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Festas do Espírito Santo ou Festas do Bodo

As festividades religiosas ou de inspiração religiosa tiveram sempre uma grande tradição no Sardoal, sendo uma das mais importantes, senão a mais importante, a FESTA DO ESPÍRITO SANTO, sobre a qual desenvolverei, a seguir, algumas notas.

A Festa do Espírito Santo, também chamada do Pentecostes, celebra-se cinquenta dias depois da Páscoa da Ressurreição. Cerca de 50 dias depois da saída do Egipto, os Judeus chegaram ao Sinai e receberam a Lei por intermédio de Moisés; todavia não se exprime claramente na Bíblia que o dia de Pentecostes se refira a esse acontecimento.

Chamavam-lhe, também Festa das Primícias, porque nela se ofereciam as primícias da messe do trigo. Abrangia esta solenidade um só dia, no qual era obrigatória a abstenção dos trabalhos servis. Ofereciam-se a Deus dois pães fermentados, feitos com farinha das primícias e imolavam-se diversas vítimas. Na Igreja Cristã, a festa tomou novo sentido: comemora a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, no 50º dia depois da Ressurreição de Jesus e a promulgação solene do Evangelho feita por S. Pedro. Foi então que a Igreja ficou publicamente constituída e se lhe agregaram, pelo baptismo cerca de 3 000 fiéis. A festa do Pentecostes não é tão antiga na Igreja como a da Páscoa, mas já se encontrava estabelecida pelo fim do Século III. A partir do Século IV, o Pentecostes era um dos dias em que se conferia, solenemente, o baptismo na Igreja do Ocidente.

Alexandre Herculano, refere-se-lhe na sua História de Portugal na forma seguinte:

“Próximo do célebre Santuário de Compostela, tão frequentado de peregrinos de toda a Europa, os Cruzados dirigiam-se para ali celebrarem a festa de Pentecostes no templo do Apóstolo.”

Escritores antigos dizem que a Festa do Espírito Santo foi instituída em Portugal pela Rainha Santa Isabel, em Alenquer, dizendo outros que foi instituída em Sintra, onde se celebrava na sala dos infantes, nos paços daquela Vila.

No Sardoal e porque a Rainha Santa Isabel foi donatária deste lugar a sua instituição pode ter acontecido no mesmo período, por sua iniciativa ou pode ter resultado da influência da Ordem dos Templários, cuja influência nesta zona foi notória (Tomar e Almourol) e que impunham a comemoração do Espírito Santo, na sua área de acção.

 

Seja como for, perdem-se nas brumas do tempo, as origens da Festa do Espírito Santo, no Sardoal.

Acerca do Bodo do Espírito Santo, citarei o “ESBOÇO COROGRÁFICO DO SARDOAL” do Dr. Giraldo Costa: “...Até 1860 havia nesta Vila um bodo em domingo do Espírito Santo, dado por mordomos e outras pessoas, que por devoção contribuíam para ele e para a respectiva festividade, uma das mais solenes que se realizava nesta terra. Deixou de se dar pelo seu grande dispêndio (isto é escrito por volta de 1880); há poucos anos, porém mais limitado, se iniciou dar naquele domingo um bodo aos inocentes, fazendo-se também festividade.

A instituição deste bodo é tão antiga que se ignora quando e porque motivo teve o seu princípio. Os que concorriam com os seus donativos para esta solenidade tinham uma porção de carne proporcional à esmola dada e cada um deles armava de véspera em sua casa uma espécie de altar, que à porfia todos ornavam do melhor modo e segundo as suas posses, pois que à noite, grande parte das famílias da vila com os seus hóspedes e convidados, tinham por costume ir visitar os denominados altares. No domingo, eram o pão e carne conduzidos para a Capela do Espírito Santo, no centro da vila e aí também repartidos pelos pobres, no que intervinham as bênçãos da Igreja.”

 

No jornal “O RIOMOINHENSE”, de 1 de Julho de 1897, com o título “CARTAS DA VILA”, vem uma interessante nota que transcrevo:

“ SARDOAL, 29 de Junho: O BODO DO ESPÍRITO SANTO!

Quantas recordações dos tempos idos nos trazem as festas que actualmente se realizam nesta Vila, do dia de PENTECOSTES.

Perde-se na noite dos tempos, a instituição do bodo do Espírito Santo neste aprazível povoação. Não o bodo como hoje se faz, sem pompas, modesto e ignorado.

Outrora, os Sardoalenses em peso, cheios de fé uns, doidos de vaidade, os outros, organizaram a Festa do Espírito Santo, por forma tal que era conhecida e falada numas quinze léguas em redor.

Os contribuintes da solenidade recebiam uma porção da carne e do pão, proporcional à sua esmola dada e cada um deles armava em casa uma espécie de altar, que à porfia diligenciavam apresentar do melhor modo.

No domingo o pão e a carne eram conduzidos a uma capela denominada ‘ESPÍRITO SANTO’, recebiam as bênçãos da Igreja e depois de distribuídas as rações pelos mordomos e pelas outras pessoas que contribuíam para a festa, principiava a distribuição para todos os pobres que apareciam.

As moças, elegantes e originalmente vestidas de branco, faixas azuis a tiracolo, pendentes do pescoço cordões de fino ouro, no cabelo mimosas flores, percorriam as ruas com os seus tabuleiros de pão à cabeça, muito bem dispostos, muito enfeitados de rendas e de rosas. Era um acto festivo e alegre, como ainda se efectua anualmente em Tomar. O bodo, porém, como o que descrevemos, desapareceu em consequência do seu grande dispêndio.

Por isso mesmo, no domingo de ‘PENTECOSTES’, quando avistamos a Capela do Espírito Santo, no centro da vila, saudosas recordações nos trazem tempos que já lá vão. O movimento desusado da terra, as raparigas todas janotas, a romaria nocturna aos altares caseiros, a animação do menage, tudo nos ocorre naquele memorável...

A Capela do Espírito Santo é uma das mais antigas que o Sardoal possui.

Reza o nosso Testamento que, após a morte de Jesus, achando-se os Apóstolos reunidos em conferência com outras pessoas, rápido um estampido enorme se ouviu em toda a sala; línguas de fogo brilhante se cruzavam no espaço indo bater sobre cada um dos Apóstolos que começaram a falar várias línguas.

Estabeleceu-se a ciência da linguagem e realizou-se a profecia de Jesus.

Foi, pois, erecta a referida ermida do Espírito Santo, no local onde hoje existe (1602), por dizer a lenda que no quinquagésimo dia depois da festa dos “ÁZIMOS”, foram ali vistas línguas de fogo, facto que se atribui a milagre.

                                                                                                        ZI ZI”

Em trabalho da autoria do Dr. Manuel José de Oliveira Baptista, publicado no Boletim Cultural “ATRIUM” do GETAS - Centro Cultural de Sardoal, de Abril de 1987, que com a devida vénia se transcreve, referem-se as Festas do Espírito Santo no Sardoal, da forma seguinte:

“Num dos anteriores números do ‘ATRIUM’ fazia-se referência com certo desenvolvimento, às Festas do Espírito Santo em Sardoal - que eram, normalmente complementadas, de forma original, por um grande Bodo à população da Vila.

Interrompidas cerca dos anos 30 (em que se realizaram pela última vez, depois de certo interregno) a sua recordação perdura ainda nos sardoalenses de mais idade, pelo alto brilhantismo e imponência que atingiam nos velhos tempos e lhes deram, por isso, grande fama e projecção extra-muros, de tal modo que largo número de forasteiros e curiosos aqui se deslocavam sempre, para assistirem às suas fases de maior espectacularidade.

Essas festividades são as mais antigas de que há conhecimento na terra, remontando pelo menos à alta Idade Média. Atravessaram os séculos (quiçá tendo algumas interrupções acidentais ou esporádicas) mas resistiram aos tempos e respeitaram a tradição perto de 500 anos!

Com efeito, tem-se notícia de que se realizariam anteriormente a 1470. E com bastante importância, como se pode inferir de uma carta provisão do Rei D .Afonso V, datada de 18 de Janeiro de 1472, onde se estatuem algumas disposições para regimentar a sua organização, ao mesmo tempo que se facultam poderes e abrem concessões aos respectivos mordomos que na terminologia da época se chamavam “imperadores das festas”.

Segue-se a transcrição desse curioso documento, em extracto integral, onde se procurou respeitar, tanto quanto possível, a configuração sintáctica e expressional da época, apenas se descendo a ligeiras acomodações ortográficas, tendentes e uma maior inteligibilidade do texto:

 

“D. Afonso V, Rei: a quantos esta minha carta virem fazemos saber que Nós, querendo fazer graça e mercê aos mancebos solteiros do Sardoal, termo da Vila de Abrantes, por honra e louvor das festas do Senhor Santo Espírito que costumam fazer no dito lugar, temos por bem e queremos que daqui em diante, nos dias em que a dita festa se fizer e enquanto durar, os imperadores e oficiais que para ela forem nomeados, segundo o costume, possam constranger (=obrigar) quaisquer mancebos da dita vila e seu termo que não quiserem cumprir os ofícios e encargos da dita festa, a fazerem (em troca) outras cousas que lhes forem determinadas pelos ditos imperadores.

E, em consequência, aos que não quiserem cumprir esses seus mandados e forem desobedientes, se lhes possa aplicar penas, a todos ou a cada um deles, até à quantia de cem reais brancos e possam, ainda, por isso serem demandados e penhorados até à dita quantia - a qual seja apropriada (destinada) à despesa da confraria da dita festa, mas não para qualquer outra cousa ou fim.

E, quer acerca disto como aos jogos da dita festa, que os ditos imperadores tiverem ordenado por honra dela, mandamos que o nosso corregedor da comarca e juízes e oficiais e homens bons da dita vila não mandem o contrário e fazem, desde que eles não cometam nenhuns excessos ou males pelos quais sejam cativos da nossa justiça.

Outrossim, queremos que o meirinho e os ditos imperadores designados para com ele andarem na dita festa possam usar suas armas quais e quantas lhes aprouver e enquanto ela durar.

E que o alcaide da dita vila lhas deixe trazer sem embargo de qualquer nossa defesa e obrigação feita em contrário, contanto que eles não façam com tais armas o que não devem. E, se o fizerem, que as nossas justiças procedam a tal propósito como for de direito.

E mandamos, também, que aos ditos imperadores ou ao juiz que estiverem à frente da referida festa não se lhes leve, nem mande levar, imposto de raçoragem algum.

E, ainda, queremos (=determinamos) que se algum homem ousado, seja qual for a sua condição social, se intrometer nos ditos jogos e festa com os mancebos solteiros, e se não mostrar obediente e bem mandado àquilo que pelos ditos imperadores e seus oficiais for mandado por honra da dita festa, possa, também, ser apremado, com os ditos solteiros.

E do mesmo modo mandamos a todos os nossos corregedores, juízes e justiças e a outros quaisquer a que do conhecimento disto disser respeito e esta carta for mostrada, que a cumpram e façam cumprir e guardar em tudo, assim pelo modo que nela está contido, sem que nenhum embargo lhe seja posto de alguma maneira que seja, porque assim é nossa mercê.

Dada em a nossa Vila de Santarém, aos 18 dias do mês de Janeiro. João Godinho a fez, no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1472.”

 

Por alguns dos pormenores e detalhes que implicitamente se recolhem da sua leitura, esta carta de D. Afonso V dá aos “festeiros” e mordomos da Festa do Espírito Santo certas faculdades, regalias e direitos que parecem ultrapassar o comum e habitual, nas autorizações e “franquezas” dos monarcas - as quais se caracterizam, regra geral, por critérios de limitação e não de liberalidade!

Isso nos autoriza a supor que o Rei conheceu bem estas festividades, a que teria, mesmo, assistido. Com efeito, D. Afonso V, estanciou com a Corte em Sardoal, durante largas temporadas e daqui lavrou e fez expedir grande número de diplomas régios.”

 

Mesmo sem a imponência de outros tempos a Festa do Bodo continuou a realizar-se durante muitos anos.

No Jornal “ECHO DO TEJO” de 19 de Maio de 1901, noticiava-se o seguinte:

A GRANDE FESTA DO BODO

Reina grande entusiasmo pelas Festas do Bodo que este ano são imponentíssimas. Projectam-se muitos e variados divertimentos de que não podemos dar notícia, porque até agora a Comissão só nos apresentou um resumo do programa, que é o seguinte:

DIA 23: À tarde percorrerá as ruas principais da Vila o gado que há-de ser abatido.

DIA 24: Alvorada anunciada por uma girândola de foguetes. Em seguida marcha em cortejo a Comissão com todos os populares que se juntem e a tradicional gaita-de-foles à frente para o local onde é abatido o gado. À tarde, distribuição das rações aos mordomos: pão, carne e vinho.

DIA 25: De manhã, bodo geral de pão, assistindo a este acto imponente e majestoso, a Filarmónica desta Vila. Arraial à tarde, fogo do ar e iluminação à noite.

DIA 26: Alvorada pela Filarmónica. Festa solene de manhã e procissão. À tarde, arraial.

É para este dia que se projectam grandes divertimentos. Às festa do Sardoal!”

 

Também sobre as Festas do Bodo, no “ECHO DO TEJO”, de 26 de Maio de 1901:

O povo desta Vila que continuamente vive num labor insano sai nestes dias da monotonia em que jaz adormecido. É a grande festa do Bodo que nos convida a passar uns belos três dias. Tudo é entusiasmo, alegria e loucura!...

Todos nestes dias se esquecem das suas tristezas e infortúnios, procurando cada um alegrar-se de qualquer maneira para diante dos demais não aparecer triste.

Hoje é o dia em que mais divertimentos nos deleitam: sabemos que há cavalhadas, corridas de rapazes em sacos, etc., etc.,. À noite fogo e iluminação à veneziana e sobretudo não será encantador mirar e admirar o bando de frescas e guapas moçoilas, quais pombinhas brancas, que garridamente vestidas, nos despertam a vontade de as devorar com os olhos?!!!...

Por isso, às festas do Sardoal, se quereis passar uns bons três dias.

 

Ainda no “ECHO DO TEJO”, de 2 de Junho de 1901:

 

Terminaram as festas que tantas saudades nos deixaram. É impossível descrever minuciosamente a imponência destas festas porque tínhamos de ocupar muito espaço. A Comissão que desejava imenso que o festejo fosse superior ao do ano passado, viu coroados de êxito feliz os seus esforços.

Domingo 26 e segunda-feira 27, foram para nós os dias mais alegres porque mais divertimentos nos deleitaram. No domingo à tarde, cavalhadas por simpáticos rapazes desta Vila, distinguindo-se o nosso amigo Bento Felicíssimo, porque tirou maior número de prémios, sendo alvo de uma grande manifestação por ter oferecido a seu sobrinho, o menino João, filho estremecido do Sr. Dr. José Felicíssimo, o primeiro prémio que lhe coube.

À noite houve iluminação e arraial, abrilhantado pela nossa Filarmónica, que executou regularmente, algumas peças de música do seu vasto reportório.

Segunda-Feira 27, de manhã, festa de igreja a grande instrumental cantando brilhantemente o solo de “Laudamus” da grande missa de Araújo, o nosso amigo Luís António, que na nossa fraca opinião a cantou melhor que os “celebrados cantores” cá do sítio. À tarde, corrida de burros, que conservou em hilaridade geral todos os assistentes.

À noite o nosso amigo Sr. Manuel Matos Valério, para ser agradável a um grupo de alegres rapazes desta Vila que desejavam imenso que esta festa acabasse com uma nota bem alegre, ofereceu o seu vasto salão para que ali se realizasse uma “soirée, dançando-se animadamente até às 3 horas da manhã.

Foi uma noite cheia de encantos e especialmente cá para o “Zero” que há muito tempo não se divertia com tanta satisfação e... por outros motivos que aqui não se relatam por causa de “coisas ó Rosa”...

Nesta noite, cheia de entusiasmo e loucura, tiveram as honras da noite as Exmªs Senhoras D. Antónia de Matos Valério, desta Vila e D .Eufrázia Rosa Alves, de Alvega.

Todos os convidados se retiraram penhoradíssimos para com os donos da casa, pela maneira assaz delicada como foram recebidos, bem como todos levaram bem gravadas na memória aquelas horas tão alegres e divertidas. O pobre “Zero”, à despedida, chegaram-lhe as lágrimas aos olhos por uma célebre “paixãozita” que dele se apossou, mas, coitado, é provável que tenha que chuchar no dedo.

(...) Aos dignos festeiros, os nossos amigos Abílio Matos Silva, Anacleto Bexiga, Bento Felicíssimo e Máximo Serras, os nossos sinceros parabéns pelo bom resultado que tiraram do seu muito trabalho.

Em relação às Festas do Bodo de 1902, o Jornal “ECHO DO TEJO”, noticia o seguinte na sua edição de 11 de Maio de 1902:

“SARDOAL -CORRESPONDÊNCIA

Realiza-se nesta Vila nos dias 15 a 20 do corrente, o grande bodo geral com luzidias festas, arraial, fogo, iluminações e muitos mais atractivos, superiores ao que se costuma fazer nesta ocasião nos festejos do Divino Espírito Santo.

Tomou conta da bandeira, à última hora, uma comissão de 3 ou 4 homens que, cheios de coragem e boa vontade, têm conseguido os aplausos de todo o povo e têm feito renascer a simpatia que esta festa sempre teve, pois que estava condenada a não se fazer, como à última hora foi anunciado pelos festeiros transactos.

Bem hajam, pois, os que trazem a alegria de não se aniquilarem de todo os progressos do nosso concelho.

Segundo o programa vão ser vistosas e lindamente embandeiradas todas as ruas desta Vila, para o que muito concorreu o incansável trabalhador e nosso amigo, Sr. Francisco Augusto Simões.

Este cavalheiro, pela sua modéstia e energia, sempre pronto a coadjuvar os que trabalham, confortando os pobres e enriquecendo a Vila com os seus melhoramentos, está causando a admiração geral dos povos do concelho, que muito o estimam e respeitam.

No dia 15 serão inspeccionados e apresentados ao povo três corpulentos e lindos bois, percorrendo enfeitados as ruas da Vila.

No dia 16, de madrugada, proceder-se-á à matança dos ditos bois e em seguida à divisão das rações, havendo nesta ocasião um beberete com todos os convivas.

Em seguida um grupo de formosas raparigas, caprichosamente vestidas, acompanhadas pelos festeiros, acarretarão o pão para o local da distribuição, dando o Revº Pároco desta Vila, a bênção sobre as rações do pão, carne e vinho, que começarão a ser distribuídas por todos os mordomos que se dignaram contribuir com o seu óbolo.

No dia 17, finda a distribuição, começará o grande arraial. À noite, vistosa iluminação e mais atractivos.

No dia 18, o grupo vistoso das raparigas, começará de manhã a conduzir o pão que está nas diversas capelas desta Vila para a Igreja do Divino Espírito Santo, para no dia seguinte ser repartido pelo povo.

De tarde vai a Procissão do Divino Espírito Santo para a Matriz, continuando o arraial, iluminação e mais distracções.

No dia 19, de manhã, terá lugar o bodo geral aos pobrezinhos que apareçam. Em seguida Festa de Igreja do Divino Espírito Santo, regressando esta Imagem em grande procissão para a sua capela, depois de dar a volta à Vila. Continuará o grande arraial, iluminação à veneziana, terminando a festa com bonito a variado fogo de artifício.

Toda esta festa será acompanhada pela Filarmónica desta Vila - Sociedade Fraternidade Sardoalense, que executará o seu vasto reportório, muito apreciado pelas pessoas autorizadas que a têm chamado para abrilhantar os seus festejos em diversas terras.

No dia 8 já teve lugar a colocação do grande mastro com a bandeira. A direcção dos trabalhos coube ao nosso amigo Sr. Simões, que sem o mais leve incidente desagradável a concluiu.

Levantou-se o pau do bodo, assistindo muita gente. Tocou a velha e popular Filarmónica Sardoalense nas varandas da Câmara Municipal. Há grande entusiasmo com a festa do bodo, que promete ser esplêndida, para a qual a Comissão tem muitos donativos.

Logo que o pau foi levantado, certa personagem pertencente à família dos pavões, deu mostras de grande satisfação. Parece que tinha visto no ar alguma nuvem indicadora de desastre para o marco fontenário situado no meio da Praça, com o que não podia estar tranquilo, mas logo sossegou, porque nada ocorreu de maior.

Ainda bem!

 

Em 25 de Maio de 1902, ainda no Jornal “ECHO DO TEJO”:

“SARDOAL - CORRESPONDÊNCIA

Terminaram as Festas do Bodo com geral aplauso, deixando em todo o povo uma inolvidável recordação. Há muitos anos que nesta Vila não se realizava uma festa assim tão concorrida. A Comissão que tomou a seu cargo a realização dos festejos cumpriu à risca o programa anunciado, com tanto zelo e dedicação que todos aqui são unânimes em lhe tecer elogios.

No dia 15 percorreram as ruas 3 corpulentos bois que foram abatidos para rações destinadas aos mordomos. Em seguida um grupo de galantes raparigas conduzia o pão das rações para o local onde devia ser benzido.

No dia 17 a distribuição. Houve arraial, não podendo à noite haver iluminação, para a qual havia 200 balões venezianos, porque forte ventania não o permitiu.

No dia 18 houve de tarde cavalhadas, procurando cada cavaleiro desempenhar o seu papel o melhor que podia, para merecer os aplausos e palmas do público. Nesta diversão apareceu, porém uma nota destoante. Um cavaleiro merecia as atenções de certas figuras espectadoras que se desfaziam em aplausos, acompanhados de cómicos esgares quando o dito cavaleiro apanhava a argola. Embezerravam quando os restantes cavaleiros recebiam as competentes salvas do público.

Isto não mereceria reparo se o mencionado cavaleiro se não proporcionasse meio fácil de melhor apanhar a argola, como nos quis parecer e outras mais a quem o caso não passou despercebido, salvo erro...Mas adiante.

No dia 19 houve a missa do Divino Espírito Santo, na Igreja Matriz para onde foi a imagem e a distribuição de pão para todas as pessoas que compareceram. Tinha a Comissão 5 000 pães, que distribuiu, tanta era a quantidade de povo.

Todos se retiraram satisfeitos para as suas casas, elogiando a distinta Comissão que empreendeu e levou a efeito uma festa e bodo, como de há anos aqui não se via.

De tarde houve arraial na Praça, num elegante coreto móvel, construído sob a direcção do nosso amigo Sr. Francisco Augusto Simões, a popular Filarmónica “Sociedade Fraternidade Sardoalense”, que todos os dias abrilhantou os festejos com muitas e variadas peças do seu vasto reportório, merecendo o elogio de muitas pessoas estranhas que assistiram à execução de algumas peças. Muito bem!

À noite houve iluminação à veneziana para a qual o Sr. Simões tinha 600 velas de estearina, que forneceu à sua conta.

Todas as ruas da Vila se achavam embandeiradas com muito gosto, com bandeiras de todas as nações fornecidas pelo Sr. F.A. Simões, que possui delas um bastante número considerável.

Assim terminaram as festas que deixaram, não só na Vila, mas em todos os povos do concelho e muitas pessoas estranhas que estiveram entre nós, a mais agradável impressão. Bem-haja a Comissão que tão bem soube desempenhar-se do cargo que tomou e que lhe custou bastante trabalho.

A todos os nossos parabéns, especialmente ao Sr. F.A. Simões, que para dar o maior lustre aos festejos, não se poupou a trabalho e despesas.

Para o ano ficou eleita a mesma Comissão.

Diz-se que houve quem aconselhasse as raparigas para que não quisessem conduzir o pão, o que provocou a indignação de todas as pessoas que tiveram conhecimento do facto. Se assim é, simplesmente, lastimamos.

Esquecia-me ainda uma referência: No coreto em que tocava a Filarmónica pendiam dois quadros colocados ali pelo Sr. F.A. Simões, num dos quais se lia “O IDEAL NÃO MORRE” e noutro “AVANTE LEAIS COMPANHEIROS”.

Escusado será dizer que produziam um efeito surpreendente.”

 

Na primeira década deste século são diversas as referências que se encontram à realização, na Vila de Sardoal, da Festa do Bodo do Divino Espírito Santo, mais ou menos idênticas às que antecedem, sendo por vezes bem nítida a guerrilha política que se viveu nessa época.

Para terminar a transcrição de algumas notícias publicadas na Imprensa Regional de então, transcrevo uma correspondência do “JORNAL DE ABRANTES”, de 1 de Maio de 1910, a poucos meses da implantação da República:

“SARDOAL - FESTAS DO ESPÍRITO SANTO: DIAS 12, 13, 14 e 15 de MAIO

Segundo informações vamos ter festa rija este ano.

A Comissão dos festejos tem à sua frente um rapaz patriota, amigo da sua terra, Abílio da Fonseca Matos Silva, que não se poupa a sacrifícios de toda a espécie que esta festa acarreta e de resto toda a Comissão que é composta de homens trabalhadores que capricham em imprimir à festa o maior esplendor e brilho.

A festa constará, um pouco mais ou menos, do seguinte:

DIA 12: Chegada das rezes pelas 5 horas da tarde.

DIA 13: Matança de 6 ou 7 rezes pelas 5 horas da manhã, seguindo-se a distribuição das rações. Do meio-dia até à noite, distribuição das rações aos mordomos que concorrem com a sua esmola para a festa, segundo o tradicional uso e costume. Durante o dia, condução do pão por duas grandes alas de raparigas vestidas de branco, para a capela do Espírito Santo, acompanhadas da tradicional gaita-de-foles.

DIA 14: Bodo geral pelas 9 horas da manhã, música e arraial e abertura de uma kermesse caprichosamente levada a efeito por uma distinta comissão de senhoras composta de D Maria Judite Leal Matos e Silva, D. Maria Clementina Caldeira Serrão Leal e D. Maria Inês Pequito Caldeira Serrão.

DIA 15: Arraial, música, kermesse e diversas diversões, tais como cavalhadas, corridas de resistência de bicicleta (se houver inscrições de corredores), sendo-lhes oferecidos dois prémios, corridas de saco, etc. À noite iluminação e talvez fogo de artifício.

DIA 16: Festa de Igreja a grande instrumental pela Orquestra Sardoalense, procissão, na qual se faz a apresentação da nova comissão para o futuro ano, arraial, música, kermesse e à noite iluminação.

São estes os detalhes que à última hora nos informaram, do que constarão os festejos, pois que o programa definitivo da festa não está organizado, devendo por estes dias ser publicado nos jornais.

Lembramos o quanto seria agradável, porque sabemos também ser em grande número, que a Junta de Paróquia tenha aberto ao público a famosa Igreja Matriz, que conceda licença a qualquer pessoa que queira ir à varanda da torre ver o soberbo panorama que dali se desfruta.

A Mesa da Santa Casa da Misericórdia, o Hospital e suas dependências, abertas ao público, assim como a antiquíssima Igreja da Misericórdia.

A Câmara Municipal, o depósito das águas e o cemitério.

Da mesma forma que ela fizesse aformosear as ruas da Vila, mandando desobstruir todas as pedras, ervas, etc., que nelas se encontram.

Aplicar, desde já, os artigos do Código de Posturas: nº 6, para a prática do qual, mas só para os pobres, como tal reconhecidos, um anónimo oferece à sua parte 30 arrobas de cal branca, cuja oferta será administrada por pessoa por esse anónimo encarregada.

Aplicação dos artº’s33-45 e 48.

O 45 proibindo mais a proibição de certas vendas se fazerem dentro de carroças.

O 48, abrangendo mais o dia 15, dia talvez de maior concorrência dos festejos, não devendo, por isso, dentro das artérias da Vila, no local dos festejos, admitir-se o trânsito constante de carros e cavalgaduras.

Mais lembramos a aplicação de melhor água, sabão e pano, nos vidros dos candeeiros da iluminação pública.

Ao Sr .Administrador lembramos o policiamento, ordeiro e rigoroso, durante os 4 dias de festa.

O Sardoal pode e deve fazer uma festa à altura, proporcionando aos seus visitantes a passagem de algumas horas aprazíveis, especialmente este ano, em que conta com bons recursos.

A Empresa Gualter, de Abrantes, faz carreiras. Quem queira pode também tomar o ramal dos Beirins, pois que já liga com a estrada 122 e por conseguinte, com o Sardoal.

Nesta Vila encontrarão também os Srs. forasteiros duas casas de hóspedes, com bom serviço.”

 

As Festas do Bodo do Espírito Santo, realizaram-se, ainda, alguns anos. A última referência que encontrei refere-se a 1935.

 

“JORNAL DE ABRANTES”

19 de Maio de 1935

BODO DO ESPÍRITO SANTO

Uma comissão composta pelos Srs. Júlio Grácio, Joaquim Chambel Grácio, António Maria e Joaquim Chambel Dionísio, está na intenção de fazer nos próximos dias 9 e 10 de Junho, o Bodo do Espírito Santo.

Já há anos que não se fazia esta festa, que costumava ser das que mais forasteiros atraía a esta Vila.

Este ano será apenas um bodo de caridade, pois limitar-se-á a dar aos pobres desta Vila, carne e pão a fim  de que aqueles a quem a sorte desprotegeu, possam ter um pouco mais de alegria e conforto neste solene dia do Divino Espírito Santo.

No dia 9, depois do bodo, haverá bailes e descantes populares, abrilhantados pela Filarmónica local, que sob a regência do Sr. João Florindo Bernardo, lindas músicas do seu vasto reportório.

No dia 10, ao meio-dia, missa de festa a que se seguirá a procissão, que costuma ser revestida de grande imponência. Às 13 horas, começo do arraial e outros atractivos.

 

JORNAL DE ABRANTES”

2 de Junho de 1935

BODO DO ESPÍRITO SANTO

É já no próximo domingo que se realiza o Bodo do Espírito Santo.

A Comissão que o vai efectivar, está já trabalhando activamente na sua organização e tem concluído o respectivo programa.

DIA 9: Alvorada pela Filarmónica Sardoalense.

Às 12 horas: Distribuição de pão e carne aos pobres desta Vila e começo do arraial.

Às 16 horas: Corridas de velas e ovos, por gentis meninas.

Às 18 horas: Gincana de burros, com grande número cómico, que esta despertando grande interesse.

 

DIA 10: Às 12 horas: Missa, sermão e procissão.

Às 14 horas: Venda de fogaças e arraial.

Às 17 horas: Corrida de cavalos (cavalhadas).

Às 18 horas: Corridas da Bandeira

À noite fogo de artifício e encerramento dos festejos.

 

“JORNAL DE ABRANTES”

16 de Junho de 1935

BODO DO ESPÍRITO SANTO

Decorreram muito animados todos os números do programa das festas do bodo, levados a efeito nos passados dias 9 e 10. A afluência dos forasteiros foi grande. Assim com estas festas o Sardoal vai-se dando a conhecer a quem o visita.

  

“JORNAL DE ABRANTES”

23 de Junho de 1935

BODO DO ESPÍRITO SANTO

A Comissão que o levou a efeito, agradece a todas as pessoas que concorreram com donativos ou por qualquer outra forma contribuíram para o seu brilhantismo.

Publicamos hoje a receita e despesa feitas com esta festa.

 

Receita

Donativos em dinheiro.................................849$00

     “          “  fogaças e rações........................226$45

     “         diversos...................................... 39$50             1 114$95

 

Despesa

Pão, carne e arroz doado aos pobres..................540$85

Música, fogo e programas...............................298$00

Clero.......................................................210$00

Diversos....................................................39$20            1 088$05

                                          

SALDO...................................................... 26$00

 

A Comissão está na intenção de juntar este saldo ao lucro, destinando o seu produto à compra de géneros alimentícios que distribuirá pelos pobres.

 

No Boletim Cultural “ATRIUM”, nº 3 - Agosto/Setembro de 1986, consta  um depoimento da Sr.ª Miquelina Santos, na altura com 74 anos, entretanto falecida, que se deve referir às Festas desse ano:

“A festa durava 5 ou 6 dias. Começava a uma terça-feira e nesse dia ia-se, para os eucaliptos e para a Ponte do Ramal, esperar os bois. Onde hoje são as casas de banho eram os talhos, faziam barracas com eucaliptos e punham tonéis de vinho onde se podia beber vinho à descrição. Os bois vinham direitos ao mercado e aí se juntavam as pessoas para os ver.

Na sexta-feira matavam os bois. Desde terça-feira que todos os dias se juntava um grupo de raparigas que acompanhadas de uma gaita-de-foles, ia recolher o pão. Este vinha enfeitado com toalhas feitas em rendas de bilros e quem os enfeitava eram as Senhoras Tavares. Cada um enfeitava o tabuleiro o melhor possível, para ver qual era o mais bonito.

O cortejo para recolher o pão era composto de duas filas de raparigas com tabuleiros à cabeça. Todas elas iam vestidas de branco, com faixas de várias cores. Traçavam-nas e as pontas caíam. Os gaiteiros eram dois e iam um à frente e o outro atrás. O pão ia para a Capela do Divino Espírito Santo. No sábado era o bodo: dava-se a quem se apresentasse um pão, que depois era bento. Também havia danças. Terminava na segunda-feira. No sítio do Pelourinho armava-se um eucalipto muito alto que era todo descascado e untado com sebo. No cimo tinha um farnel e dinheiro. Só o Benjamim Carrasco foi capaz de o subir nesse ano.

No domingo do Divino Espírito Santo havia cavalhadas. Os rapazes iam montados em cavalos e burros. Em frente da casa da D. Alzira havia uma corda de um lado ao outro da rua que tinha uma argola pendurada. Mais adiante havia outra corda que tinha panelas de barro penduradas. Uma com lagartos, salamandras, lagartixas, água, farinha e outras coisas. Só quem acertava na argola é que participava na paulada ao cântaro.

 

Em 1995, por iniciativa da Paróquia de Sardoal, que contou com o apoio da Câmara Municipal e Junta de Freguesia de Sardoal, da Santa Casa da Misericórdia e de algumas colectividades, voltou a celebrar-se a Festa do Espírito Santo, ainda que não fosse possível fazer a sua celebração na forma descrita anteriormente. Mesmo assim realizou-se uma excelente jornada de convívio entre muitos sardoalenses, que teve lugar junto ao Convento de Santa Maria da Caridade.

Em 1996, no dia 26 de Maio, voltou a realizar-se a Festa do Espírito Santo, numa iniciativa conjunta das mesmas entidades que a promoveram em 1995, com celebração de uma Missa ao ar livre na Praça da República, junto à Capela do Espírito, seguida de Procissão para a Igreja de Santa Maria da Caridade, onde se integraram muitas centenas de pessoas e em que se integravam 10 raparigas vestidas com réplicas dos fatos das «meninas do Bodo». Depois foi servido um almoço a cerca de 700 pessoas, que foi confeccionado com o apoio de duas cozinhas rodadas do Exército Português - 2º BIMEC de Santa Margarida, com o respectivo pessoal. Durante a tarde ocorreram diversas actividades culturais, voltando a registar-se uma excelente jornada  de confraternização e convívio de muitos habitantes do Concelho (e não só).

 

Em 1997, a Festa do Espírito Santo, realizou-se no dia 18 de Maio (Domingo).

«As meninas do Bodo» foram, este ano, 20 e a Festa teve como convidados de honra, Suas Altezas Reais, o Senhor D.Duarte e a Senhora D.Isabel, Duques de Bragança, dignaram-se aceitar o convite da Câmara Municipal de Sardoal, honrando com a sua presença  quer a Festa do Espírito Santo, quer o Concelho de Sardoal, comemorando-se ao mesmo tempo uma efeméride histórica da nossa terra: a passagem dos 90 anos sobre a última visita régia ao Sardoal, que ocorreu no dia 22 de Junho de 1907, data em que Sua Magestade o Rei D. Carlos visitou a Vila de Sardoal.

 

Para terminar estas notas sobre a Festa do Bodo, transcrevo uma nota à imprensa que escrevi em 2008:

 

SARDOAL - VILA JARDIM 

FESTA DO ESPÍRITO SANTO OU FESTA DO BODO 

DOMINGO DE PENTECOSTES - 11 de Maio de 2008

 

No próximo dia 11 de Maio - Domingo de Pentecostes realiza-se, na Vila de Sardoal, a FESTA DO ESPÍRITO SANTO ou FESTA DO BODO, uma das festas mais antigas desta região, cuja tradição foi retomada em 1995 pela Paróquia de S. Tiago e S. Mateus de Sardoal, com o apoio da Câmara Municipal, Junta de Freguesia e Santa Casa da Misericórdia de Sardoal e de outras Instituições e pessoas singulares.

A Festa do Espírito Santo foi instituída em Portugal pela Rainha Santa Isabel, sendo provável que no Sardoal remonte a essa época, dada a circunstância de aquela Santa Soberana ter sido Donatária do Sardoal, a quem dedicou uma atenção especial, como comprovam alguns privilégios que lhe concedeu por diversas cartas, algumas guardadas no Arquivo Municipal de Sardoal, a mais antiga de 20 de Janeiro de 1313.

D. Afonso V, por carta dada em Santarém em 18 de Janeiro de 1471, regulamenta alguns aspectos da sua organização e, ao mesmo tempo, faculta poderes e abre concessões aos respectivos mordomos a quem chama imperadores das festas, o que denota bem a antiguidade e a importância que as Festas do Espírito Santo do Sardoal, já tinham há mais de quinhentos anos.

No princípio do século XVII existia, no Sardoal, a Irmandade do Espírito Santo, cujo compromisso foi confirmado por D. Filipe II (ANTT - Livro 28 de D. Filipe II, fls. 225 vs).

A Igreja do Espírito Santo, cuja data de fundação de desconhece, foi objecto de obras de remodelação em 1603, situa-se na zona central da Vila de Sardoal, fronteira ao Edifício dos Paços do Concelho, junto à actual Praça da República, que no início do século XVII se designava Praça Nova e é um templo de arquitectura simples mas muito harmoniosa, em que se destaca o Retábulo do Pentecostes, a Imagem da Santíssima Trindade e uma Imagem de S. Francisco que deve ter sido ali colocada quando ruiu a antiquíssima Capela de S. Francisco, que se ficava próxima da que ainda hoje se designa por Ponte de S. Francisco, adjacente ao Chafariz das Três Bicas.

A Santíssima Trindade existente na Igreja do Espírito Santo do Sardoal é do tipo trono de graça (Guimarães), forma iconográfica muito vulgar nos séculos XV e XVI, em que era usual uma Trindade tricéfala que foi condenada no Concílio de Trento, de que hoje se conhecem poucos exemplares, representando o Pai Eterno, sentado, segurando a a Cruz sobre a qual pousa a Pomba do Espírito Santo. É de pedra e é tradição popular que lhe foi cortada a base, há muitos anos, retirando-lhe cerca de 80 quilos, porque se tornava muito difícil o seu transporte na Procissão, que ainda hoje, mesmo assim, não é nada fácil.

A Festa do Espírito Santo, mais conhecida como a Festa do Bodo, realizou-se com grande brilho e imponência até cerca de 1860, vindo a decair a partir daí. Mesmo já numa fase descendente, no princípio deste século ainda se matavam cinco bois e as memórias que se encontram registadas na imprensa regional da época, denotam a importância local e regional que ainda mantinha.

Na forma como foi retomada a partir de 1995 e, particularmente, em 1996 e 1997, procurou-se privilegiar a sua componente religiosa e recriar, simbolicamente, o Cortejo do Bodo, integrado na Procissão, para o qual foram recuperados a partir de um traje original, os fatos das Meninas do Bodo, que em 1997 foram já 20.

Após a Missa e Procissão do Espírito Santo, realiza-se um almoço partilhado, aberto a todos os visitantes.

Devido aos elevados encargos da sua organização, a partir do ano de 2006 a Festa do Espírito Santo ou do Bodo, passou a realizar-se de dois em dois anos.

 

Na sequência da decisão tomada em 2006 a Festa do Bodo de veria realizar-se em 2010, mas segundo uma nota da Câmara Municipal de Sardoal foi transferida para 2011. Segundo aquela nota tal adiamento fica a dever-se à coincidência do Domingo de Pentecostes com a Feira da Primavera. Pode ser esta uma das razões, mas tenho a impressão que outras razões foram omitidas. Será que estou enganado?

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