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O Espírito de Natal

Publicado a 30/12/2010, 10:04 por Luís Gonçalves   [ atualizado a 30/12/2010, 10:13 ]

O Natal é e sempre foi, para mim, a festa da Família, a tal ponto que dos cinquenta e oito natais que já vivi, apenas dois não foram vividos no convívio com os meus familiares mais directos. Foi nos já longínquos anos de 1973 e 1975, sendo o primeiro passado em Angola e o segundo em Moçambique, quando cumpria o serviço militar nessa duas ex-colónias de Portugal.

Nas minhas memórias da infância guardo, com muito carinho, as memórias dos Natais que sempre passei em Entrevinhas e, em especial, da construção do Presépio, quer na minha casa, quer mais tarde, na Escola Primária e na Capela de Santo António, momentos aguardados com grande ansiedade e vividos com um entusiasmo intenso, que começava na apanha dos musgos e culminava no acto de acender as lamparinas, colocadas em caixas de graxa, ciosamente guardadas ao longo do ano para nelas ser deitado o azeite que alimentava, como combustível, as lamparinas que com a sua luz trémula iluminavam o Menino Jesus e as restantes figuras do Presépio.

Num tempo em que ainda se não falava do Pai Natal, nem na árvore de Natal, o Menino Jesus era a figura central do Natal, que alimentava as esperanças infantis de que não se esquecesse de passar pela nossa chaminé, onde o sapatinho era colocado com ansiedade para receber as prendas que o Menino entendesse trazer-nos, sempre modestas, num tempo em que ainda se sentiam as dificuldades do pós-guerra.

Não me recordo de alguma vez ter recebido um brinquedo no meu sapatinho. Os tempos eram difíceis e era preciso juntar o útil ao agradável, daí que as minhas prendas de Natal tivessem sempre utilidade para o dia a dia: caixas de lápis de cor, cadernos, peúgas, etc. Só mais tarde quando já tinha nove ou dez anos é que começaram a aparecer algumas guloseimas que faziam parte do cabaz de Natal que os patrões do meu Pai costumavam oferecer, a partir da altura em que o meu Pai deixou de ser trabalhador rural e passou a ser operário fabril em Alferrarede.

O meu cerimonial da noite de Natal mudou quando por volta dos treze catorze anos fui admitido no grupo dos mais velhos e autorizado a acompanhá-los na procura e transporte do madeiro de Natal, com o qual se fazia uma enorme fogueira no adro da Capela de Santo António que ardia pelo menos até ao dia de Ano Novo e onde a rapaziada passava a maior parte da noite de Natal.

A partir de 1979, o Natal ganhou um novo significado para mim, sendo obrigado, por força das circunstâncias familiares, o nascimento do meu primeiro filho, o Luís Filipe e dos gémeos Pedro e Tiago em 1986, fui forçado a entrar na era do Pai Natal. A partir de 1979 o Natal da Família foi sempre passado em minha casa, como ainda aconteceu neste ano. É verdade que a magia do Natal, para mim, só durou enquanto os meus filhos acreditaram no Pai Natal, mas espero recuperar essa magia, se tiver a felicidade de conviver alguns anos com os netos que os meus filhos, eventualmente, me vierem a dar.

Não quis escrever este pequeno texto antes do Natal, deixando essa tarefa para alguns dias depois. Preferi deixar passar a febre consumista que o Natal dos nossos dias contém e a avalanche de mensagens, algumas de circunstância, que inundam as caixas de mensagens dos telemóveis, para deixar uma mensagem de Natal para os meus Amigos leitores. Desejo a todos que o espírito do Natal dure ao longo d o ano, que os presentes surjam todos os dias. Enfim, que o Natal não seja um dia, mas todos os dias.

Confesso que tentei escrever um texto optimista sobre o ano de 2011 que aí vem, mas não consegui! Antevejo um ano muito difícil e o que mais desejo a todos é que vivam o próximo ano o melhor possível, com saúde, paz social e harmonia familiar, pois este é o único escudo que conheço para atenuar ou vencer a crise que aí vem!

Numa próxima oportunidade tentarei fazer o meu balanço do ano de 2010.

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