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Raízes Culturais

Serra: Peço-vo-lo que canteis

À guisa do SARDOAL

Lopo: Esse é outro carrascal

Esperai ora, e vereis.”


Este diálogo entre a Serra e Lopo (um folião do Sardoal) que faz parte da Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela”, que se encontra inscrito num painel cerâmico da autoria de Gabriel Constant, colocado por volta de 1934 na parede sul da Capela do Espírito Santo, na Praça da República, na Vila de Sardoal, é uma das referências mais importantes que Gil Vicente faz a esta terra na sua obra.

A participação dos dois foliões do Sardoal naquele Auto e a sua cantiga à guisa (maneira) do Sardoal, que Lopo interpreta na sua parte final, mereceu do Professor Doutor Amorim Girão (Biblos, XII, 492 – 493) o seguinte comentário: “É bem significativa a distinção etnográfica estabelecida pelo poeta entre a região da Serra da Estrela e a do Sardoal, através da maneira de cantar e de bailar dos seus habitantes. E a resposta que um dos foliões dá a quem os tomou por Castelhanos, revelando o seu elevado sentimento patriótico, constitui uma especial característica antropogeográfica das populações raianas desta zona portuguesa de Entre Douro e Tejo.”

 Do mesmo texto se pode inferir algum fundamento para a teoria que defende que a origem do nome “SARDOAL” se deverá mais à natureza do povoamento vegetal dominante na zona, na Idade Média, do que a uma excepcional abundância local de lagartos os sardões, nome vulgar extensivo a uns répteis sáurios, de porte relativamente grande, frequentes em todo o território nacional.

O significado da palavra “Sardão” é, também, entre outros, o de azinheira, carrasco ou carrasqueiro e são muitas as localidades com o nome “SARDOAL”, cuja etimologia é a de terreno agreste e carrasqueira ou sardão.

 Quando na Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela”, a Serra pergunta a Jorge e Lopo (os dois foliões do Sardoal): “Sois vós de Castela, manos? / Ou lá debaixo, do extremo?”, a resposta de Jorge é fulminante, quando diz: “Agora nos faria o demo / a nós outros castelhanos?...”/Queria antes ser LAGARTO / pelos Santos Evangelhos!”

E, mais adiante quando a Serra lhes pede que cantem “à guisa do Sardoal”, é Lopo que responde: “Esse é outro carrascal”.

São estas duas respostas que podem dar lógica e fundamento à teoria referida, sem embargo de o termo “LAGARTO” andar há séculos associado aos habitantes do Sardoal e de um lagarto ou sardão ser o símbolo vivo do brasão do concelho, o que já se verificava no selo antigo da Câmara, no ano de 1500.

Outra referência de Gil Vicente ao Sardoal aparece no “Auto do Juiz da Beira”, levado à cena, pela primeira vez, em 1525, quando um bailador se defende dizendo: “Juiz, ele o merece menos/ Eu bailei em Santarém/ Sendo os infantes pequenos/ E bailei no SARDOAL/ E de contino me vem/ Bailar sem haver alguém/ Que me ganhe em Portugal”.

Sem outro fundamento, por enquanto, que não seja a tradição popular transmitida oralmente, há séculos, de geração em geração, os habitantes do Sardoal defendem que Gil Vicente nasceu no Sardoal, ou que, pelo menos, aqui terá vivido.

Sobre o seu nascimento não dispomos de elementos para fundamentar a tradição. Sobre ter tido aqui morada, não temos grandes dúvidas, uma vez que a Corte de D. Manuel estanciou por diversas vezes, no então lugar do Sardoal e Gil Vicente, por regra, acompanhava a Corte nas suas deslocações pelo País.

Fosse como fosse, as referências que Gil Vicente faz na sua obra ao Sardoal, denotam um profundo conhecimento da sua realidade etnográfica e social que só poderia ter obtido por observação pessoal e directa.

Situado no Centro de Portugal e em zona de transição entre o Ribatejo, o Alentejo e a Beira – Baixa, o Município de Sardoal goza de uma invejável centralidade.

Desta confluência herdou diversas características sócio – culturais, nomeadamente através das relações laborais inter – regionais que ao longo dos séculos se estabeleceram para a realização de trabalhos agrícolas sazonais, de que se podem referir a título de exemplo, as deslocações para a apanha da azeitona no concelho de Sardoal, dos ranchos de “Capuchos”, vindos, principalmente, dos concelhos da Sertã e de Proença – a – Nova (Beira – Baixa) e as levas de “Ratinhos” (assim eram chamados os trabalhadores rurais que se deslocavam do Sardoal e de muitos outros concelhos do interior do País para o Alentejo), no tempo em que as ceifas eram feitas manualmente, o que ocorreu até perto de 1960.

Desta interpenetração regional resultou uma simbiose cultural que confere algumas características únicas à etnografia e à arquitectura popular e ao próprio comportamento social dos Sardoalenses, ainda hoje perceptíveis em todo o concelho.

O Sardoal é um pequeno concelho, com cerca de 92 km2, de que aproximadamente 70% são ocupados por floresta pínea, onde começava, antes dos grandes incêndios florestais de 1995, maior mancha contínua de pinheiro – bravo da Europa.

A sua população, distribuída por quatro freguesias e por cerca de 40 lugares era de 4 098 habitantes (Censos de 2001) e actualmente deve rondar os 3 800 habitantes.

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