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5. A Morte de Laura Saldanha

Este artigo tem um interesse histórico relativo mas retrata bem a forma como, há  mais de cem anos, eram relatados na imprensa regional os dramas familiares da pequena burguesia sardoalense. 


JORNAL DE ABRANTES

14 de Junho de 1908

Sardoal - Suícidio

Laura Saldanha 

Na passada segunda-feira suicidou-se com um tiro de espingarda, na quinta do Almargil subúrbios de Sardoal, a Exmª Sr.ª D. Laura Conceição Saldanha, estremecida filha do Sr. João Saldanha, digno secretário da administração deste concelho.

Este triste acontecimento causou profunda e viva consternação.

Por enquanto, nada há de positivo com respeito às causas que determinaram tão sinistra tragédia. As informações que pudemos obter de fonte limpa são as seguintes:

Que o Sr. Saldanha costuma ir com sua família passar o verão para a sua quinta do Almargil e que, no domingo viera passar o dia ao Sardoal em companhia dos seus dois filhos, por aqui haver festa, regressando com ele à noite à quinta.

Que na manhã  de segunda-feira almoçaram alegremente todas as pessoas da família, sem que a D. Laura manifestasse a mais leve perturbação, seguindo pouco depois o Sr. Saldanha para a repartição do seu cargo acompanhado de seu filho. Na quinta ficaram a esposa e a sogra do Sr. Saldanha que vive em sua companhia. A criada achava-se na terra. Durante algum tempo observou-se que D. Laura se entretinha com arranjos de casa, assim como sua madrinha. Depois de alguns momentos de ausência, apareceu de novo na cozinha com um vestido mais modesto e com uma medalha ao pescoço, o retrato da madrinha: dirigindo-lhe as seguintes palavras: como vens bem! Mas olha que vens muito à fresc, não puseste gola ou colar? Ao que ela respondeu: não, assim estou bem.

Saindo da cozinha sem que coisa alguma se modificasse a sua habitual fisionomia, ninguém mais a tornou a ver.

Ao meio dia, o quinteiro recolheu a sua casa para jantar, ficando a quinta completamente deserta.

Cerca de uma hora da tarde, ouviu-se uma detonação, que muitos imaginaram ser uma bomba deitada por alguém que regressasse da festa que para aqueles vinha realizar-se.

Chegando o criadito da vila, a esposa do Sr. Saldanha manda-o buscar água fresca a uma fonte que fica no chão fundeiro da mesma quinta o qual debaixo de uma latada e para o qual há degraus a descer.

Ao descer o primeiro degrau, depara o criadito com a sua querida menina, com a cabeça caída sobre o lado esquerdo e com a boca da espingarda encostada ao peito esquerdo. O rapazito, muito atrapalhado da sua vida começa a gritar acudindo então as senhoras e o quinteiro, indo aquele a caminho da vila participar o ocorrido ao Sr. Saldanha.

Este fica como louco mas ainda com esperanças de alguns momentos de vida, deita a correr acompanhado do filhinho, porém, ao chegar ao pé da sua querida filha e irmã, é impossível descrever a cena comovente que então se passou.

O pai fica como louco ao ouvir da esposa a narrativa do que se passou, ela dá-lhe um ataque, todas as pessoas tomam parte naquele quadro verdadeiramente triste. Pouco tempo depois chega o médico e o Juiz da Paz, o administrador do concelho e outras entidades.

O corpo estava já frio e banhado em sangue. O tiro destruiu-lhe por completo o coração e o pulmão esquerdo. No quarto da vítima foi encontrado uma carta escrita pelo seu próprio punho, que dizia: “Um verdadeiro abraço a todos e família a quem peço perdão; desejo levar para a sepultura a medalha que trago ao pescoço. Laura Saldanha”.

O que se presume é que a D. Laura Saldanha para não ser vista, esperou a hora em que o quinteiro fosse dormir a sesta, saltou por uma das janelas que deita para a quinta fazendo-se acompanhar da espingarda de seu pai, e que chegando à tal fonte, ligou a arma a um dos postes da latada, passando um cordel pelo gatilho para puxar logo que tivesse encostada ao ponto por ela escolhido.

A ditosa menina que contava 22 anos de idade era estimada de todos, dotada de nobres sentimentos e qualidades excepcionais.

Visto não haver crime o juiz de paz ordenou que o cadáver fosse removido para sua casa, sendo velado por vários grupos.

O funeral realizou-se na terça-feira pela 1 hora da tarde. Apesar da hora ser má, foi imponente o cortejo vendo-se ali muitas senhoras e meninas em choro contínuo, a Irmandade da Misericórdia e a filarmónica da terra.

As fitas da urna funerária eram conduzidas pela Exmª Sr.ª D. Maria Luiza Pequito Caldeira Serrão, e manas, D. Maria Clementina e Maria José, D. Alice Pereira, D. Maria Barneto Nogueira E Laura Tavares.

Sobre o féretro foram depositadas grande número de coroas artificiais e naturais, com fitas e diversas dedicatórias. Muitas senhoras conduziam lindos bouquetes que desfolhavam quando o cadáver descia a sua última jazida.

De Abrantes tomaram parte no funeral as sras D. Aurora  Milheiriço e Berta Belém amigas íntimas da família.

À beira do túmulo proferiu um magnifico improviso o Sr. Júlio Bivar Salgado e um brilhante discurso o Sr. José Alexandre David Pinto Serrão, o qual transcrevemos em seguida:

“Senhores, há quem afirme que o suicida é um fraco, um vencido, há quem sustente que ele é corajoso, um temerário, um alucinado. Vencido ou alucinado o seu feitio abala nosso ânimo, o seu acto compunge-nos o coração e a sua obra impulsiona-nos à piedade.

Feito, acto e obra, advertem-nos que somos seres frágeis, incompletos, talvez que degenerados, inaptos para grandes energias, que salvam impotentes para vencer as nossas paixões, inábeis para domar e orientar a nossa razão sem valor para reagir contra a tristeza cobarde, que tantas vezes nos avassala, subjuga e prostra. Sim nesses momentos de desalentos que experimentamos pela vida fora, nessas horas grandes, que uma suprema dor nos faz sofrer, nesses instantes extraordinários em que o nosso coração apunhalado de desditas sangrando aos golpes de rude revezes, quem não terá uma vez suplicado ao Deus da clemência e da Misericórdia, numa prece fervorosa e aflitiva o trespasso redentor como remédio, como termo benfazejo, e de atrozes males?...

Quem não terá  sentido como um fraco ou um alucinado, a razão. Vacilante, descrente domada e vencida pela vontade que nos arrasta e faz pensar, num momento pungente martírio,  loucos dirão alguns, vencidos dirão muitos na morte inquietação, em nada.

Quem jamais foi capaz de compreender, de descrever ou exprimir dessa forma nítida e precisa, positiva, ardente, que por instantes se apoderou do nosso animo, quantas vezes sem causa poderosa determina todas as amarguras do nosso coração, os tormentos da nossa alma o vacilar da nossa inteligência, a tempos deixai-me plagiar que se desencadeia que se revolta, e ruge do nosso crânio?

Felizes dos que venceram, desditosos dos vencidos! Mas não aprofundemos por muito tem ainda que dizer a psicologia, muito tem ainda que avançar e que transpor a ciência para que nós sejamos fortes, sejamos perfeitos.

Laura Saldanha acabou., morreu. Eis a lúgubre verdade... Eis tudo  curvemos rendidos nesta hora amarga, ante a imponência de uma emocionante desgraça, deixa-me dizer assim...

Essa criança que vedes fria, inerte, para quem os madrigais de Abril rociados de orvalho húmidos perfumados de aromas inebriantes, apenas ontem eram o consolo da família amantíssima, a alegria meiga e carinhosa de um irmão dedicado, e mais do que tudo., o conforto, a ventura, a esperança de um pai extremoso e ora desolado, talvez inconsciente ainda da enorme perda e da enorme dor!

Talvez respeitamos as grandes dores: porque os nossos filhos são o elo que nos prende à vida, a bússola de que se orienta os nossos passos, a alavanca que movimenta os nossos esforços, a força que impulsiona a nossa vontade.

Respeitamos as grandes dores!...

Em pouco mais de 20 primaveras, ela viu-a desventurada Laura doce nome divinizado por um poeta em plena e luxuriante natureza, nos prados matizados de boninas e malmequeres, essas flores simbólicas de inocente esse livro de poéticas ruínas que a mocidade desfolha e consulta como horóscopo dos seus anelos de ventura, dos seus sonhos de esperança e de amor, quantas vezes Deus sabe de ilusões!

Ontem, num momento de alucinação, num instante fatídico, em plena luz de um dia criador que nos falava de Deus e da sua magnificência, violentamente esse coração generoso deixou de pulsar, esses olhos tão meigos e tão castos cessaram de espelhar, de reflectir o cristal de uma branca alma, os lábios carminados e puros de sorrir espontâneas graças e ternuras, pobre Laura!

O seu corpo modelo de virgíneo, jazia prostrado sobre a terra que um pai solícito e amoroso fizera cultivar e com tanto esmero, servia-lhe de doce a folhagem frondosa de copas de arbustos, que ele também plantara talvez beijara, pensando nos entes queridos, em êxtase de amor pela obra, os filhos, e as plantas! Sorria a natureza no esplendor das suas galas: de uma fonte mais obra do acaso esse genial artífice do que da ARTL brotava água cristalina, em que parecia lampejos, cintilações de finas pedrarias, as aves, essas obreiras infatigáveis e benfazejas ciciavam carícias pipilavam hinos nos rostos generosos aflitos de centenas de pessoas espectadoras estupefactas do lúgubre feito, os olhos patenteavam lágrimas piedosas, os corações ansiavam a dor, os peitos embriagavam clamores de angústia e dó, os lábios trémulos nervosos, murmuravam preces!

Pálido, mas verdadeiro quadro de uma flor sincera, generosa, eloquente.

Pobre Laura!... Desditosa alucinada!

Que poderia eu dizer de ti, que não tens história, que eras tão jovem, tão bela, tão pura! Vós sabeis, talvez que ela escondia dos seus, caridosa, cristãmente, como a Rainha Santa, como Deus ensina e premeia, a esmola que enxuga lágrimas e suaviza misérias: sabeis de certo que ela era a alegria de um lar extremosa e respeitada dos seus maiores, toda meiguice e gratidão, para a sua virtuosa segunda mãe, terna e discreta, para as suas amigas, chama afável para todos. Aí tendes a sua simples história, sua biografia.

Mas há  mais, mais sublime homenagem a prender o nosso respeito, e eleva a nossa piedade à sua memória.

Adeus, perdão, foram as últimas palavras singelas e santas, que a sua alma ditou e sua mão escrevera. Que livro de orações elas escreveram, que poema de amor, que prece sublime, que esperanças elas exprimem na eloquente simplicidade!

Adeus! Recorda sente uma criança inacabada quem clama perdão, afaga uma esperança, implora e confia clemência, na bondade e graça de Deus!

Orai, orai por ela, reverentes e confiados.

Jovens vós sois como ela era, e as viçosas loções flores de Abril, sois o enlevo, a esperança, a vida dos vossos maiores. Escudar sempre o pueril desanima a experiência deles, guiai os vossos passos e tende fé nos conselhos.

Neste momento angustioso, pungente, cobri de flores a sepultura da desditosa amiga, orvalhai com as suas lágrimas, preito puríssimo da vossa saudade e vosso amor.

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