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Duas fábulas de Esopo

Publicado a 26/11/2009, 10:23 por Luís Gonçalves

De repente, sem qualquer razão aparente, veio-me à ideia uma fábula de Esopo, que se encontrava transcrita no meu livro da 4ª classe, onde a li, pela primeira vez, há perto de cinquenta anos. Apesar da sua antiguidade esta fábula continua a ter perfeita actualidade, ainda que convenha, por razoes óbvias fazer a clássica advertência de que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Aliás, com a «alcateia»  que por aí pulula, corríamos o risco de cada leitor associar esta história a um «lobo» diferente.

Para, eventual deleite, dos meus leitores, conto a fábula de Esopo, tal como a recordo:

O Lobo e o Cordeiro

Como naquele Verão fazia muito calor, um lobo dirigiu-se a um ribeirito. Quando se preparava para mergulhar o focinho na água, ouviu um leve rumor de erva a mexer-se. Virou a cabeça nessa direcção e viu, mais adiante, um cordeirinho que bebia tranquilamente.
"Vem mesmo a propósito!" - pensou o lobo de si para si. -"Vim aqui para beber e encontro também o que comer..."

Aclarou a voz, pôs um ar severo e exclamou:

- Eh! Tu aí!

- É comigo que está a falar, senhor? - respondeu o cordeiro. - Que deseja?

- O que é que desejo? Mas é evidente, meu malcriado! Não vês que ao beber me turvas a água? Nunca ninguém te ensinou a respeitar os mais velhos?

- Mas... senhor? Como pode dizer isso? Olhe como bebo com a ponta da língua... Além disso, com sua licença, eu estou mais abaixo e o senhor mais acima. A água passa primeiro por si e só depois por mim. Não é possível que esteja a incomodá-lo! - respondeu o cordeirinho com voz trémula.

- Histórias! Com a tua idade já me queres ensinar para que lado corre a água?
- Não, não é isso... só queria que reparasse.

- Qual reparar nem meio reparar! Olha que não me enganas! Pensas que te escapas, como no ano passado, quando andavas por aí a dizer mal da minha família? "Os lobos são assim... os lobos são assado..." Tiveste muita sorte por eu nunca te ter encontrado, senão já te tinha mostrado como são os lobos!

- Não sei quem lhe terá contado tal coisa, senhor, mas olhe que é falso, acredite. A prova é que no ano passado eu ainda não tinha nascido.

- Pois se não foste tu, foi o teu pai! - rosnou o lobo, saltando em cima do pobre inocente.

Moral da história: para alguém decidido a fazer o mal a todo o custo, qualquer razão serve, ainda que seja uma mentira.

Outra moral da história possível: Infelizmente, a razão do mais forte é a que sempre prevalece..

Ou, dito de outra forma: 
Onde a lei não existe, ao que parece, a razão do mais forte prevalece!

Depois de recordar esta fábula dei comigo a pensar o que é que o lobo teria feito da pele do cordeiro depois de o comer e lembrei-me de uma outra fábula de Esopo,  na qual encontrei a resposta para a minha pergunta:


Lobo Com Pele de Cordeiro

Um lobo imaginou certa vez que, disfarçando-se de cordeiro, poderia comer as ovelhas à vontade, sem ser perseguido e caçado onde quer que fosse. Por isso embrulhou-se na pele de um cordeiro e meteu-se no meio de um rebanho de ovelhas que andava a pastar  ali perto.

Esteve  assim a todo o dia, a fingir que trincava as ervas, como elas faziam, e, quando anoiteceu, foi fechado também no redil.

Já se preparava para comer uma das ovelhas quando ouviu uns passos na sua direcção. O pastor também resolvera comer uma ovelha à ceia e, puxando da navalha, matou a maior que viu.

Imagine-se como  ele ficou espantado quando lhe ia tirar a pele e, em vez  da ovelha, viu um enorme lobo cinzento morto

Por sorte, o pastor tinha escolhido aquela ovelha entre todas. O disfarce do lobo era demasiado perfeito!

Moral da história: Fingir aquilo que não se é traz sempre problemas.

Outra moral da história possível: Sempre que enganamos os outros, pagamos pelo nosso erro logo em seguida.  

Mas cá para mim, a grande lição que se pode tirar destas duas fábulas é a de que se o lobo fosse vegetariano, nada disto acontecia!...

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