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Evocação de Jorge de Sena

Publicado a 21/04/2010, 15:48 por Luís Gonçalves

Notas biográficas

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX.

A sua infância de filho único é marcada pelas expectativas que o pai, comandante da marinha mercante, alimenta para ele como futuro oficial da Armada, em confronto com a educação musical que a mãe procura proporcionar-lhe. Em Setembro de 1937 ingressa na Escola Naval como primeiro cadete do “Curso do Condestável”, mas vicissitudes diversas da viagem de instrução no navio-escola Sagres ditam a sua exclusão da Marinha em Março de 1938. Parte importante destas vicissitudes tem que ver com o endurecimento das normas que regem a instrução dos cadetes, em consonância com a fascização do Estado Novo por ocasião da Guerra Civil de Espanha. A passagem pela Armada no preciso momento da luta pela liberdade em Espanha constitui uma experiência traumática da sua adolescência que será matéria de diversos poemas e ficções, como “A Grã-Canária” e, no caso da Guerra Civil, Sinais de fogo. Jorge de Sena, que começara a escrever em 1936, estreando-se em 1942 com Perseguição, acaba por se licenciar em Engenharia Civil (1944) pela Universidade do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas de 1948 a 1959, ano em que se exila no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de Março desse ano, em que está envolvido. A mudança para o Brasil permite-lhe uma reconversão profissional que vai ao encontro da sua vocação, dedicando-se ao ensino da literatura, acabando por se doutorar em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (São Paulo), em 1964, obtendo também o diploma de Livre-Docência, para o que teve que naturalizar-se brasileiro (1963).

Os anos de Brasil (1959-65), os primeiros vividos, como adulto, em liberdade, são talvez o seu período mais criativo: completa a sequência de poemas sobre obras de arte visual, Metamorfoses (uma das obras que mais influência teve na poesia portuguesa), escreve os experimentais Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, as metamorfoses de Arte de música e a novela O físico prodigioso, inicia o romance Sinais de fogo, investiga e publica sobre Luís de Camões e o Maneirismo, trabalha na edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, retoma a escrita para o teatro, etc. A alteração da situação democrática no Brasil, com o golpe militar de 1964, faz temer um regresso ao passado, quer em termos políticos quer em termos de dificuldades económicas, mas em 1965 surge a oportunidade de se mudar para os Estados Unidos, com Mécia de Sena e os seus agora nove filhos. Em Outubro desse ano passa a integrar o corpo docente da University of Wisconsin, Madison, onde é nomeado professor catedrático efectivo (1967), transitando, em 1970, para a University of California, Santa Barbara (UCSB). Durante a sua permanência na UCSB, até ao final da vida, ocupa os cargos de director do Departamento de Espanhol e Português e do Programa (interdepartamental) de Literatura Comparada. Foi ainda membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of America.

A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte colectâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um acto, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov).

Sou, há muito, um grande admirador da vida e obra de Jorge de Sena e, em especial, da sua obra poética.

Não resisto, por isso, a deixar aqui um dos seus poemas, para o qual recomendo uma leitura atenta.


Noutros lugares

Não é que ser possível ser feliz acabe, 
quando se aprende a sê-lo com bem pouco. 
Ou que não mais saibamos repetir o gesto 
que mais prazer nos dá, ou que daria 
a outrem um prazer irresistível. Não: 
o tempo nos afina e nos apura: 
faríamos o gesto com infinda ciência. 
Não é que passem as pessoas, quando 
o nosso pouco é feito da passagem delas. 
Nem é também que ao jovem seja dado 
o que a mais velhos se recusa. Não. 
É que os lugares acabam. Ou ainda antes 
de serem destruídos, as pessoas somem, 
e não mais voltam onde parecia 
que elas ou outras voltariam sempre 
por toda a eternidade. Mas não voltam, 
desviadas por razões ou por razão nenhuma. 
É que as maneiras, modos, circunstâncias 
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam 
não de água ou sol mas solta juventude. 
As ruas rasgam casas onde leitos 
já frios e lavados não rangiam mais. 
E portas encostadas só se abrem sobre 
a treva que nenhuma sombra aquece. 
O modo como tínhamos ou víamos, 
em que com tempo o gesto sempre o mesmo 
faríamos com ciência refinada e sábia 
(o mesmo gesto que seria útil,

se o modo e a circunstância persistissem), 
tornou-se sem sentido e sem lugar. 
Os outros passam, tocam-se, separam-se, 
exactamente como dantes. Mas 
aonde e como? Aonde e como? Quando? 
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos, 
a que horas do dia ou da noite, não sei. 
Apenas sei que as circunstâncias mudam 
e que os lugares acabam. E que a gente 
não volta ou não repete, e sem razão, o que 
só por acaso era a razão dos outros. 
Se do que vi ou tive uma saudade sinto, 
feita de raiva e do vazio gélido, 
não é saudade, não. Mas muito apenas 
o horror de não saber como se sabe agora 
o mesmo que aprendi. E a solidão 
de tudo ser igual doutra maneira. 
E o medo de que a vida seja isto: 
um hábito quebrado que se não reata, 
senão noutros lugares que não conheço.
 

 
Jorge de Sena

 

 PENSAMENTO DA SEMANA

A mentira, a arrogância e a prepotência, são as armas dos cobardes.

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