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Por uma cidadania activa e participativa (I)

Publicado a 07/02/2010, 14:02 por Luís Gonçalves   [ atualizado a 07/02/2010, 14:07 ]

Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país”

 A célebre frase de John F. Kennedy, proferida no seu discurso de posse como presidente dos EUA em 1961, pode ser um ponto de partida para reflectirmos sobre o papel que podemos e devemos cumprir em prol do nosso país em geral e do nosso concelho em particular.

Vivemos em cidadania plena quando usamos a liberdade com responsabilidade e nos esforçamos por melhorar a comunidade onde estamos inseridos. Daí decorrem direitos e obrigações que a todos dizem respeito.

Mas a verdade é que se instalou no senso de muitas pessoas a ideia de que é sempre aos outros que cabe a responsabilidade de resolver os problemas da sociedade, sendo que, para muitos, estes «outros» são uma figura abstracta a que chamamos Estado. Tenho sentido, cada vez mais, uma atitude de permanente indiferença perante os problemas que afectam a nossa comunidade.

O combate à indiferença e ao comodismo que afectam as pessoas é uma obrigação de todos os que querem viver numa sociedade mais justa e mais equitativa na distribuição dos encargos que permitem o seu funcionamento.

A abordagem deste tema, pela sua vastidão, só pode ser feita sectorialmente e nestas minhas crónicas vou tentar expressar os meus pensamentos sobre educação e ensino e sobre o papel que cabe à família neste processo.

Educação e ensino não são palavras sinónimas, mas uma não exclui a outra.
A educação é um processo de socialização e aprendizagem encaminhada ao desenvolvimento intelectual e ética de uma pessoa. Quando esse processo de socialização e aprendizagem se dá nas escolas, dizemos que há ensino.
O ensino, portanto, é tarefa preponderante das instituições de ensino, que trabalharão, no processo de formação escolar, com alunos, professores, conhecimentos e métodos.

Para mim é inquestionável que os pais têm um papel insubstituível e determinante na educação dos seus filhos. Uma das vertentes mais importantes deste papel tem a ver com o quadro de valores que todos nós permanentemente necessitamos, como “bússola de orientação” das nossas opções. Ora, é sabido que uma “bússola de orientação” precisa de um “norte” de referência inicial. Por outras palavras, o desenvolvimento da personalidade das crianças e dos jovens em ordem à formação de homens livres e responsáveis, e com sentido de fraternidade e de participação solidária, precisa de um padrão valorativo original, a partir do qual possam, depois, vir a fazer o contraste racional com outros códigos e normas de conduta, aceitando-os ou rejeitando-os, no permanente processo de integração na sociedade. A falta de um padrão original de medida deixa-os sem âncora para as suas referências e órfãos de sentido de pertença, sem defesas perante as pressões culturais exteriores, desprovidos de horizontes e esvaziados de sentido pessoal de vida. O vazio é, então, preenchido pelo relativismo e o sentido do imediato, sem projectos de longo prazo e incapazes de assumirem compromissos incondicionais.

A evidência mostra ser a família quem oferece o melhor quadro emocional e moral para uma criança ou jovem adquirir esse padrão de referência original. Claro que não é a família sozinha que sustenta esse padrão original e muito menos os conhecimentos e competências exigidos pelas sociedades modernas. Especificamente em relação ao padrão valorativo original, este resulta de diversos contributos e influências de muitos lados, em que a televisão e o exemplo dos adultos e dos jovens mais velhos são dos mais preponderantes. Mas acima de todos eles está (ou deve estar) certamente a escola, enquanto instituição especializada ao serviço da educação, que realizará tanto melhor a sua função educativa quanto mais perfeita for a cooperação entre ela e a família de cada criança ou jovem.

Esta complementaridade entre família e escola só poderá funcionar bem se os pais e os professores partilharem a responsabilidade sobre a educação a dar a cada criança ou jovem. Ora, um primeiro passo para desresponsabilizar os pais pela educação dos filhos é dado quando se lhes retira a liberdade de escolher a escola que deverá cooperar com eles nessa educação. Não deixar os pais escolherem a escola é incentivá-los a sentirem que as suas responsabilidades de pais cessam à entrada do portão da escola. Também não é possível responsabilizar os professores pela educação dos seus alunos quando se lhes impõe um colete de forças curricular, pedagógico e até moral, que os subjuga, não lhes dando espaço para apresentarem ofertas de educação alternativas em que acreditem ― sem prejuízo do necessário cumprimento dos requisitos básicos do ensino. Se os professores são obrigados a trabalhar em escolas com as quais eles ou os pais não se identifiquem mutuamente, as suas responsabilidades de educadores ficam reféns dentro do portão da escola e torna-se difícil ou mesmo impossível a cooperação e solidariedade entre a família e os professores.

O sistema educativo não pode ser um sistema «deseducativo» dos pais e dos professores. Pelo contrário, tem de contribuir para que famílias e escolas não possam fugir facilmente às suas responsabilidade. Em particular, tem de reforçar claramente o papel dos pais e dos professores ― não esquecendo a primazia daqueles ― induzindo neles o dever de cooperarem na educação das crianças e dos jovens à sua responsabilidade e alertando-os para o grave erro que cometem quando transferem para outros – muitas vezes sabe-se lá quem – a decisão sobre o padrão valorativo original a ser-lhes proposto. Mas, para que tal seja possível, é necessário que os pais possam optar pela escola cujo “projecto educativo” seja consistente com o padrão valorativo original transmitido na família. Também é necessário que os professores possam criar (ou aderir a) projectos educativos, em que acreditem, que os pais poderão ou não escolher. Isto é, tem de existir liberdade de aprender e de ensinar.

Sobre as relações entre pais e filhos, que terão de ser a base fundamental do processo educativo, tomo a liberdade de transcrever, com a devida vénia, um excerto de um artigo do Professor Daniel Sampaio, publicado na revista Pública, no passado domingo dia 31 de Janeiro:

«…Reviver o passado não é negativo à partida, porque pode ser reestruturante para o futuro. O que me parece menos adequado é a dependência face ao que se passou na infância, como se o tempo não tivesse passado e tudo estivesse ainda em jogo, ou como se fosse sempre o momento para «vencer» os conflitos de outrora. Devo esclarecer, contudo, que não quero desvalorizar as situações traumáticas vividas; quem pode esquecer um pai violador, uma mãe alcoólica ou um irmão que humilha por sistema?

Acrescento hoje, perdoar por perdoar não faz sentido. Desculpar para esquecer não é solução. É sempre preciso fazer alguma coisa pelo sofrimento pelo progenitor agressivo ou negligente. Quando se «perdoa» sem pensar, é verdade que se obtém um alívio temporário, mas no fundo nada se faz para descobrir um novo sentido para lidar com o passado traumático, e o risco é perdoar aos pais mas acabar por se odiar a si mesmo. Que fazer então? È crucial uma análise cuidada do que se passou, o que implica sempre reviver o trauma, e depois responsabilizar quem falhou, não ficar imerso no fracasso, nem fazer por perdoar e esquecer quem de facto errou. Se fizermos de conta que nada se passou – sobretudo se o agressor continuar a sua acção negativa junto de nós -  acabaremos por acumular a culpa do mal-estar relacional e impossibilitar o trabalho emocional de reparação.

Torna-se decisivo evitar o confronto e a conta corrente permanente (como escrevi antes), mas caminhar para um projecto de determinação pessoal, em que se é capaz de conhecer e lidar com as crenças, os sentimentos e os valores que podem dar sentido à existência, sem dar demasiado relevo ao passado, mas também sem o por de lado só porque «parece» melhor.

Responsabilizar e ser responsável é bem diferente de ser reactivo e de afrontar em cada instante, porque no primeiro caso se pensa e sente ao mesmo tempo, sem deixar de valorizar o nosso interior e a nossa autonomia.

Seria desejável que todos pudessem ter pais responsáveis, sensíveis, disponíveis e que continuaram um percurso de afecto parenta à medida que o tempo passou (e nunca será demais repetir que a maioria dos pais de hoje são muito competentes, porque mais atentos e informados do que os da primeira metade do século XX). Infelizmente, por razões várias mas poderosas, alguns progenitores não foram verdadeiros pais e deixaram que a sua incapacidade parental traumatizasse os seus descendentes. Nestes casos o caminho nunca poderá ser o da autoflagelação, mas também não será o do perdão sem pensar; o trajecto deverá ser a responsabilidade ao seu autor e a libertação de quem não foi culpado.

Todos os dias vejo pessoas imersas em espirais de culpa ou alienadas em perdões irreflectidos, por isso andam em consultas de psiquiatria. O meu papel não é o de desculpabilizar os filhos nem o de criticar os pais: a minha missão é a de criar alternativas de liberdade, em vez de rupturas sem pensar ou no lugar de perdões mal assumidos.»



Posfácio

Enquanto transcrevia este texto ocorreu-me uma outra citação de J.F. Kennedy, cujo sentido pode ser marginal ao teor deste artigo, mas que, mesmo assim, não resisto a transcrever: «Perdoa aos teus inimigos, mas jamais esqueças os seu nome»

Esta citação trouxe-me à memória uma frase que ouvi, há quase 50 anos, ao então Bispo de Portalegre e Castelo Branco, D. Agostinho de Moura; «Meu filho, não esqueças que Deus nos manda ser bons, mas não nos manda ser parvos

Para mim resumo estas duas citações e outra de idêntico teor que fui gravando ao longo da vida numa curta expressão: «Perdoar? Sim! Esquecer? Nunca!»

(continua)

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