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12. Notícias de há 100 anos (II)

JORNAL DE ABRANTES

 

Domingo, 13 de Março de 1910

Correspondências de Sardoal

 

Não resta dúvida alguma, segundo temos ouvido dizer, que as nossas correspondências têm produzido em certos gaiteiros... antecipando efeitos, aqueles, que as profecias do Bandarra, hão-de resultar do anunciado cometa, temos pena, mas...

Prosseguindo no caminho encetado, cumpre-nos registar para conhecimento de todos que, nesta vila, em harmonia com o programa, foi substituída a luz do petróleo pela luz de acetileno, em que abono da verdade, é muito mais brilhante, mas de pouca vitalidade, dizem os entendidos o que é pena.

A sua ramificação gasométrica conduz gás que alimenta durante quatro horas imperfeitas, 15 candeeiros, reservando-se ainda para mais 17 bicos que se acham convenientemente distribuídos no frontispício dos Paços do Concelho, que hão-de ser acessos em noites de gala, datas gloriosas e ainda também a seu favor, no aniversário da actual  e muito moralissima câmara que Deus conserva à testa dos destinos do nosso concelho para herança de todos.

A grande obra foi inaugurada, com visível gáudio da rapaziada, ao ver também nos bons efeitos dos 17 bicos destinados a festas, vociferava, saltitando como córeas, cantilenas, arrevessadas de ensurdecer.

Prestando nós todas as honrarias do grande homem muito dilatado e entendido em óptica, o que não admira atendendo que é exímio no fabrico do unguento basalicão, e já com experiência de bom êxito do seu aparelho donde faz seguir os canudos de gás até à sua botica, rasgando por isso e sem prévia licença da câmara a rua do vale, o que tudo assim entra na conta da muita moralidade camarária.

Não menos razão para também elogiar o Exmº Tesoureiro da comissão da escola de tiro e também digno presidente da câmara pelo seu valioso auxilio pecuniário dispensado com o adiantamento, ao pessoal e director de obras, os dinheiros que semanalmente têm sido precisos até à data de 5 de Março corrente, como cláusula expressa de receber o seu dinheiro às quinzenas e da mão do cantoneiro encarregado dos serviços, cujos dinheiros saem do cofre da câmara desviados ilegal e abusivamente sem assentimento legal e ainda sem deliberação alguma colectiva, escondendo-se assim tudo num novelão de fumo espesso já produzido pelos gazes, para que os seus munícipes nada vejam!...

Haja em vista ao capítulo VII, artigo 1º, verbas 43-44 da gerência finda.

Na nossa correspondência de domingo, fizemos constar que no cofre da câmara deste concelho, dera entrada a quantia de 500$00 réis de subsídio que fora concedido pelo governo para ocorrer aos estragos causados nos caminhos vicinais e estradas a seu cargo.

Dissemos também que a câmara saiu, no dia 28 do mês findo, em romaria à procura de estradas para reparar. Procuramos saber o resultado da procura, obtivemos que dos forasteiros fizera parte um senhor Victor que puxando e revirando os codrelheiros empregando toda a sua valiosa astúcia se propõe fazer o estado de certos ramais que teriam por terminus a porta de J. Fernandes do Mogão, computado o seu dispêndio, mesmo a olhos vistos em 33$333 1/3 réis!

A câmara pasmada e coçando as orelhas fez simples gestos e que havemos de fazer? O patrão manda  o povo do norte do concelho, sabendo de lugares que do logro que se lhe prepara não hesitou em se apresentar na passada segunda-feira em que a câmara anuncia as suas sessões oficiais, sim oficiais ( porque antes daquela sessão, há sessão do conluio, em que se deliberou no sentido de grandes empresas que só servem para autorizar a prática dos tais desvios) reclamam perante a câmara os seus direitos, alegando ser crasso e verdadeiro erro de lesa administração desviar-se sem direito a subsídio de 500 mil réis, concedido pelo governo ao povo do concelho. Que se a câmara atender de preferência os vaidosos e prepotentes desejos do Sr. Mora, com a continuação do ramal ou ramais que se diz partirem dos sítios da Lobata ou Valongo, ver-se-ão obrigados a pedir a intervenção das autoridades, a quem compete defender, em todas as ocasiões, os direitos, e vontade soberana do povo, quando como esta é justa!

Nós advertimos ao povo, não se deixem iludir, fiscalizem o que lhes pertence.

 

Teve lugar na pretérita terça-feira a reunião de grande número de sócios da sociedade que tem por título “Clube Recreativo Sardoalense” para o efeito de se proceder à discussão e aprovação dos estatutos e regulamento interno e bem assim à eleição dos corpos gerentes, que ficaram assim constituídos:

 

Assembleia Geral

Dr. José Gonçalves Caroço

António Carvalho Tramela

Manuel Lopes

 

Conselho Fiscal

João B. Saldanha da Fonseca Serra

Padre Joaquim Tomaz

António Dias Conde

 

Direcção

Júlio Ferreira de Matos

Abílio da Fonseca Matos Silva

Pedro Barneto Nogueira

João Pereira de Matos

Jayme Leal

 

Terminado o acto eleitoral o Sr. Saldanha brindou os dignos iniciadores e a direcção eleita.

Por hoje basta, até para a semana.

Maio de 1910

Zaguncho Júnior

 

Pelo Sardoal

 

Nas últimas correspondências de Zaguncho Júnior, trata ele da luz, da muita luz que é precisa aos munícipes. Os munícipes precisam de muita luz e de muita até verem o que se passa na apregoada câmara das moralidades.

Mas, diz Zaguncho a verba por nós orçada com gastos de luz, a qual confirmamos só um formal desmentido da câmara (mas em cifrão) nos poderá convencer do contrário, não estar autorizada superiormente.

Ora nós lhe diremos não acreditar em tal, pode lá ser o Sr. Presidente homem fino de sabedoria inigualável, o homem que faz andar tudo às direitas homem de moralidade, homem que queria por força a deslocação da professora de Cardigos, consentir um desvio de dinheiros de fundos municipais, para onde todos pagam, sem a respectiva autorização?

Olhe Sr. Zaguncho não esteja em erro, olhe que o Sr. Presidente tem lá um código, em casa, o tal código (quando do caso do Dr. Tamagnini) e talvez por ele pelos seus artigos e parágrafos... moralidade, o autor a isso, mas esta já vai longa e por último lhe direi, que eles massa andam à divina, nem cheta...

Mas você sabe que o grande empreendimento é obra do vereador Milheiriço, presidente Victor. É obra das três pessoas da Santíssima Trindade.

E agora que o caso vai bicudo: os gastos são muito superiores ao petróleo, isto só com gazes a funcionarem até às 11 horas, meia noite.

Assim vão os munícipes serem mais sobrecarregados com essa despesa e com a extraordinária de terem que depois da meia noite munirem-se de lanternas se quiserem ir para suas casas. E havemos de ver em breve uma resolução da câmara em que se diga como já em tempos o fez, visto não haver verbas suspendeu por três vezes a iluminação pública, Creia que não tardará.

Mas há mais, hoje já os candeeiros pareciam como Zaguncho bem calculou uns pirilampos.

O caga lume viu-se e desejou-se, e muito mais o presidente e vereador e o influente as três da Santíssima Trindade, mas por fim forneceram os gazes ao gasómetro e lá apareceram as luzes... foi constipação, é a primeira...

Ponto por hoje...

 

P.S.

Tem-nos constado, os 3 da santíssima querendo fazer arranjinhos para a eleição, aos incautos lhe falaram num ramal de Sardoal à Amieira, avisando-os de que os 500$00 réis, que deram entrada nos cofres da câmara são exclusivamente destinados a reparos em caminhos públicos que as últimas chuvas danificaram, e por isso têm o direito de todos os munícipes da sede e das aldeias a reclamar perante a câmara pelo concerto dos mesmos, sendo ela estritamente obrigada a atender, sem favor, esses pedidos não tendo mais que informar-se da veracidade deles.

Sandeman

 

20 de Março de 1910

Sardoal

Bem vindo seja Sr. Sandeman.

Por onde tem andado?... Ah!... Seu ratão que se tem deixado dormir, mesmo com o fogo à porta, sem dar acordo de si, quando mais preciso era ao Zaguncho, o seu e muito valioso auxílio de defesa dos legítimos interesses dos povos do nosso concelho. Acordou, é certo, como se depreende da sua correspondência do domingo dia 13 (em referência à nossa) e esfregando os olhos viu luz, mesmo muita luz, não é verdade?... È para que saiba como tudo marcha às ordens dos tais calões da sabença inigualável que, na sua voragem e desperdícios de dinheiro do povo nessas mais que vergonhosas obras das águas que na estação chuvosa temos de consumir transformadas de enxurros, apesar de se terem gasto, sem peso nem medida, cerca de “sete contos de réis”, sendo avultados gastos sem darem contas a ninguém, e ainda estão dispostos, ser não levar o diabo antes da vinda do cometa a muito mais e maiores disparates, visto que o povo dorme!

Os tais senhores moralistas da câmara, que, se atreveram a vociferar que os munícipes são tolos e que nada percebem de manobras, algarismos rezados nas contas da câmara, aonde não contentes com tão grave processo de lesa administração que se tem feito reflectir nas finanças municipais, e ainda de nos haverem empenhado em 2.600$00 réis (para águas turvas) como se pendura no prego um par de botas, pretendem ainda auxílio pela vasta e maléfica astúcia desse bonzinho homem, mesmo bonzinho homem, aquele que o povo chama por erro claro Dr. Victoria, se agalanem mais uma vez iludir o bondoso e pacato povo de norte a sul do concelho, para cair no logro do desvio da quantia de 500$00 réis, concedida pelo governo, para ser aplicada numa vereda que só o tal Dr. Victória poderá aproveitar, para se furtar às visitas dos seus contrabandistas, que de cajado e cobertor às costas foge à fiscalização. Como se a câmara, na pessoa do seu presidente não está curvada e manietada, como as feras têm demonstrado, as manias e vontades do seu amo e Sr. Victor porque não se procede dentro dos limites de uma boa orientação, à reparação dos caminhos vicinais do concelho, como é de vontade do povo, desse bom povo, que ainda tolera e sofre enquanto se não revolta, pendurando nos candeeiros como aos traidores tem acontecido nas guerras populares? Que farsantes! Que tartufos! A seu tempo, talvez mais cedo do que julgares; contas enérgicas lhes serão exigidas, a lealdade, pois é assim que Zanguncho Júnior lhes fala, por não carecer de vielas para se refugiar como díscolo avariado da revolta de 31 de Janeiro!

Mais uma sangria de 100$00 réis aos fundos da viação, não é verdade senhores que apesar de estopados como diz o Sr .Presidente da Câmara, os 100$00 réis sacados no dia 14 do preterido mês, apesar da câmara dizer na sua acta que são destinados aos serviços da viação, são muito categoricamente destinados às mãos do Sr. Presidente da câmara, para deduzir ou talvez saldar, os tais adiamentos que se fez para o dispêndio do grande invento da luz de acetileno, e, para que tal a verba documentada para a ilusão das repartições tutelares, mande a câmara fazer quinzenas, das tais quinzenas em 18 a etc. etc. do mês tal, dos trabalhos feitos com o ensaibramento nas estradas de Valhascos, Cabeça das Mós e coisas e tal etc. Ah! Se o povo soubesse quando pode e vale onde iria parar!

Por hoje basta...Até para a semana.

Março de 1910

Zaguncho Júnior

Sardoal

 

Quem achasse uma pelica de pescoço de senhora, que se perdeu desde Sardoal até à estação de Abrantes, e queira restituí-la, dirija-se a José Salgueiro, Sardoal, que se dão alvíssaras.

 

27 de Março de 1910

Semana Santa

 

A Semana Santa é a da celebração dos soleníssimos e respeitosos actos religiosos que tem por símbolo a demonstração dos grandes e penosos martírios e atrocidades praticadas por uma grande catrefa de malvados, na pessoa do homem Deus! Não é verdade caros leitores?

Como tendes retribuído tão grandes sacrifícios para se salvar às fúrias de um grande número de algozes e facínoras que o algemaram rogaram pelas ruas e por fim o matarem e penduraram pregando-o na cruz para vos resgatar e fazer cristãos.

Nada tendes feito se não pecar e de modo algum sabeis como saldar o grande débito para com Jesus Cristo, e se algum meio há, queiram esses homens que pisam a terra, que exercem e proclamam a sua doutrina, ensinaremos a mais nobre e bem orientada forma de compartilharmos na sua grande dor e de obter o perdão de Jesus Cristo pelos pecados contra eles cometidos, não é verdade?

Mas não, não são eles capazes de o fazer porque também são pecadores, como vós, e portanto bem é que todos os seres vivam na grande ilusão, pois a que nenhum homem, (salvo alguma excepção) é dado a outros nos altos segredos do Grande Autor de tão belo maquinismo. Assim vós caros leitores do concelho de Sardoal viveis também na grande ilusão, ou antes não vos importeis dos destinos e desígnios dos dinheiros que vos perturbem e que tendes confiado á voragem desse s cruéis díscolos cambra... isto é de mais um vaidoso senhor que se lhe impõe como mestre, na cura de “almorreinas” e de seu amo!

Tudo ilusões, tudo vaidade avariada, como acontece com as águas, nos dias invernosos, assim como nos dizem que avariado está o circuito do gasómetro de grandes dimensões, por ter lugares a mais, achando-se por tal motivo muito mal mesmo muito mal, os fundos da viação pelo enfraquecimento de repetidas sangrias que lhe têm sido aplicadas para o fim dos tais empenhos e adiamentos muito ilícitos?...

Nós temos as nossas obrigações e crenças, havemos mantê-las firmes e vigorosas, portanto senão amanhã quinta-feira santa, dia em que temos de envergar a nossa modesta capa preta, símbolo da Irmandade da Misericórdia, e ainda porque desejamos assistir a todos os actos solenes da Semana Santa, vamos terminar a nossa modesta capa preta, símbolo da Irmandade da Misericórdia, e ainda porque desejamos assistir a todos os actos solenes da Semana Santa, vamos terminar a nossa modesta correspondência, cumprindo-nos antes de fazer agradecer não como um folar, mas com verdadeira estima o reconhecimento ao nosso prezado Director do Jornal de Abrantes, dispensa de um cantinho do seu jornal e dos serviços do seu digno pessoal da relação para a publicação das nossas correspondências, não esquecendo neste sincero agradecimento os nossos prezados leitores pela maneira como (ao romper do sol) procuram arrancar as mãos do rapaz, o seu predilecto Jornal de Abrantes, para possuírem e mostrar aos seus familiares e fazer-lhes saber quanto vergonhosa e sem nenhum valor material, tem sido o acto de lesa administração praticados pelas moralíssimas câmaras municipais do malfadado concelho de Sardoal, desde que a memorável data de 1905 (salvo erro e omissão) até à data!

Bem sabemos que é de bradar no deserto, ainda que a hora do tremendo ajuste de contas estará talvez muito próximo.

 

Com as suas ilustres famílias acham-se nesta vila a passar férias os meritíssimos e Exmºs Srs. Dr. Eusébio Tamagnini, com a sua ilustre esposa, lente na universidade de Coimbra, o Sr. Dr. Anacleto da Fonseca Matos e Silva, delegado procurador Régio em Santarém, bem como os nossos queridos meninos académicos Sr. Padre Luis Andrade e Silva, João Manuel, filhos do nosso velho amigo Manuel da Silva, Manuel e David Serras Pereira, filhos do Sr. João dos Santos Pereira, Dr. Armando Serrão Mora, Acácio Prior, e, ainda os nossos amigos Manuel Pires, professor em Pedreira, Tolar e José Júlio Pereira de Matos, empregado do comércio.

A todos saudamos e abraçamos pelas suas vindas.

Até para a semana.

P.S.

Na próxima correspondência havemos de dizer qualquer coisa acerca da licença pedida à câmara pelo Sr. Dr. Victor Mora, para a colocação de uma porção de pedra, em forma de parede no sítio do Outeiro da Velha, que moralíssimo homem, Santo Deus!

Zaguncho Júnior

 

HOMEM ENFORCADO

 

Ontem 24 do corrente, andou nesta vila mendigando um homem alto, cara cheia e rapada, que vestia calça clara de cotim, e que deveria ter 40 e tal anos de idade, munido de uma corda nova de linho que deverá ter 3 metros, dizendo então altivo, esta é que me há-de matar.

Porém, hoje pelas 9,5 horas da manhã correu com rapidez a notícia, do aparecimento de um homem pendurado, já morto, numa oliveira do prédio do Sr. Neves, de Vila de Rei, junto ao cemitério municipal.

As autoridades locais, parecendo-lhe não haver crime, vão mandar proceder ao enterramento do tresloucado homem que, segundo dizem é dos sítios da Sertã.

Maio de 1910

Zaguncho Júnior

 

3 de Abril de 1910

Semana Santa

 

Terminadas as festividades da semana santa com a pomposa procissão da Ressurreição, domingo de Páscoa.

É bem sabido pelos actos festivos nesta vila, muito designadamente os dias da Semana Santa, são executados com verdadeiro amor, devido é certo será ainda respeitado e mantido nobres e antigos exemplos dos homens de valimento moral e pecuniário que legaram a seus sucessores os meios e deveres de prestarem a Jesus Cristo um exigno mais solene e respeitoso tributo de reverência pelos sacrifícios e martírios que por nós sofreu.

A concorrência do povo foi numerosa e soube manter-se no respeito para com Deus, e para os seus semelhantes.

Na passada terça-feira, 8 do corrente saíra desta vila às ordens do seu amo e senhor Victor Mora, os Srs. Presidentes de câmara com mais 2 atilados vereadores (o gaguejante e outro), devidamente munidos de grandes aparelhos, de ver ao longe, seguindo a linha central desta vila até aos confins do Codes, Foz da Amieira e revirando pelos Mógãos até que recolheram a penates já faros e cansados de tantas manobras e exigências do seu amo, à procura de pontos estratégicos que mais e melhor se prestam ás manigâncias e desvio da parte de 500$00 réis que pertencem à lubrificação dos caminhos vicinais do concelho!

No trajecto, aí por alturas da Salgueira, uma voz grave, saída das profundezas do peito de um ingénuo que ainda acredita em lobisomens suplica ao capitão-mor Victor que mande fazer alto à sua tropa fandanga.

Ele todo mestre e toleirão, estaca, arregala o olho do lado direito, obriga a sua montada de fazer uma pirueta, para as traseiras, maneja com arte e valentia a inça guerreira que ainda conserva como relíquia das suas façanhas, quando escondida de trás do cofre forte da câmara municipal do Porto, por ocasião da revolta de 31 de Janeiro, e em voz forte e altiva, devido ao seu génio e feitio grita: Alto frente! Alto aqui! E, interrogado o seu interceptor obtém em resposta, em fala meio amiolada, Bossa Soria, é que o Doutor Victor ele, ainda com o olho arregalado, chupando no seu paivante diz sim, todo tal e qual, que quereis? Tendes alguma unha encravada? Não é isso Sr. Dr., eu ouvi dizer que bossa soria tem muito balar, bisto que trás bossa soria, a sora cambra, e como a povoação da Salgueira precisa aqui neste sítio, de uma abindinha falei com a minha Maria esta noite e ela o que me disse que bossa sorria passava hoje aqui com a sua câmara raspá-los dos 500$000 réis que bieram cá pro pobo não é assim Sr.Doitor? Ele, vendo que mais um é iludido, pois que dinheiro algum pode ser desviado daquele subsídio e jamais para fazer um serviço que pertence, segundo nos dizem, as obras públicas, visto que prejudicou a servidão do povo da Salgueira, respondeu: fica descansado meu rapaz, diz cá ao teu povo que está servido! Obrigado Sr.Doitor. Que grande pândego nos saiu o homem das larachas! Tomem conta, caros amigos, olhem que ele não dá ponto sem nó, e como tal é capaz de lha pregar na menina do olho, para isso só basta puxar o cordelinho em que traz manietada a sua fiel câmara.

Os nossos leitores devem ainda estar lembrados que mãos criminosas, obedecendo a ordens do seu amo, cortaram à serra, de noite umas oliveiras sitas no Outeiro da Velha, pertencente ao Sr.Salgado? Foi também sabido que sobre os cortes foi mandado despejar a papelada velha de certa botica cuja papelada o mesmo mandão conseguiu que certo pardaleco derrubado fosse cair no Outeiro da Velha, foi a mandado  do Sr.Victor Mora, mudado justamente para o terreno onde ainda existiam os cepos das oliveiras já chamuscadas, o Sr. Salgado com direitos hereditários chamou a contas o Sr.Victor a responder pelos abusos não só de se querer assenhorar do terreno , senão também dos cepos chamuscados e vendo-se enlameado, com terra rebadeira, gritou pela sua santa e fiel câmara que obedecendo a ordens, tomou-lhe a defesa, alegando que tal mudança do caminho havia sido por ela autorizada, visto que o terreno era baldio!

Como não podia deixar de ser o Sr. Salgado fez embrulhar aquela moralissima gente numa questão, mas Victor sempre destro e cavilar em artimanhas, obteve safar-se prometendo à sua câmara que pagava tais despesas, correndo a questão seus devidos termos foi a câmara condenada nas custas e a repor o caminho no seu antigo leito, etc. etc. afinal a câmara teve que “arrotar” e Victor manhoso nenhum de x lhe restitui, usando um bom acto moralissimo!

Ainda não fica por aqui a história do Outeiro da Velha, o Dr. Victor é que explora um terreno confiante com o caminho do mesmo nome e azinhaga que conduz, com aquele, à eira Salgado, Sarabando, fábrica Moagens Matos Silva, e ainda com o pátio da casa da habitação  de Francisco Maria, Neves, Cunha e outros.

É certo que tal terreno nunca foi marcado existindo algumas parcelas que pertencem à via pública.

O que fez o bonzinho do Sr. Victor para tornar maior o terreno que explora e para deduzir à miséria a via pública?... Fez, ali pelo mês de Fevereiro construir uma parede de pedra seca, regularmente construída como todos vêem  com 1 metro de alto e 15 metros de comprimento, justamente na bifurcação dos dois caminhos de forma que, vindo do lado do pátio de S. Senhoria de Francisco Maria, Neves e Cunha e outros, seja capaz de ali voltar.

Porém, com verdadeiro pasmo, vimos no resumo da sessão da “câmara” de 7 do corrente que Victor Mora requereu licença para colocar uma porção de pedra em forma de parede na parte norte do terreno que explora, junto ao caminho do Outeiro da Velha.

Tal requerimento foi, muito tardio, e como tal caviloso, por se pedir nele autorização para execução de um serviço feito e até então enfeitado de piteiras.

Para que procedeu assim seu grande manhoso?...Ah?... Seu doutor que foi para amparar as latadas e furtar-se no alinhamento devido, tornando assim a uma reles viela, um caminho que se houvesse sardoalenses teria sido devidamente cuidada para interesse geral e realce à vila, não só este como outros, e para mais uma vez ficarmos sabendo que V.Exª e seus da câmara são... são muito boas pessoas!

Criaturas assim, caros leitores, são mais perigosos do que insectos vis e perniciosos que vieram ao mundo para fazer gelar a humanidade!

Pobres parvos são aqueles que acreditam nas maledicentes e perigosas cantigas desses anfíbios que nos Têm sacrificado quando ainda nos restava de bem!...

Esta vai um pouco fora da esteira, mas esperamos que por esta vez o Sr. Director do Jornal de Abrantes nos desculpe.

Até para a semana

Março de 1910

Zaguncho Júnior

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