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2. Pendência de Honra

PENDÊNCIA DE HONRA

UM EPISÓDIO ILUSTRATIVO DO CLIMA POLÍTICO QUE SE VIVIA NO SARDOAL

NOS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO XX

SITUAÇÃO RELATADA PELA IMPRENSA REGIONAL

Em 24 de Agosto de 1902, o “ECHO DO TEJO”, em correspondência do Sardoal, dá conta da geral satisfação de todo o Concelho, pela nomeação, na última sessão da Câmara, do Dr. Victor Mora, como facultativo municipal.

Sobre o mesmo assunto, também o “JORNAL DE ABRANTES”, publicava em 7 de Setembro de 1902, uma notícia, que transcrevo na íntegra:   

DR. VICTOR MORA

Acaba de ser provido no partido médico do Sardoal, o Sr. Dr. Victor Ayres de Sequeira Mora, natural daquela Vila e único concorrente ao aludido partido. A Câmara andou acertadamente sancionando aquela nomeação, não só por o nomeado ser filho daquela terra, mas também por ser um médico distinto. Dirigindo ao Sr. Dr. Mora as nossas felicitações, felicitamos, também, a Câmara e todo o povo Sardoalense.”

Ainda em 31 de Agosto de 1902, torna-se claro, por uma notícia publicada no “ECHO DO TEJO, que as coisas não iam bem entre os dois facultativos municipais, Dr. João Felicíssimo e Dr. Victor Mora:

Sucedeu o que prevíamos.

Apesar das ameaças do Dr. Felicíssimo à Câmara e ao próprio médico que ultimamente concorreu ao partido médico do Sardoal, a simpatia, o saber do Dr. Victor Mora, impuseram-se e venceram.

Não queria ele, o Dr. Felicíssimo, um médico tão distinto que o incomodasse, que trouxesse ao povo a regalia de lhe repelir os serviços clínicos, como em breve há-de suceder. Enganou-se! As qualidades que exornam o Sr. Dr. Mora, a estima que a este médico tão distinto e bondoso, tem radicado em todos os sardoalenses, são de tal modo intensas, que ficaram vencedoras, apesar da vontade íntima da Câmara, em contrário.

À Câmara, subjugada pelos factos, curvou-se a cerviz sem remédio.

Bem sabia ela que a preterição do Dr. Mora, seria a sua morte irremediável, porque o concelho do Sardoal se levantaria em peso, se ela se praticasse.

De nada valeram, pois, as ameaças quixotescas e ridículas do Dr. Felicíssimo que teve também de curvar o pescoço ao cutelo que ele a si próprio armou. A este cutelo que agora começou por dar apenas um golpe na filância há-de repartir-se, certamente a ponto de inutilizar-se-lhe, por completo, os pruridos da supremacia que o animaram.

Basta conhecer a bondade, a gentileza, o carinho, a ciência, já hoje proverbiais do Sr. Dr. Mora e contrapô-las ao azedume, ao orgulho, ao desdém, à fatuidade grotesca do Sr. Dr. Felicíssimo, para imediatamente se tirar a conclusão clara do que, aquele se queria impor e aspirava ao mando supremo do Concelho, é um beco sem saída, é um homem lançado às ondas. Não há hoje no concelho de Sardoal, duas opiniões que neste ponto divirjam. O Sr. Dr. Felicíssimo apoiou-se demasiado nas suas asas, pegadas com cera e qual Ícaro, quis voar ao sol, com pressa demasiada, não se lembrando que lhe se podia derreter a goma e cair estatelado em terra.

Pois aí tem o resultado. E a paga do orgulho e vaidade que exornam aqueles que nada têm que possa explicar semelhantes vícios.

E não pensem os leitores que nos move, nestas considerações ligeiras o mais leve intuito. Se lhe dissermos que não conhecemos o Sr. Dr. Victor Mora, não conhecemos nem nunca tivemos a honra de o ver.

Em compensação, porém, conhecemos as suas acções e a nobreza de sentimentos que nos encantam e que contrastam, sobremaneira, com as do Dr. Felicíssimo, que tão bem conhecemos, como todos conhecem. Eis, pois, o que nos leva a fazer esta desinteressada e independente apreciação.

Estamos empenhados em dar a cada um o que merece e a guiar o povo desta região no caminho que ainda se pode abrir.

Felicitamos, por isto, o Sr. Dr. Victor Mora e mais do que ele o povo do Sardoal, que vai ver preenchida uma lacuna que, dia para dia, se tornava mais manifesta e incómoda.                                                                                            

E em 14 de Setembro, como título “BOATOS E NOTÍCIAS”, voltava à carga o “ECHO DO TEJO”:

Pobre Dr. Felicíssimo! Quando o cão é danado, todos lhe atiram. Nada mais certo. E no caso presente, até os da casa.

A propósito da nomeação do Sr. Dr. Victor Mora diz o órgão versicolor (Jornal de Abrantes): - Dirigindo ao Dr. Mora as nossas felicitações, felicitamos também a Câmara e todo o povo do Sardoal.” - o que trocado em miúdos quer dizer nem menos do que há dias escrevemos a propósito da referida nomeação, isto é, que a carência naquele concelho de um médico afável, pronto e desinteressado se fazia, ali, muito sentida. - Pois lavre duas à preta o órgão cor de jumento quando foge. - Nem a força do cachimbo teve força, desta vez, para torcer.  Nem sempre se há-de ser João Fernandes!...

Voltando ao assunto em 28 de Setembro...

AFLIÇÕES DE UM MÉDICO    

O Sr. João Felicíssimo, médico municipal do concelho do Sardoal, médico da freguesia do Souto, pago pelos cofres da Câmara Municipal de Abrantes, sub-delegado de saúde do concelho de Sardoal, facultativo de um lugar próximo do Sardoal, de que recebe um partido pecuniário e clínico do hospital da Misericórdia da mesma Vila, escreve-nos a pedir a publicação de três cartas, com vista a libertar-se do que afirmámos em o nº 82 do ECHO DO TEJO, em uma local intitulada Dr. Mora”. Eis as suas cartas:

 

Sardoal, 18 de Setembro de 1902

Senhor.

Tendo enviado cartas ao Exmº colega Victor Mora e cavalheiros que compõem a Câmara Municipal deste Concelho sobre umas afirmações feitas numa local inserta no ECHO DO TEJO, de 31 de Agosto, pedia a V.Exª, em homenagem à verdade e usando de uma faculdade que a Lei de Imprensa me concede, publicasse as respectivas respostas que lhe envio. De V.Exª. - João Felicíssimo


1ª CARTA:

Acuso recebida a carta de V.Exª, em referência a uma local publicada no ECHO DO TEJO de 31, p.p. .

Quanto às minhas ameaças, de que fala a sobredita local sobre V.Exª., pede o meu testemunho. Deverá distinguir as pessoais das indirectas. Com relação às primeiras, só quem me não conhece poderá acreditar na existência dela e pelo que respeita à segundas, propalou-se muita coisa atribuída a V.Exª a que não dei importância por carecer de autenticidade.

C. de V.Exª. -16 de Setembro de 1902

Victor Henriques Ayres Mora (segue reconhecimento)

 

2ª CARTA:

Sardoal, 8-9-902

Em resposta à carta de V.Exª, temos a declarar que nem mesmo indirectamente nos consta que V.Exª tenha censurado o nosso procedimento referente ao provimento do Sr. Dr. Victor Mora para médico deste partdo. Pode V.Exª dar publicidade a esta carta para assim se desafrontar.

Assinamos com toda a consideração de V.Exª.

Júlio Bivar Salgado, António Carvalho Tramela, Serafim Jorge, Joaquim Serras. (Segue reconhecimento)

Seguem as considerações do redactor do ECHO DO TEJO:

A segunda carta, a do Sr. Dr. Mora, que nem sequer conhecemos, senão por tradição, revela bem pelas entrelinhas o que sente pelo Senhor João Felicíssimo. Delicado e atencioso o Sr. Victor Mora, apesar de tudo, quis ainda salvar o seu colega, sabendo e sentindo bem que ele o não merecia.

Aquela frase do Sr. Victor Mora: Propalou-se muito como atribuída a V.Exª, a que não dei importância”, contorna na perfeição um espírito generoso que se coloca superior à mesquinhez dos processos usados pelo seu adversário e traduz, mais expressivamente do que se for vazado noutros moldes, a verdade dos factos que aqui narrámos.

Quanto à segunda carta, firmada pelo Presidente da Câmara e restante vereação da Câmara do Sardoal, é mais uma meninice da criança que está à testa daquele concelho.. - O Sr. Bivar Salgado podia arranjar para seu filho uma ama que o desmamasse com mais perícia e menos encargos para os povos que lhe aturam as birras d’enfant gaté”.

Esta de uma Câmara vir a público dar contas do que sente e do que consta por meio de carta familiar é uma rapaziada como tantas outras que o adolescente siso do Sr. Salgado costuma operar sem dar por isso.

Mas demos de barato que a carta provém de um cérebro com as suas circunvalações já feitas: Ainda assim não podia opor, ao que corre como certo que levasse a vera efígie do Sr. Felicíssimo.

Não dissemos que a Câmara não tinha vontade de nomear o Sr. Mora e que nesse mesmo sentido tinha o Felicíssimo exercido pressão. Fomos no que então escrevemos com a opinião corrente, ainda hoje, no Sardoal.

Nenhuma das cartas desmente a nossa asserção, como é, pois a Câmara quer demonstrar a importância das nossas palavras, afirmando que nem mesmo indirectamente lhe consta que o Sr. Felicíssimo tenha censurado o seu procedimento referente ao provimento do Dr. Mora”

Não nos custa muito a crer que este jogo de disparates, seja mais uma manifestação da criancice mal amadurecida do Presidente da Câmara. De resto, há formas humanas de roupas de uso, que só ouvem quando lhe puxam um cordel e curam os ouvidos, quando lhe manejam do lado oposto.

Isto sem ofensa, bem entendidos! Nós não queremos ofender o menino Júlio Salgado, nem ele o merece. O mais que ele precisava era que lhe tirassem por três dias o arco com que se costuma divertir no quintal da titi ou, então, mandá-lo de castigo olhar para um canto da casa, uma hora seguida, com umas orelhas de papel postadas nos pavilhões auriculares.

Agora, se repetir a maldade, então o papá que lhe arrume três bolos em cada mão, ou que lhe ponha pimenta na língua para se lembrar, de futuro, o respeito que deve à Corporação que infelizmente tem nas unhas.

E desta arte satisfazem os desejos de todos; de bebés salé e seus acólitos e os do Dr. felicíssimo, por ver passageiramente terminadas as suas aflições de criatura ofuscada pela penumbra que sobre eles projecta o seu Exmº Colega (como ele o trata), o Sr. Dr. Victor Mora.

Por que é que o Sr. Dr. Felicíssimo não nos mandou a carta escrita pelo punho do Presidente da Câmara e nos enviou uma carta escrita por uma terceira pessoa? Desejamos possuir essa bela relíquia - o melhor diploma que um Presidente da Câmara podia gerar.

Depois de passado quase um ano sem que aparecessem notícias desta rivalidade clínico-partidária, eis que surge uma nova notícia no ECHO DO TEJO, em 2 de Agosto de 1903, intitulada: “NOVO ESCÂNDALO NO SARDOAL”:

Oiçam! O Físico das bandas do Sardoal, Sr. Felicíssimo, foi nomeado por influência da família para Ponte de Sor. Pediu por isso a exoneração do Sardoal, o que era de lei. O que não é, porém, de lei é que nessa petição solicitasse à Câmara a que preside um bébé, que esta deixasse ficar como interino o demissionário facultativo, até Outubro. Pois o menino presidente e demais vereadores deixaram que se fizesse a vontade ao físico pedinchão. E aí têm os povos desta região para que serve o Código Administrativo em mãos donzéis a quem o Sr. Avelar Machado puxa os cordéis. O pior - e com este barbicacho não contavam eles - é que o Sr. Dr. Victor Mora, facultativo municipal do mesmo concelho, levantou o seu protesto, reclamando justiça, no que andou correctamente, porquanto é a ele que compete ficar em substituição do Dr. Felicíssimo que, pelos modos, quer curar doentes à distância na Ponte de Sôr e tratar de galinhas ao pé da porta no Sardoal, recebendo por estes dois importantes serviços da sua lavra a espórtulas das duas Câmaras. Bem bom, não acham? A inteligente criança que preside aos negócios municipais do concelho do Sardoal continua dando bom burro ao dízimo, ao mesmo tempo que está dando uma óptima lição aos seus eleitores! Quem dorme, dorme-lhe a fazenda - quem se alheia na época própria dos negócios públicos, que por serem públicos interessam a todos, alheia-se igualmente dos seus interesses que andam em bolandas pelas mãos dos les petit’s enfant’s” desmamados ontem. A administração por estas regiões é isto que se vê. Nem pode ser outra coisa nas mãos dosmignons” do Bayard abrantino, benemérito célebre da sabedoria e mais partes a que o correspondente de Rio de Moinhos, lhe encontra. Quando é que o povo terá os olhos abertos para não deixar levar o milho pelos pardais?

Queremos crer que algum tanto temos concorrido para lh’os abrir. Agora se eles teimarem em os fechar, isso é com eles e mais as suas algibeiras...

Em 9 de Agosto de 1903, volta à carga o ECHO DO TEJO:

O ESCÂNDALO DO SARDOAL

Demos aqui no último número uma ideia pálida do que se está passando na Câmara do Sardoal, a quem preside um menino de fatinho curto. Foi já muito o que dissemos e as irregularidades que apontámos eram mais que bastantes para dissolver aquela Câmara de cabeça infantil. Pois há ainda mais e melhor como se vai ver. Procurou-nos um nosso estimado amigo daquela vila para nos esclarecer o modo por que as coisas estão passando. Facultou-nos a reclamação escrita do Sr. Victor Mora, conceituadíssimo médico municipal, contra a decisão ilegal da Câmara e ela só por si, fala bem alto, para que os Srs. vereadores a oiçam, se o menino presidente teimar em ser surdo por dentro e por fora.

É deste teor a reclamação apresentada pelo Sr. Dr. Mora:

Victor Henriques Ayres Mora, facultativo municipal deste concelho, sabendo que sua Exª Sr. Dr. João Felicíssimo pediu a sua demissão de facultativo municipal que a Câmara deliberou deferir nos termos requeridos, ficou contudo o requerente sujeito aos serviços clínicos deste município, com os respectivos vencimentos, até que se ache legalmente substituído!!! Vem por este meio protestar contra a última parte da deliberação que se pretende dar-lhe a interpretação do parágrafo 3º do nº 6 do artº 125º do Código Administrativo e o parágrafo 3º do Regulamento de Saúde, hajam decorrido vinte dias e tal sem que nada me tenha sido participado para fazer a substituição.

Devo ainda ponderar que tendo o Exmº Sr. Felicíssimo pedido simplesmente a demissão, nem nomeá-lo substituto de si mesmo (o que seria irrisório) ou interino, pois se ele quisesse estar ao serviço não pedia a demissão; além de que o pouco serviço actual do concelho não reclama clínico extraordinário, nem imposições injustificáveis e sua Exª, a Câmara, que deve ser administrada escrupulosa e economicamente dos réditos municipais, perde uma boa ocasião de ficar em cofre com os respectivos vencimentos, visto a substituição do facultativo demissionário pelo outro facultativo do partido, até que a vaga seja, legalmente, preenchida, ser gratuito, como se depreende do parágrafo 1º do nº 6 do artº 125º do Código Administrativo e parágrafo 1º do artº 70º do Regulamento de Saúde e Portaria de 6 de Novembro de 1866, que permite às Câmaras a votação de uma gratificação extraordinária e provisória ao médico cirurgião do partido, em compensação do maior serviço, quando havendo dois partidos e um deles se ache vago.

Em vista do exposto e da legislação citada, reclama o suplicante contra a deliberação aludida, de V.Exª., por ser ofensiva da Lei e dos seus direitos e requer a V.Exª., se digne anulá-la.

30 de Julho de 1903

E.R.Me

Victor Henriques Ayres Mora


Daqui saltam três conclusões graves, para que pedimos atenções do povo do Sardoal.

PRIMEIRA: A desconsideração manifesta que, pelo seu posto, pelo seu saber e pelos seus serviços, é altamente digno de consideração de todos os munícipes e não pode, por isso, deixar de o ser da Câara que os representa!

SEGUNDA: Sendo ilegal e arbitrária a nomeação interina do Sr. Felicíssimo para o lugar de que ele pediu escusa e sendo irrisório a criancice de nomear substituto de si mesmo, o Sr. Felicíssimo está a perceber um ordenado que não lhe compete e que o Código Administrativo bem claramente repor aos culpados que a isso deram causa.

TERCEIRA: A Câmara Municipal do Sardoal está esbanjando os dinheiros públicos em favor do seu apadrinhado, o que lhe não nem pelas leis da moral, nem pelas leis civis.

A gravidade destes pontos é tão manifesta que bastava um lampejo de bom senso para os resolver em harmonia com as alegações justas do Sr. Dr. Victor Mora.

Mas para isso era necessário que o senso fosse de um homem feito e não de um homem per jocum”. E a prova de que neste negócio anda meninice e inconsciência de mão cheia, está em que na penúltima sessão o galante presidente propôs que ficasse para 2ª leitura o requerimento.


Na última sessão, da quinta-feira passada, porém, discutiram-se os direitos do Sr. Dr. Victor Mora, havendo dois vereadores favoráveis à justiça que assiste a este facultativo e dois contrários, entrando no número destes o infante menino. Nada se resolveu, portanto. Ora é necessário aclarar o mistério que também anda pela adolescência de um rapazelho. -Oiçam:

O Sr. Felicíssimo, rancoroso médico de que os sardoalenses se viram quites, jurou aos deuses que nunca o seu colega Sr. Dr. Victor Mora, seria nomeado  Subdelegado de Saúde do Concelho do Sardoal, como de direito lhe pertence.

Em harmonia com os seus febris e, portanto, doentios desejos, agarra-se aos amigos, como ostra à rocha, para que seja selada a sua saída do Sardoal, com esta vingança que sobejamente classifica. E daí indromina que se tece de harmonia com o pai do donzel.

Ora fica esclarecido de que a questão para os Srs. Vereadores, homens de idade amadurecida, procedem de ânimo recto e justo neste pleito. Vai nisso o brilho dos seus nomes, o sossego das suas pessoas e até a integridade futura das suas algibeiras pessoais. As birras da criança interessante que os domina, pode levá-los ao abismo; e ao menino e nobre presidente, a continuar no caminho das esperanças que vai dando, poder-se-lhe-ão aplicar as célebres palavras de Anchises:Tu, marcellus, eres”.

Em 16 de Agosto de 1903, publicava o “JORNAL DE ABRANTES”, com o título “PENDÊNCIA DE HONRA”, a seguinte nota:

Dum nosso amigo do Sardoal, recebemos a seguinte carta explicativa duma outra que também segue, na qual se trata de uma pendência de honra.

Meu prezado Amigo.

Se eu hoje pretendesse relatar-lhe tudo quanto de há uns dias a esta parte aqui se tem passado de pouco edificante, fazia-se mister encher muitos linguados de papel.

A Câmara deste concelho está dando assunto como nunca, digno de ir correr mundo em letra redonda.

Muito especialmente, vou contar-lhe o já se me antolha indispensável para esclarecimento da carta inclusa, que rogo publique no seu muito lido jornal.

Tendo, ultimamente, o Sr. Dr. João Felicíssimo pedido a exoneração de médico deste concelho, concedeu-lha com mágoa a Câmara, sob condição do distinto médico ficar ao serviço, até a vaga ser preenchida.

Viu nesta resolução da Câmara, porém, o Dr. Victor Mora uma desconsideração à sua pessoa, como podia ser outra coisa qualquer, e, por isso, não só apresentou à Câmara o seu protesto, como se permitiu insultar num estabelecimento desta Vila, o digno Presidente da Câmara Sr. Júlio Bivar Xavier Salgado.

Este julgando-se, injustamente, ofendido na sua dignidade, encarregou os Srs. José Alexandre David Pinto Serrão e Dr. Eusébio Tamagnini de procurar o Sr. Dr. Victor Mora, a fim de lhe proporem por parte daquele senhor, uma reparação pelas armas.

O Dr. Victor Mora aceitou, mas depois decorrem 48 hora - mais tempo do que a praxe marca para estes casos tais - sem que  testemunhas algumas, por parte do Dr. Victor Mora procurassem as do Sr. Salgado. Concluíram estas que o Sr. Mora faltava sem cerimónia ao que prometera e viram-se por isto na colisão de enviarem ao seu constituinte a carta que lhe remeto, desobrigando-se, assim, do seu mandato e dando a honrosa satisfação ao Sr. Salgado.

Permita-me, meu Amigo, que eu hoje fique por aqui, prometendo já, contudo, brevemente vir gastar mais duas penadas, com este e outros assuntos, se isto não for desagradável, como creio.

Segue a carta:


Ilustríssimo e Excelentíssimo

Júlio Bivar Xavier Salgado e nosso prezadíssimo amigo.


Cumprindo o mandato que V.Exª nos cometeu por carta de 8 do corrente, procurámos em sua casa, no dia 9, pela uma hora da tarde, o Sr. Victor Henriques Ayres Mora, de quem V.Exª se acha agravado, a quem solicitámos a intervenção de duas pessoas da sua confiança para conjuntamente connosco, discutirem as condições em que deveria ter lugar a pendência de honra, por nós proposta ao referido senhor em nome de V.Exª. - Ficou assente que seríamos procurados por dois cavalheiros para se liquidar, briosa e dignamente, esta pendência.

Como, porém, já há muito tenha terminado o prazo que a etiqueta concede para se aguardarem resoluções desta ordem e ainda não fomos procurados por pessoa alguma comissionada pelo Sr. Victor Henriques Ayres Mora, damos por terminado como nos cumpre o nosso mandato, autorizando V.Exª. a fazer desta carta o uso que julgar mais próprio e digno do seu desagravo.

Somos com toda a consideração e apreço de V.Exª.

Att. Vn. a V.

Sardoal, 11 de Agosto de 1903   

a) José Alexandre David Pinto Serrão

b) Eusébio Tamagnini

Em 23 de Agosto de 1903, ainda sob o título “ESCÂNDALO NO SARDOAL”, publicava o “ECHO DO TEJO”, a seguinte local:

As bolas que aqui arrumámos ao menino presidente da Câmara do Sardoal, já surtiram efeitos. O físico Felicíssimo pediu a demissão do cargo de subdelegado de saúde do concelho, o que, aliás, não era necessário, visto que exonerado que fora de médico do partido, ficava - ipso facto - exonerado daquele lugar que lhe é inerente. Mas, enfim, quis deixar uma deixa ao menino birrento e este pegou-lhe sem demora, sendo em seguida oferecido ao Sr. Dr. Victor Mora para que tomasse conta do lugar, como lhe pertencia por lei. Em que lençóis fica a Câmara do Sardoal!

Cometeu-se uma irregularidade que deve ser devidamente apreciada pelas estações superiores. E há-de sê-lo!...

O tempo da impunidade, à sombra da qual tem medrado a desordem, nesta região, há-de acabar, para bem e garante dos direitos dos povos. Mas o Sr. felicíssimo combinado com a comântula política que o cerca, domina e protege, ainda não perdeu a esperança de levar a sua avante. Este físico andou pelas freguesias do Sardoal e Souto a apresentar um médico chamado Sampaio, como sendo ele o futuro facultativo do burgo da cabeça infantil,

Ora, nós perguntamos: Quem é no concelho de Sardoal, a Câmara Municipal? Então o Dr. Felicíssimo, que nem médico já é do concelho, é que nomeia o facultativo que o há-se substituir?!! Isto é um cúmulo com o senso do cachopelho que puseram à frente dos negócios públicos desta terra. E consentirá o resto da vereação em tal escândalo? Não terá ela força para reagir contra tanta ilegalidade e felicíssimas filâncias?

O tempo poderá e então avaliaremos o critério dos vereadores sardoalenses. As criancices do presidente, essas passaram em julgado. Hão-de fazer dele um fabricio. Vejamos como os seus colegas da Câmara se portaram entre as inconsciências do menino e em frente dos metrafícios do físico mais célebre que estas paragens têm contemplado no âmago do seu coração.

Esperamos que o epílogo da festa não venha longe.

C.

No mesmo dia (23 de Agosto de 1903) publicava o “JORNAL DE ABRANTES”, a seguinte correspondência:

Num pseudo jornal que se publica na fresca vem há muito perseguindo dois cavalheiros desta Vila, numa campanha agarotada, dirigida por gente pouco escrupulosa em conspurcar o bom nome dos outros, por gente, enfim, que evidentemente de sobejo conhece aquele infamismo preceito que os volterianos assacam aos jesuítas e estes aos volterianos:

Caluniai, caluniai, que da calúnia sempre fica alguma coisa!”

Os cavalheiros a quem nos referimos são o ex-facultativo deste concelho Dr. João Felicíssimo e o Vice-Presidente da Câmara Sr. Júlio Bivar Xavier Salgado.

O que é, porém, mais engraçado, para não lhe darmos mais amargos qualificativos, é, ao passo que o aludido jornal vem dizendo do Dr. Felicíssimo e do Sr. Salgado o que do toucinho não disse o profeta do Alcorão, procurando por todos os meios, endeusar sobre ruínas de boa reputação que o ECHO julga ter demolido, destes senhores, em benefício do Sr. Dr. Mora - que muito bem sabe fazer o seu jogo, vamos lá com Deus...

No entender do ECHO que se diz órgão do Partido Progressista, como se podia apregoar órgão do comércio... e indústria, este Mora devia ser um ídolo cá do sítio, para esta boa gente do Sardoal, um herói escrito com H grande. Por enquanto, sabia-o todo o mundo, inclusivamente o mesmo ECHO - não nos consta que seja mais que um simples Hipócrates que cá na Vila, a gente bem cotada na bolsa do bom senso, espera ver um dia apeada desse imaginativo pedestal, por certos motivos que é possível que venham a correr mundo em letra redonda; mas não será o caso para nos deixar estarrecidos de admiração que venha a ser tudo que o ECHO, pelos modos quer, pois lá como diz o Padre José Agostinho de Macedo ao prefaciar “OS BURROS” - assim como há heróis na virtude, também os há na asneira.

Entretanto, como o papel do Tejo de há muito se vem empenhando a pregoar aos quatro ventos as belas qualidades que exornam o Sr. Mora, vai registando também lá nas suas colunas as seguintes virtudes e mais partes, não para a edificação do ex-republicano, mas também a título de subsídio para a história que, por certo, mais tarde se há-de ocupar deste piramidal vulto.

Reproduziu, há dias, o ECHO DO TEJO a cataplasma, que se convencionou chamar protesto manipulado pelo Sr. Dr. Mora, no laboratório da sua conveniência e à Câmara na qual manifestaria o seu descontentamento por se ter permitido que o Sr. Dr. Felicíssimo ficasse ao serviço, até a sua vaga ser preenchida, como era natural, o ECHO com entusiasmo hipócrita, aplaudiu esse protesto e só ele sabe o motivo porque o fez.

É crença geral nesta vila que quem não faz um D. Quixote de letras ou um hermeneuta da força de qualquer hermano, só há-de achar no tal protesto para inglês ver, que o seu autor mostra conhecer bem aquele espirituoso dito de Augusto Lacerda, na Praça, quando o famoso escritor do Rall-bi da Galileia diz  que há uma coisa que nós amamos mais que a honra, a nossa dignidade, a nossa família: é a nossa barriga!...

Mais se diz por cá que o ex-republicano do Porto é o autor de tudo quanto o referido papel tem publicado referente a esta Vila - o que é mais um t´tulo de glória para o fagueiro Esculápio...

E note-se que tudo isto não se diz por aqui à puridade; afirma-se com todo o desassombro, sem receio de investidas pedantes do ECHO no qual, ainda ao que temos conhecimento e ouvido, o ex-republicano desempenha o papel daquele outro barbeirola grotesco de Palito Métrico, servindo-se da figa contra o quebranto dos invejosos.

Mas há mais e melhores:

Tem na Câmara o Sr. Victor Mora, dois vereadores amigos, Srs. Tramela e Silva, que se deixam adormecer, com o canto da sereia, servindo-se assim os seus arranjinhos. Meteu há dias o Sr. Dr. Mora, para sua conveniência, nas mãos do Sr. Tramela, um papel para este vereador botar figura na Câmara, no qual se liam uns artigos que se dizia terem sido copiados fielmente do Código Administrativo, mas que afinal se reconhecem serem fantásticos, porque alguém, com o referido Código à vista, provou ao Sr. Tramela que não existiam tais artigos no Código e que nem mesmo a existirem podiam ter a pretendida aplicação!

Este senhor, porém, que sempre que abre a boca põe logo a gramática com hilariedade, não se deu por convencido e daí o continuar a fazer alarde da sua sabedoria, afirmando que no Código que tinha em casa estava escrito, ipsis verbis, o que lera na Câmara. Tudo desatou a rir, sem exceptuar o vereador Serras!...

Registem, senhores do ECHO lá no seu infame papel estes factos enquanto quem escreve estas linhas lhe não fornece outras melhores.

Roma e Pavia... 

21-08-903

Um Sardoalense

 

Diz o Dr. Mora, em carta que nos acaba de dirigir, que está coleccionando documentos para responder à local publicada no nosso número de domingo, como epígrafe - Pendência de honra - o que consta poder fazer no próximo número 171.

No mesmo dia (30 de Agosto de 1903), no ECHO DO TEJO, com o título “Literatura no Sardoal”: 

Um sardoalense, ilustre por certo, firma uma correspondência daquela vila que, sem ofensa para as prosápias de ninguém o eleva, afirma e consagra no conceito público. A literatura e o nível social foram sempre companheiros inseparáveis de modo que as fulgurações da primeira seguiram de perto e em todos os tempos, a elevação do segundo.

Por isso, quando há dias um amigo nos disse que no Sardoal tudo aquilo estava putrefacto, nós acreditámos que a arte literária daquelas paragens lhe viesse dar razão. Vemos, porém, com surpresa que aquele nosso amigo é um pessimista de alto calibre e teremos o cuidado de dar, de ora em diante, um certo desconto às suas afirmações que, não sendo de todo o ponto inexactas, são todavia vistas por um prisma de tons carregados, que os acontecimentos  não justificam. Passando em revista o cuidado, o talento e sabedoria que transuda da peça literária que ele engestou no ‘carnet’ dum jornal monárquico-republicano de Abrantes, nos chegamos à conclusão claríssima de que há no Sardoal energias intelectuais de graxa luzidia, que ali não falta quem possa e quem queira tratar, com saber e entendimento, da grave questão social que na actualidade assoberba os grandes espíritos do velho mundo.

O literato de polpa, é sem dúvida daqueles diante dos quais é forçado tirar-se o chapéu. Isso fizemos e do alinhavamento do nosso elogio, creio que é genuflectido, pena na mão direita e indicador da esquerda dirigido para o Sardoal, que prestamos o preito, como nos cumpre, ao fecundo e erudito sardoalense que só agora, tão tarde, deu sinal da sua existência. Voltaire e Agostinho de Macedo, Hipócrates, Augusto de Lacerda, Palito Métrico, João Felicíssimo e Bivar Salgado - eis a lista dos grandes pensadores antigos e modernos que o distinto cultor das letras do Sardoal invoca numa suite e encadeamento de ideias que nos encanta e arrouba durante a leitura. Um jogador de bridge não lida com mais conhecimento os seus trunfos do que este respeitável cidadão português de quem temos pena de não saber o nome para apontar com recolhimento à consideração dos nossos conterrâneos. Mas é sempre assim. Alberga-se por via de regra a modéstia na casa da sabedoria e não nos é, por isso, permitido ir mais longe do que dizermos que no Sardoal há um sardoalense que pode e deve alhear-se, por alguns instantes da sua vida privada para dedicar as locubrações do seu intelecto polido e facetado aos altos interesses dos povos desta região.

Com uma entidade desta natureza, não há município que tropece, nem terra que não se levante. Nada, portanto, de egoísmos. Os grandes homens deixam de pertencer a si mesmo, quando a falta de humanidade reclama a sua presença e o seu concurso. Que nas próximas semanas continue a ilustrar a sua terra, tornar mais conhecida a sua ciência e a fazer brilhar o periódico que escolheu para os seus primeiros ensaios, que, por serem ensaios têm já perfil de águia - real.


P.S. - No nosso profundo respeito tomamos a liberdade de lembrar ao nosso desconhecido mas abalizado sardoalense um tema contra o qual se pronunciou o falecido Leão XIII e outros intelectuais do século presente -

Queremo-nos referir ao duelo. Bom era que se protestasse energicamente contra o desaforo que tenta alastrar pela região e que castigasse severamente com a sua pena os atrevidos que ainda hoje têm os lábios entreabertos no riso alvar com que receberam o desafio de uma menino de meia pelo meio da perna.

Ou o duelo tem razão de ser ou não tem. Se tem, tanto pode desafiar um homem sisudo, como uma criança de colo. E neste sentido é que achamos conveniente uma razão dos seus preceitos. Porque se é certo que dantes, só os homens de barba rija, brandiam uma espada, não é menos certo que le monde marche” e que uma modificação nas leis do duelo se torna, por isso, urgente.

Também, dantes, só aos 14-15 anos se sabia ler e escrever e contar e hoje qualquer petiz, ao sair do ventre materno se atira à mestra redonda, como se fora homem feito! Porque hão-de, pois, rir os atrevidos e ignorantes?

Aberrações de sentir que é preciso amputar e é aos escritores que incumbe tratar a questão.

A questão tinha o seguinte desenvolvimento, no mesmo dia, no “Jornal de Abrantes”(30/08/1903):   

Sardoal - Correspondente

Em último número do ECHO, diz-se com certo ênfase que o Sr. Victor Mora é um dos filhos que mais o honram.

Isto de honra é como cada um a entende. Ainda não há muito que à nossa vista uma pobre tolerada se pôs entre bicos de pés, batendo com a mão no peito, ao mesmo tempo que redarguia a quem lhe tinha chamado... o seu verdadeiro nome: tenho muita honra nisso!... Vê o ECHO de Hipócrates, que por infelicidade nossa, temos de suportar durante algum tempo um filho desta terra, cuja passagem à história cá do burgo deve registar nos seus anais e vê isto tudo, sem dúvida pelo mesmo motivo porque o D. Quixote de Cervantes, via nos moinhos inimigos que combater.

Nós que não fazemos uso do prisma pelo qual o ECHO vê as coisas, também alguma coisa lobrigamos no tal honroso esculápio e disso vamos dar conta aos que nos derem a honra de nos ler.

Clinica, Sua Excelência, com frequência, por Alcaravela e agora mais que nunca. A tabela Camarária pela qual o Hipócrates devia pautar a sua ganância prescreve que o médico municipal exija 720 réis, quando chamado a esta freguesia. Pois querem saber o que faz o esculápio espertalhão?...Exige efectivamente 720 réis ao doente que o mandou chamar, mas continua a receber igual quantia por cada receita que na mesma ocasião seja convidado a fazer a outro doente da mesma casa do primeiro. Como podemos citar nomes, se quiserem.

Quer dizer, continua a pagar-se de um caminho que não andou o que, como vêm é um processo muito limpo de arranjar cobres para combater o mildium das suas vinhas...

Dizem que o povo de Alcaravela censura acremente este procedimento e até já pensou em vir apresentar à Câmara o seu justo protesto.

Também, não há muito, o Hipócrates, que no dizer do ECHO, muito honra a sua terra, exigiu, por uma receita feita nesta vila a uma pessoa do Tramagal, 500 réis, quando a tabela camarária manda levar 120 réis!

Na Quinta da Madalena, próximo desta vila, o tal faz a honra, etc..., praticou uma proeza no mesmo gosto de Alcaravela.

Note-se, porém, que o sapientíssimo esculápio, faz tudo isto em virtude de uma interpretação que ao seu belo prazer dá à tabela camarária, sendo muito para notar que os médicos que precederam o Sr. Mora na clínica sardoalense -NUNCA - procederam como sua Exª. está fazendo.

E é um esculápio destes, tão desinteressado, que o papel do Tejo, no seu último número acha capaz de levar a opinião pública a impor à Câmara agarrada a caducas tradições, etc....!

Aqui, hay que distinguir.

Se o ECHO entende por opinião pública o que São Hermeneuta quer, falta indignamente à verdade, porque nesta vila, não se dá o que o papel afirma; se porém o ECHO julga que a opinião pública é aqui representada pelo Hipócrates com os seus poucos e desvalorizados satélites, tem então razão, passando, neste caso, a opinião pública a ser, como Pascal a define: - uma esfinge com cabeça de BURRO - uma alusão mioleira dos hermanos.

Prometeu, há pouco, em carta enviada a este jornal, o Dr. Victor Mora responder à local aqui inserta com a epígrafe “PENDÊNCIA DE HONRA”. Procede Sua Exª., como deve e desde já lhe prometo vir em seu auxílio fazendo a história do bengalão, assim como desfiar meticulosamente aquela históriazinha dos três que o ex-republicano se gabou de levar na caixinha. O truanesco esculápio pode ir já afiando os dentes para um bom acepipe - de que há-de gostar, tenho a certeza.

No mesmo número do “JORNAL DE ABRANTES” e sobre o mesmo assunto, vêm outras três notícias:

PRIMEIRA:

Retirou daqui para Ponte de Sor, onde foi fixar residência e onde foi provido no partido médico municipal daquele concelho, o Sr. Dr. João Felicíssimo que durante o tempo que nos deu a honra da sua apreciável  convivência, não posso deixar de confessar, que muitas vezes demonstrou lhaneza do seu trato e os elevados dotes de um coração bem formado e de uma inteligência rara.

Como homem e como médico, Sua Excelência conquistou gerais simpatias  em todo o concelho.

E por isso e porque a saudade não pode eximir-se por quem, tão distintamente e como nenhum outro, soube conquistá-la, digne-se pois V.Exª., aceitar semelhantes manifestações do nosso prazer, singelo como é, despida de lisonjas que a ataviem, mas encimada pelo sentimento de despedida e pelo esplendor da sinceridade.

Sardoal - 27-08-1903

Um Sardoalense

SEGUNDA:

CONCURSO: A Câmara Municipal devidamente autorizada, faz público que se acha aberto o concurso por espaço de 30 dias, a contar da 2ª publicação deste, no Diário do Governo, para o provimento do lugar de facultativo do partido deste concelho, com sede nesta vila, com o ordenado anual de 270$000 réis e pulso sujeito à tabela camarária, com as obrigações impostas no artº 125º do Código Administrativo e Regulamento de Saúde.

Que da mesma forma se anuncia que a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia proverá o lugar vago no seu Hospital pelo facultativo que for provido no partido municipal com o ordenado de 45$000 réis, sujeitando-se ao regulamento dietético e ao desempenho de serviços profissionais.

Os concorrentes deverão apresentar nesta Secretaria no referido prazo, os seus requerimentos acompanhados dos documentos que por lei são exigidos. Sardoal e Paços do Concelho, 20 de Agosto de 1903.

O Vice-Presidente: 

Júlio Bivar Xavier de Azevedo Salgado

TERCEIRA: 

Correspondência do Sardoal - Publicação de documentos.

Pelo Sr. Dr. Victor Mora, do Sardoal, nos é pedida a publicação da seguinte carta e mais documentos:

Sr. Redactor do “Jornal de Abrantes”

Como prometi, peço a V.Exª, a publicação seguinte e documentos comprovativos, referente à local Pendência de honra”, em que indivíduos sem escrúpulos faltam à verdade, para fugirem ao ridículo em que se meteram, sendo a primeira vez que me vejo na necessidade de escrever para jornal, não desejo abusar da permissão de V.Exª a quem é Att. e Vn.

Sardoal, 27 de Agosto de 1903

Victor Henriques Ayres Mora

 


O Sr. Felicíssimo pediu a demissão de médico municipal, em 25 de Julho e nesse mesmo dia a Câmara deliberou dar-lha, com os vencimentos até que se ache legalmente substituído.

Não é, pois, como diz manhosamente a local, até a vaga ser preenchida. Isto foi o que lhes ensinei no meu documento que deveria ter escrito. Para ser o substituto legal e gratuito, segundo o Código Administrativo, protestei, decorridos 35 dias, sem me oficiarem em tal sentido.

Nessa sessão (30 de Julho) cuja acta se puder brevemente publicarei para melhor justificação minha - o vice-presidente, servindo de Presidente, disse tudo o que tinham insinuado e sem fundamento, em meu desabono, sendo necessário que o Exmº Administrador (que não é capz de vir a público desmentir o que digo) lhe advertisse que não se acusava um homem na ausência e onde não podia defender-se” e também em verdade lhe exigiu provas, ou testemunhas que não apresentou, por só existirem na imaginação do Sr. Vice-Presidente e seu instigador.

Informado superficialmente dias depois do ocorrido, foi isto que deu lugar a umas palavras acres, no estabelecimento do Sr. Tramela.

     Por isto vê o Sr. Redactor como a falta de senso anima os detractores da honra alheia a virem a público deturpar os factos, sem pejo de serem desmentidos como caluniadores, dizendo que insultei o Vice-Presidente pela resolução da Câmara ao pedido do Sr. Felicíssimo.

É desta espécie a gente que provoca e à resposta se diz agravada:

- João dos Santos Pereira, notário público neste concelho de Sardoal, certifico e dou fé que por Victor Henriques Ayres Mora me foi apresentado um requerimento e certidão de parte de duas actas da Câmara Municipal deste concelho, requerendo-me que lhe passasse, por certidão apenas parte da certidão da segunda: Inácio Maria Xavier de Oliveira, secretário proprietário da Câmara Municipal do Concelho de Sardoal - Certifico que revendo o livro das  sessões da Câmara Municipal, deste mesmo concelho, dele me consta achar-se lançada a acta da sessão de 25 de Junho de 1903 em a qual, na parte respeitante a deliberações provisórias, consta o seguinte:

Ao requerimento do facultativo deste município Dr. João Felicíssimo, com a data de 25 do corente em qual pede demissão do seu cargo, deliberou a Câmara deferir-lhe nos termos requeridos, ficando, contudo o requerente sujeito ao serviço clínico deste município, com os respectivos vencimentos até que se ache legalmente substituído. Deliberando, outrossim, pedir a necessária autorização para ser posto a concurso o partido vago pela demissão do facultativo.

E por ser verdade, do referido, passo a presente certidão que assino e ao próprio livro de actas me reporto, a qual vai sem borrão, entrelinha, emenda, rasura ou coisa que dúvida faça e vai por mim rubricada.

Sardoal e Paços do Concelho, 5 de Agosto de 1903 e eu, Ignácio Xavier de Oliveira, Secretário da Câmara que subscrevi e assino.

O Secretário da Câmara Municipal Ignácio Xavier de Oliveira, sobre dois selos de 100 réis, legalmente inutilizados. Foi paga a Contribuição Industrial no valor de 45 réis, lugar em branco do selo do concelho do Sardoal. Está conforme o original na parte  requerida - Sardoal, 25 de Agosto de 1903. E eu, João dos Santos Pereira, substituto do Notário que a subscrevi, numerei, rubriquei e assino. (segue reconhecimento)

 

Exmº Senhor Amigo Sr. Dr. Victor Henriques Ayres Mora

Em resposta à carta de V.Exª de 25 do corrente, sou a dizer-lhe que foi verdade em sessão de 30 de Julho último o Exmº Sr. Vice-Presidente da Câmara proferir algumas palavras em desabono de V.Exª, ao que respondi que apresentasse provas, dizendo Sua Exª, que falava por informações particulares, do que tornei a responder que por informações particulares, não se deviam fazer acusações, não se deviam fazer acusações e mais objecções como deve constar na acta.

De V.Exª Att. Vnre mtº obrigado

26-8-903

António Carvalho Tramela

 

Sr. Redactor

Surpreendido pelo que vi no vosso muito lido “JORNAL DE ABRANTES”, de 16 do corrente mês, de que o Exmº Sr. Dr. Victor Henriques Ayres Mora, nada respondeu ao repto que lhe haviam lançado, apresso-me a fazer esta pública declaração, para com ela desvendar tudo o que se possa relacionar com a quebra de dignidade, de receio que lhe querem imputar.

Eis a verdade:

Tendo sido procurado em minha casa pelo Exmº Dr. Mora, no dia 11 do corrente pelas 9 horas da manhã, a fim de em companhia do Sr. Jacinto Dias Milheiriço e na qualidade de seu comissionado, resolvermos uma pendência proposta pelos Exmºs Srs. José Alexandre David Pinto Serrão e Dr. Eusébio Tamagnini, como comissionados do Exmº Senhor Júlio Bivar Xavier Salgado, que se dizia ofendido por uma questiúncula de palavras trocadas entre eles constituintes, fui procurar, no mesmo dia 11 do corrente pelas 12 horas da manhã o Senhor José Alexandre P. Serrão, expondo-lhe que estando ausente naquele dia o comissionado meu colega lhe fazia ciente que o meu constituinte nos tinha nomeado seus comissionados para tal fim e portanto depois de consultar o seu colega, indicassem o local e quando deveríamos reunir para resolvermos.

Em resposta o mesmo Sr. José Alexandre D. P.Serrão, obtive que eles comissionados, já tinham declinado o seu mandato, por ter expirado o prazo de 24 horas que é da praxe para estes casos; observei-lhe se na conferência que tiveram com o meu constituinte se lhe tinham marcado tal prazo, respondeu-me que não.

Em seguida adverti mais: em terras como esta onde todos são amigos e não tem havido pendências desta ordem, o prazo como não tinham fixado, não havia razão para existir e, portanto, que fizesse ciente ao Exmº Colega comissionado e ao seu Exmº Constituinte, o para o que o tinha procurado e pela declinação que dizia haverem feito, muito me parecia isto uma simples comédia.

Acto contínuo procurei o meu constituinte a quem transmiti o que se havia passado, aguardando-se qualquer resolução.

Creia Sr. Redactor ser esta a expressão da verdade que claramente evidencia o meu constituinte não ter ficado silencioso e pelas publicações destas poucas linhas que vão um pouco retardadas, por ter estado ausente, muito grato lhe fica, quem é, com toda a estima e respeito.

Sardoal, 24-8-903

Francisco Augusto Simões.  

 Jornal “ECHO DO TEJO” - 6 de Setembro de 1903:

COISAS DO SARDOAL

Depois das cenas ultimamente passadas no Sardoal, em que por vezes o romantismo se reúne ao cómico, julgávamos nós que os senhores da Câmara e seus sequazes, se metiam em copas, pedindo a Deus que ninguém lhes bulisse.

Não sucedeu assim e não sucedeu devido talvez a carências de bons conselheiros que tanta falta fazem a cérebros não amadurecidos que ali predominam. Os homens botam prosa em letras redondas. Claro que o jornal escolhido foi, não podia deixar de ser o HYBRIDO. É um vivente de estômago superior a qualquer ruminante; podem, portanto, os seus tratadores deitar para lá alimentos de qualquer ordem, que tudo digere. Há glândulas para tudo segregar. Dêem-lhe como alimento a pena do Avelar, de mistura com os bigodes do Azevedo Gneco, que nem por isso deixarão de se executar rápidas funções digestivas, nem a corpulência de tal gigante, de operar simulações. O que ele quer é encher-se. Para isso convém agradar a gregos e a troianos. Se algum dia se visse em colisões (que ninguém o  meta em tais apertos) ver-se-ia, então, para que lado a tripa puxava. Agora mereceu uma difusa correspondência do Sardoal a ajudá-lo no seu trajecto doloroso. Compete-nos responder? Não, que ele não exige resposta. Fala em calúnias e não as aponta. É um regalo pegado contra os que não fazem festas ao menino Júlio e os que não concordam com o Sr. Felicíssimo de saudosa memória, sendo médico demitido e continuasse a ser em efectividade. Depois de falar de máximas de Voltaire com o qual está de acordo - e se não estivesse o que seria da escola racionalista? E o dizer que nós estamos para o Sr. Felicíssimo e Salgado, como o Alcorão está para o toucinho, para receber ao cosmos que o Sr. Dr. Mora há-de ser apeado do seu pedestal e deixa ver nas entrelinhas para poder realizar acção tão nobre, vai transformar o Sardoal em principado, no que ele correspondente, será o chefe supremo.

Então sim! Então é que se há-de empunhar corajosamente a vara da justiça. Mas venha cá esse correspondente! Diga-nos de sua justiça, deixe-se de devaneios. Mais factos e menos citações avulsas que nem sejam a revelar erudição. Ou compraz-se em citar José Agostinho?     

Ao jornal onde botou figura também lhe deve agradar isso. Não se assemelha em talento, mas fazem lembrar em carácter e em constituição estomacal. O autor dos “BURROS” também foi biforme. Mas sucessivamente - Deixava de ser miguelista, para logo ser liberal.           

Depunha o hábito para tomar o calor alto e vice-versa, mas não conseguia ser nem uma coisa nem outra ao mesmo tempo, por onde se vê que o homem dos burros não dá pelos tacões aos ancestrais republicanos regeneradores. Demais, o carácter de José Agostinho, embora não se desculpe explica-se. Viveu, como decerto o correspondente sabe, num período de transição entre o miguelismo e o liberalismo. Foi, portanto, um reflector da época em que viveu.Julgar-nos-á, também o JORNAL DE ABRANTES e seus colaboradores num período de tansição entre a regeneração e a república? Diz também o furibundo inimigo do ECHO, que este jornal é órgão do partido progressista, como podia ser do comércio. E sê-lo-ia sem desdouro, por mais que o correspondente pareça oprimido. Olhe que é um bom elemento do progresso que muito respeitamos e defendemos sempre que necessário for. Simpatizamos com os que trabalham ao mesmo nível que antipatizamos com os parasitas. E até o correspondente de O SÉCULO, quando pensa a sério é da nossa opinião.

Mas compreendemos: Sua Senhoria quando escreveu estava de maus humores com o Sr. Tramela que pertenceu à classe e tem sido a alma danada a fazer fogo ao Dr. Victor Mora. Admira o mesmo correspondente que o Sr. Dr. mora tenha sido republicano em estudante e combata agora alguns regeneradores. Não pode ser! Isso é uma vergonha. Os novos republicanos têm obrigações, do dizer dos escreventes do híbrido, de ser regeneradores, senão com o correspondente se hão-de haver. Para o Sr Dr. Victor Mora ser um republicano, fica intimado pelo correspondente do Sardoal, a imitar o jornal onde o mesmo correspondente estrabucha defender, com afinco, o Partido Regenerador! Depois lá vem um bocado de erudição alheia e também engasta na sua prosa uma frase de Júlio Correia de Lacerda, que até parece o correspondente fazê-la sua e falar a sério.

Não depõe a pena sem dizer que no Sardoal se afirma com desassombro que o Sr. Dr. Victor Mora escreve para o nosso jornal. Não sabíamos que para uma coisa dessas era preciso desassombro. Conclui por ralhar com o Sr. Tramela porque não sabe gramática. Deixe-o lá entregue ao seu comércio e ao seu zelo que há mais devia ter demonstrado pelos interesses municipais. Repare que não é só gramática que o Sardoal precisa, o que eles reconhecem, os padrinhos de sua senhoria que não têm concorrido muito para a sua difusão. Esperamos que voltem! Au revoir!

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É tal a simpatia que o físico Felicíssimo gozava no Sardoal que, no dia em que retirou para a Ponte de Sor, foram deitados ao ar alguns foguetes em sinal de regozijo. Entretanto os seus Tamagninis, proclama com um 2º Nuno. E gozava gerais simpatias, com aquelas que tem conquistado o sardoalense adoptivo.

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CENA POUCO EDIFICANTE

O Sardoal foi há dias teatro do seguintes espectáculo:

No dia 31 de Agosto último, quando o Sr. Dr. Victor Mora se encaminhava para sua casa, dirigiu-se-lhe o Sr. Eusébio Tamagnini, perguntando-lhe se era a ele que se referia uma local inserta no último número do ECHO DO TEJO, sob a epígrafe -Pendência de honra- Como o Sr. Dr. Mora respondeu afirmativamente tentou agredí-lo. O Sr.Dr. Mora cai então sobre o seu adversário, derruba-o, conserva-o estatelado no chão, completamente subjugado, até que uma alma caridosa o foi tirar debaixo dele. É para louvar o sangue frio e a prudência de que se revestiu o Sr. Dr. Mora, pois bem podia ter feito num feixe o seu contendor.

Lamentamos o facto sobretudo pela sua origem que é o cúmulo da insensatez e do ridículo. Contudo manda a verdade que se diga que não foi o Sr. Dr. Mora que provocou a questão cujo desfecho deixamos relatado.

JORNAL DE ABRANTES” - no mesmo dia, 6 de Setembro de 1903  

SARDOAL - Pendência de honra

Meu Amigo Manuel de Oliveira Neto

Digno Redactor do JORNAL DE ABRANTES

Permite-me que, pela primeira vez, venha rogar-te a fineza de te dignares a conceder-me a publicação de umas linhas no teu Jornal de Abrantes, necessárias agora com a aclaração a uma carta publicada no teu jornal do dia 30 de Agosto último e também no nº 134 do Echo do Tejo, assinada pelo ExmºSr. Francisco Augusto Simões.

Sardoal, 2 de Setembro de 1903 

a) José Al. D.P.Serrão

Por declaração do Sr. Francisco Augusto Simões e que estão expressas na carta a que me refiro, sei que Sua Exª., me procuraria na minha casa às 12 horas do dia 11 de Agosto último, mas é certo que só me encontrou, acidentalmente no edifício dos Paços do Concelho, às duas horas da tarde e foi então que me comunicou a razão porque me procurava.

Ouvindo-o, ponderei-lhe que não podia atendê-lo em tal assunto, porque à uma hora da tarde daquele dia, havendo decorrido 48 horas precisas, após a entrevista que o Sr .Dr. Eusébio Tamagnini Barbosa e eu tivemos em casa do Exmº Senhor Victor Mora com este Sr. (à uma da tarde do dia 9 de Agosto) sem que fossemos procurados por sua Exª., para se entenderem connosco acerca do assunto que determinara aquela entrevista, havíamos declinado, como nos cumpria, o mandato que nos fora conferido pelo Sr. Júlio Bivar Xavier Salgado e que nesta resolução déramos conhecimento ao mesmo senhor, à uma hora da tarde.

Perguntou-me, ainda, o Exmº Senhor Francisco Augusto Simões, se havia estabelecido prazo para se reunirem e conferenciarem os comissionados do Exmº Sr. Júlio B.X.Salgado e as pessoas que o Exmº Sr. Dr. Mora nos prometera mandar, ao que respondi que precisamente pelo facto de tal prazo não haver sido determinado, nos competia acatar e respeitar o de uso e costume em casos desta ordem.

Assim terminou o motivo especial da nossa entrevista, seguindo-se-lhe, porém, considerações de carácter particular, que o Exmº Sr. Francisco A. Simões e eu trocámos. Estas, pela sua natureza, não são, nem podem ser assunto de referências noutro campo, como também entendo que conhecida a minha intervenção não assiste o direito de apreciar e comentar o que as ocorrências anormais que originaram resoluções anormais, também. Refiro-me às razões que determinaram a Pendência de Honra.

Como os poderes do mandato especial, de que estava incumbido, para mim cessaram com a desistência do Exmº Sr. Dr. Eusébio T. Barbosa e eu fizemos, desistência que julgo ser devida e honrosa.

Julgue as considerações que deixo escritas, quem tiver competência para o fazer com mais acerto.

Por mim, não voltarei mais a ocupar-me do assunto.

a) José Alexandre David Pinto Serrão

 No mesmo jornal e no mesmo dia:

Ainda a pendência de honra.

Pedem a publicação da seguinte carta.


Sr. Redactor

Embora tenha uma certa repugnância em mexer mais na questão em que me é forçoso envolver, a verdade pede que venha relatar as falsidades em que o número 171 (30 de Agosto de 1903) do seu muito conceituado jornal vem escrito a tal respeito.

Foi o Sr. Victor Mora, procurado em sua casa por mim e pelo Exmº Sr. José Al. D.P.Serrão, no dia 9 de Agosto p.p. pela 1 hora da tarde e aquele senhor não só não negou ter dirigido ao Exmº Senhor Júlio B.X.Salgado, as palavras pelas quais este senhor lhe exigiu uma reparação, como até acrescentou que podia ter dito mais, pois nessa ocasião se achava exaltado. É, pois, evidente que o referido Sr. Victor Mora reconhecia ao Sr. Salgado a qualidade de ofendido nesta pendência.

Por esse motivo os dois primeiros documentos que o Sr. Mora publicou, em nada justificam o seu procedimento pouco correcto para com as testemunhas do ExmºSr. Salgado, pois ainda que o Sr. Mora não visse nesse senhor o ofendido, nem por isso deixou de cometer uma falta competente, como lhe cumpria pelas suas.

O terceiro documento (a carta do Sr. Francisco Augusto Simões) vejamos o que vale como defesa do Sr. Mora.

Em primeiro lugar é ela redondamente falsa no que encerra de mais importante, isto é, na parte respeitante à honra em que o Sr. Simões diz ter feito ciente do seu mandato o Sr. José Alx .D.P.Serrão, porquanto já passava das duas da tarde do dia 11, quando tal sucedeu e não ao meio dia, como o Sr. Simões se refere.

Parecia, talvez, que uma pequena diferença de tempo nenhum valor tenha, mas desde que se saiba que à 1 hora da tarde desse mesmo dia 11, quando expiradas 48 horas - o Exmº Senhor Salgado recebia a carta em que o nº 169 deste jornal veio publicada, essa diferença insignificante ganha de tal maneira vulto que as testemunhas do Sr. Mora, perdem, obviamente, de vez, toda a oportunidade de procurar as do Sr. Salgado, cujo mandato já tinham declinado de si.

Por outro lado permite-se o Sr. Simões apreciar na mesma carta a questão de prazo em pontos de honra.

Porquanto não reconheça ao Sr. Simões competência para tal fazer, não era a este senhor, mas sim ao seu constituinte, a quem assistia o direito e o dever de justificar a falta de delicadeza que usou para com as testemunhas do Sr. Salgado.                                                                                        

Se o Sr. Victor Mora, não tem conhecimento dos deveres que a sociedade impõe a cada um, compre um código de bomtom; e, se não quer ouvir frases pouco agradáveis, quando é indelicado e incorrecto, faça uso desse código, como as pessoas de bem que se prezam da sua dignidade.

Eu e o Exmº Sr. José Al.D.P.Serrão, esperámos pelas testemunhas do Sr. Mora, 48 horas e mais não esperámos porque éramos criados de Sua Excelência.

Creio ficar, assim, restabelecida a verdade dos factos, não sendo porém motivo para me admirar que o Sr. Mora venha ainda a público tentar desvirtuar o que deixo dito.

As pessoas de bem julgarão, em tal caso, da justiça de cada um.

Pela publicação destas linhas se confessa muito agradecido, que é de V.Exª., etc.

Sardoal, 3 de Setembro de 1903

a) Eusébio Tamagnini

 Ainda no “JORNAL DE ABRANTES”, do mesmo dia 6 de Setembro de 1903:

SARDOAL - Correspondência

Em último número deste jornal, ejacula, como prometera o Sr. Dr. Victor Mora, numa prosa embandeirada em arco, uma desgraçada defesa, publicando, à guisa de documentos justificativos do seu proceder para com o Sr. Salgado, uns escritos tresandando a pano crú e marisco, cuja importância para o caso vamos ver.

Hoje ocupar-nos-emos da carta do Sr. Tramela, sem levarmos em conta o este senhor não saber escrever duas linhas com jeito...

 Este documento, depois das acusações por nós feitas na última correspondência, ao Sr. Dr. Mora, fica reduzido a zero como defesa do espalhafato - nome por que o ex-republicano começa a ser conhecido na Vila - servindo apenas para provar quanto o Sr. Tramela compreende mal a missão que lhe foi confiada.

Assim, se o Sr. Tramela em Câmara pretendeu tratar da conveniência de todos os munícipes de preferência às do Dr. Espalhafato, não carecia de mais provas para ver a justiça que havia nas acusações que o Sr. Vice-Presidente da Câmara fez ao Sr. Mora, visto eu não poder admitir que o Sr. Tramela ignorou os factos por nós relatados no último número deste jornal, que foram os mesmos que o Sr. Salgado ponderou em Câmara - quando todo o concelho os conhece e se levanta indignado contra o Sr. Dr. Mora.

Ora oiça, Sr. Tramela: se o homem deu provas, com que direito é que o Sr. Dr. Mora, no Monte Cimeiro, em casa de Jacinto Lopes exigiu ao pai e ao filho - doentes da mesma casa 1$440?!!!

Com que direito é que o mesmo senhor exigiu, ainda no p.p. domingo a Francisco António Passarinho, de S. Simão, 200 réis por uma receita no seu consultório? Com que direito recebeu o Sr. Mora de Francisco Lopes Ignez, dos Valhascos, 500 réis pela visita e mais 120 réis pela receita?

O Sr. Dr. Mora que à última hora se mostra tão cioso da sua integridade moral, publicando documentos para inglês ver, que nada depõem a seu favor, antes pelo contrário. Devia também arranjá-los para provar a falsidade do que vimos relatando. Está sempre pronto a sacrificar-se até em defesa do Dr. Espalhafato, uma vez inteirado dos factos referidos, digne-se ler a acta da sessão de 28 de Agosto de 1902 que assinou, da qual consta o seguinte, que vai com vista às algibeiras de todos os munícipes e não munícipes. Perceberá, (o facultativo) 270$000 do cofre municipal e 120 réis por cada receita que fizer  às pessoas que o consultarem na sua residência; 240 réis por cada visita que fizer na Vila, incluindo a receita; 480 réis por cada visita clínica que fizer nas povoações rurais até à distância de 3km; 720 réis por cada visita clínica nas povoações rurais a mais de 3 km; em qualquer dos últimos casos, no preço da tabela é compreendida a receita.

Pelo exposto, veja-se como o Dr. Mora vem cumprindo a tabela, fazendo-lhe a seu talante e em seu proveito todas as alterações que lhe apraz.

Promete sua excelência no último número do ECHO mostrar quem é que protesta pelas algibeiras mais algumas virtudes do ídolo, etc. - como se as faltas dos outros - a existirem - pudessem justificar as suas, que, nem somenos de gravidade.

Ficamos, entretanto, aguardando a prosa do Sr. Mora que, por certo, nos vai dar ensejo para trazermos a público outros muitos factos edificantes que, como os já aqui registados, ficarão constituindo a odisseia de Sua Exª.

Oxalá que a Câmara vá tomando os factos apontados no devido peso, a fim de, com justiça e sem perda de tempo, para demitir o antipático facultativo, com o que muito tem a lucrar a... higiene  do concelho.

Em um artiguelho do Echo do Tejo, intitulado a Literatura do Sardoal”, referem-se à nossa humilde pessoa, convidando-nos a fim de nos virmos a ocupar de duelos em geral.

Sem nos ser preciso pedir lanterna emprestada a Diógenes -mais um para a lista do Echo, percebemos a intenção do convite e por isso não chucha o articulista aletrado a nossa anuência.

Mas o desapontamento não será de toda a linha, porquanto alguma coisa vai chuchar.

Diz no Echo que o Sr. Dr. Mora foi desafiado para um duelo com um menino de meia pelo meio da perna, etc., etc., etc...

O Echo não pensou, por certo, que a sua afirmativa só iria cobrir de ridículo o Dr. Esculápio, que faz honra, etc., e eu digo porquê.

O Sr. Mora de há muito era visto a passear pela Vila acompanhado do seu inseparável chapéu de sol - único amigo leal que aqui conta - sem dúvida para garantir a alvura imaculada da  cútis finíssima de Sua Exª.

Quer saber, agora, o Echo o que aconteceu ao tal chapéu desde que o seu dono foi procurado pelas testemunhas do Sr. Salgado? Foi atirado para um canto, como um objecto inútil e o Dr. Espalhafato demandou bastante à hilariedade. Apareceu-nos, desde então, na rua, com espanto de todos, com um descomunal bengalão que, evidentemente, já serviu de tranca a alguma porta!

Ora, hão-de concordar que tal aparato bélico para uma criança de colo é ‘trop-fort’.

Ou isto é próprio de duelistas que blazonam de valentes?

Também desejamos ouvir a opinião do Echo a este respeito.

Até breve...

Um Sardoalense

No dia 13 de Setembro de 1903, a questão continua no ECHO DO TEJO, com o título “O Sabichão do Sardoal”

Nos dois últimos números do híbrido tem o correspondente do Sardoal, continuado a revelar às massas quanto é capaz um cérebro bem organizado. Com respeito a citações de literatos seus familiares vai em progressão decrescente. Não queremos, com isto, negar a vasta erudição de tão conspíquo mortal; as memórias privilegiadas têm as suas fronteiras mais amplas, mas que nem por isso deixam de ser limitadas. Demais deixou o ecletismo para atender a originalidade: pôr de parte os outros , para revelar o seu próprio ser.

Quis primeiro dar-nos umas luzes rudimentares do que tem sido o mundo intelectual que se estende desde o Sardoal até Atenas, para depois falar de si. Porta-se como os grandes génios que de generalidades descem à especialidade. Foi assim que fez Spencer e segundo este pensador, de igual modo se portou o universo na sua evolução. No último número fala-nos de mexilhão com a mesma sabedoria que nos falou de Hipócrates, José Agostinho ou Diógenes. Pelos modos medrou-se nalgum recinto onde o formoso marisco não era desconhecido e onde com a esquerda compulsava os pergaminhos dos classificados, ao mesmo tempo que com a dextra empunhava o canjirão. Trabalho louvável que denota amor à ciência e que só deve apreciar aqueles que depreciam o comércio. A nós nada nos consta acerca das lutas entre o Baco e Minerva e até nos parece que sempre viveram em boa paz. Uma outra manifestação de génio deste Mecenas Sardoalense é a designação com que mimoseou o Sr.Dr. Victor Mora: Espalhafato - Ninguém inventava um nome de 5 sílabas que melhor revelasse o espírito do autor. Por detrás da obra se vê o artista e o próprio meio onde vegeta. O nome aplicado a um médico que não é dos mais fáceis, bem se vê que foi inspirado pela coragem do mexilhão de mistura com os burros de José Agostinho e a lanterna mágica de Diógenes. Todos os factos têm explicação através dos seus autores. O correspondente não quis dar a conhecer à priori, mas continua a fornecer-nos inferências como os dois últimos números, é possível que em breve, servindo-nos do metro de indutivo, o possamos apresentar aos leitores. Em todo o caso ficaremos sempre com pena de não lhe conhecermos as circunvalações cerebrais. A cobertura de tais cérebros devia ser sempre de cristal e não de tecido ósseo e muscular. Mas salvo o devido respeito ao saber de sua senhoria, há um ponto em que não estamos de acordo e que também diz respeito ao Sr. Dr. Mora, para quem o correspondente não é nada complacente e nós aprovamos - A razão é porque não acreditamos que o Sr. Dr. Mora use bengala com medo do menino de fato curto e tanto que quando o tinha só a ele por inimigo, nunca largou o chapéu de sol, de que com tanta graça fala o correspondente; o inimigo que Sua Exª teme e que no dizer espirituoso do Sardoalense ilustre o obrigou a transformar em bengala a tranca da porta, é, provavelmente, a talentosa pessoa que tanto vem ilustrando as colunas do híbrido. Santo Estevão era de temer quando estava ao pé de pedras e o furibundo inimigo do Dr. Mora, não deve ser menos, quando se cerca do canjirão, da sua biblioteca clássica e ainda dos esboroados pratos de mexilhão. Ora esta tão falada bengala - tranca, serviria ao menos de fortaleza contra tantos e tão perigosos projécteis.

 

Diz ainda o enciclopédico que o Sr. Dr. Victor Mora, cada vez que faz uma receita mete a unha além da tabela camarária e a Senhora Câmara vendo os abusos do seu funcionário, permanece em silêncio. Foi preciso que o correspondente do híbrido num arrojo de hombridade que assombra, trouxesse a público tais feitos. E o Sr. Presidente até agora sem dizer nada. A favorecer com o seu silêncio os abusos dum funcionário municipal. Palmatórias com ela. Sr. Correspondente faça-lhe ouvir também a ele os gritos da sua indignação. Deite-o também a baixo do pedestal e passe-o à história.

Ah! Se o meu Mecenas fosse capaz de um tal acto de justiça! Era-lhe necessário mais esta perfeição! Mas incomoda-o, mais a pouca gramática do Sr. Tramela, quenenhum mal traz ao mundo, do que o consentimento tácito de um acto que o correspondente julga bem repressivo. Aí há, por força, narração duvidosa ou justa torcida.

Agora somos nós que desejamos ver a opinião do correspondente sobre este dilema.

No mesmo dia (13/9/903), no “JORNAL DE ABRANTES”

SARDOAL - Correspondência:

Já não é a Câmara deste Concelho que o Dr. Espalhafato tenta converter em fundo seu, mercê de alguns vereadores inconscientes. Agora quer açambarcar, o posso, quero e mando em tudo o que respeita ao hospital da Vila. Um cachopelho qualquer, baldo de senso comum, que alguém teve o mau gosto de guindar a irmão da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, lança-se às cegas na esteira do Sr. Tramela e Silva e, no último domingo, em sessão, presta-se a ler um contraproducente arrazoado, evidentemente confeccionado pelo Espalhafato, arrazoado que, embora não surtisse o desejado efeito, não se deve daí inferir que o cachopelho deixasse de evidenciar toda a sua vontade em servir os seus arranjinhos, ‘patrão’, na presença do qual, sem exagero, o engraxador pode recitar os conhecidos versos do mimoso poeta do Campo das Flores:

Não vês como sigo/Seus passos, não vês/ O cão do mendigo/Não é mais amigo/ Do dono, talvez!

Mas deixemos de devaneios como lá aconselha o ECHO precisamente no momento em que deixa de figurar com o argueiro no olho, para ver a tranca no dito. Voltemos à vaca fria, que é bem melhor que carneiro quente.

Ouvem-se por aí uns certos zun zuns com respeito a factos ocorridos no hospital desta vila, que reclamam toda a atenção, não só da Mesa da Santa Casa da Misericórdia, como das autoridades administrativas e judiciais.

E de tal maneira se vão tornando notícias, que, pelas fontes e soalheiros, o mulherio comenta-os e protesta contra o infame protagonista dos aludidos factos...

A Mesa da Santa Casa da Misericórdia, que nos consta estar já devidamente inteirada dos acontecimentos, só tem, a nosso ver, dois caminhos a seguir: Ou escorraça do hospital o autor das proezas dos três da caixinha e quejandos ou canfora a valer quem não costuma professorar das filhas de Eva. Quem desejar colher melhores esclarecimentos, dê-se ao trabalho de ouvir uma tal Maria do Silvano...

Hoje, em sessão de Câmara, houve mosquitos por cordas.

O Sr. Vice-Presidente apresentou o último número deste jornal em o qual , na nossa correspondência, fazíamos acusações sérias ao Dr.Mora.

A princípio, os satélites do Dr. Espalhafato ficaram petrificados, mas a custo o Sr. Tramela, que já está há muito, no caso daquele outro frade de quem se dizia que sempre que abre a boca ou entra mosca ou sai asneira, resolve-se a dizer que o Sr. Dr. Mora podia exigir a quantia que quisesse às pessoas  de fora do concelho, embora consultasse em sua casa, e que só um médico sem partido é que tem de se sujeitar à tabela camarária(textual).

É, uma boa aquela, esta que só per si dá jus a que todos os Sardoalenses, independentemente de cor política, envidem os seus esforços a fim de erigir a um tal edil uma condigna estátua, ao menos para os séculos vindouros se poderem extasiar, ante Golias de palmo e meio, que com a sua potente dialética fulmina os seus colegas na vereação - no mais obrigando a meter a viola no saco!...

É impagável este Tramelinha, tem descobertas admiráveis!...

Só por si faz a glória da terra que lhe serviu de berço.

Enfim, estamos para ver se na Câmara não há ao menos uma voz que se levante enérgicamente contra quem, tão cerimoniosamente, faz da bolsa do pobre Zé, roupa de franceses...

Não nos faltava mais nada...

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Como era natural o ‘papel’ do Tejo, deu-nos a honra de uma réplica.

Vejamos à vol d’oiseau”, algumas linhas da sua milionária prosa!

É um vivant” de estômago superior a qualquer ruminante.

Seja tudo o que quiser, mas note o papel que não é novidade para ninguém haver uns certos viventes ainda de muito melhor estômago, pois até chegam a digerir sem arroto - por cima - aquilo que nem os cães gostam - comida de urso.

Mas sucessivamente...

Este, mas sucessivamente, assenta ali, tão bem como rabanetes em sardinha assada. Estrangule, muito embora, o Echo lá gramática a seu talante, mas pelas cinco chagas de Cristo, não me chame biforme, ao Padre Eterno”, que foi quem fez os burros e - hermanos. Ao menos se faça ingrato.

Conclui por ralhar com o Sr. Tramela, etc....

Este por ralhar, também não deixa de ter piada, deixando-nos até precavidos para qualquer dia nos não admirarmos se virmos o Echo reproduzir em letra redonda a conhecida quadra que começa assim: O pulo que a safo, etc. - O Sr. Tramela à classe e tem sido a alma danada a fazer fogo aéreo ao Sr. Dr. Mora.

Ora sabido que o Sr. Tramela não nada de Nermond, deve-lhe ser muito custoso e penoso dar ao gatilho, mormente tendo que fazer pontaria ao físico do físico Espalhafato.

Mas afinal o Sr. Tramela faz fogo com a pistola, revólver, espingarda, canhão Krup ou serve-se por aí de qualquer assobio?

Neste último caso, abiscoita pela arte o tal alma danada as simpatias de Espalhafato, que pelos modos, in illo tempore, se contam coisas espantosas.

Ele sempre há cada aberração...

Si nom es vero.

10-9-1903 - Um Sardoalense

ECHO DO TEJO” - 20 de Setembro de 1903:

Tem corrido mundo, levando nas asas fama, o nome do nosso ilustríssimo Presidente da Câmara, o Sr. menino Júlio Salgado. O tio Paulo, o velho Kruger, ex-presidente da República do Tranvaal, lá muito longe, onde habita, teve conhecimento do nome e das últimas façanhas do menino Júlio, nosso presidente, segundo dizem. Fez-lhe impressão tal nome, ao que parece; é um jovem que em tão verdes anos tem a glória de presidir a uma câmara e aos destinos de um povo, que deve ter uma aptidão especial. Kruger pensava nessa pátria, tão querida, que lhe fugiu ou arrebataram. Pensando na triste sorte desse povo heróico que ele governou, não lhe fugiu da mente a ideia da liberdade do mesmo povo. A dificuldade toda estava em encontrar um Hércules invencível capaz de destruir os ingleses, actuais senhores da República Sul Africana.

Diz-se que Kruger ao ler o “Jornal de Abrantes”, o melhor jornal da Europa, a notícia do valor do menino Júlio, nosso presidente, o arrojo com que desafiava o Sr. Dr. Victor Mora para um duelo, que ao mesmo tempo queria dizer uma batalha, exclamou: Eurecha! Achei o libertador que eu desejava!

Consta, portanto, que Kruger virá brevemente ao Sardoal, convidar o senhor nosso menino Júlio para ir desafiar os ingleses para um duelo na África do Sul e fundar ali um império.

Consta, também, que em companhia do velho presidente virá uma comissão de Boer’s a oferecer a futura presidência da sua república ao menino Júlio quando este tiver destruído todos os ingleses.

Parece que o que mais animou Kruger a confiar os destinos do seu povo ao menino Júlio, nosso presidente, foi a grande bigodeira do mesmo menino Júlio. Kruger evoca a memória de todos os grandes homens da história que se tornaram notáveis pela sua força e vencedores dos seus inimigos. Parece que o mais notável em força e valor, foi Sansão, porque com a queixada de um burro matou todos os seus inimigos. Lembrando-se que a força daquele homem estava toda nos longos cabelos, lembrou-se que os bigodes do presidente da nossa Câmara, o menino Júlio, também significavam grande força e que esta deve estar nos ditos longos bigodes, logo por consequência, resolveu, segundo consta, vir ao Sardoal convidar o menino Júlio para o duelo referido, propondo-lhe que governasse, em seu nome, a sua pátria. Mas chegando cá a vir o Sr. Kruger, nós lembramos ao menino Júlio que lhe faça, também, uma arma igual àquela de que Sansão se serviu, isto é, as queixadas de um burro porque com aquela arma escusa o Sr. Presidente de ter medo de quantos duelos houver.

JORNAL DE ABRANTES” - 20 de Setembro de 1903:

SARDOAL - Pendência de honra:

 

Sr. Redactor

Eis-me de novo a importunar V.Exª., pedindo-lhe a fineza da publicação seguinte:

No vosso Jornal de Abrantes de 6 do corrente mês vejo uma carta do Exmº Sr. José Alexandre David Pinto Serrão, que pela delicadeza com que este cavalheiro trata de todos os assuntos, eu não deveria responder, dando por terminado o assunto, como Sua Exª. o faz; como a verdade é simplesmente sem má intenção o que na minha carta de 30 de Agosto findo escrevi, reitero todo o seu conteúdo, sem confusão e emprego de retórica, predicados que não possuo. Na parte que diz respeito a ter procurado Sua Exª., às 12 horas da manhã não pode haver contestação, sendo de facto que decorreu algum tempo em o encontrar, não podendo precisar a hora por não conferenciar o relógio, o que teria feito, se tinha declinado o seu mandato.

Se Sua Exª., quer interpretar como conversa particular o resto do que se passou, pode-o fazer, porque da mesma forma interpretarei o resto da vossa contestação

Quanto à parte que me diz respeito na carta do Exmº Senhor Dr. Eusébio Tamagnini Barbosa publicada no mesmo dia 6 do corrente no vosso jornal, cumpre-me só dizer a este cavalheiro, que é facto não ter competência para apreciar prazo em ponto de honra desta natureza, pois que a minha vida de artista nunca me deixou tempo para tais elucidações. Sá apenas e a muito custo ma deixou na folga do trabalho, tempo para apreciar os raros talentos e merecimentos, com sua exª.

A minha redondamente falsa declaração, como diz sua exª., é na verdade sem dotes literários, sem hipocrisia e sem maquiavelismo; é, repito a expressão clara de quem diz a verdade, sem intenção de ofender, sem preâmbulos, nem dotes universitários.

Termino, finalmente e publicamente a sua Exª que se entretanto, chamando à tela da discussão quem lhe iguale em talento, porque só de viva voz lhe responderei, quando pessoalmente me queira procurar.

Pela publicação destas linhas, Sr. Redactor, muito grato lhe fica, quem é com todo o respeito e consideração. C.deV.

Sardoal, 12-9-903  Francisco Augusto Simões

No mesmo jornal e no mesmo dia.

Correspondência - Sardoal

Francamente, não sabemos quem mais admirar. Se o silêncio com que o Espalhafato assiste às acusações pouco edificantes para ele, que lhe vimos fazendo, se a espontaneidade com que o pasquim do Tejo, que só por antonomásia e decoro se chama jornal, defende os seus actos pouco limpos.

Jornal e Espalhafato são dignos um do outro, não nos resta dúvida - como também não resta nenhuma a quem queira e possa compreender o que lê, que o Sr. Mora tem abusado desaforadamente da tabela camarária que lhe cumpre respeitar, como fica provado no nº 172 deste Jornal - Ainda não fomos desmentidos como diz Victor Hugo, parece sempre com a aquiescência ou uma espécie de derrota. Mas antes de prosseguirmos, diremos umas rápidas explicações acerca da moral que impulsiona o Echo a atirar-se às canelas de gente limpa que lhe faz sombra, explicações que são ciosas para muita gente, não serão por certo, para boa parte dos leitores.

Parece que alguém meteu em cabeça ao Sr. Sant’Ana Marques, director e redactor in nomine’ do papel que os degenerados filhos de Passos, no poleiro poderia ser guindado a deputado cá pelo círculo. Por isso, porém, fazia-se mister desde logo, fundar um pasquim que arrastasse fortes correntes de simpatia, devendo o nome do onerado pai da pátria, figurar no cabeçalho do papel, embora isso, aos olhos de muita gente boa, fosse dar prova do seu pouco escrúpulo moral em botar figura.

O jornal apareceu como estava na lógica do ‘credo’ político, investiu desde logo com o Sr. Avelar Machado e com alguns dos seus dedicados amigos daqui e de outras localidades, começando ao mesmo tempo a enganar por aqui e acolá uns certos políticos que, a bem dizer, em ocasião de eleições com o voto: o seu, quando têm.

No Sardoal, que é quasi na totalidade dos seus eleitores regenerador, ou, para falar com mais propriedade, só se prestaria a voltar a casaca a talante do Echo, que é para toda a gente a orla.

Lá que ele, como político, como homem, como tudo o que não valha uma de X, não arraste nem fortes, nem fracas ‘torrentes de simpatia’, isso é de somenos importância - para a gente do pasquim, pois também para aí há um chefe do partido progressista   que não passa de um chefe de si mesmo e do seu hermano e, contudo, o papel da trampa vegeta e exibe-se atiradiço, como um perro alentejano...

Acresce, ainda, a circunstância do Espalhafato só poder vir a ser um político de barriga, muito capaz de, por dá cá aquela palha, mudar de política com a mesma sem-cerimónia com que Cleópatra mudava de amante.

Autoriza-nos a fazer esta afirmativa a sua vida pública passada e presente. Ora como neste concelho dispõem de toda a influência os Srs. Salgado e Dr. Felicíssimo, o Sr. Sant’Ana Marques, no intuito de se utilizar do seu desprestígio, tratou-lhe de açular às pernes o Tartufo Sonhador de Utopias, que é quem faz no pasquim a política de soalheiro e num ‘dolce farniente’ tem gozado o espectáculo, quiçá, crendo-se já um pai da pátria, com poder para distribuir benesses pelos amigos de Peniche...

E aqui tem o público muito superficialmente explicados os motivos que têm levado o ‘papel’ a ter constantemente em foco, entre outros, alguns respeitáveis cavalheiros desta vila, conhecidos como amigos do Sr.Avelar Machado, os quais, simplesmente, por este motivo, o Echo tem esmordaçado com dentes de cebola, o que em última análise é caso para se envaidecerem, visto que no ‘papel’ se não perseguiram nulidades, mas sim só quem faz sombra, quem nunca lhe deixará vingar os planos que lhe endireitariam a vidinha...

O Echo tanto tem mostrado embirrar com o literato sardoalense, atirou-se agora à literatura como gato a bofe.

Já cita de quando em vez o seu escritorzito e até já nos levou as lampas em literatices, visto agora começar a mimosear-nos com versos da sua lavra.

Camões, Junqueiro, Mendes Leal, etc., etc., passam por ser uns borrabotas da poesia, o seu brilho ofusca-se ao assomar de Dante às colunas do zeloso defensor dos interesses e os da sua respeitável pança.

Aquelas cinco quadras de um lirismo que arrebata, duma cadência que extasia e, sobretudo, de uma mistificação impenetrável à unha da crítica, mais meticulosa, como diria Camilo, valem um soberbo poema, capaz de fazer a fortuna de um editor. Pelo amor de Deus!...

Cromotipiem-me o ‘poeta’ - se não querem, já, levantar-lhe uma estátua - diga-nos a todos o nome deste novo rei da natureza que promete fazer o que puder no sentido de colocar nos cabides da posteridade, como lá se diz, no Palito Eléctrico.

Agora reconhecemos quanta razão tinha o outro para definir valo - uma contracção de Vate e Camilo, para nos dizer que neste mundo ninguém é poeta, excepto os idiotas.

Mas deixemos o poetrastro escorcear à portas do Parnaso e calamos já de chofre sobre a coisa mais prosaica que nestes últimos tempos temos visto em letra redonda, a salsada que o Echo faz com canjirões, Baco, marisco e...o diabo que o carregue.

O articulista tem, evidentemente, o mau gosto de querer chuchar com a sua própria pessoa, para quem parece foram feitos aqueles pitorescos versos do Campo das Flores:

Clarabóia na cabeça

E quando vinho apareça.

 

O Echo enganou-se, por força do subscrito... O Literato Sardoalense não é vinhateiro, nem coisa parecida, mas tem como certo, que é mil vezes preferível passar briol a cobres, a bebê-lo em demasia...

Cá o correspondente, não pode ser arguido de devoto de S. Baco, porquanto jamais foi visto a marchar em custódia cambaleando como bêbado entre cabos de polícia... isto é próprio de certos jornaleiros, muito sabidos em tartufismo e ingratidões que não lhes dá de publicamente deslustrar a loba de dizer do poeta: um balandrau de dobras espectrais, feito para espantar as almas e os pardais.

E que fique o Echo com mais esta.

16-9-1903

Um Sardoalense

P.S. - Na nossa última correspondência, onde se lê abiscoitar pela arte, etc., etc., leia-se abiscoitar pela arte o tal ‘alma danada’ as simpatias do Espalhafato a quem pelos modos em in illo tempore, sucedem-se coisas engraçadas.

Em 27 de Setembro de 1903, apenas o “JORNAL DE ABRANTES” alimentava a polémica:

Correspondência - Sardoal

Lá por fora, quem se der ao trabalho de ler o que sobre esta, habitualmente, pacata vila se tem escrito ultimamente, concluirá, talvez, que está muito longe de desfrutar a tranquilidade tão indispensável em terras pequenas. Os factos, porém, contados desapaixonadamente, sem intensidade de cores, como não costuma a fazer o correspondente do Diário de Notícias, resumem-se nisto: Um Espalhafato burlão, velhaco e... malcriado, sem amigos leais, nem simpatias, a querer intrometer-se em tudo, a querer debalde dominar a todos e pouco mais - toda a Vila, inclusive os que o Hipócrates Espalhafato tem por seus adeptos, o conhece de sobra e é disto prova os muito poucos sardoalenses que se querem utilizar dos serviços do antipático Esculápio.

E, a maior parte, conhece-o já do tempo em que ele, quando vereador entendeu impôr-se ao ponto do que lhe valeu um belo dia sentir uma cadeira tactear-lhe os coiros - como é do domínio público.

Entretanto, quão desolador é para todos os sardoalenses amantes da sua terra assistir a uma tão inglória luta, por assim dizer de irmãos, quem só deveria ter em vista o engrandecimento da sua terra!...

A união faz a força, diz a sabedoria das nações e a boa vontade de todos, conjugada para o mesmo fim: a prosperidade do concelho.

A actual Câmara, de justiça é dizer-se, tem feito muito, é uma das Câmaras que melhor deixa assinalada a sua passagem pelas cadeiras municipais. Os dois vereadores mesmo que o Hipócrates, desrespeitador da bolsa do Zé, ali se ufana de ter, têm estado sempre ao lado do Sr. Vice-Presidente em tudo o que não seja bulir no truanesco Esculápio.

Mas muito e muitíssimo há ainda a fazer neste concelho e conseguir-se-ia, por certo, muito, se para isso concorresse a boa vontade de todos os que podem.

Sente-se a falta de estradas, de asseio, que por vezes falta nas ruas e para completar o quadro, a ausência de escolas, pois só há três no concelho: duas na Vila e uma em Alcaravela.

E quanto às estradas, uma que desta Vila há-de entroncar com a que de Abrantes vai passar a S. Domingos, está muito longe de estar acabada, apesar de começar há cerca de 10 anos!...

E já que falamos desta estrada, não perdemos a oportunidade de dizer que desde o seu começo se têm conservado nesta Vila, sem ninguém saber porquê, um e por vezes dois apontadores de obras públicas, os quais têm percebido para cima de dois contos de réis, quantia suficiente para concluir a referida estrada.

Mas como conseguir o seu acabamento se os interessados não instam para que se lhes faça justiça, se a Câmara, como o ter muito em que cuidar e uma cooperação que para aí vegeta com o basbático nome de ‘ASSOCIAÇÃO COMERCIAL’ se estatelam à sombra frondíssima da árvore da indiferença?...

Se todos continuarem a manifestar, como até aqui, uma tão acentuada vontade em conseguir a conclusão de tão importante melhoramento, não há que ver, a estrada deve estar transitável para as calendas gregas.

Oxalá que o nosso agoiro tenha de ir para bem longe, para onde não haja eira, nem beira, nem raminhos de figueira.

********************

Deve ficar, definitivamente, assente no sábado, em sessão extraordinária a nomeação do Sr. Dr. Henriques Miguens para médico deste concelho. Temos as melhores informações a seu respeito, motivo porque felicitamos os povos do concelho e Câmara, pelo acerto da escolha que fez.

O novo médico acaba de chegar a esta vila, onde se hospedou em casa do Sr. Salgado. Seja benvindo!

********************

Diz em último número do Echo que nos vimos metendo na vida privada de alguns indivíduos cá da Vila - isto por dizermos glosas de palmo e meio, não sabe gramática e quejandas ninharias.

Isto faz vontade de mandar o articulista onde o bravo Cambrone mandou os ingleses. Francamente que começamos a convencer-nos que quem, publicamente mostra fazer uso de tão disparatada hermenêutica, ainda por força, ao escrever, pela região de FALSTALF e de Maria Parda,  de Gil Vicente...Vá-se deitar, pois um bocadinho...enquanto a ervilha não enche... e apareça quando a coisa lhe tiver passado. Enquanto, porém, cura a soneca autopsiemos ligeiramente a prosa do correspondente do ‘papel’ cá da Vila, sem com isso gastarmos muita cera.

Diz ele com pilhas de graça que o Sr. Salgado deve pedir ao Velho Kruger, provavelmente no dia em que a filarmónica sair com um sol e dó, à noite, como ele diz, uma arma igual àquela com que Sansão meteu os tampos dentro aos Filisteus.

Este conselho, por mais que me digam em contrário, leva água no bico. Não é preciso ter uma intuição de Newton para se ver nas entrelinhas daquela milionária prosa que o correspondente, deve ser uma grande alma. Sonha com a imortalidade da sua preexcelsa pessoa.

Outro pobre diabo deitando fogo ao Templo de Diana obteve da história a graça de lhe registar o nome iconoclasta. O correspondente, para também passar à dita, pensa, por força no suicídio(!) que efectuará oportunamente, a fim de assim poder mui belamente legar ao Sr.Salgado uma arma igual àquela com que Sansão,  escadeirou os inimigos.

Os jornais de grande informação botam fogo logo pela certa, colunas e colunas de prosa adubada com bonecose o espírito heróico sardoalense, que não mais voltará a cintilar nas colunas do Echo, lá tem de ir passar as baixas de Charonte, deixando-nos cá neste mundo sub-lunar mais inconsoláveis do que a linha de Calipso quando Ulisses se lhe esgueirou. Não se esqueça, porém de levar a espórtula para a barqueira, que me parece que contentaria com aquela preciosa quantia que o Espalhafato tem guardada na caixinha...

Boa jornada, pois, e oxalá que os seus nomes venham cáusticamente tão cedo. - Au revoir.

Um Sardoalense

Em 4 de Outubro de 1903 - ECHO DO TEJO: 

SARDOAL.

O sardoalense vem hoje mais variado e mais brando. Não admira porque vai entrando o Inverno e, é possível que as primeiras águas lhe amaciem o pêlo ou que lhe dêm o destino dos animais de sangue frio. Mas o que hoje se perde em energias, ganha-o na variedade de assunto, onde mostra a sua erudição, ventila, triunfantemente, as questões. E o homem mete o nariz em toda a parte. Que o digam os fundilhos do híbrido, testemunha experimentada nas fulgorações do seu talento.

Por muito pacífico que se apresente, quando se trata do Sr.Dr.Mora, atira-lhe logo cum totis viribus”.

Ele anda-lhe com vontade. Se o apanha a dormir, põe em prática as suas farroncas. Mas enquanto esse dia não chega, joga-lhe a seguinte bisca: toda a Vila, inclusivé os que o Hipócrates espertalhão tem por seus adeptos, o conhece. Com que então o amigos do Hipócrates conhecem-no?... Pelos modos, os amigos de sua senhoria, o sardoalense, não conhecem as prendas da pessoa amada!... Ah! Seu manganão, que já o vemos discípulo de Calino. No fim do seu segundo pensamento apresenta-se como qualquer brigão capaz de conjugar o verbo bater na voz passiva. Em seguida apresenta-se lamuriante, exortando os seus amados irmãos ao amor mútuo. Ele é o grande pacificador que tem por bíblia o híbrido, livro que é para todos os homens, para todos os tempos e para todas as ideias.

Cada um pode dizer o que quiser. Lá está o editor responsável que tudo concilia. A união faz a força, diz ele, depois, encarnando em si a sabedoria das nações, tece em palavras repassadas de um patriotismo de antes quebrar que torcer, a sua autorizada apoteose. A administração do seu pupilo que foi boa, até muito boa, mas que segundo o mesmo panegerista teve o defeito de não pensar em estradas, nem no asseio das ruas, nem na educação, nem noutras coisas que nós sabemos. Mas ele lá vai deitando água benta...

Para justificar o desleixo da Câmara vem com um argumento ponderável aos olhos dos prudentes:

- A Câmara não tem feito nada por ter mérito de pensar; apesar de nada fazer, de justiça é dizer-se que é uma das Câmaras que melhor deixa assinalada a sua passagem pelas cadeiras municipais. Depois desta tirada, digam lá os nossos, se o Sardoalense não anda umas tantas horas do dia, pelas regiões do sublime.

Para a Associação Comercial do sítio é que ele não é nada complacente. Tomou o comércio de ponta e não o larga. Afirma, bem categoricamente que o comércio é que devia tratar dos negócios públicos. Ao que parece, na Câmara joga-se à pela e à cabra-cega.

Por fim responde ao nosso correspondente no Sardoal, não sem que nos mande ‘deitar um bocadinho, enquanto a ervilha não enche’.

- Compreendemos agora o motivo das branduras. Já não há cevada que lhe morda na barriga e, por isso, enquanto não vier outro S. João, pretende utilizar-se de ervilhas, que conquanto não seja de tanta acção, como a que vem no tempo da verdura, é possível que a mistura, com ele, provoque algumas cócegas. Ou também agora não empregamos a boa hermenêutica?

Vá... Fale, seu grande ratão!

JORNAL DE ABRANTES” - 4 de Outubro de 1903

Correspondência - SARDOAL:

O obscuro que vem atirando aos ventos da publicidade estas modestas correspondências, não é a primeira vez que se vê envolvido em pugnas jornalísticas, mas confessa que jamais viu sair-lhe à estacada polemista da polpa dos do Echo.

Na impossibilidade de nos provarem a falsidade dos factos gravíssimos que temos apontado, muito pouco lisonjeiros para o Dr. Espalhafato -Dentista, limitam-se, num contínuo meter os pés pelas mãos, a registar no pasquim, as gralhas tipográficas que vão encontrando nos nossos escritos e assim vão enchendo o ‘papel’. Camilo, na questão da sebenta, define este procedimento - a prancha podre de todos os tolos em naufrágio; e noutro livro diz-nos que grande coisa é ter lido os bons clássicos, porque isto não dá alento para atacar velhacos.

Neste humanitário intuito, vamos, pois, manusear um número do Echo que reproduziu a protesto que o Sr. Victor Mora apresentou à Câmara, protesto a que já nos referimos.

Diz lá que o Sr. Mora é um cavalheiro muito digno de aqui ser respeitado pela sua posição, pelo saber, etc...

O respeito devido à posição de cada um, é relativo. Todos dele são dignos, desde que bem comportados; enquanto ao seu apregoado saber, é melhor passarmos adiante...

No último número do ‘papel’ depois de nos aclamarem (sic) colegas de João de Deus, Camões e Junqueiro, acabou por nos pedir umas glosas.

Não são servidos, porque o público podia ver nos dois ‘poetas’, dois parvos à compita e assim só vê um competidor. E ainda que não faltasse o engenho e arte de que nos fala o autor de’Os Lusíadas’, seguindo o exemplo do Bocage, não desceríamos, nunca a fazer versos aí a qualquer.

Rente modus in rebus.

Fiquem lá os pedaços do Echo na familiaridade, dou com mel do Himeto, das Musas, que nós cá não sairemos desta prosa amarga.

Que por lá há prosadores hercúleos e poetas de se lhe tirar o chapéu.

Francamente que se admira tanto no ‘papel’ o savoir-faire em todo adorável misto de prosa e verso, que já por vezes nos têm feito lembrar aqueles pitorescos versos com que um dia Camilo presenteou o barbeiro de Amarante, que lhe pediu loas para as cavalhadas:

Uns dão coices, outros versos

Cada um dá o que tem...

Ora, como lá na redacção do pasquim há quem receite e avie, que é como quem diz, gente para dar ambas as coisas, a nós só nos resta assentar arraiais nos domínios da prosa chã, constituindo-nos, ao mesmo tempo, admiradores da versalhada do ‘papel’, a quinta essência dos primores da oitava maravilha do mundo.

Vão continuando e contem com a imortalidade...

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Também o Echo nos faz a revelação, para inglês ver, talvez de ter recebido ultimamente recebido de ‘toda a parte suetos em barda referentes aos acontecimentos desta vila e atrapalhado com o descalçar da bota de publicar tudo, atira com aquela coisa dos correspondentes que nada têm com as calças, dizendo: só publicaremos artigos da redacção e do nosso solícito (sic) apreciado correspondente. Por nós, jamais perdoaremos aos nossos patrícios o terem a petulância de fazer pia da casa d’um  ‘papel’ que, por arrastar fortes torrentes de simpatia, não se segue que haja de sujar mais os prelos com as baboseiras dos quidans que se deixam arrastar, também, pelos cantos da sereia e por via da sua falta de côco.

O Espalhafato-Dentista, o mesmo que é subdelegado de saúde por empréstimo, há que dar um sério cavacão com tamanha falta de respeito pela higiene.

Faz muito mal, entretanto, em não publicar tudo para a sua edificação e regalo da gente.

Também já estamos fartos de esperar aquela prosa em que o Sr. Mora, como prometeu, havia de provar quem é que protesta pelas algibeiras, etc.

Que isto venha tudo, quanto mais depressa melhor, são os nossos desejos e aqui os do vizinho do lado.

Ainda no “JORNAL DE ABRANTES”, de 11 de Outubro de 1903:  

SARDOAL - Correspondência

Não deixa de ser pitoresca a revelação que o Echo nos faz em último número, de a nossa correspondência lhes ter produzido o efeito purgativo das ameixas dos três ao prato que em sua opinião, empansinam, embaçam e soltam a natureza.

Sempre nos quis parecer que as suas infelizes tiradas de há algum tempo a esta parte, eram bem mais filhas da barriga do que do cérebro...

Felicitam-nos, pois, por mesmo sem querer, lhe termos sido prestáveis, congratulando-nos por o saber tido aliviado, sem gastar com o alveitar.

Mas vejamos (salvo seja) o que o patusco articulista fez - aliás no que é seu, pelo que desejamos muito bom proveito...

Todo acho, pegou na nossa correspondência inserta no nº 178 deste Jornal, copiou para o seu ‘papel’ o que lhe convinha, misturou tudo a seu talante, para alfim, chegar a considerar razões de se lhe tirar o chapéu.

Assim para nós dizermos que a actual Câmara tem prestado bons serviços ao Concelho, mas que muito mais pode prestar, concluem eles que das duas asserções se destroçam reciprocamente!... Sim, Senhor!... lá porque um camarada tenha prestado bastantes serviços a um concelho, deve daí inferir-se que nenhum mais pode prestar?...Bolas em semelhante lógica!

Ora vamos lá, cumprindo uma obra de Misericórdia, por analogias, a ver se o Echo percebe a coisa.

Imagine o articulista do ‘papel’ que o literato sardoalense vinha dizer que você é parvo chapado, ignóbil tartufo, mas que muito mais coisas pode ser: Você, a não lhe replicar com os pés, redarguia-lhe: - E você que se era parvo, não podia ser mais nada. Nós então dir-lhe-íamos que não obstante ser parvo, ‘muchas cosas más podia ser’.

Ora é pouco mais ou menos isto, a nossa questãzinha. A Câmara tem prestado muitos bons serviços, mas muitos mais pode prestar. Entendeu agora, homenzinho de Deus? E se não perceber ainda fique-se por aí as hostes dos 80 P.C., que isto não é escola.

Adiante.

Volta o Echo a falar-nos de  novo numa cena ocorrida nesta Vila entre o Sr. Dr. Eusébio Tamagnini e Victor Mora, com o já nos faz lembrar o chá do Tolentino fervido pela sétima vez.

Ainda não tocámos no caso, mas lá vou hoje.

Há pouco no número do Echo em que o Sr. Mora prometia provar quem é que protestava pelas algibeiras - fazia referências pouco lisonjeiras ao Dr. Tamagnini. Este que não pertence ao número dos patrões que se deixam esbofetear ficando mudos e quedos quais penedos, sem temer e bengala tranca e o inseparável revólver, procurou, inerme, o Sr. Mora e após breves explicações, entendeu por bem mandar-lhe para os bigodes um tabefe, que foi pena não chegasse à maculatura, linda Verónica, de Sua Exª. Os dois agarram-se, então, e os costados do Espalhafato-Dentista não tardam em tactear a calçada, contudo da contenda resultou uma beliscadura, sem deixar para alguém que estava próximo, isso evitar apartando os contendores - com o que só lucrou o Sr. Mora, pois o seu antagonista não tinha nada de poltrão, como o Espalhafato apregoado pelo Echo, assim o quer. No dia seguinte ao da contenda, o Sr. Mora achava-se seriamente atrapalhado ao ter que sair de casa para o hospital.

Lançava, amiúde, os olhos para a farmácia onde costuma permanecer o Sr. Dr. Tamagnini e ao passo que ia espalhafatando, com um ‘quidan’ vizinho da grei, a pouco de prometer, para inglês ver, espatifara tiro quem ousasse sair-lhe ao encontro, ia-se de tal maneira lívido que uma alma caridosa, condoída do Espalhafato, lembrou-lhe que seria bom ir acompanhado por alguém ao hospital.

Enfim, o dentista-pimpão dava destas provas de valentia! Ele ao que ouvimos, já tinha convidado para testemunha no duelo, o próprio Administrador do Concelho, que o Espalhafato sabia de sobra não poder sequer consentir na realização da pendência.Ele que tinha tido a genial ideia de meter o Sr. Simões a resolver um ponto de honra(?) ele que já raro saía de casa - coroava, alfim, tão alevantado proceder. Como tornar-se lívido como um hermano ou um cataplasma, após saborear comida de urso!

E aqui tem o ‘papel’ toda a luz dos factos, contados os casos em que, ultimamente, em todos os números temos visto montado como um lazarento cavalo, tornado, pela força das circunstâncias, de batalha. Isto dito, vamos referir um facto ainda fresco que, como vai ver, é muito lisonjeiro para o Espalhafato-Dentista. Quis a coisa, que há dias, ao chegar pela primeira vez a esta Vila, o Sr. Dr. Henrique Minguéns, aqui encontrasse o Sr. Dr. Felicíssimo. Este, em companhia do Sr. Dr. Matos Silva foi mostrar o hospital ao novo médico, com o qual, por sinal, ficou encantado.

O Sr. Mora, evidentemente, para fazer saber, a quem não conhecia ainda, de quanto é capaz a sua alma danada pequena e chata, dirige-se pouco depois ao hospital e, na impossibilidade de cevar a sua cólera no Dr. Felicíssimo, faz do enfermeiro bode expiatório, pespegando-lhe uma tremenda descompostura por ter franqueado entrada aos Srs. Drs. Minguéns,  Felicíssimo e Matos Silva.

O Enfermeiro queixou-se ao Sr. Provedor da Misericórdia do arrazoado soez do Esculápio pimpão, que com justiça censurou o baixo procedimento do Espalhafato e foi dizendo ao enfermeiro que nunca ao Dr. Felicíssimo se fechasse a porta do estabelecimento de caridade que tanto lhe devia e que o Sr. Mora, só está no direito de lhe proibir a entrar a quem queira nas enfermarias, não tendo que meter o nariz em casa alheia.

O facto apontado é, duplamente, significativo, daí a ideia da medida do Sr. Mora e deixa bem evidentemente demonstrada o quanto ele respeita e deseja vibrar com os seus colegas.

E é um Esculápio destes que ainda tem defensores que arrastam fortes torrentes de simpatia:Arcades ambo”.

Se nós escrevêssemos em prosa em jornal nosso, onde pudéssemos expandir-nos sempre consoante a nossa vontade, Echo e Espalhafato, haviam de ser condignamente desmascarados, sem ser necessário entrar em vida privada de ninguém - procedimento que o Echo condena, ao mesmo tempo que nos convida a assoalhar a vida íntima de um cavalheiro desta vila! É sempre a mesma desgraçada lógica. Mas como tal não se dá, antes pelo até aos nossos modestos escritos às vezes sofrem amputações que os desvirtuam e nos trazem o ânimo de prosseguir com as correspondências desta Vila, é forçoso sofrear a pena, não a deixando escalpelizar como se nos impunha, as sandices dos Rentes que por aí andam desonrando a imprensa, num grunhir apoplético às canelas do Sr. Avelar Machado e dos seus amigos políticos daqui, o que vale é que quase toda a gente que lê o ‘papel’ lhe admira aquela maneira arte-nova de fazer política e tem por ele a mesma consideração que nesta Vila se dá ao Espalhafato-Dentista.

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