céu, terá paga maior,

Pois viveu o principal Mandamento.

 

Assim, da Matriz, lá ao Convento,

Da “Casa Granda”, à pobre choupamna,

Co’ a Senhora do Carmo e Sant’Ana,

Mais Santa Catarina, a contento,

 

E’inda São Sebastião e o Espírito Santo.

Tudo canta o valor desta gente,

Recta, mas, no perdão indulgente...

SARDOAL... do meu querer, meu encanto !

 

Presa- Santa Clara de Alcaravela

1 de Maio de 1991

Padre Anacleto Pires da Silva Martins

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