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2. Origens da Paróquia

ORIGENS DA PARÓQUIA DE S. TIAGO E S. MATEUS DE SARDOAL

              Não são conhecidos documentos que possam fundamentar, com rigor, as origens da Paróquia de S.Tiago e S. Mateus de Sardoal e ajudar, ao mesmo tempo, a determinar a data da fundação da Igreja Matriz da referida Paróquia.

              Sabe-se que já existia em 1393, como se comprova por uma carta de D.João I, de 23 de Outubo desse ano, guardada no Arquivo Municipal de Sardoal, para que os moradores do Sardoal não fossem constrangidos a assistir à festividade do Corpo de Deus em Abrantes, visto que a solenizavam com pompa na sua igreja do Sardoal.

              Nos princípios de 1415 as várias igrejas de Abrantes e seu termo e alguns clérigos delas a título particular contribuem com elevadas quantias em prata: 13 marcos e 54 onças, ou seja, cerca de 4, 610 Kg. A quem ou a quê se destinariam?

              Há fortes indícios de que se tratou de um pagamento generalizado à Coroa, como forma de financiamento da empresa de Ceuta, então já a ser preparada com todo o afã e no maior segredo. Tal hipótese levantada por Hermínia Vasconcelos Vilar ( em Abrantes Medieval - séculos XIV - XV, Abrantes, 1988, p. 66), funda-se numa passagem do cronista Zurara, segundo a qual D. João I teria mandado reunir a prata disponível e com ela ordenado a cunhagem de moedas (de prata), (Gomes Eanes Azurara, Crónica da Tomada de Ceuta, ed. Academia de Ciências de Lisboa, 1915 p.66). Os montantes pagos vêm discriminados pelo recebedor de prata da clerezia do bispado da Guarda, datada de 26 de Março de 1415 e existente no Arquivo Histórico de Abrantes (Particulares, Caixa 1, doc.15; pub. por Hermínia Vilar, op.cit., p.76, nota 60).

              Eram os maiores contribuintes:

              - Prior de Punhete (Constância)..............................................4 marcos

              - Prior de S.João (Abrantes)..................................................2 marcos

              - Prior de Alcaravela...........................................................13 onças

              - Prior do Sardoal............................................................10,5 onças

              - Um raçoeiro de S.Vicente, prior de Ponte de Sor.............10 onças

              - Outro raçoeiro de S. Vicente................................................9 onças

              Seguem-se seis parcelas de 1 marco (= 8 onças) e depois seis de menor valor.

              (Publicado em Abrantes na Expansão Ultramarina - Subsídios Históricos I - (1415 - 1578) - de Joaquim Candeias Silva).

 

              Serrão da Mota, no seu trabalho manuscrito “Memórias Restauradas do Antigo Lugar e Villa do Sardoal”, escrito entre 1754 e 1762, referindo-se à freguesia de Sardoal, escreve o seguinte:

              “Seguindo a antiguidade que pelas circunstâncias referidas alcançamos do Sardoal, certamente devemos ter por antiga a sua paróquia e freguesia.

              Muitos têm por tradição e verdade que noutro tempo fora em S. Simão, ermida sita na aldeia de Alferrarede (antiga designação de S.Simão), desta Vila, sem mais fundamentos do que conservar-se ali pia baptismal, o que podia ser como freguesia anexa e não como Matriz. Porém, nem disto há memória, mais do que o referido indício.”

              Antes do Concílio de Trento - 1563, todas as freguesias tinham pia e autorização para baptizar, visto que não havia registo obrigatório. Haver pia baptismal na Igreja de S. Simão e conservar-se a Feira chamada de S. Simão, no dia deste Santo - 28 de Outubro, denota grande antiguidade e dele foi antigo orago e padroeiro, antes que o fossem S.Tiago e S.Mateus.

              “De que foi em Nossa Senhora dos Remédios, junto ao Castelo de Abrantes, se há documentos não os vi, mas conserva-se a antiga posse de os Párocos desta Vila irem ali oficiar a missa da festa de San’Tiago, todos os anos de tempo que não há memória. Querem que sendo como ainda está, esta freguesia de San’Tiago e S .Mateus se dividia em duas ou para maior comodidade dos párocos ou dos fregueses. Ali era San’Tiago. S. Mateus era nesta Vila, defronte da Igreja da Misericórdia, onde hoje (1754) se conserva um arco de pedra a que chamam de S. Mateus, por se dizer haver sido ali a sua igreja.”

              (...) Num pergaminho passado por D. Gonçalo, Bispo da Guarda, no ano de 1450, que achei entre outros do mesmo cartório, manda que o Prior e seus parceiros constranjam com censuras aos fregueses, tanto deste lugar, como dos montes, a que paguem para as obras do corpo da igreja, alpendres e campanário. Em outros se faz menção da Igreja de S. Mateus e até ao presente não há mais nada que nos informe se é verdade que a houve.

              Antes de ser vigararia foi priorado de grande dote, pois de suas rendas, repartindo-as por quatro benefícios que criara, se sustentam quatro beneficiados que de manhã e à tarde assistem em perpétuo louvor a Deus na dita Igreja e no coro dela há mais dois capelães que servem no dito coro, com os quais o Vigário, congregando-se por sua devoção ao dito colégio e rezando nele algumas horas canónicas, faziam esta colegiada muito mais magestosa, com o que muito se enobrecia este povo.

              (...) E assim dizendo somente o que sabemos, tanto por tradição e algumas confrontações de escrituras que antes temos visto, como por vestígios que ainda estão, é sem dúvida que a primeira freguesia de S. Mateus foi defronte da porta principal da Misericórdia, aonde entre uns quintais de diversos moradores, ainda hoje se vê um arco de cantaria tosca que denota ser mais de porta que de cruzeiro; também pela altura de mais de quatro côvados ao solar da rua, se infere ser porta travessa e não principal, porque havemos de supor que tal igreja teria a porta principal voltada contra o ocaso do sol e para a frente da Misericórdia.

              A ocasião que houve para se transplantar deste lugar a dita freguesia de S. Mateus, como não há papéis que o declarem, podemos inferir que por incómodo ou por arruinada se trasladou a dita freguesia. O tempo não se pode inferir. Mas seria ao tempo em que o Prior que então era, erigiu os quatro Benefícios, pois é de crer que a antiga igreja não teria coro, por desnecessário, nem seria tão espaçosa como a que hoje existe e que por estes motivos, ou talvez por arruinada, se trasladou para o lugar onde hoje é.

              Também pode concorrer para o mesmo fim, porque a força maior do antigo lugar do Sardoal, ficava da Misericórdia para baixo e compreendia o que hoje são quinchosos subúrbios, tanto sobre a parte de S .Francisco, como sobre a Ribeira Pequena e vizinhança do Paço, em cujos distritos se vêem, ainda hoje, muitos vestígios de serventias antigas, como portadas e outros.

              Foi em aumento o dito lugar como se confirma na Docção que lhe fez Vila e cresceu para esta parte norte e Chafariz da Murteira ou Rua do Vale, como consta por tradição. Com este aumento do lugar e para esta banda fica mais distante aos moradores, a dita freguesia e por a tirarem de lugar ensapado e que não podia deixar de ser estreito. Outrossim por sua muita antiguidade ou ruína, eregeram sua nova situação no lugar onde hoje se vê, por ser lugar mais espaçoso, alegre e desafrontado, no cimo do monte, que respeitando as vistas das duas ribeiras se representa monte, não de mediana grandeza.

              Aqui, pois, se edificou a dita freguesia ou matriz, igreja tão grande e campeira e com os mesmos espaços que hoje ocupa, sinal por onde se mostra não ser povoação já  pequena. É verdade que se lhe não deu a altura que hoje tem, porque no século de 500 e já depois de ser o Sardoal Vila, se faz menção nos livros da fábrica, de obras na dita igreja.”

 

              Também o Capitão Manuel António Morato, na sua “Memória da Notável Vila de Abrantes”, escrita no século passado, referindo-se à fundação da Igreja de S. Tiago (em Abrantes), escrevia o seguinte:

 

              “ As mesmas conjecturas nos levaram a marcar o ano de 1341, como aquele em que se edificava a Igreja de S .Pedro, nos obrigam a pensar o mesmo sobre a edificação da Paróquia de S. Tiago, por palavras e letras também soltas e destacadas, assim o parecem confirmar nos deteriorados apontamentos do Bispo Frei João da Piedade.

              A esta freguesia pertenciam os moradores do Sardoal e dela se separaram no reinado de D. Afonso V, passando a formar freguesia à parte, com a invocação de S .Mateus e S .Tiago e a primitiva igreja ficou, desde então, considerada ermida, com invocação de Nossa Senhora dos Remédios, mas debaixo da jurisdição do pároco do Sardoal, que nela apresentava ermitão.”

 

              Sobre as origens da freguesia de Sardoal vale a pena transcrever, também, um texto do Revº Cónego António Franco Infante, do seu livro “CULTO MARIAL na Diocese de Portalegre e Castelo Branco”:

              “ Ao memorizarmos a cidade de Abrantes, referimos que os moradores desta povoação (Sardoal), pertenceram à extinta freguesia de Santiago daquela cidade, tendo alcançado a sua autonomia no reinado de D. Afonso V.

              Exceptuando Constância que tem dois Oragos - um da freguesia e outro da Igreja, respectivamente: S. Julião e Nossa Senhora dos Mártires, como explicámos quando memorizamos a freguesia de Constância - só o Sardoal  nos aparece na diocese de Portalegre e Castelo Branco, com dois Oragos, fundamentando-se o facto em qualquer motivação histórica que não conseguimos descobrir, embora nada nos iniba de supor a existência de qualquer igreja ou capela no mesmo local da Matriz com o nome de S.Mateus, aquando da criação da freguesia no século XV. Assim, ter-se-ia mantido o Titular de então, precedido ou junto com o Orago da Igreja Mãe: Santiago de Abrantes.

              (...) Seja, porém, como for, Santiago, que o vocabulário da Academia manda grafar Sant’Iago, aparece-nos a preceder o evangelista S. Mateus, como Oragos da Matriz de Sardoal. (...)

              Sobre este assunto nada se consegue apurar no “Charturarim Universitatis”-(17 vol.) e na “Monumenta Henricina” - (15 vol.), que trazem muitos documentos religiosos dessas épocas passadas. O mesmo acontece na obra “Portugália Monumenta Vaticanea” - (3 vol.), assim como no “Corpo Diplomático Português” - (17 vol.), referência que me foi facultada pelo ilustre Sardoalense Dr. Manuel José de Oliveira Baptista, que igualmente me referiu que não lhe custa acreditar que essa separação religiosa se deva a D.Afonso V, monarca que estanciou no Sardoal com alguma frequência e daqui fez publicar um razoável número de diplomas. De D. Duarte também há cartas reais emanadas do Sardoal, assim como de D. João II.

              Em 14 de Setembro de 1456 foi dada pelo Senhor Bispo da Guarda, D. Luís, uma carta de sentença, a favor dos moradores do Sardoal, contra o Prior Fernão Álvares de Almeida, por este pretender obrigar os ditos moradores a prover a Igreja de S. Tiago e S. Mateus de ornamentos, sinos e livros. Foram absolvidos os fregueses e condenado o Prior (o Bispo chama-lhe vigário) a prover a igreja de guisamentos. Contudo, conclui esta sentença: “ e por esta sentença não havemos por relevados os ditos fregueses de fazerem e refazerem e repararem, o corpo, altares e imagens, capelas e alpendres e campanário da dita igreja, a que são obrigados.”

             

              D. Afonso V assume o governo em 1446, travando-se em 1449 a Batalha de Alfarrobeira em que morre o Infante D. Pedro, reinando até 1481. Se se aceitar que o início da construção da actual Igreja Matriz de Sardoal ocorreu durante o reinado de D. Afonso V, provavelmente depois de 1450, que tipo de arquitectura teria esse primitivo templo?

 

IGREJA MATRIZ DA FREGUESIA

DE

S.TIAGO E S.MATEUS

DE

SARDOAL

 

              A Paróquia de Sardoal, pertenceu até 1549 à Diocese da Guarda, cuja primitiva sede do Bispado foi em Egitânia (Idanha-a-Velha). A primeira notícia da existência desta Diocese encontra-se nas actas do Concílio de Lugo (569) e o primeiro Bispo conhecido foi Adório, que esteve no 2º Concílio de Braga (572). Suprimida a diocese durante a invasão muçulmana, foi restabelecida na cidade da Guarda fundada em 1199 por D.Sancho I. O primeiro bispo foi D.Martinho Pais, falecido em 1228. A diocese ficou sufragânea de Compostela até 1393. Em 1549, desembraram-se dela as povoações que ficaram a constituir a diocese de Portalegre, criada pela bula de Paulo III “Pro excellenti apostolicae sedia” de 21 de Agosto de 1549, sendo seu primeiro bispo D.Julião de Alva (1549 - 1560).

 

              Sobre as origens da freguesia de Sardoal vale a pena transcrever um texto do Revº Cónego António Franco Infante, do seu livro “ CULTO MARIAL na Diocese de Portalegre e Castelo Branco “

I - SARDOAL  - 1 - Oragos da freguesia : SANTIAGO E S. MATEUS

 

              Ao memorizarmos a cidade de Abrantes, referimos que os moradores desta povoção, pertenceram à extinta freguesia de Santiago daquela cidade, tendo alcançado a sua autonomia no reinado de D.Afonso V.

              Exceptuando Constância que tem dois Oragos - um da freguesia e outro da Igreja, respectivamente: S.Julião e Nossa Senhora dos Mártires, como explicámos quando memorizamos a freguesia de Constância - só o Sardoal nos aparece na diocese de Portalegre e Castelo Branco, com dois Oragos, fundamentando-se o facto em qualquer motivação histórica que não conseguimos descobrir, embora nada nos iniba de supor a existência de qualquer igreja ou capela no mesmo local da Matriz com o nome de S.Mateus, aquando da criação da freguesia no século XV. Assim, ter-se-ia mantido o Titular de então, precedido ou junto com o Orago da Igreja Mãe: Santiago de Abrantes.

              Esta conjectura, todavia, parece ser contrariada pela Memória Histórica da notável Vila de Abrantes”que na pag.64, linhas 32 e 33, diz que

a primitiva igreja (do Sardoal) ficou desde então (criação da freguesia) considerada Ermida, com a invocação de Nossa Senhora dos Remédios, mas debaixo da jurisdição do Pároco do Sardoal que apresentava nela Ermitão”.

              Não deixará de ser pertinente esta pergunta: a primitiva igreja ou capela era da invocação de S.Mateus e passou a denominar-se de Nossa Senhora dos Remédios, como ermida, para se distinguir da Matriz, ou já era dedicada a Nossa Senhora dos Remédios? Mas neste caso, podemos adiantar: seria de Nossa Senhora dos Remédios ou de Nosso Senhor dos Remédios que ainda hoje existe? Erro histórico ou engano gráfico? Não é possível que houvesse duas ermidas no mesmo local com a invocação “dos Remédios”.

              Seja, porém, como for, Santiago, que o vocabulário da Academia manda grafar Sant’Iago, aparece-nos a preceder o evangelista S.Mateus, como Oragos da Matriz de Sardoal.

              Santiago Maior, com joão e Pedro foram os predilectos discípulos do Senhor, tendo-o contemplado na transfiguração e assistido de perto na Agonia do Morto.

              Depois da morte e ressurreição de Cristo, os apóstolos dispersaram-se pelo mundo a anunciar o Evangelho, cabendo a Santiago a evangelização da Península Ibérica, onde aportou próximo de Compostela, na Galiza, fundando algumas cristandades. Após algum tempo regressou à Judeia, onde Herodes Antipas o mandou decapitar no ano 44.

              A influência de Santiago foi muito grande na Península Ibérica, sendo Compostela então considerada, pela afluência de peregrinos,A grande Universidade da Idade Média Ocidental” e para o Islão A Mesa dos Cristãos”. Para isso contribuiram, a par de alguns feitos bélicos prodigiosos a lenda medieval que refere ter sido o corpo de Santiago logo lançado ao mar na Palestina, donde viera miraculosamente acompanhado por um cavalo que aportou à Galiza coberto de conchas marinhas. Outros historiadores afirmam que S.Tiago fora metido por alguns discípulos muito secretamente num barco e, guiados por um Anjo, chegaram à Galiza onde o desembarcaram e deitaram numa pedra, tendo-se esta imediatamente transformado em sepulcro como se fosse cera. Camuflado com vegetação, assim permaneceu durante séculos até ao reinado de D.Afonso II, o Casto, tendo o túmulo sido descoberto pelo bispo Teodomiro, por indicação de um aldeão montanhês, num bosque onde uma luz azul de brilho maravilhoso e cintilações persistentes chamava as atenções. A esse lugar iluminado pela estrela deu-se o nome de Campus Stellea - Campo da Estrela - que deu Compostela.

              Fazendo-se escavações por mando do referido bispo, deparou-se com um sarcófago que encerrava intacto o corpo de Santiago que depois de trasladado para um pequeno templo mandado construir por D.Afonso já citado e por sua esposa. Destruído pelos mouros comandados por Al-Mansur em 997, surgiu em seu lugar 85 anos mais tarde ou seja em 1082, uma das mais formosas e famosas catedrais da Europo.

A que propósito virá este apontamento histórico na memorização de uma freguesia, cujo objectivo é o culto Marial? Responderemos que Santiago de Compostela foi centro de peregrinações da Idade Média, contando romeiros vindos não só da Espanha e de Portugal mas de toda a Europa. É óbvio que os mais beneficiados, desde o início, foram os povos ibéricos, não só porque estavam mais próximos geograficamente, mas por terem sido evangelizados por Santiago e terem assistido ao prodígio por ele realizado na batalha contra os mouros, na Era de 844, em Clavijo, sendo Ramiro rei das hostes cristãs.

              Diz a tradição que no mais aceso do combate, apareceu misteriosamente Santiago montado em cavalo branco e brandindo uma espada de fogo que pôs em debendada os mouros. Isto contribui para se incentivar o culto de Santiago, multiplicando-se os seus templos, imagens, retábulos em pintura e painéis em azulejo por toda a parte. Como Deus realiza maravilhas através dos seus Santos, o culto que se lhes presta não anda nunca desvinculado de Deus e da Virgem Maria. Esta é a razão do mini-apontamento histórico sobre o Orago da Matriz do Sardoal.

             

              2 - A IGREJA MATRIZ é um templo da 2ª metade do séc. XV ou princípios do séc.XVI, como o atestam o seu pórtico gótico e a sua rosácea de granito escuro, ambos elaborados sem grandes ornatos. Excepto o altar-mór em talha dourada dos fins do século XVII ou princípios do séc. XVIII, os altares do corpo da Matriz são de pedra-calcário, em estilo renascença (séc. XVI), portanto seiscentista e muito semelhantes e talvez coevos dos das igrejas de São Vicente e São João da cidade de Abrantes, quando não mesmo executados pelos mesmos artistas.

              No trono do altar-mor encontra-se uma imagem de Nossa Senhora da Conceição (séc.XVII), havendo no templo uma outra da mesma invocação. Junto ao arco do cruzeiro, numa mísula está ao culto a imagem de Nossa Senhora do Pranto (Piedade) de pedra, estilo romano-gótico (séc.XIII), venerando-se uma outra com a invocação de Nossa Senhora da Piedade, estilo barroco. À veneração dos fiéis estão também expostas nos vários altares as imagens de Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora do Pé da Cruz, além da imagem de Nossa Senhora do Pilar reproduzida nos azulejos oitocentistas que revestem as paredes da capela-mór com motivos de S.Tiago. Existe também neste templo, entre outras obras-primas do mesmo artista - Mestre do Sardoal - , uma pintura valiosa da primeira metade do séc.XVI, que representa a Anunciação do Anjo Gabriel a Nossa Senhora. Este e outros quadros do mesmo autor ocupam lugar na antiga capela do Santíssimo Sacramento, lado esquerdo do templo.

 

BREVE RETRATO DOS PADROEIROS

 

S.TIAGO:

              Este apóstolo chamado “o Maior” para se distinguir do seu homónimo no colégio apostólico, era filho de Zebedeu e de Salomé e irmão de João Evangelista. No princípio da pregação de Jesus, foi objecto de uma vocação que no ano seguinte se tornou definitiva.

              Correspondendo docilmente, com seu irmão, ao chamamento do Mestre, tornou-se um dos doze (Mat.IV, 21 e 22, X, 2-4).

 

              Na lista dos apóstolos, aparece em S.Marcos (III, 13) logo a seguir a Pedro, mas outros sinópticos dão-lhe o terceiro lugar. É um dos três previlegiados que assistem à ressurreição da filha de Jairo e à transfiguração de Jesus em Tabor e que estão mais próximos dele no momento da agonia.

              De combinação com o irmão, mandou pedir por sua mãe o primeiro lugar ao lado de Jesus e recebeu a resposta de que havia de beber o cálix, mas sem a certeza de obter o lugar desejado. Depois da cena da agonia, deixa de ser citado nos Evangelhos, mas nos Actos dos Apóstolos dizem que recebeu com outros o Espírito Santo, por ocasião do Pentecostes e registam em duas palavras o seu martírio.

              Pelo ano de 42, Herodes Agripa, a fim de agradar aos Judeus, mandou-o decapitar em Jerusalém. Tudo o mais que se conta acerca deste apóstolo pertence ao domínio da lenda e pode resumir-seassim: Tiago, filho de Zebedeu, depois de pregar na Judeia e na Samaria, encaminhou-se para a Hispânia. Vendo que pouco aproveitava aqui a sua pregação, voltou para a Judeia onde converteu Fileto, discípulo de um mago chamado Hermógenes e por fim também este.

              Os Judeus, furiosos com estas conversões, dirigem-se-lhe em tom insultuoso; muitos, porém, vieram a converter-se com a sua pregação e milagres. O Sumo-Sacerdote Abiatar levou então o povo a apoderar-se do apóstolo e a levá-lo a Herodes Agripa, que lhe mandou cortar a cabeça. Sucedeu isto em 25 de Março, mas a Igreja fixou-lhe a festa em 25 de Julho, data em que o seu corpo foi trasladado para a Galiza.

              As lendas peninsulares acrescentam que o apóstolo, durante a sua estada na Hispânia, foi favorecido em Saragoça com uma aparição da Virgem Maria, então ainda viva, a pedir que lhe edificasse um templo. Tal seria a origem do templo do Pilar. Dizem, ainda, que recrutou aqui alguns discípulos que o acompanharam até Jerusálem e depois trouxeram o seu corpo para a Galiza. Estas lendas são todas muito tardias; a da pregação na Hispânia não é anterior ao século VIII; a da trasladação para a Galiza aparece por fins do primeiro quartel do século IX. O culto local do apóstolo, junto do túmulo que lhe foi atribuído já estava estabelecido cerca do ano de 850. Na antiga liturgia hispânica a festa celebrava-se a 30 de Dezembro.

 

S.MATEUS:

              Apóstolo e evangelista. Judeu de origem, exercia o cargo de publicano ou cobrador de impostos na cidade de Cafarnaúm.

              Chamado por Jesus, deixou o telónio (mesa onde se recebiam as rendas públicas) e ofereceu em sua casa, ao Senhor e aos discípulos, um banquete a que assistiram muitos outros publicanos (Mat.IX, 9-13, Marc.II, 14, Luc.V, 27).

              Era filho de Alfeu, sem todavia ser irmão de Tiago, o Menor.

              Das narrativas evangélicas conclui-se que usava também o nome de Levi; é possível que fosse este o seu nome próprio e que Jesus lhe desse o de Mateus (= dom de Iavé), quando o chamou, como fez a Simão impondo-lhe o nome de Pedro. Além do episódio  da sua vocação, o Novo Testamento nada refere a respeito de S.Mateus, apenas inclui o seu nome nas listas dos Apóstolos. Devia, como os outros, acompanhar o salvador no seu ministério, assistir às aparições de Cristo ressuscitado e à Ascensão e participar na fundação da Igreja de Jerusalém. É cheio de incertezas o que se conta acerca da sua vida e pregação. Atribuem-lhe várias regiões como campo de apostolado: o Ponto, a Pérsia, a Síria, a Etiópia, a Macedónia, a Hibérnia, a Índia, etc. A Igreja Latina honra-o como mártir a 21 de Setembro, mas não se sabe qual foi o género de morte que padeceu.

              No simbolismo da arte cristã é representado pelo homem, porque no princípio do seu Evangelho expõe a genealogia de Cristo na ordem humana.

              Escreveu o 1º Evangelho.

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