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20. Notícias de há 100 anos (VIII)

 

JORNAL DE ABRANTES

 

9 de Abril de 1911

Correspondências de Sardoal

Na penúltima quinta-feira soube-se que o Sr. Aurélio Neto tinha pedido demissão do lugar de administrador do concelho.

Imediatamente, reuniram a comissão administrativa e política, que deliberaram a não só instarem com o Sr. Neto para continuar no lugar que com tanto zelo e proficiência tem desempenhado, mas também dirigir-se ao Sr.Governador Civil, comissão distrital e Dr. Ramiro Guedes, para que empregassem os seus esforços a fim de o moverem de tal intento.

No domingo, o Sr. Neto declarou às comissões que desistia do seu pedido de demissão, porque tinham sido tantas e tão grandes as provas de simpatia e deferência que tinha recebido de todos e que o deixaram penhorado em extremo, por isso, que continuaria no seu posto enquanto merecesse a confiança de todos e que se tinha pedido a demissão, não era por atritos ou dificuldades que tivesse tido na política do concelho, mas sim, por razão de ordens diversa que nada tinham com a política daqui, onde só tem recebido atenções e deferências.

Rejubilamos com o facto do Sr. Neto ter desistido do seu pedido, que no caso de se ter convertido na realidade, traria dificuldades insuperáveis à política deste concelho, porque dificilmente se encontraria quem como ele desempenhasse o cargo de administrador, com geral aplauso, de ter cumprido e ter feito cumprir a lei.

A sua política aqui tem sido de atracção e reconciliação e Sardoal antigo baluarte monárquico, se hoje está convertido à fé republicana, como ainda há pouco afirmou de uma maneira inequívoca e categórica, na manifestação que fez ao Sr. Dr. Ramiro Guedes quando nos visitou, deve especialmente ao Sr. Neto pela boa política que tem feito, porque dado a verdadeira interpretação às palavras que simbolizam a República, Liberdade – Igualdade - Fraternidade.

Por isso associamo-nos às manifestações de simpatia feitas ao Sr. Neto e endereçamos-lhe os nossos agradecimentos pela sua desistência e às Comissões Administrativa e Política, as nossas felicitações pela nobre atitude que tomaram a fim de obstar a que se realizasse um facto que viria prejudicar em extremo a política Republicana Concelhia.

 

16 de Abril de 1911

Correspondencias-Sardoal

 

Daqui a algumas horas deve apresentar-se pela primeira vez nas ruas desta vila a Filarmónica União Sardoalense.

É formada por músicos das duas que aqui existiam, que num gesto nobre e sublime, congregaram os seus esforços e uniram as suas vontades para trazer ao Sardoal alguns trechos de deliciosa música.

Os rivais de ontem, são os companheiros de hoje, por isso, se em alguns ainda existe o ressentimento ou paixão oriunda de lutas atrasadas, bom será que tudo se esqueça, para se pensar no futuro com ardor e entusiasmo para que o Sardoal progrida e possa apresentar uma banda digna de ser apreciada pelos mais exigentes amadores da arte de Mozart.

Deve ser este o ideal de todos os executantes, para que o seu gesto tome mais realce e dignificação, e para todos que têm contribuído com os seus esforços e boa vontade para esta união, continuem a dispensar o seu auxílio e apoio, para que prossigamos na estrada do progresso da civilização até que essa divina arte nos traga a harmonia dos seus, e harmonia de todos os sardoalenses.

A banda é composta de 34 executantes que se apresentarão com os seus novos fardamentos de ka-ki.

A direcção tenciona promover uma kermesse para os dias das festas do Sr. dos Remédios, que se realiza nos dias 29 e 30 do corrente, para atender às despesas com a compra do fardamento e instrumentos novos.

Este ano não se realiza aqui as festas da Semana Santa.

Não sabemos a que atribui-lo visto que a autoridade administrativa só proibiu a realização da procissão, para evitar conflitos como os que se deram em Coimbra, Condeixa, Viana do Castelo, Guimarães, etc, etc.

Mas o culto interno, esse ninguém o proibiu e podemos mesmo garantir que a autoridade seria inflexível para todos que tentassem perturbá-los dentro dos templos.

Em Abrantes, todas estas festas se realizam dentro dos templos, sem ofensas para as crianças mais liberais, visto que ninguém é obrigado a assistir.

 

23 de Abril de 1911

Correspondencias-Sardoal

 

Realiza-se no dia 30 as festas do Sr. dos Remédios feita a expensas da Santa Casa da Misericórdia. A mesa da Santa Casa esforça-se para lhe dar um grande brilhantismo, por isso é de esperar que decorra bastante animada.

Haverá festa de igreja, arraial, fogos de artifício etc, etc.

No mesmo dia e no mesmo local também se realiza uma kermesse, cujo produto é destinado à Filarmónica União Sardoalense.

Está próximo o dia 1 de Maio e apesar de aqui haver uma associação dos artistas, não nos consta que se pense em festejos nesse dia.

Bom será que essa associação tome a iniciativa de qualquer festa que sirva de estímulo dos operários sardoalenses para evitar que eles sejam atacados de inércia que a todos prejudica.

Estamos numa época em que as referências sociais se sucedem e em que as aspirações do operariado português estão sendo satisfeitos sem sofismas:

Por isso necessário se torne que ele mostre que é um elemento forte, disciplinado e consciente, com que o governo da República pode contar, desde que a sua orientação seja pelo bem do país, e pelo engrandecimento da Pátria Portuguesa, como até aqui tem sido.

Estamos certos que a classe dos proletariados sardoalenses não deixará passar despercebido esse dia que todos os países cultos festejam como sendo um dia de confraternização operária universal.

 

 

7 de Maio de 1911

Valhascos

 

O Sr. António Esteves foi há tempos à Exmª câmara, queixar-se que João Lopes Caldeira, andava fazendo umas escavações em caminho público, sendo porém certo que tal serviço era feito com autorização da câmara.

Ora, o mesmo António Esteves, trazendo há muito em mira apossar-se do aludido caminho, pediu licença para fazer umas obras com o fim de impedir o transito público, vindo deste modo apossar-se do terreno que compreendia o mesmo caminho.

Esta é que é a verdade.

Agora se vamos a queixas, ouça o Sr. Esteves: Queixe-se o mesmo Caldeira, de que o Sr lhe estragara uma oliveira existente em uma sua propriedade.

Queixa-se ainda o Caldeira que temos uma parede que entestava com o Esteves, esta devido ao mau estado, caíra para o adro do Esteves, e que ele, sem sua autorização dera a pedra ao Miguel Amaro.

E, queixa-se também o mesmo Caldeira, que tendo mandado para o lagar do Esteves 52 alqueires de azeitona da última colheita, este se recusara a dar-lhe o respectivo bagaço, nem a sua importância, e que tendo sido chamado à presença do Sr. Administrador do Sardoal, negou o facto.

Ora, o Caldeira, prova com testemunhas a verdade do que afirma, ficando provado que o Esteves, não tem dúvida alguma em sujeitar-se por tão pouco.

O público que avalie da moralidade do Esteves.

5 de Maio de 1911

 

21 de Maio de 1911

Sardoal - Comício

 

No passado domingo realizou-se nesta vila um comício de propaganda republicana que presidiu o Sr. Dr. António Dias Milheiriço.

Eram duas horas da tarde quando o Presidente deu a palavra ao administrador do concelho Sr.Aurélio Neto, que produziu um brilhante discurso em que mostrou ao povo o que era a República. Falando sobre o acto eleitoral disse, que podia ele ser muito ou pouco concorrido, no entanto que a lei que havia de ser fiel e rigorosamente cumprida.

Em seguida usou a palavra o Sr., Tenente Moreira que falou sobre a revolução francesa, aconselhando todos os patriotas que não se deixassem iludir pelos manejos reaccionários que só visam dificultar a marcha e consolidação da República.

Em seguida teve a palavra o Sr. Emaus, director da Fábrica União Fabril, que disse nada pretender da República porque era cidadão livre e que da República nada mais exigia que o bem da sua Pátria, porque um povo que tão heroicamente expulsou as instituições que o roubavam e exploravam era digno de uma Pátria livre e merecedor de uma administração honesta e honrada.

Depois, falou o Sr. Tenente Barreto, que mostrou o grande trabalho que iam ter os constituintes, e por isso era necessário escolher deputados de incontestável valor intelectual e moral porque era lá que se havia de discutir e aprovar a lei fundamental depois.

Por isso, que a todos competia escolher deputados homens que aliado um passado honesto e honrado tivessem inteligência lúcida e clara.

Por último teve a palavra o Sr. Capitão António Maria Batista, candidato às constituintes que falou largamente sobre a obra do Governo Provisório que era colossal e profícua para os intentos e interesses do nosso país.

Falando sobre a expulsão dos jesuítas disse, que este acto foi a melhor obra depuradora que o governo tem produzido, porque essa infame seita só visava a governar-se, prejudicando o país porque lhe dava albergue e prejudicar o Clero nacional, e num rasgo de eloquência que entusiasmou todos os que escutavam, qualquer padre que estivesse ouvindo, convidava a ir àquela tribuna desmentir.

Falando sobre o seu programa político disse, que seria sempre pelo povo, pela Pátria e pela República.

Dissertou largamente sobre constituintes e sobre bases em que havia de assentar a constituição republicana.

Do seu longo discurso que nos foi impossível reproduzir mais fielmente vê-se que tem um largo plano político delineado, e que no caso de ser eleito será um acérrimo defensor dos interesses da Pátria Portuguesa.

Como ninguém mais quisesse usar palavra o Sr. Presidente felicitou o povo da sua terra pela maneira como decorreu o comício, elucidando-o sabre a formação das listas para evitar que elas fossem concretizadas e que só votassem em candidatos de reconhecida probidade.

E encerrando o comício deu um viva á república que foi entusiasticamente correspondido.

Todos os oradores foram aclamados com entusiasmo, sendo os seus discursos interceptados com vivas e palmas.

De manhã também esteve nesta vila o Sr. Martins Júnior em propaganda da sua candidatura.

Falou largamente ao povo expondo o seu programa político.

Hoje realizam-se comícios em S. Domingos, Cabeça das Mós e Valhascos.

Na próxima quinta-feira nos Andreus e Alcaravela.

Foi aqui mal recebida a escolha dos candidatos às constituintes, por nessa lista virem dois nomes que são completamente desconhecidos nesta região e que nada sabem das necessidades da maioria do circuito que se propõem.

 

 

Potro

 

Cardão de 25 meses, vende o Dr. Caroço. Sardoal

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