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4. Vida Religiosa

ALGUMAS NOTÍCIAS
E

CURIOSIDADES

A vida religiosa e política do Sardoal nos primeiros anos do século XX foi profundamente marcada pelo Cónego António Joaquim Silva Martins, que foi Pároco da freguesia de S.Tiago e S. Mateus entre 1901 e 1927 e por diversas vezes Presidente da Câmara Municipal de Sardoal, quer ainda na vigência da Monarquia, quer nos conturbados anos da I República, cargo que desempenhou no total cerca de 19 anos.

António Joaquim da Silva Martins, nasceu em Entrevinhas em 15 de Março de 1868, filho de Joaquim da Silva e de Maria Lourenço Martins. Fez os estudos primários na Escola da Presa, tendo como professor Francisco Martins Pimenta. Fez os estudos teológicos no Seminário de São Bernardo de Portalegre, onde foi admitido em 29/9/1885. Recebeu todas as Ordens das mãos do Arcebispo-Bispo de Portalegre, D. Gaudêncio José Pereira: a Ordem do Diaconado, em 5/4/1890 e o Presbíterado, a 20 de Setembro do mesmo ano. Habilitado com património, por sentença de 22 de Março de 1890, é aprovado e classificado em 1º lugar no concurso por provas públicas para provimento da Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Neves, em 15 e 16 de Abril de 1891, de que não tomou posse. Foi apresentado na Igreja Paroquial de São Silvestre do Souto, por decreto de 3/12/1896 e colado em 30/3/1897. Tomou posse em 18 de Abril de 1897 e aí paroquiou até 12 de Dezembro de 1901, acumulando a paroquialidade da Aldeia do Mato, desde 22/9/1897, até 22/12/1897. Apresentou-se na Igreja Paroquial de S. Tiago e S. Mateus do Sardoal por decreto de 27/9/1901 e colado em 22/11/1901. Tomou posse a 2/1/1902 e no Sardoal permaneceu até ser transferido para a Paróquia de S. Vicente de Abrantes, sendo nomeado arcipreste desta cidade, por despacho de 22/02/1927, permanecendo nessa função até ao seu falecimento, que ocorreu na sua casa no Sardoal, em 25/12/1943.

No Sardoal criou no ano de 1919 o “PATRONATO INFANTIL” e a “ASSISTÊNCIA AOS INVÁLIDOS”. Em 1921, promove a reconstrução da Torre da Matriz, demolida no dia 13 de Janeiro de 1921, por uma faísca.

Em Abrantes foi um dos grandes impulsionadores da criação do Colégio de Nossa Senhora de Fátima e promove a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de Alferrarede.

As circunstâncias dramáticas que envolveram a morte de sua mãe devem tê-lo marcado profundamente e podem perceber-se numa notícia publicada no jornal “ECHO DO TEJO”, de 23 de Outubro de 1904, que a seguir se transcreve:

UMA GRANDE DESGRAÇA - UM ACTO DE LOUCURA

FILHO QUE MATA A MÃE A GOLPES DE MACHADO



Pelas 3 horas da tarde na sexta-feira última foi recebido pelo nosso bom amigo Sr. Dr. Manuel Martins um telegrama do Sardoal em que apenas se lhe dizia que prevenisse o seu primo Sr. .Padre António Joaquim Silva Martins, vigário daquela vila do Sardoal, que nesta ocasião se encontrava em Abrantes, para ir imediatamente para o Sardoal.
O Sr. Padre Silva Martins pôs-se logo a caminho daquela vila supondo que tivesse sido chamado para administrar os sacramentos a algum enfermo. Pouco depois recebia o Sr..Dr.. Martins um novo telegrama dizendo apenas que tinha havido uma grande desgraça em casa de seu primo.
Como era natural este caso comoveu profundamente o Sr..Dr..Martins que imediatamente se dirigiu para o Sardoal em companhia de sua irmã, a Srª D. Eugénia Martins e quem estas linhas escreve.
Quando ali chegámos eram 6 horas da tarde. Vários grupos espalhados pela vila comentavam com a maior tristeza e mágoa o acontecimento. À entrada da casa da habitação do Sr..Padre Martins, onde se desenrolou o horroroso drama estacionava bastante povo que era contido por alguns cabos de polícia. Quando entrámos no prédio sentimos uma comoção tão grande que não pudemos deixar de soltar um grito de dor, ao ver tão lúgubre espectáculo.
O Sr. Padre Martins estava sobre um leito soltando gritos de profunda dor sem que os numerosos amigos que o rodeavam conseguissem tranquilizá-lo.
Por todas as salas se via gente com os olhos marejados de lágrimas.
Na cozinha, em frente do quarto do Sr. Padre Martins, é que o espectáculo era verdadeiramente horrível. A mãe do Sr. Padre Martins jazia estendida no chão, em frente da chaminé, que estava coalhada de sangue. Estava deitada de costas, com os braços estendidos ao longo do corpo. A cabeça achava-se quase separada do corpo, vendo-se no pescoço golpes profundos produzidos por um machado de rachar lenha que estava próximo do cadáver, ainda quente. Na fronte via-se, também, um profundo golpe.
Um verdadeiro horror!!!...
A vítima chamava-se Maria da Conceição Silva Martins e era casada com o Sr. Joaquim da Silva, de Entrevinhas. Tinha dois filhos, com quem vivia e para quem era extremosissíma: O Sr. Padre António Silva Martins, Vigário do Sardoal e o Dr..José Silva Martins, solteiro, 45 anos de idade, bacharel formado em Direito e Secretário da Câmara Municipal de Portalegre. Além de sua mãe, tem o Sr. .Padre Silva Martins sustentado em sua casa uma sobrinha de 16 anos de idade, chamada Maria de Jesus Martins, seu irmão José Silva Martins e dois pequenos, filhos deste e de uma mulher com quem em tempos viveu e teve relações.
O Dr. José Silva Martins era um bacharel muito distinto, tendo enlouquecido vai para 6 anos por causa da mulher com quem viveu algum tempo, com grande desgosto da família. Esteve já internado no Hospício de S. João de Deus, no Telhal, próximo de Lisboa, de onde fugiu para casa do irmão.
Veio do Telhal um pouco melhor do que fora, mas não veio, perfeitamente, curado.
A família tratava-o com o maior desvelo e carinho, mas ele odiava cada vez mais a mãe, o irmão e os primos Dr. Manuel Martins e Padre Raposo, que o acompanhou quando deu entrada no Hospício de S. João de Deus, precisamente os maiores amigos que tinha e era esses que não podia ver.
O triste acontecimento que acaba de enlutar a família dos nossos amigos Sr. Dr. Martins e Padre Silva Martins, passou-se da seguinte forma:
Pelas duas horas da tarde, pouco mais ou menos, o Sr. Padre Raposo entrou em casa do seu primo. O Sr. Dr. José Silva Martins logo que o viu começou a pedir-lhe dinheiro e a altercar com ele, vendo-se o Padre Raposo obrigado a sair para a rua, sem lhe responder. Nesta ocasião a mãe começou a dizer-lhe algumas amabilidades para o tranquilizar. Ele dirigiu-se à mãe e dá-lhe uma bofetada. O Sr .Padre Raposo que ainda presenciou esta cena, novamente lhe disse que estivesse sossegado, saindo depois para a rua. Momentos depois chegava a sobrinha à janela gritando que lhe acudissem porque o seu tio estava a matar a avó. Alguns indivíduos correram logo a casa, mas quando ali chegaram viram já a pobre mulher estendida no chão e o filho atirando-lhe com o machado ao pescoço. Quando o Dr. Silva Martins viu os indivíduos que ali tinham ido, correu para eles de machado em punho. Como a sobrinha ainda estivesse em casa dirigiu-se a ela e deitou-lhe a mão ao braço direito.
A pequena, porém, fez um esforço tal para se ver livre do tio, que lhe deu um encontrão, rasgando-se, então, o casaco e a camisa no braço, pondo-se em fuga.
Só nesta ocasião em que caiu é que o louco largou o machado, correndo para a rua em perseguição da sobrinha. Ao chegar, porém, ali, parou por um instante, mas vendo na sua frente o Padre Raposo, correu logo para ele, sendo nesta ocasião preso pelos indivíduos que ali se encontravam. Opôs grande resistência no acto da captura, mas depois serenou um pouco, dando entrada na cadeia com relativa facilidade.
As autoridades judiciais de Abrantes compareceram em casa da vítima pelas 6 horas da tarde. Assistiram à autópsia que foi feita pelo Sr. Dr. Oliveira e Sr. Dr. Heitor, o Sr. Dr.Alcântara, Juiz, Dr.Pinto de Abreu, Delegado, o Escrivão Lopes e o Oficial de Justiça.
O funeral da vítima realizou-se ontem de manhã e foi extraordinariamente concorrido.
O preso deu ontem entrada na cadeia desta vila, sendo conduzido num carro do Sardoal para Abrantes. Foi apenas acompanhado por alguns cabos e a condução fez-se sem dificuldades. Fala muito e com muita correcção, mas não liga pensamento algum. Apresenta-se de grande cabeleira e barba crescida. Segundo nos consta vai em breve dar entrada em Rilhafoles.
Sentindo profundamente o doloroso golpe por que acabam de passar os nossos amigos Sr. Dr. Manuel Martins e Padre Silva Martins, endereçamos-lhes as nossas condolências.

Descrito este episódio funesto regressamos ao princípio do século para transcrever alguns episódios e notas curiosas sobre a vida religiosa desse tempo.

No Jornal “ECHO DO TEJO” de 21 de Abril de 1901:

Como noticiámos realizaram-se este ano com toda a pompa e imponência as solenidades da Semana Santa, sobressaindo, entre tudo, a Procissão do Enterro, em Sexta-Feira Santa.
O Sermão de Quinta-Feira Santa confiado ao distinto orador sagrado, o nosso amigo Padre António Silva, agradou muitíssimo, mostrando mais uma vez este nosso amigo, quanto são vastos os seus recursos oratórios.
O Sermão do Enterro, confiado ao digno coadjutor desta freguesia, nosso amigo Padre José da Costa Tição e ouvido por mais de 5 000 pessoas, foi um verdadeiro sermão de lágrimas, pelos pensamentos nele expostos.

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A excelente Filarmónica Sardoalense tocou três lindas “marchas fúnebres” nas procissões da Semana Santa.
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Na Quinta-Feira Santa à noite todos os templos estavam maravilhosamente ornamentados, sobressaindo a Capela de Nossa Senhora do Carmo, que estava um primor.

Todos os estabelecimentos armaram montras de amêndoas que produziram um óptimo efeito.

“JORNAL DE ABRANTES” : 2/6/1901

Na Vila do Sardoal faleceu na passada quarta-feira, o Vigário daquela freguesia Padre João Lopes de Andrade. O finado deixou testamento legando os seus haveres a pessoas de família.

Na sequência da morte do Vigário do Sardoal, surge a seguinte notícia no “ECHO DO TEJO”, em 9 de Junho de 1901:
Já não faltam pretendentes à Igreja do Sardoal, movendo a alta empenhoca. É a opinião geral que virá recair a escolha no Sr. Padre Silva Martins, Prior do Souto, que goza de geral simpatia naquela Vila. O Revº Silva Martins é Pároco de 1ª Classe e professor complementar, não lhe faltando, portanto, habilitações para obter a promoção.

Mais consta que vai concorrer um bacharel em Teologia e que um sacerdote que costuma ser o oráculo inspirador do Sr. Avelar Machado, quando se trata de despachar eclesiásticos, não é favorável à nomeação do Revº Prior do Souto.

Jornal “ECHO DO TEJO” - 16/6/1901:

Está vaga a freguesia do Sardoal. Dizem-nos que são muitos os concorrentes e que entre eles está o Revº Pároco do Souto que não conhecemos senão por tradição, que é honradíssima.
Este sacerdote exemplaríssimo é aquele que o laborioso e digno povo do Sardoal quer ver à frente da sua freguesia, não só pelas muitas simpatias que ali conta, mas ainda pelos seus serviços e entranhado amor à causa da Igreja.
Pois consta-nos que um oráculo dos muitos e bons que inspiram o par do reino, Sr. Machado, anda planeando frustrar a vontade do povo que é soberana, desejando meter à cara um desconhecido que será muito bom, mas tem o grande contra de não agradar à freguesia. Parece-nos que o conselheiro vai mal...
É necessário respeitar a vontade do povo que é intransigível sempre e sobretudo quando se trata de um negócio de consciência, como no caso presente.
O conselheiro, que de mais a mais é um clérigo, devia ser o primeiro a pugnar tão somente pela causa da Igreja com que se matrimoniou e pôr acima de tudo o futuro e lustre da instituição que lhe dá o pão de cada dia.
O povo quer um pastor à sua vontade e, portanto, respeite-se a sua vontade. Tem direito a manifestá-la e a exigir o seu cumprimento, porque é livre e directamente interessado.
Se não forem cumpridas as suas indicações tem ainda maneira de fazer sentir o seu desagrado. É esta uma questão que oxalá não dê muito de si.
Pela nossa parte estamos dispostos a desmascarar o digno sacerdote e apontar ao povo do Sardoal o caminho que tem a seguir.
Será para nós motivo de grande júbilo não nos vermos na necessidade de o fazer.
Mas o fervet apus pelo patrão do tal sr. clérigo bem pode arrancar mais algum retalho à religião de Cristo, transformando-a em balas que lhe façam dar com a pipa na terra.
Está paroquiando interinamente a freguesia do Sardoal o Revº José da Costa Tição.

Jornal “ECHO DO TEJO” -8/9/1901:

Consta-nos que será apresentado na Igreja do Sardoal o Revº Silva Martins, do Souto.
Enfim, o mestre de cerimónia do Sr. Par do Reino, sempre houve por bem conceder aquela graça ao seu súbdito...
Melhor será que seja esta a última vontade do apaparicado Conselheiro.

“JORNAL DE ABRANTES” - 22/09/1901 - “NECROLOGIA”:

Na Vila de Sardoal, faleceu na passada segunda-feira (16/09/1901), vitimado por uma congestão pulmonar, o Sr.Padre António Silva Morais, um sacerdote de exemplares e nobres qualidades e o mais antigo na localidade. Contava 72 anos de idade e foi um distinto orador sagrado do seu tempo, sempre muito considerado e respeitado por todos os que lhe sabiam apreciar as belas qualidades de que era dotado. A sua morte é deveras sentida, especialmente pela pobreza a quem fazia muito bem.
Sobre o féretro foram depositadas duas lindas coroas de flores artificiais com dedicatórias em largas fitas preto e roxo. Uma foi oferecida pelos seus irmãos Maria, Rita e Francisco e outra pelo seu cunhado Nogueira e esposa.
O seu funeral foi concorridíssimo. Paz à alma do Honrado e Ilustrado Sacerdote.
A todos os nossos sentimentos.

“JORNAL DE ABRANTES” - 06/10/1901:

Temos aqui um cura que está servindo de vigário interino desta freguesia (S. Tiago e S. Mateus), assim como um sacristão efectivo, estes dois senhores que tiveram a audácia de estrangular uns sobreiros que de eras remotas têm sempre pertencido à Junta de Paróquia desta freguesia, no sítio denominado S. Domingos.
Os párocos transactos nunca tiveram a delicadeza de fazer tal serviço.
A Autoridade Administrativa deste Concelho, tendo conhecimento do facto mandou logo proceder ao embargo de 1 400 Kgs, pouco mais ou menos, da casca dos ditos sobreiros, a qual está depositada numas casas situadas num prédio pertencente à viúva de Valentim Aires Sequeira Mora; o depositário desta casca, como rendeiro do dito prédio onde a casca está depositada, é o sr. Joaquim Chambel, assim como também nos consta que estavam 18 carradas de lenha dos ditos sobreiros, pouco mais ou menos, em casa do cura e sacristão.
Última hora! No dia 2 do corrente pelas cinco horas da manhã, foi esta Vila surpreendida por girândolas de foguetes que estalavam nos ares, isto devido à nomeação do Reverendo Padre António Joaquim Silva Martins, que por despacho de 27 de Setembro último foi nomeado para Pároco desta freguesia.
Todos os Sardoalenses rejubilam de contentes por tal nomeação ter recaído num sacerdote exemplar, ilustrado e digno, como sempre tem mostrado em todos os actos da sua vida. Bem vindo seja, pois!

Jornal “ECHO DO TEJO” - 15/07/1902:

Procedeu-se, hoje, à eleição da Mesa Administrativa da Irmandade do Santíssimo Sacramento desta Vila. Até à hora em que escrevemos, ainda não sabemos o resultado da eleição. Diz-se que figurarão como gerentes alguns novos irmãos que entraram ultimamente, continuando alguns da Administração transacta. Diz-se, hoje, que na Praça andou alguém a galopinar votos a fim de poder determinar o resultado da eleição a seu sabor. Não se sabe, ao certo, o que há de verdade nesta afirmação, nem pretendemos fazer-lhe crítica. Apenas narramos o que temos ouvido. Mas sempre nos quer parecer que anda mal avisado quem, sendo estranho à Irmandade pretende nela domínio. A Irmandade foi criada para um fim que está expresso nos seus estatutos e desse fim não pode afastar-se a Mesa Administrativa. Como é que pretendem certos elementos estranhos exercer pressão na Irmandade, pretendendo admitir na sua direcção quem se preste a seguir outra linha de proceder que não seja o que estabelece o Compromisso?
Causou impressão em algumas pessoas a nota publicada no ECHO do dia 1 de Junho que dizia constar aqui certo indivíduo que queria alistar-se na Irmandade para convertê-la em instrumento político. Procurámos indagar quem seria o tal pretensioso e ouvimos várias opiniões, sendo a mais provável a que indigitava certo cavalheiro, que mais se tem mostrado com a eleição da Mesa. Falando, hoje, com um indivíduo do termo, até mostrou em saber a quem o jornal se referia. Mas nada podemos responder, por estarmos, ainda, em dúvida.

Sardoal, 08/06/1902 - THOMÉ

Jornal “ECHO DO TEJO” - 22-06-1902


Nesta Vila têm-se dado casos que por de forma alguma se devem esquecer.
Um dos factos mais recentes foi a eleição da Irmandade do Santíssimo em que se cometeram verdadeiras tropelias. Enquanto o povo desta Vila e Concelho não conhecer bem o meio em que vive e não for prevenido contra os manejos e artimanhas de certo régulo cá do sítio e dos seus sequazes, dar-se-ão, todos os dias, destes factos, verdadeiramente ridículos e repugnantes. Mas vamos ao caso:
-Dos sete membros que formam a Mesa da Irmandade do Santíssimo, saíram dois por não poderem e não quererem continuar a fazer parte dessa Mesa.
O lugar destes, porém, tinha sido substituído por irmãos da maior competência, a quem se havia pedido para entrarem na nova lista. Assim foi feito de harmonia com os desejos dos irmãos e ninguém supunha que sobre ela pudesse haver alguma divergência. Sucede, porém, que o régulo cá da terra e seus sequazes, que não são irmãos desta Irmandade e como tal, se tivessem um pouco de bom senso, não se meteriam em coisas que não são das suas atribuições. Andaram por portas e travessas fazendo uma lista à sua maneira e imagem e semelhança, substituindo alguns nomes da lista combinada, por outros da sua feição.
Não tendo, porém, os galopins capitaneados pelo seu régulo importância, nem força para se defrontarem nesta comédia com a Mesa que tratava da eleição, começaram por iludir, à última da hora, com sofismas e artimanhas, os irmãos, enquanto se estava constituindo a mesa para a eleição - riscando os nomes, substituindo-os, etc. . - Nesta comédia entrava o andante da Irmandade e o escriturário, empregado de responsabilidade ilimitada da mesma Irmandade.
Convém notar que aquele célebre sacrista tinha razão para não aceitar na lista o nome de certo vogal que não se presta a servir nas suas tramóias na Mesa da Irmandade!... O escriturário, como é sabido, muda como o vento. Ainda há pouco combatia a entrada do régulo para a Irmandade, por entender que esse facto representaria, em breve, a morte dessa Irmandade, agora, lança-se-lhe aos braços, como um cordeiro.
Devem, pois, estar satisfeitos com o procedimento do seu criado os mesarios eleitos.
Resta ver se continuarão a consentir na Irmandade aqueles zelosos empregados que amanhã praticarão maiores aventuras. Mas... e o régulo?
Não me lembrava que este papão tiraria desforra daqueles que tivessem a ousadia de desmanchar-lhe a igreginha. E já que se trata do régulo, é conveniente que a honrada classe comercial desta vila se vá prevenindo contra os seus manejos, porque ele fará a partida, quando veja para isso ocasião propícia. E quando for encontrado a fazer polícia clandestina, deve aplicar-se-lhe o correctivo que se aplica aos rapazes endiabrados.

Jornal “ECHO DO TEJO” - 29 de Junho de 1902:

Sr. Redactor do ECHO DO TEJO.

Desde o falecimento do muito Reverendo Padre António da Silva Morais, o que é deveras significativo, vem o ECHO DO TEJO, publicando umas correspondências do Sardoal, firmadas por X -Thomé, etc.
A bem da verdade e para esclarecer os mal intencionados, queira V.Exª declarar com a máxima franqueza e lealdade se sou ou tenho sido colaborador do seu Jornal.

Sardoal, 25 de Junho de 1902 Padre José da Costa Tição

Sem entrar na apreciação das considerações que se fazem nesta carta, declaro, por ser verdade, que o Revº José da Costa Tição nunca foi colaborador deste jornal.

A Redacção.

Acabam aqui as referências que foi possível localizar relativas a estes incidentes (?) com a Irmandade do Santíssimo, tendo o Padre José da Costa Tição sido nomeado para paroquiar a Igreja do Rossio ao Sul do Tejo, em Junho de 1902.

Em 1904 desenvolve-se nova polémica, desta vez, em torno da Irmandade dos Passos, cuja primeira referência aparece  no Jornal “ECHO DO TEJO”, de Abril de 1904, na forma seguinte:

SARDOAL

Acaba de nos chegar às mãos uma correspondência desta Vila, inserta no “JORNAL DE ABRANTES”, de 17 do corrente. É deveras curiosa e até parece que em parte foi escrita a rir.
Duvidamos bastante em gastar tempo com ela. Parece-nos que seria necessário depois tomar um banho; mas por fim resolvemos vir à arena, em desfazer da verdade e de uma corporação aleivosamente insultada.
Tem por fim a aludida correspondência, firmada por um Fá-Sustenido, ferir a Irmandade dos Passos, desta Vila, malquistando-a com a opinião pública. Explicam-nos que o móbil de tudo isto é o ódio pessoal de certa gentalha contra o reitor da dita Irmandade, por ser ele o mais visado. Precisamos de declarar o que aqui dissemos não o encomendamos dos lados de Santarém. Conhecemos bem todos os membros da Irmandade, não temos ressentimentos contra alguns e com o reitor as nossas relações limitam-se a meros cumprimentos de ocasião. Diremos, portanto, a verdade, sem atendermos às pessoas.
A correspondência que referimos pretende ter a sua parte séria, mas o resto é demasiado picaresco. Analisemos: -Vêem-se, ultimamente, passando nesta Vila uns factos vergonhosíssimos, que ao menos para edificação dos seus actores convém aqui registar:
Desde a memorável reunião da Irmandade dos Passos que produziu a revoltosa rejeição dos Srs. Abilio Matos Silva, António Esteves, Francisco Dionísio e Jayme Leal, por irmãos, até aqui estamos perfeitamente de acordo, não há dúvida. Tem sido deveras vergonhoso o que se tem passado com a Irmandade dos Passos. Apresentam-se os factos: A Mesa Administrativa desta Irmandade empenhou-se em promover as festas da sua instituição. Costuma todos os anos pedir algumas esmolas pela Vila para ajudar às despesas. Cada qual dá o que pode ou quer, porque não há lei que obrigue ninguém a dar. O que todos porém têm obrigação de ser, num meio civilizado, é bem educados e quem não quer dar não dá!
Este ano, dirigindo-se a Mesa a casa de certo indivíduo a pedir esmola, recebeu de uma janela um grave insulto. Achando-se o reitor na impossibilidade de acompanhar os sócios, o tal senhor respondeu que a sua esmola seria bofetadas no reitor, se ele estivesse presente e aos mesarios disse: Vocês vão à m... Note-se que este pedido foi feito numa casa onde sempre se deu esmola, cujos antepassados tomariam com muita desconsideração não lha solicitarem. Quando isto nos contaram, não sei que indignação experimentámos: Um criado de cavalariça, um arreeiro acostumado a tratar com bestas teria mais educação em ocasião igual. Isto é deveras vergonhoso e tem razão o Fá-Sustenido. O facto é aqui público e notório, escusado será nomear o herói da façanha. Indagados os motivos, soubemos que tudo isto é porque não se convida a tocar a música antipática que para aí há. Como não se chama a música para tocar por conta das Irmandades, entendem os Srs. Abílio, Esteves, Leal e Dionísio, que deviam entrar para a Irmandade dos Passos, para disporem à sua vontade da administração da Irmandade a fim de levar a música a tocar. Ora, segundo o artº 3º dos Estatutos da Irmandade para qualquer pessoa ser admitida para Irmão é necessário petição do pretendente ou proposta de outro Irmão, resolvendo a Mesa, por escrutínio secreto a conveniência ou não da admissão!
Diz o artº 1º dos Estatutos que é para venerar os mistérios da Redenção, etc...
Correu para aí que os tais pretendentes a Irmãos queriam entrar para a Irmandade a fim de promoverem a desordem, quais lobos que entram no rebanho para devorarem as tristes ovelhas.
A Mesa, dizem, foi informada dos fins sinistros à sua admissão. Nisto, dizendo com toda a satisfação e imparcialidade, é uma Mesa digna dos maiores elogios.
Viram-se corridos os homens e, dizem-nos que daqui nasceram as fúrias que determinaram tal correspondência. Segundo nos informaram, não é a primeira vez que as Irmandades do Sardoal estão para ser assaltadas por indivíduos que pretendem introduzir-se à força com fins alheios ao Compromisso. Consta que ainda, há pouco tempo certo personagem quis entrar para o Santíssimo, igualmente para fazer guerra e que os restantes Irmãos perceberam a tempo o jogo e repeliram a ovelha ranhosa.
Já vai longa esta exposição vergonhosíssima. A parte picaresca fica para o próximo número.

Em 1 de Maio de 1904, ainda no “ECHO DO TEJO”, aparece uma poesia satírica, que nos parece relacionada com o assunto que estamos a desenvolver:

SARDOAL EM FOCO

ARTE NOVA


Não entrando na Irmandade
Visto a querer surripiar
Vêem zombar da piedade
Com que estamos a administrar
Piedade muito avessa
Que só ela sabe contemplar
É bom que nunca esmoreça
E a outro não deixe entrar

Escrutinar com decência
Esteves, Leal, Abílio
É força de conveniência
Que não perca por idílio


Dionísio, grande pintor
Não convém à sociedade
Por do godet tirar a cor
Até à hilariedade

A outros membros da Irmandade
Escrutínio fazer não quis
Desculparia a sua maldade
Mande assim o senhor juiz

Excluí-los como a um mal
De propósito, firme ocasião
É um feito raro, burrical
Que à mente nos traz o papão

Não convivam com tal gentalha
De vis e nefastos intentos
Fazendo da ralé igualha
São, em contraverso, patentes

Esculápio

Sobre o mesmo assunto: “ECHO DO TEJO” - 5 de Junho de 1904:

VIOLÊNCIAS: UM GOVERNADOR CIVIL SEM SENSO E UM ADMINISTRADOR INCAPAZ


Não são asserções gratuitas o que aqui avançamos. Vamos demonstrar com factos que o que acima afirmamos é uma verdade real e que ao Governador Civil do Distrito e ao Administrador deste Concelho falta competência para o bom e legal desempenho das suas funções e manutenção da ordem. O que ultimamente se tem dado nesta Vila com a Irmandade dos Passos e com o que aquelas duas Autoridades andaram envolvidas prova-o cabalmente. Está ainda, decerto, na memória dos leitores o que se relatou há dois meses sobre a pretensão de quatro indivíduos para entrarem como Irmãos para a Irmandade dos Passos. Não ficaria mal que o recordemos mais uma vez, mesmo para que o saiba o Sr. Governador Civil do Distrito. Esses indivíduos são os Srs. Abílio de Matos Silva, Jayme Leal, António Esteves e Francisco Dionísio, sobrinhos, amigos e afilhados ou coisa que valha, do Sr. Dr. Felicíssimo. À porta do primeiro destes indivíduos tinha ido a Irmandade dos Passos pedir esmola para a sua festa, como é costume, em igual dia, todos os anos e a todas as casas. Mas a esmola do Sr. Abílio foi um insulto soez lançado às faces de toda a Irmandade. Este acto pouco correcto foi reprovado por todas as pessoas de carácter sério. Pois é este homem que assim insultou a Irmandade por uma forma tão baixa, oferecendo-lhe duas bofetadas, que se atreve a vir pedir, dias depois, para ser admitido como Irmão, com mais seus três apaniguados.
Vil seria o procedimento da Irmandade se admitisse tais Irmãos, cujo alvo não era o bem servir a Confraria nos fins em que fora instituída, mas estabelecer no seio da Irmandade a desordem e a guerra. Rejeitando os quatro bobos que queriam entrar no rebanho, a Irmandade dos Passos mereceu os aplausos de todas as pessoas de bem e praticou um acto legal nos termos do artº 3º do seu Compromisso. Se os reprovados fossem respeitadores da lei deviam acatar a resolução da Mesa e poupar-se-iam a censuras e a fazerem do Sardoal teatro de cenas vergonhosas, remetendo-se ao silêncio; mas não.
À última hora apareceu o Sr. Governador Civil intrometido na questão e pretendendo violentar a Irmandade a admitir os indivíduos que ela julgou incapazes de serem Irmãos. Querendo levar a violência até ao último extremo, o Sr. Governador Civil manda convocar uma Assembleia Geral dos Irmãos dos Passos, determinando dia, hora e local para a reunião, atribuição que nos dizem a Lei não lhe faculta. Mão oculta, diz-se por aqui, manejou toda esta intriga, pedindo ao Sr. Governador Civil a tal reunião da Assembleia Geral, esperando que o resultado fosse favorável aos revoltosos. Mas os cálculos saíram-lhe errados.
Vendo perdida a causa, um dos vencidos, consta que foi a Santarém pedir ao Sr. Governador Civil outra violência. Seja como for, o certo é que a violência apareceu, pois o Sr. Governador Civil manda declarar que à sessão não podia presidir o actual Reitor da Irmandade e que os Irmãos, de há pouco admitidos, podiam votar.
Onde está, Sr. Governador Civil, a lei que lhe confere tais atribuições?
V.Exª. é um representante da autoridade e o ofício da autoridade é cumprir a lei, porque a lei está acima de tudo, mas V.Exª. procedeu arbitrariamente e não invocou artº algum da lei que fundamentasse o seu procedimento.
Um funcionário que não observa a lei não é digno do lugar e quem procede arbitrariamente mostra que está divorciado do bom senso. Nós, que isto escrevemos, também não somos entendidos em Leis, pois não é essa a nossa especialidade.
Consultamos, porém, alguns amigos entendidos em negócios de Irmandades porque nelas têm figurado e eles nos orientaram. Temos à vista o Compromisso da Irmandade em questão e com ele e com o que nos dita a razão e com o pouco que podemos ver da lei, podemos dizer ao Sr. Governador Civil que deu a ordem e ao Sr. Administrador do nosso concelho que a cumpriu, que se mostraram incompetentes para o lugar que ocupam. O Sr. Governador Civil porque se prestou a favorecer ódios e intrigas dos revoltosos reprovados em desprezo da lei e o Sr. Administrador, porque conscientemente ou inconscientemente se prestou a executar a ilegalidade. A sessão da Assembleia Geral não se realizou, mas se se realizasse seria muito nulo tudo quanto nela se deliberasse, não só porque sendo uma sessão extraordinária, na convocação não se dizia o motivo porque se reunia a Assembleia de Irmãos, mas porque à última hora, por exigências do Sr. Administrador do Concelho, se mudou o lugar da reunião da Casa da Irmandade para a Igreja, onde houve tumultos provocados pelo Administrador do Concelho que não queria que à Assembleia presidisse o actual Reitor, nem que votassem os Irmãos há pouco admitidos. Talvez que dali aparecesse na ocasião, como esperavam os seus amigos, um físico-mór que reside ali para as bandas do Alentejo e o Sr. Administrador do Concelho quisesse exigir que ele votasse, embora esteja a exercer a sua física lá para as bandas dos porcos gordos.
Por fim o Administrador do Concelho, arvorando-se em ditador, embora não tivesse a força precisa para manter a ordem, declarou encerrada a sessão!!! Pasmem, oh! gente do mundo inteiro!!!Quem constituiu o Sr .Administrador do Concelho, Presidente da Assembleia Geral para fechar a sessão?
Isto é cómico e serve apenas para rir. Mas a culpa teve-a também o Sr .Reitor da Irmandade, em consentir que o Sr. Administrador se permitisse ali dar ordens.
As funções da autoridade em tais actos são manter a ordem quando esta seja alterada e nada mais. A direcção dos trabalhos, a presidência de todas as sessões da corporações administrativas pertence ao presidente de qualquer daquelas corporações e, no caso presente, pertencia ao Reitor da Irmandade presidir à sessão da Assembleia Geral. Se eu pudesse falar lembraria ao Sr Reitor que não consentisse na violência, embora o Sr. Reitor se não prestasse seguir o meu conselho. Mas não resta dúvida alguma é sobre a ilegalidade de tudo quanto se fez. O Compromisso é claro e não deixa dúvidas ao menos entendido. Os pretendentes a Irmãos foram legalmente e justamente reprovados. Contra eles depõe o artº 2º dos Estatutos e só quem for rombo é que não entende. Das decisões da Mesa não pode haver recurso para a Assembleia Geral porque são cumulativas as funções de ambas e quando houvesse de exigir reunião da Assembleia era ao Reitor que deveria ser requerida e não à autoridade. Mas o que se pretendia era introduzir os pretendentes fosse porque meio fosse. A justiça, porém, triunfou porque a maioria dos Irmãos presentes reprovou por completo a comédia a que os queriam sujeitar.
Não largaremos o assunto de mão; defenderemos os interesses da Irmandade até ao último extremo, embora não sejamos nisso interessados, mas tão somente, porque nos repugna o sucedido. Terminamos com um conselho de amigo ao Sr. Administrador e porque somos seu amigo custa-nos ver o papel que sua Exª . está a fazer, procurando agradar a gregos e a troianos, mas desagrada a todos. Se é por causa do ordenado, olhe que nem sempre há-se ser Governador Civil, o tio do sobrinho do físico-mór.
Fique-se sabendo que não respeitamos amizades, nem pouparemos censuras a quem quer que seja.

Um amigo da verdade


SARDOAL: Outra correspondência:

Fá Sustenido afirmou aqui há tempos no final de uma correspondência no “JORNAL DE ABRANTES” que a caravana que levava sobre o dorso os Srs.Abílio & Cª., para os introduzir na Irmandade dos Passos havia de passar e nós respondemos que a caravana ia muito mal guiada. E não nos enganámos. Os camelos ainda não entendem bem as ordens do almocreve-guia e deram com a carga em terra. Nós percebemos logo as depravadas intenções dos olímpicos habitantes e falámos pouco, mas acertado. Os ciganos tiveram que ferrar os dentes nos beiços. Parabéns ao Fá Sustenido por ter saido um saragoçano de olhos largos e grandes orelhas. Os inimigos da Irmandade do Senhor dos Passos sofreram uma derrota monumental no último domingo. Antes da reunião da Irmandade tudo quanto pertencia à companhia dos rebeldes inchados, pareciam senhores desta terra, mas depois que viram o exército aguerrido pronto a dar batalha, meteram-se na concha e ficaram como caracol em tempo de gelo. Nem o físico-mór lhes pode valer, apesar de supôr que tinha todo o Sardoal fechado na mão, como ele dizia.
Não há alma benfazeja que lembre à Câmara da Ponte de Sôr os deveres que tem de cumprir para este físico? Em vez de estar no concelho da Ponte de Sôr a cumprir as obrigações que se obrigou e para o que embolsa um bom ordenado anda no Sardoal a fomentar a revolta. Já não é segredo para ninguém aqui no Sardoal que o Sr.Felicíssimo é o fomentador da pertinácia dos quatro devotos que querem ser irmãos dos Passos. E uma prova bem clara é que o Sr. Felicíssimo veio aqui de propósito para caçar votos para os seus devotos, mas a sua física não deu resultado.
Desde que soube que o Dr. Mora se interessava pelo resultado da sessão da Irmandade, o físico-mór do reino unido de Portugal e Algarves, da Guiné e da Índia, não mais apareceu. Apanhou uma lição como ele não esperava! As bazófias de importância foram por água abaixo.
O Sr. Felicíssimo deve agora abrir os olhos para ver o seu valor político que aqui foi sempre o de um João Ninguém, como podia ser o do Manuelzinho. A prova está na derrota formidável que lhe pode tirar toda a dúvida. O Sr .Felicíssimo já devia ter tomado o pulso a si próprio e conhecer o seu estado. Quando foi a eleição da Irmandade do Santíssimo também o Sr. Felicíssimo quis intervir e disse que também queria ficar na Irmandade para levar a Música à sua vontade para a Semana Santa, diziam os seus apaniguados. Pelo que se vê a paixão deste homem é a música. É como aquele personagem da Antiguidade que nos seus acessos sossegava com o som dos instrumentos? Se a Câmara da Ponte de Sôr não tem força de vontade para fazer sossegar o Sr. .Felicíssimo nos limites do concelho, lembramos-lhe que um meio fácil é levar para lá esta música por quem o Sr. .Felicíssimo mostra tanto valor. Mas deixemos os apartes e voltemos ao caso da Irmandade: Os Irmãos do Santíssimo perceberam a tempo os desejos do Sr. .Felicíssimo e trataram de o afastar. O homem da física já devia ver por aqui que o Sardoal não estava na sua razão e para desfazer os seus planos bastava um homem. Aprenda agora Sr. Felicíssimo e conheça os da caravana que nada conseguem porque o melhor ainda está para vir.

Jornal “ECHO DO TEJO” - 3 de Julho de 1904:

Com este título vinha no “ECHO DO TEJO” de 12 do mês de Junho, uma local que apesar de vir com uma nota de redacção percebe-se bem que não era, mas sim escrita por algum cigano desta Vila.
Aqueles ciganos têm a garganta muito apertada; ainda não puderam engolir a derrota apanhada na célebre sessão da Irmandade dos Passos. De tempos a tempos vêm atirar com um pouco de bílis para a rua que apenas causa nojo(sic). Talvez o escrevinhador não saiba o significado desta palavra e se o sabe não soube empregá-lo. A tal caranguejola não deve ser puxada à sirga. Vai naturalmente seguindo o seu destino e vai muito bem, nem que pese aos vermelhos. Os 44 Irmãos de uma assentada são realmente o pesadelo dos rebeldes. Estes não dormem por verem os 44 Irmãos no seu posto. E note o escrevedor que os 44 Irmãos estão muito bem e têm todo o direito ao lugar, como o farmacêutico, o médico e o padre. Não tenha susto o mestre escrevedor porque a barcagem meta água. O barco está bem construído e vai bem guiado e também está perto da praia. Também não é impelido pelos ventos que sopram do mar do capricho; só a justiça e a verdade dirigem a tripulação que governa a Irmandade dos Passos. A seu tempo se verá tudo bem. O escrevinhador parece versejar, bem o sabemos. Olhe, guarde lá os exorcismos do padre para os endiabrados que querem passar. O padre que lhes deite água benta em barda e leve-os aos banhos do mar que são bons para acalmar temperamentos irrequietos e cabeças esturradas. O médico e o farmacêutico estão no seu lugar e o Felicíssimo se lá estivesse então é que seria esfregar as mãos de contente. O médico e o farmacêutico estão bem porque a Corporação, casa ou sequela de honesta, não se envergonham dela, nem a envergonham. Por fim concordamos com o primeiro do local, os ventos não correm propícios para esta zona e o senado abre-valas, faz muros de vedação. Pudera! Tudo isto lhe é preciso... Mas de quem é a culpa? Os filhos saem aos pais. O senado é filho de felicíssimos e salgados e de todos os que pensavam como ciganos exaltados e por isso havia de ter por presidente um menino tresloucado. Diga, diga. Diga muito do senado, diga do mal estar desta terra, porque tem muito que dizer, mas fale no nome dos culpados, dos verdadeiros autores deste estado de coisas.
Assim é que deve ser e cá esperamos outra epístola a tratar da nossa terra.

SOL-BEMOL

Transcreve-se, também, o texto publicado no “ECHO DO TEJO” de 12 de Julho de 1904 e que provocou a nota anterior:

FACTOS E BOATOS : Coisas do Sardoal

Não correm propícios os ventos para esta zona. É uma região filoxerada na alma e coração e só tem vida artificial. Assim irá passando à história pelo tino dos seus dirigentes. Esteve em festa na quinta-feira do Corpo de Deus. O elemento oficial não apareceu, pois que o Sardoal só tem elementos orçamentológicos e o senado abre valas e faz muros de vedação. A caranguejola dos Passos lá vai sirgando o mar do capricho; 44 Irmãos de uma Assembleia é parto que só um farmacêutico podia expelir, após horríveis convulsões uterinas. Ainda bem que foi assistido do médico e do padre...
Tão grande barcagem é natural fazer água em curto tempo, mas sobrevindo o enjoo ou naufrágio, não faltará quem recrute e abençoe tão santa tripulação. Deus é previdente com tudo o que faz e aqui ou dedo de Deus ou... espírito de Satanás!...
Parece-nos antes que tanto os que passaram como os que querem passar, precisam mais dos exorcismos do padre que lhes será companheiro em arriscada viagem. O médico e farmacêutico estão bem nos seus lugares.

“JORNAL DE ABRANTES” - 4 de Setembro de 1904:

Vamos falar da Irmandade dos Passos, dessa já muito célebre colectividade que, ora, tem por reitor o Chico Baptista, mais conhecido pela significativa alcunha do ‘Menina Maria’.
Parece que por um capricho do munícipe Pedro Apita, foi o alvo escolhido para pegar na reitoria. Quis e o ‘Menina Maria’ viu-se de repente feito alguém...
Agora o mais grave no meio de tudo isto, que vem a ser o artº 14º do Compromisso da mesma Irmandade: O reitor deve ser pessoa distinta nas suas qualidades e virtudes. Ora, se a moral se não valorizasse com a apresentação, aqui, do enorme rosário de óptimas qualidades e virtudes, feitas em termos que toda a gente entendesse, que exornam o actual reitor, eu tenho todas as probabilidades de fazer afastar do ‘Chico das Uvas’, com uma vibrante repulsão de nojo, todos os Irmãos dignos que não quiseram prestar-se ao vilíssimo papel de estar às ordens de um homem(?) que quase toda a Vila sabe que aberrou o seu sexo; mas como se faz mister ter todo o respeito pelo público, não se pode expor a verdade em toda a sua nudez, sem o subsídio das reticências, justificando-se mais uma vez, o dito em português, que não há nada sujo que se possa lavar por palavras limpas.
No entanto, como mais tarde a história se há-de ocupar do Chico, aí vão dois traços para os especialistas: É, infelizmente, natural cá da terra e ainda solteirinho da costa, sendo natural que cá por coisas, oh! Rosa, venha a ficar um solteirão encravado. Enquanto a instrução, sabe fazer mal o seu nome, mas sabe de cor o antigo livro dos bichos e a história de João Calais. Porém, na boca de algum sebastianista exótico e espirituoso é possível que passe por um sabão da primeira grandeza, pois já Catão, pela boca de Plutarco, era apregoado o mais sábio dos romanos, parece que, como espirituosamente conjecturava o nosso Camilo, por se embebedar todas as tardes...

É sócio da filarmónica do Carapau e se ainda não viscondizou, é talvez porque não tem dinheiro. E quanto a conquistas, um número delas, como referem os Franciscos, Miguéis e Andrés, lá das suas perdições.
É tipo alto e bem parecido, um dandi... Visto de frente é de uma impecabilidade de formas que está mesmo a desafiar o cinzel de um Miguel Ângelo. Por detrás, não desafia cinzéis, mas também não é tão desastrado que não chuche os elogios do Bento das Uvas. E aqui está o actual reitor da Irmandade dos Passos, feito por obra e graça do Pedro Apita.
Eu creio, piamente na castidade do Senhor dos Passos e inclino-me mesmo a acreditar que na Irmandade não haverá ninguém que ante o seu esbelto reitor, ouse exclamar como Aquiles, ao deplorar a morte de Patrocho:
Femour luorum santo e consuetidinis quid pulchrim!
O motivo porque nos insurgimos contra a entrada do ‘Menina Maria’ na reitoria da Irmandade dos Passos, está em que consideramos e connosco muita gente sensata, uma vergonha e uma baixeza para esta terra, ter na Irmandade dos Passos, como reitor, um fulano cujas qualidades e virtudes exigidas pelo citado artº 14º ficam nas entrelinhas e reticências na correspondência. E se cada Irmão tomasse a sério o seu papel, nenhum, evidentemente, se prestaria a reconhecer como reitor o Chico das Uvas, antes se retiraria indignado do contacto de semelhante homúnculo, obrigando, assim, o truanesco Pedro Apita a ficar a apitar de Irmãos e a reagir por um de dois caminhos: ou pôr de parte e tratar dos lombos do Uvas, ou a arranjar então uma Irmandade de Tonecas. Mas a Irmandade dos Passos é composta, ao que parece, por gente de bom estômago e, por isso, podemos exclamar como na lagartixa:

Deixem andar e corra o marfim. E até breve.        X

Ainda no “JORNAL DE ABRANTES” - 11 de Setembro de 1904:


Surtiu, como estava previsto, o melhor dos efeitos, a nossa correspondência de domingo último.
O Chico das Uvas barafustou como um possesso e, abrindo as válvulas das expansões solenes, praguejou, praguejou, mordeu o jornal com a impetuosidade de um gato bravo e, se fez mais alguma coisa, o Leitão, o Galamba ou o Bento, é quem o sabe...
Como ainda não se descobriram desinfectantes suficientemente enérgicos para nós, sem perigo e com aplauso ou sequer consentimento da lágrima podemos continuar nestes dias de calor a bulir como fazia mister no Chico, ficará reitor o Uvas, por alguns dias livre das nossas escalpeliza rações e, bem assim, ficarão privados do reclamozinho aquela sua coisa que nada tem a ver com as calças, em que pese, castíssimo reitor que não serão injustiças pôr-lhe na boca os versos do poeta:

     Tu não vês como sigo
     Teus passos, não vês?
     O cão do mendigo
     Não é mais amigo
     Do dono, talvez!!!

Mas se o Chico vai ficar, por algum tempo em paz, às moscas, etc. e tal o mesmo não acontecerá a uns parvajolas que tanto lustre estão dando, desde que o Sr. Salgado deixou a presidência da Câmara...

Muitos sacerdotes marcaram  a história do Sardoal de diversas formas.

No jornal “O ABRANTES”, de 16 de Fevereiro de 1908, encontra-se uma referência interessante, quiçá, humorística a um desses sacerdotes que aqui  desempenhou as suas funções, talvez nos meados do século XIX, com o título “Casos e Tipos - Sardoalenses Ilustres: O Padre Francisco do Vale”:

Era o verdadeiro protótipo do padre de aldeia.
Gordo, corado, barrigudo, cachaço de três rodelas, muito risonho e sempre disposto à bela e hilariante chalaça, recheada de ditos abrejeirados e picantes!
Dos actuais habitantes da vila poucos se hão-de lembrar dele, pois isto já lá vai há uns bons quarenta anos.
Eu, infelizmente, lembro-me, mas com saudade, por saber que naquele tempo tinha apenas 7 para 8 anos e brincando à minha porta, com o filho da Cavaca, o Luís da Bica, o Manuelzinho e o irmão Domingos, quando todas as tardes o víamos aparecer ao fundo da rua, vestido no seu casacão de briche, muito coçado e avinhão, exalando um cheiro a humanidade descuidada!...
Era certo todas as tardes a visitar o Dr. .José Maria com quem conversava e beberricava, que eles não sabiam fazem uma coisa sem a outra.
Era relativamente inteligente e pregava uns sermões recheados de latim bárbaro, que deixavam alarmados os próprios colegas que não o entendiam.
Um dia foi procurado pelo João Galinha, dos Valhascos, que era Juiz das Festas da Senhora da Graça e que vinha pedir para ele lá ir pregar; mas observando-lhe que a irmandade e os festeiros não tinham dinheiro, pois como sua reverendíssima muito bem sabia, o ano tinha sido mau e, portanto, que fizesse um preço baratinho, para eles poderem cotizar-se em dinheiro ou em géneros.
O Padre fixou o sermão em três quartinhos (3$600 réis), preço que o Galinha achou demasiado, atento à falta de dinheiro, mas se sua reverendíssima pudesse com géneros, alguma coisa se arranjaria...Mas o valor de três quartinhos é que era muito!
Depois de caturrarem por muito tempo ficou assente que pregaria o sermão em troca de esterco que haviam de pôr-lhe em casa, antes da festa!...
E assim se fez...
O nosso homem lá foi, mas muito contrariado, pois que a carrada foi pequena, pouco acalcada e de má qualidade!...
Quando chegou a Valhascos esteve em casa do Coelho, queixando-se dos mordomos e, ao mesmo tempo, molhando a palavra e como almoços da vila cabem três numa barriga, foi almoçando também... mas da comida dos criados pois que os donos da casa já tinham acabado...
Abarrotado como um tonel, lá foi para a igreja dormir a sua soneca até chegar a hora de impingir o seu latinório.
Quando assomou ao púlpito sentia-se incomodado. Por mais que quisesse não havia meio de se fazer ouvir. Com um esforço heróico lá se persignou e com a língua a tremelicar-lhe, principiou por uma Avé, Avé Maria!... Mas não, pode mais.
Os almoços começaram a sair-lhe da boca às golfadas, inundando e borrifando os que estavam debaixo do púlpito a avinhada e inspirada palavra do pregador. Foi um burburinho em todo o mulherio, que fugia sacudindo os xailes e saias domingueiras.
O Reverendo, ao ver a debandada e para acalmar o sussurro, gritava do púlpito a plenos pulmões:
Não se apoquentem, que não faz nódoa. As migas não tinham azeite!...
Os mordomos ficaram sempre persuadidos que a indisposição de sua reverendíssima tinha sido pela má qualidade do esterco que lhe mandaram.

IGNOTUS

Ainda sobre o Padre Francisco do Vale, o mesmo jornal publicava  no dia 1 de Março de 1908, o seguinte episódio, desta vez passado na aldeia de Andreus:


São inesgotáveis as peripécias e ratices deste patusco e original Padre, que tinha a presunção e veleidade de julgar-se um émulo do grande MALHÃO (quasi meu conterrâneo) cujos versos e sermões soçobrava todo envaidecido como obra sua. No tempo do nosso herói, o foyer aristocrático da vila do Sardoal era a farmácia do Agostinho, o “LARÉ” que ele também frequentava, sendo sempre o primeiro a chegar e o último a sair, para não dar ensejo a que falassem dele.

Isso não impedia que o nervoso braço esquerdo do “LARÉ” se manifestasse isoladamente, acompanhando o gesto com um adeus demorado que traduzia o desejo de o ver pelas costas!
O nosso Padre Pedro era um dos habitués do foyer, assim como o alegre Dr. Anacleto, o Emídio, o Padre António, o simpático esmoler Tenente-Coronel David e outros. O Padre Pedro era o fornecedor do rapé que todos elogiavam pela excelente qualidade, frescura e sabor especial e devido a isso o nosso Padre Francisco abusava escandalosamente, atulhando as largas e sujas narinas com tal quantidade que deixava a perder de vista a carrada de esterco recebida em troca do sermão pregado nos Valhascos.
Uma noite cometeu a indiscreta curiosidade de saber como sua reverendíssima conseguia ter sempre rapé tão fresco e aromatizado que fazia as delícias de todos. E aproveitando ia enchendo os dedos na caixa grande de tartaruga. O Padre Pedro esclareceu que deitava no pote do rapé, uma porção de pêlos torrados de rabo de porco, o que muito surpreendeu o nosso homem, fazendo sorrir os outros assistentes.
O Padre Pedro no dia seguinte mudou de caixa e em vez de juntar-lhe os tais pelos do rabo de porco, juntou-lhe o que pelo dito lhe sai... Quando o nosso querido Padre Francisco, ao sorver a primeira pitada, notou a diferença, disse-lhe:
-Parece-me que Vossa Reverendíssima cortou demais os pêlos do porco...

No dia seguinte eram as festas dos Andreus, aldeia pitoresca, cujos alegres e divertidos habitantes são todos devotos do deus Baco.
Nesse ano havia festa rija em acção de graças das melhoras obtidas pelo moral devoto da aldeia: Padre Falcão.
O Pregador era o “BOUSSUET” lagarteiro, o nosso Padre Francisco e os festeiros não se pouparam a despesas com foguetório, música e gaita de foles. Vieram à Vila alugar os melhores paramentos para adornar a Igreja, o que lhes foi concedido, com a condição expressa de cobrirem a cobertura do púlpito, para o paramento do pregador, mas FR... de combinação com o Silvério Mendes, dois refinadíssimos borrachões, aproveitaram a oportunidade para fazer partida ao Padre.
Colocaram debaixo do pano uma almofada com alfinetes, postos de forma que sua reverendíssima sentisse logo os efeitos da sua distracção.
Estava escrito que aquela festa seria causa de grandes dissabores e enormes bebedeiras e assim sucedeu...
Ao subir ao púlpito colocado no adro, o João Bruto, dono da taberna fronteira à igreja e um dos festeiros, disse para o Padre, com certa ironia:
-Estimo que seja mais feliz do que foi nos Valhascos...
O epigrama enfureceu o padre que objectou com um pontapé, acompanhado do seu habitual estribilho:
-Chiça!...
Depois da oração o nosso pregador sacou do bolso um côvado de chita encarnada, elevado à categoria de lenço de assoar e sacudindo sobre os devotos os secos resíduos do porco, servidos e expectorados na véspera, tomou o trapo pela ponta menos suja e assoando-se em estrondoso ronco de trombone desafinado, tossiu e arrotou gravemente.
Depois de levantar a espalmada dextra mão, em voz pousada e grave, disse:
-Irmãos, os padroeiros desta Igreja, Santo Amaro e S. Guilherme, foram...
Não pôde acabar, porque depois do baixar a sapuda mão sobre o púlpito, picou-se nos alfinetes e com a dor e desespero, re-acrescentou ao exórdio:
-Os grandes malandros!...
Neste momento chega ao adro uma jericada, o que produz um burburinho medonho, aumentando a confusão latente entre ouvintes e orador.
Este muito exaltado exclama:
-Enquanto aqui estiverem burros e bestas, não prego!...
Os ouvintes começaram a rarear e iam-se aglomerando junto dos odres da bela pinga, que vendia o João Bruto e José Camelo, das Mouriscas.
O Padre enfureceu-se.
Tomou ar carrancudo e em voz trovão principiou a invectivar o procedimento daqueles hereges e dirigindo-se às mulheres, disse-lhes:
-Ide, boas mulheres, ide dizer aos vossos maridos e filhos que eles caminham a passos largos para o inferno, onde as suas almas estão já, porque preferem estar ali a embebedar-se, a ouvirem a palavra do Senhor!...
-Não se lembram que os verdadeiros João Bruto e José Camelo são aqueles que ali estão vexados de tanta heresia!...
E, limpando a baba, ia apontando para Santo Amaro e S.Guilherme...”

IGNOTUS

Ainda que não tenha como personagem um clérigo, não resisto à tentação de transcrever um episódio humorístico, publicado no jornal “O ABRANTES”, de 23 de Fevereiro de 1908, com o título “O DR. BOBELA DO SARDOAL”:

Já não o conheci e não admira, pois que o liquidou o dever, há-de haver, neste vale de lágrimas, de dissabores e ilusões, há uns bons cinquenta anos.
No entanto lembra-me muito bem, a consideração, respeito e gratidão com que os meus falecidos pais falavam dele, contando um ou outro facto da sua vida e actos de filantropia que praticava com os desgraçados dos que precisavam de recorrer à sua inesgotável bondade e paciência, com que atendia tudo e todos.
Era um grande discípulo e grande admirador do sábio Raspaial, cujo tratado o acompanhava sempre debaixo do braço e quando ia ver algum doente metia-o no bolso da sua ampla sobrecasaca, sentando-se em cima dele como num pedestal.
Nas conversas com os amigos, sobre diversos assuntos que abordava com facilidade, concluía sempre com um envaidecido orgulho:
-Pois sim, sim, vocês têm razão!...Mas para mim e para a família basta-me o que tenho aqui!...
E batia com a ampla mão no fundo das costas, onde tinha o seu querido tratado Raspalhista!...
Um dia, estando no seu gabinete de trabalho, aguardando algum doente, viu entrar um antigo amigo e condiscípulo, grande ricaço abrantino, cujo nome omito para não ferir susceptibilidades, visto existirem filhos do nosso homem, que ocupam lugares proeminentes na sociedade abrantina.
Depois dos abraços e apertos de mão do estilo, o nosso homem tomou um ar sério e todo aprumado, disse:
-Oh! Meu caro Bobela, como velho amigo e condiscípulo, venho pedir-te um grande favor e, como sei que és razoavelmente reservado, dir-me-ás se o que peço pode ou não ser atendido - e sorrindo com certa amargura, continua: - Há um tempo a esta parte que sofro de uma doença original e conquanto esteja em princípio, já me tem causado desagradáveis dissabores!...
O Bobela ouvia-o muito atento e aguardava a descrição do amigo, para lhe minorar os sofrimentos, quando lhe diz à queima-roupa:
-Tenho a doença da mentira!
-Da mentira?...
-Da mentira, sim, pois o que é isto que tenho, senão uma doença?...
-Eu não falo a pessoa alguma que não pregue logo uma mentira. Não faço uma visita que não diga mentiras, desde que entro, até que saio. Se encontro um amigo, zás, uma mentira e algumas chegam a ser comprometedoras!... Quero evitar e não posso.
Têm-me causado grandes dissabores!...Portanto, isto é uma doença que cumpre evitar quanto antes. Por isso, vim hoje visitar-te e pedir-te que me resolvas o problema, ou sou forçado a desaparecer da sociedade!...
O Bobela, acalmando-o, disse-lhe:
-Não estejas triste, nem desesperes...Isso é uma doença de que muita gente sofre, mas de que em geral, ninguém se queixa, pois ela só faz danos aos outros a quem se refere. Há realmente remédio para essa doença, mas não tenho presente a fórmula, pois que é o primeiro caso que trato. Portanto passa por cá amanhã, que eu vou consultar os meus alfarrábios, para ver o que é que hei-de receitar.
O nosso hóspede ficou radiante de alegria e prometeu este mundo e o outro, ficando de voltar no dia seguinte.
O Bobela, muito sisudo e circunspecto, ficou murmurando da ousadia do amigo, tomando o pedido como gracejo e amesquinhamento à sua proficiência de médico habilíssimo, que era. Mas, sem se desconsertar, foi ao berço do filho, um pequeno que tinha apenas alguns meses, e revistando-o, encontrou ingrediente bastante para confeccionar o remédio que o amigo precisava e com tanto afã lhe pedira.
Trouxe uma espátula cheia que estendeu num vidro, juntando-lhe certa porção de farinha de trigo. Mandou o criado à Farmácia do Laré buscar um vintém de Lycapodium e fazendo seis grossas pílulas que meteu numa caixa, aguardou a visita do amigo, que realmente não se fez esperar, na manhã seguinte.
O nosso homem, logo ao entrar, perguntou: -E então?...
-Está pronto - disse o doutor - Tu és um felizardo. Encontrei a fórmula que é de um médico italiano. E mais, fiz o remédio, pois receei que não soubesses fazê-lo, visto não vir na farmacopeia. Portanto, aqui o tens!... Já almoçaste?
-Ainda não. - Respondeu o nosso homem...
-Pois é óptima ocasião para tomar a pílula, visto que são para tomar antes das refeições.
O doutor mandou vir um copo com água e o nosso homem tomou a pílula. Mas como estava ainda fresca e era grande, desmanchou-se na boca, fazendo com que ele, tomando o paladar, dissesse:
-Homem, sabes bem o que me dás? Isto sabe a trampa...
-Óptimo! Óptimo! - disse o Doutor Bobela, esfregando muito as mãos. Começas a falar a verdade logo à primeira!... Continua! Continua! Que isto é remédio radical!!!

IGNOTUS
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