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Gil Vicente - Vida e obra

Da vida de Gil Vicente pouco se sabe. Apenas que viveu entre os anos de 1470 (?) e 1536 (?), que teve dois filhos, um dos quais publicou, depois da morte do pai, a “Compilação” das suas obras e que foi o que se chama “um poeta de corte”, pois acompanhava o rei em todas as suas deslocações, de Lisboa para Santarém ou para Alcáçovas e Évora, organizando representações teatrais quando era caso disso.

A naturalidade de Gil Vicente tem sido reclamada por diversas terras, desde Lisboa, Santarém, Guimarães, entre outras, tendo havido alguns Sardoalenses mais entusiasmados que reclama essa honra para o Sardoal, sem outro fundamento conhecido que não sejam algumas referências que o autor faz ao Sardoal em, pelo menos, duas das suas obras. A mais importante dessas referências está, sem dúvida, na parte final da Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela e denota um profundo conhecimento, por parte de Gil Vicente, dos usos e costumes do Sardoal no princípio do século XVI.

Sem embargo de alguns Sardoalenses reclamarem para o Sardoal a honra de ser a terra da naturalidade de Gil Vicente, o que até agora não foi possível comprovar, pode-se afirmar que esteve no Sardoal algumas vezes, acompanhando a Corte, uma vez que está provado que D. Manuel I estanciou no Sardoal, algumas vezes, por largos períodos de tempo, o que também aconteceu com D. Pedro I, D. Fernando e a Rainha D. Leonor de Teles, D. João I, D. Duarte e D. Afonso V.

Como curiosidade refere-se o facto de ter nascido, no Sardoal, a Infanta D. Maria, filha de D. Duarte (7/12/1432), que morreu no dia seguinte e de ser tradição muito antiga, já referida em manuscritos de meados do século XVIII, de aqui ter morrido e ser sepultada uma filha de D. Manuel I, provavelmente bastarda, apesar de o Cronista Frei Bernardo de Brito referir ter sido em Abrantes, o que em nada contraria a dita tradição, uma vez que o Sardoal pertencia, então, ao termo de Abrantes, dado que só veio a ter termo próprio, por demarcação ordenada por D. João III, que a confirmou por Carta dada em Lisboa, em 10 de Agosto de 1532.

Mantém-se, na toponímia local, a Rua do Paço, junto a um espaço amuralhado, ainda hoje conhecido por Paço, que esteve no domínio público até ao princípio do século XX, altura em que foi vendido, sendo tradição que era ali a residência dos Reis de Portugal, quando se deslocavam ao Sardoal.

O Conde de Sabugosa, no seu livro “ Embrechados”, escreve um curioso texto sobre Gil Vicente e a sua época, com o título: “UM AUTO DE GIL VICENTE - PROCESSO DE VASCO ABUL”, que pelo seu interesse se transcreve:

Depois da epopeia, a farsa. A Rainha D. Leonor, mulher de El-Rei D. João II, é uma das mais luminosas figuras da História de Portugal.

Bela e elegante na sua mocidade, segundo a pintam as crónicas, a sua estatura moral é de primeira grandeza, e a sua influência decisiva na sociedade do século XVI.

À sua iniciativa e inteligente impulso deve Portugal a instituição das Misericórdias, a introdução da Imprensa, e, por assim dizer, o Teatro Nacional.

Foi ela quem, cooperando com D. Beatriz, sua mãe, apelidada a Rainha Velha, (os estudos de D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, vieram a demonstrar que a designação de Rainha Velha se deve aplicar à Rainha D. Leonor e não a sua mãe. Vide Nota Vicentina II - Coimbra, 1918), trouxe às festas da corte o poeta Gil Vicente, o iniciador do Teatro português.

Em 1502, uma quarta-feira, 8 de Junho, representou-se na Câmara da rainha D. Maria, que dois dias antes tivera um filho (o futuro D. João III), o monólogo do Vaqueiro, que se pode considerar a primeira peça dramática com forma literária representada entre nós.

Depois, vê-se pelas rubricas das obras do poeta a grande influência que na sua factura teve a rainha D. Leonor.

É perante ela que em 1504 é representado na igreja das Caldas o Auto de S. Martinho.

É por seu mandado que em 1505 se representa nos paços da Alcáçova, em Lisboa, o Auto dos Quatro Tempos.

É em 1506 que em Abrantes, tendo nascido o infante D. Luís, filho de El-Rei D. Manuel, foi pelo mesmo Gil Vicente feito no serão do paço, um sermão à cristianíssima rainha D. Leonor, e a seu mandado o Auto da Alma.

E às representações que a ela directamente não eram dedicadas, ou por seu mandado feitas, assistiu muitas vezes como protectora que era do poeta, e como principal elemento da animação e brilho dos serões reais, a cuja organização já presidia em tempo de seu marido, nos paços de Santarém, de Setúbal, etc.

Nascimento de príncipes, casamentos reais, recepções e despedidas, eram quase sempre acompanhadas com alguma representação do Gil, que fazia os autos a El-Rei. E muitas vezes, sem motivo de festa, ou acontecimento público, e unicamente por desfastio nas contínuas mudanças da corte, que fugia aos assaltos da peste, tão frequente nessa época, Gil Vicente representava um auto ou uma farsa, que o seu génio animava com a graça viva das concepções, com o engenho dos argumentos, com a crítica mordente dos costumes, com o desenho dos caracteres, com o bem achado das situações.

Foi durante um daqueles recrudescimentos de peste em Lisboa que a rainha D. Leonor, em 1509, se retirou para Almada. E ali, fiel às suas predilecções, chamou Gil Vicente para lhe representar um auto.

Acudiu ele pronto ao chamamento, e ali mesmo compôs a farsa chamada o Auto da Índia.

Diz a rubrica assim: “ À farsa seguinte chamam Auto da Índia”.

“Foi fundado sobre que hua mulher, estando já embarcado para a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desviado, e que já não ia, e ella, de pezar, está chorando. Foi feita em Almada, representada à muito catholica rainha D. Leonor, era de 1519.”

Esta data está errada na edição de Hamburgo, pois que na edição de 1562 se lê: “Era de MDIX”. E assim deve ser. Em 1510 ainda a rainha ali estava, quando foi do processo de Vasco Abul, como adiante veremos.

Acresce também que num diálogo desta farsa a Moça diz:

Trez annos ha

Que partiu Tristão da Cunha


Ora a partida da armada de Tristão da Cunha para a Índia foi em Abril de 1506, o que dá positivamente os três anos em 1509. (...)

Gil Vicente, em muitos dos tipos de seu teatro, é o precursor de Molière. É fácil o paralelo, já mais de uma vez apresentado entre os dois génios. Apontam os mesmos ridículos, como na farsa dos Físicos, em que o nosso poeta, com dois séculos de avanço, enche de epigramas uma classe depois tão caricaturada pelo comediógrafo francês. Um e outro debicam no clero e na nobreza. E, nesta farsa da Índia, as figuras da Ama e do Marido são perfeitamente de um Molière do século XVI.

(...) Mas não deixa de ser curioso ver uma rainha, já nesse tempo tocando nos 52 anos, entregue habitualmente à vida severa e recatada do seu palácio de Enxobregas, e o escol da sociedade que a acompanhava comprazerem-se e folgarem com as aventuras algo libertinas da astuta e leviana mulher do embarcadiço, com a ingénua e cega confiança dele, e com os requebros amorosos dos dois rufiões, tudo expresso em linguagem crua e sem rebuço.

É que no século XVI havia menos convencionalismo. Diziam-se as coisas pelos seus nomes, sem que escandalizasse ouvir o que hoje se chamaria um palavrão.

Os personagens de Gil Vicente falam diante da corte com liberdade, isenta de circunlóquios, com que hoje as regateiras e colarejas da praça da Figueira discutem entre si.

E não só a linguagem era rude, e as pragas, as chufas, as exclamações brutais eram pronunciadas claramente, como também a ideia de pudor era diversa da que hoje impera.

Gil Vicente entrava vestido de Vaqueiro, na câmara em que dois dias antes a rainha D. Maria tinha dado à luz um filho, e referia-se sem eufemismo ao facto fisiológico que nesse quarto se passara.

Os amores dos clérigos, as proezas dos frades rufiões, a interferência das alcoviteiras e os infortúnios dos malmaridados eram contados, por claro, a rei, rainha, infantes e cortesãos.


E, como seria a Corte no tempo de Gil Vicente, em especial, no que respeita às profissões?

A integração no séquito régio com certa assiduidade, constituiu, sem dúvida, experiência comum a muitos homens e mulheres de modestas origens, cuja relativa obscuridade dificulta a decifração concreta das modalidades e das causas prováveis da sua presença junto do monarca. Uma das mais importantes razões para essa presença é o exercício de uma profissão ou mester, que a concentração de várias centenas de pessoas num organismo itinerante que era, simultaneamente, um centro de consumo, tornava necessárias.

Dos artesãos e profissionais relacionados com a vida da própria corte, destacam-se três núcleos principais - em primeiro lugar, o conjunto dos artesãos ligados ao vestuário e ao adorno corporal e dos espaços cortesãos; depois, a numerosa plêiade de servidores das esferas da itinerância, da caça e do abastecimento da corte; e, finalmente, um pequeno núcleo de profissionais ligados às artes mecânicas, como a construção e o trabalho dos metais.

No primeiro grupo incluem-se o alfaiate e o sapateiro e mais tarde, a partir de D. João I, o bordador e o peliteiro, o correeiro e o seleiro, os dois últimos relacionados com o trabalho dos adereços de couro necessários às montadas e para avaliar a riqueza e a importância do trabalho que lhes cabia, basta citar a descrição das Leis Afonsinas de 1340, da sela real”dourada com ouro e prata e com seda e corda”, cujo uso se reservava ao rei e aos seus filhos, e aos Ricos-Homens e Mestres das Ordens.

Neste grupo podemos incluir os ourives que acompanhavam os nossos monarcas, o que também pode ter sucedido com Gil Vicente, a quem se atribui a qualidade de ourives de grande renome. Segundo Teófilo de Braga, este célebre ourives, autor da custódia dos Jerónimos, seria um primo do poeta, que foi ourives também da rainha D. Leonor, que tinha o mesmo nome e que também metrificava, como também ao poeta não eram estranhas as regras da ourivesaria. E daqui nasceu facilmente a confusão. E um dos argumentos de Teófilo de Braga para a existência da dualidade do ourives e do poeta é, no atrás referido processo de Vasco Abul, aparecer uma copla de Mestre Gil, ao passo que adiante se lê no cancioneiro e naquele mesmo processo o parecer de Gil Vicente, sem lhe chamar Mestre. A Anselmo Braamcamp parece que este Mestre Gil será o cirurgião-mor a quem os documentos sempre dão esta designação e que morreu em 1511.

No segundo grupo está o pessoal ligado à caça, em especial os falcoeiros e os açoreiros, mas também os monteiros e os moços do monte. Outra profissão fundamental neste grupo era o carniceiro, ligado ao abastecimento da corte. Apesar deverem pertencer aos moradores do rei, existia sempre um número variável de pequenos mercadores -”regatães de corte” - e também especieiros e marceeiros.

O último grupo de profissionais era composto pelos artesãos de construção, da pintura e do trabalho dos metais, ainda que a sua presença junto dos monarcas se revestisse, muitas vezes, de carácter temporário.

Caso peculiar é o dos músicos e menestréis da corte, cuja actuação era requerida em várias ocasiões festivas.




É enorme a galeria das personagens vicentinas. Descontando os diabos, os anjos, as figuras mitológicas, lendárias, alegóricas, e os heróis de cavalaria, são todas tipos sociais. A sua psicologia é uma psicologia de grupo social, e não uma psicologia individual. Através delas é-nos dado o comportamento e a mentalidade do Fidalgo, do Escudeiro, do Frade, do Homem de Leis, do Piloto, do Oficial Mecânico, do Ratinho da Beira, da Moça de Vila, da Parteira, da Alcoviteira, da Velha Gaiteira, etc., etc...

Os tipos vicentinos abrangem o conjunto da sociedade da sua época. Na base está o camponês “pelado” por fidalgos e clérigos, a cuja voz Gil Vicente dá acentos comoventes. No cume estão os clérigos de vida folgada e os fidalgos presunçosos e vãos, que vivem, uns e outros, de confiscar o trabalho alheio, ajudados pelo homem de leis e pelos altos funcionários, que fabricam “alvarás” em benefício dos seus afilhados.

À volta dos fidalgos enxameiam escudeiros, ociosos, gabarolas e “rascões”, que dão caça aos dotes das burguesas remediadas. Têm especial vigor os tipos que poderíamos chamar a “classe média” desta hierarquia: a “moça de vila” e o escudeiro. É de notar a quase ausência de artífices e negociantes, o que talvez se explique pela predilecção do Autor pelos tipos tradicionais como os escudeiros, os clérigos, os judeus e outros. O tipo mais frequentemente e duramente satirizado é o clérigo: quase não há peça em que ele não apareça como alegre gozador da vida. Todo o sistema como o observa o nosso Autor, assenta na espoliação do camponês.

“Nós somos vida das gentes / e morte das nossas vidas / a tiranos - pacientes / que a unha e a dentes / nos têm as almas roídas.” Assim explode em Gil Vicente o sentir de um lavrador comum em princípios do século XVI. Lavrador comum, nem melhor nem pior que a maioria, fazendo a sua trapaçazita com os dízimos, mudando os marcos para aumentar a área de terra que explora, sem ter “ tempo nem lugar / nem somente d’alimpar / as gotas do seu suor”. Esse lavrador comum é sobretudo dramaticamente transmitido como explorado pelos senhores da terra, pelos clérigos, por todos aqueles que, não a trabalhando, vivem de rendas:”Pois para que é o vilão?” exclama, em jeito de evidência o diabo vicentino... Para sustentar os privilegiados, como bem estava à vista e a pergunta só fazia sentido no palco, para acentuar a crítica que exprimia.

Os lavradores têm de prosseguir um trabalho infindo, que depende, ainda e sobretudo, de um enorme esforço físico e do querer de Deus, que lhes pode de um momento para o outro, estragar toda a produção. “Dá chuvas em Janeiro / geadas em Abril / e calmas em Fevereiro / e névoas no mês de Maio / e meados de Julho pedra”.

Bons motivos tinha João Murtinheiro, lavrador queixoso de Deus, para querer fazer seu filho Bastião “rapaz d’Igreja / não com devassidão sobeja / mas porque possa viver / como mais folgado seja”.

Aparicianes, comparsa da mesma tragicomédia, bem se queixa que com “fortes temporais / são as novidades tais / que não chegam para os foros / E os padres verdadeiros / cartuxos de santa vida / apanham-me os travesseiros / com mais ira que os rendeiros / sem me razão ser ouvida”.


O POETA E O OURIVES


Na obra “A Literatura Portuguesa (História e Crítica)”, de Aubrey F.G.Bell, publicada pela Imprensa Nacional - Lisboa, em 1971, escreve-se o seguinte:

“ Alguma coisa mais se sabe de Gil Vicente poeta, se o identificarmos com o Gil Vicente ourives da rainha D. Leonor (1458-1525), irmã de D. Manuel e viúva de D. João II. O trabalho mais célebre do ourives Gil Vicente é a lindíssima custódia de Belém, feita com o primeiro tributo de oiro vindo do Oriente (de Quíloa) - cf. João de Barros, Ásia, I, VI, 7. Beckford entusiasmou-se com esta custódia de oiro, um trabalho delicadíssimo:” É o mais belo exemplo da trabalhosa escultura gótica, este completo ajuntamento de botaréns, esmaltes e pináculos rendilhados” - Italy, With Sketches of Spain and Portugal, Paris, 1834).

As probabilidades a favor da identidade são tão convincentes que, a não aparecer qualquer obstáculo irredutível, somos obrigados a aceitá-la.

A nossa fé em genealogias e documentos manuscritos não é aumentada quando acontece que um investigador, o visconde de Sanches de Baena (1822-1909), nos traz a triunfante conclusão de que os dois Gil Vicente eram tio e sobrinho, enquanto outro, o Dr. Teófilo de Braga, declara que eram primos. Talvez seja melhor não acreditar em nenhum deles e restituir Gil Vicente a si próprio. Pois, na verdade, seria então um caso muito singular de amizade entre primos: o ourives escrevia versos; o poeta tem um interesse notável pela arte de ourivesaria. (São frequentes nos autos de Gil Vicente as alusões a oiro, jóias, safiras, pérolas, rubis. O ourives da Farsa dos Almocreves usa o termo técnico de bastiões que aparece no Livro Vermelho de D. Afonso V: “ E porque alguns Ouriueses tem ora feita algua prata dourada e de bastiães”. Aparece também no Cancioneiro Geral (“galantes de bastiães”), na Miscelânea de Resende (“bestiães”) e em outros autores.) O ourives foi nomeado vedor de todos os objectos de ouro e prata existentes no Convento de Tomar, em Lisboa no Hospital de Todos os Santos, e em Belém. O poeta gosta de falar de Tomar em cujo Convento foi em 1523 representada a Farsa de Inês Pereira (que vivia em Tomar com o primeiro marido); a Barca do Purgatório foi representada em 1518 no Hospital de Todos os Santos.

O ourives esteve ao serviço da viúva de D. João II, D .Leonor, que menciona no seu testamento dois cálices de sua lavra; o pedido da mesma rainha D. Leonor escreveu o poeta, provavelmente em 1509 versos para uma contende poética sobre um grilhão de ouro (o processo de Vasco Abul), e por aquela foi aconselhado e animado a escrever os seus primeiros autos. (Uma interpolação infeliz dos editores de 1834 na rubrica do Auto da Sibila Cassandra foi em grande parte causadora da suposição de que a protectora de Gil Vicente era, não a rainha D. Leonor, mas sim a mãe de D. Manuel, D. Beatriz. Porém, a rubrica do Auto dos Quatro Tempos diz com clareza que a “sobredita senhora” é a irmã de D. Manuel.

O Ourives foi mestre da Balança de 1513 a 1517; o poeta, nas Cortes de Júpiter, em 1521, fala, sem ser preciso, de “os da Moeda”, com familiaridade, mas não como sendo um deles. Daí por diante, mais ardentemente votado ao lado literário do seu génio, diz de si próprio que é “o Gil que escreve os autos para El-Rei”; e, suspirando uma vez ou outra por os não poder representar com tanto esplendor como dantes (no reinado de D. Manuel), vai produzindo autos cada vez com maior fecundidade. (Mas já não auto bofé/Como os autos que fazia/Quando ele tinha com quê - Auto Pastoril Português, I, 129).

Diz o falecido Marcelino Menéndez Y Pelayo (1856-1912): “Se Gil Vicente tivesse sido ourives, e ourives de tanto merecimento, seria impossível que disso não tivesse deixado vestígios nos seus trabalhos dramáticos, e que todos os escritores seus contemporâneos, que dele falam, guardassem completo silêncio sobre o seu talento artístico. (Deve dizer-se que o Dr. Teófilo de Braga, o general Brito Rebelo e Dr. Adolfo Coelho concordam com Menéndez Y Pelayo. O Dr. Teófilo de Braga até afirma que pode provar um álibi. D. Carolina Micaelis de Vasconcelos opôs-se à identidade em 1894, e depois disso não se manifestou a favor dela de maneira clara. Por outro lado, o Sr. Braamcamp Freire é partidário convicto do poeta com o ourives).

No entanto, a obra de Gil Vicente é essencialmente a de um artista ( o próprio Menéndez Y Pelayo lhe chama, e muito bem, “alma de artista”); involuntariamente nos pomos a comparar as suas personagens com qualquer rude estatueta de barro, ou com escultura gótica primitiva; e as suas líricas são pedras límpidas e bem lapidadas, coisa muito rara na literatura portuguesa. Intensamente português no lirismo e na sátira, é Gil Vicente quase importuguês pela extrema plasticidade do seu génio. Do cérebro do poeta saltam imagens definidas e concretas com as expansões mais vagas da maioria dos poetas portugueses.

E se o ourives da rainha D. Leonor, como o trovador-ourives Elias Cairel, ou, recuando até ao século XV, como o Diogo Fernandes e o Afonso Valente do Cancioneiro de Resende, se pusesse a fazer versos, não era isto caso para muitos comentários. Toda a gente fazia versos. Se um poeta célebre - o Gil Vicente de 1520, por exemplo - fosse o autor da custódia, talvez os seus contemporâneos tivessem falado disso. Mas Gil Vicente não era ainda conhecido como poeta quando, em 1503, a custódia foi principiada. Assim, é natural que se desse toda a importância aos autos do ourives Gil Vicente e pouca ou nenhuma à ourivesaria de Gil Vicente poeta. O historiador Barros alude em 1540, a «Gil Vicente, cómico», e com certeza que depois de 1517 ele foi, realmente, muito mais cómico do que ourives.

Mas o cómico que foi autor de autos, poeta lírico, músico, actor, pregador em prosa e verso, pode muito bem ter sido também ourives. A multiplicidade das suas aptidões parece-se com a de Damião de Góis, ou com a do próprio contemporâneo Garcia de Resende, mas com o acrescento do génio. Acontece que um documento oficial, em que «Gil Vicente lavrador da Rainha Lianor» é nomeado para o seu posto da Casa da Moeda (4 de Fevereiro de 1513), tem o seguinte apontamento do tempo: «Gil V.te trouador mestre de balãça»; e isto devia por si só levar à conclusão evidente de que o poeta e o ourives da rainha eram a mesma pessoa. Esta modesta mas íntima posição na Corte concorda com o que sabemos do poeta e com a produção dos seus autos.

Na Historia da Arte Portuguesa - Vol. II, edição do Círculo dos Leitores, num trabalho desenvolvido por Nuno Vassallo e Silva: «A ourivesaria do período manuelino», escreve-se, a dado passo, o seguinte:

«Mesmo revelando Gil Vicente nos seus autos conhecimentos da técnica de esmaltagem, não é de excluir a hipótese de que os esmaltes da Custódia tenham sido executados por um oficial estrangeiro, dos muitos que se concentraram na poderosa cidade de Lisboa, ao longo de Quinhentos. A policromia dos esmaltes e a variedade de superfícies sugere um notável domínio técnico. O curto espaço de tempo segundo a legenda da base, três anos, justifica o trabalho de uma equipa de oficiais dirigida por Gil Vicente.

Deve-se ao testamento de D. Manuel a possibilidade de conhecermos hoje o nome do ourives que a executou. O facto de Gil Vicente ter o mesmo nome do fundador do teatro português, autor dos documentos mais vivos para a compreensão da sociedade portuguesa na época manuelina, provocou desde há cem anos acesa polémica nos meios académicos, quando se identificou o ourives com o homem do teatro, sobretudo através dos estudos de Teófilo de Braga (Braga, 1916) e Anselmo Braancamp Freire (Freire, 1944). Hoje, o debate tem vindo a ser atenuado com o reconhecimento do papel dos ofícios mecânicos no século XVI. Neste campo é de salientar que os testemunhos mais notáveis do imaginário colectivo do Renascimento em Portugal são obras de ourives. Refiro-me concretamente às salvas de aparato, ornamentadas com um reportório de temas mitológicos e do Antigo Testamento, verdadeiro levantamento das representações nas festas públicas de Quinhentos, onde os ourives, como os outros oficiais mecânicos, participaram activamente (Miguel, 1967).

O percurso que conhecemos de Gil Vicente ( c. 1465 - c. 1537) como ourives é relativamente curto. Como já referimos, em 1506 termina para D. Manuel a sua Custódia em ouro. Três anos mais tarde é nomeado vedor das obras de ouro e prata para o Convento de Tomar, Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa, e Mosteiro dos Jerónimos, controlando toda a produção argentária destas casas. Em 1513, a coroa nomeia-o Mestre da Balança da Casa da Moeda de Lisboa, cargo a que renunciará em 1517. Foi a partir do texto desta carta que se gerou a polémica resultante da identificação do autor da Custódia de Belém com o dramaturgo do Auto da Índia, pois Gil Vicente é designado como «Trovador e Mestre da Balança». Em Outubro do mesmo ano, o ourives apresenta-se como procurador dos mesteres da cidade de Lisboa. É o último dado documental que conhecemos da sua carreira de ourives. A partir desta data, apenas surgem obras literárias. Possivelmente a carreira dramática ocupa plenamente Gil Vicente, relegando para segundo plano o seu papel de ourives com que se afirmara junto da corte. Todas estas questões permanecem por esclarecer.

Não deixa, no entanto, de ser significativo observar que nos autos do dramaturgo quinhentista são abundantes as referências a técnicas de ourivesaria, não se tratando de meras soluções estilísticas, onde as referências a gemas e outros materiais preciosos surgem como questões cromáticas, ou metáforas (Tomé, 1938). Tal é possível detectar em obras de autores, se bem que posteriores, como é o caso de Camões.

Um outro aspecto a considerar, e que não mereceu a atenção dos autores no debate da questão vicentina, prende-se com o facto de que, em 1517, quando Gil Vicente renuncia ao seu ofício de Mestre da Balança da Casa da Moeda de Lisboa, vende o lugar a um outro ourives, Diogo Rodrigues, mestre que trabalhava para a infanta D. Isabel. Deste modo, não podemos encarar a nomeação para a Casa da Moeda em 1513 como uma simples tença da coroa ao dramaturgo sem que este exercitasse a actividade de ourives.

A única obra de Gil Vicente cujo paradeiro é actualmente conhecido é a sua Custódia. Sabemos que lavrou outras, como uma cruz em prata que D. Manuel igualmente deixou aos Jerónimos e um cálice para a rainha viúva de D.J oão II, D. Leonor.

A referência a uma reparação de um cálice para esta rainha, por Gil Vicente, sem dúvida obra menor, é no entanto citada no seu testamento. Esta menção, que Gil Vicente lhe fez um cálice e lhe reparou outro, comprova o enorme prestígio do seu autor, numa época em que as personalidades artísticas não se evidenciavam. Eram apenas oficiais mecânicos, mas Gil Vicente, excepcional ourives, que versejava e organizava grandes festas públicas - como a entrada de D. Leonor, filha dos Reis Católicos, em Lisboa, em 1521 -, conseguiu obter um estatuto que se aproximava do artista liberal, objectivo que durante séculos a classe dos ourives, mesmo que, conquistando importantes privilégios, tentou em vão obter (Vassallo e Silva, 1993).

Gil Vicente foi igualmente um notável programador da representação régia. Tal tem sido realçado nos estudos de Dagoberto Markl (Markl, 1991), fundamentados pelo levantamento do universo iconográfico dos seus autos, e de Paulo Pereira, através da hipótese levantada que o dramaturgo-ourives tenha sido igualmente o autor do programa iconográfico do Convento de Cristo de Tomar (Pereira, 1990).

(...) A Custódia de Belém, para além do seu carácter de ex-voto pelas venturosas descobertas portuguesas, revela, pelo seu cuidado programa iconográfico e pela sua surpreendente teatralidade e execução, uma capacidade criativa que em tudo rompe com as fronteira de execução de uma anónima tenda de ourives nos alvores do Renascimento em Portugal. A referência expressa no testamento de D. Manuel ao seu autor, Gil Vicente, comprova o reconhecimento do importante papel do poeta-ourives que, com o ouro vindo de Quíloa, lavrou a mais fantástica apologia do seu reinado.


HISTÓRIA E SOCIEDADE (SÉCULO XVI)


Abrindo as portas a uma Europa de capitalismo comercial, da renovação religiosa e científica, Portugal (não apenas Portugal, mas todo o conjunto da Península Ibérica e da Itália) não lograria, no entanto, integrar-se nessa corrente de desenvolvimento. Incapaz de gerir a empresa de expansão, capitalistas por excelência, mas também militar, a burguesia nacional entrega-a nas mãos da Coroa e, por meio desta, aos servidores reais - uma nobreza que, mentalmente retrógrada, acabaria por transformar em rendimentos feudais tais riquezas e por ocupar postos da administração pública ultramarina, desviando o investimento dos capitais para empreendimentos não produtivos, de carácter ostentatório. No Norte europeu, entretanto, acumularam-se os lucros do nosso esforço nas costas de África, do Índico e das ilhas atlânticas - lucros económicos, ideológicos e científicos. Em Portugal, o rei monopoliza as operações comerciais e dá à Igreja o monopólio dos saberes (ao estabelecimento da Inquisição em 1536 e da lista oficial das publicações censuradas -1547-, junta-se o quase total domínio do ensino pelos Jesuítas). A defesa da Fé, puderam os nobres e eclesiásticos exercê-la sobre uma camada de burgueses que, em geral, conseguiu resistir e ultrapassar até as dificuldades de uma economia estatizada - Os Cristãos -novos (Judeus recém-convertidos ao Catolicismo para evitarem a expulsão do reino, mas que os Cristãos-velhos acusavam sistematicamente de judaísmo disfarçado). Ferozmente perseguidos em todos os domínios da vida nacional, desde o reinado de D. Manuel, os Cristãos-novos vão vendo os seus bens confiscados, as suas iniciativas económicas coarctadas e a sua voz silenciada.

Mas este sistema interno, de mero saque, brevemente se revelará inoperante. No reinado de D. João III, abandonou-se parte do Norte de África; a Índia, essa, esgotara-se e foi para o Brasil recém colonizado e para as suas riquezas que se viraram as nossas esperanças.

A sociedade portuguesa engrenara nos vícios do lucro fácil e do desperdício, do luxo e da ociosidade. Sem que a moral burguesa do trabalho tivesse algum significado, os elementos do todo nacional moviam-se no sorvedouro lisboeta em torno de miragens de vidas fantasiosas: a miragem de uma vida de Corte para a fidalguia provinciana ou para a burguesia ridícula e inútil; miragem de uma vida de ócio (que a multiplicação dos serviços domésticos e das esmolas pias podia assegurar) para camponeses vindos do interior; miragem de enriquecimento que as aventuras asiáticas podiam garantir ao mais simples soldado e embarcadiço (O testemunho de Fernão Mendes Pinto na sua obra Peregrinação é um dos mais preciosos para a caracterização desse tipo de actividade de pirataria). A imensidão dos escravos assegurava na cidade e até nos campos, quase abandonados, grande parte do trabalho mais pesado; os pequenos e activos mesteirais de todos os ofícios de 1383/85 iam desaparecendo e em seu lugar apareciam grossos capitalistas as mais das vezes estrangeiros, sendo também estrangeiros os artífices que garantiam a vida lisboeta (Numa carta de Clenardo a Látomo lê-se: «Ficai sabendo que o que faz o nervo principal duma nação é aqui de uma debilidade extrema, para mais se há algum povo dado à preguiça, sem ser o português, então não sei onde ele exista (...) Se uma grande quantidade de estrangeiros e de compatriotas nossos não exercessem cá as artes mecânicas, creio bem que mal teríamos sapateiros e barbeiros (...).

Em Portugal todos somos nobres e tem-se como grande desonra exercer alguma profissão (...).

Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos (...)».

Um tal clima social e ideológico não podia favorecer qualquer tipo de recuperação política da comunidade nacional. O país, que entrara económica e politicamente em decadência perante as potências europeias, buscou noutra miragem (religiosa e imperial, mas também económica - não se devem esquecer as importantes vantagens do saque) regenerar-se. Mas o desastre de Alcácer-Quibir deixou aberta uma única via: a união com a Espanha. Nobreza e burguesia unem-se agora nesse desejo. O Prior do Crato, candidato nacional à Coroa, é desbaratado em Alcântara com muito poucos seguidores.


VIDA CULTURAL (SÉCULO XVI)


Desde o século XIV que se assistira em Itália a um retomar das fontes clássicas. Este movimento, intimamente ligado ao renovar tardo-medieval da vida urbana e comercial, rejeitou ostensivamente a herança de quase dez séculos de História ( A Idade Média foi apelidada de «Idade das Trevas» por estes homens não lhe reconhecerem sequer o mérito de ter preservado nas bibliotecas os livros antigos e de ter conservado na liturgia da Igreja a memória da língua latina) e procurou ter um «renascimento» da cultura greco-latina. A pesquisa aturada das fontes originais; a sua reinterpretação (o ataque às filosofias escolásticas medievais) e a busca de um novo compromisso com os valores cristãos; o ensino da língua latina e grega na sua pureza clássica; os exercícios que os poetas e prosadores levam a cabo sob as formas literárias dos Antigos criam um clima cultural que acaba por atingir as outras zonas da Europa cristã.

Mas a expansão portuguesa trouxe, por outro lado, à Europa o conhecimento de muitos outros mundos e fenómenos que entravam em contradição com o saber livresco dos geógrafos, físicos e filósofos da Antiguidade. Os portugueses, confrontados como nenhum outro povo com a realidade e a Natureza, estavam longe dos maiores centros de difusão humanista e foi-lhes mais fácil enveredarem por uma via diversa: homens de experiência (pilotos, astrónomos, geógrafos, matemáticos, botânicos, viajantes), eles sentem-se livres para criticar os saberes especulativos da ciência antiga. Da nossa contribuição terá, pois, nascido este novo ramo (bem mais fecundo) da cultura renascentista. Os condicionalismos religiosos, ideológicos e económicos que a Inquisição e o Index impuseram ao país destruiriam, porém, qualquer hipótese de desenvolvimento do experimentalismo entre nós (Em Itália, onde o tal ramo vai encontrar um seguidor bem mais consciente, Galileu, também o movimento não pode prosseguir por oposição frontal da Igreja). Seriam (como já vimos) os países do Norte europeu a aproveitar e desenvolver os frutos desta experiência inicial.

A corte lisboeta foi, durante largos anos, das mais ricas de toda a Europa; a exploração da Costa da Mina, do açúcar madeirense e a venda das especiarias trouxeram-lhe os rendimentos necessários para enriquecer todo o cerimonial lúdico das festas palacianas.

As festas em Évora (descritas por Garcia de Resende) quando do casamento do príncipe D. Afonso, filho de D. João II, com a filha dos reis de Espanha, marcam um ponto alto nesse tipo de cerimoniais, contendo muitos elementos de representação dramática ou ilustração e desfile de caracteres.

Um aspecto particular da vida da corte eram os ricos saraus e, dentre estes, as representações dramáticas.

Coroando uma evolução nacional, profunda mas pouco conhecida, de representações dramáticas populares e religiosas medievais, a obra de Gil Vicente encontra-se todavia percorrida já por preocupações humanistas que enriquecem profundamente a tradição popular em que acabará por assentar quase sempre a base da sua inspiração.


VALIDADE HISTÓRICA DO TESTEMUNHO DE GIL VICENTE


O seu teatro vale historicamente, não só porque, independentemente do seu valor literário, foi história, divertiu a nobreza palaciana nos serões e nas festas, participou da sua vida colectiva e da sua bagagem cultural, mas também porque não se limitou a aderir passivamente a modas estabelecidas, intervindo muito directamente na sociedade que o rodeava. Não se detendo nas considerações psicológicas dos clássicos, mas preocupando-se em confrontar tipos sociais alegóricos, G. Vicente fê-los intervir em diálogos e situações muitas vezes convencionais, outras vezes perturbadoras da estabilidade social (Era na boca de simples pastores ou de parvos que Gil Vicente se arriscava a colocar as maiores verdades e críticas).

A sociedade portuguesa, perturbada já pelos sucessos dos Descobrimentos, merece-lhe alguns reparos (Auto da Índia, por exemplo). Mas é ainda nos tipos tradicionais de uma sociedade também tradicional que encontra a maior fonte de inspiração: o escudeiro pobretão, os magistrados venais, as alcoviteiras, o artífice pouco escrupuloso, o usurário, a adúltera (aqui referindo essencialmente uma consequência dos Descobrimentos) e, sustentando o maior e mais azedo peso da crítica, outra vítima tradicional dos ditos populares - os clérigos. Só que então o clima era potencialmente mais explosivo: por toda a Europa sopravam os ventos do reformismo luterano ou das críticas de Erasmo à hierarquia católica. O favor dispensado por D. João III a este humanista holandês e a existência de conflitos entre o rei e Roma (Também o cunhado do nosso rei, Carlos V imperador de Espanha e da Alemanha, tem grandes dissensões com Roma, que saqueia em 1527) permitiram essa liberalidade jamais consentida a qualquer outro autor posterior.

A crítica às indulgências, o ataque à devassidão dos clérigos, a apologia dos simples (Auto da Barca da Glória) é índice da pouca ortodoxia demonstrada por Gil Vicente. Mas um importante aspecto escapa à sua visão crítica: no fundo, Gil Vicente, olhando os lavradores como a grande vítima e sustentáculo de todo o mundo (concepção nitidamente feudal), não entendeu os subgrupos mais dinâmicos da sua própria época : os mercadores, os contratadores, os homens ligados por laços económicos capitalistas à grande empresa ultramarina (Mais perspicaz nesse aspecto foi um outro grande crítico e poeta do seu tempo: Sá de Miranda).


GIL VICENTE NA ORIGEM DE ALGUNS PROVÉRBIOS PORTUGUESES


A morte a todos gasta. (Farsa de Inês Pereira)

Água, Deus, água que lhe arde a pousada (Auto da Mofina Mendes)

Amar quem vos não quer é seta d’amor perdida para quem se quer perder (Auto dos Físicos)

Amiga e bom amigo mais aquenta que bom lenho (Farsa de Inês Pereira)

Antes asno que me leve e não cavalo folão (Farsa de Inês Pereira)

Antes lavrador que Nero (Farsa de Inês Pereira)

Antes lebre que leão (Farsa de Inês Pereira)

As amoras e o trigo vêm no tempo dos melões (Auto da Lusitânia)

Bem passa de guloso o que come o que não tem (Pranto de Maria Parda)

Besta despeada não pace nos sovereiros (Auto da Mofina Mendes)

Bom é às vezes falar (Auto do Juiz da Beira)

Cada hora do dia te dá o mundo lição (Morte de D.Manuel)

Cada louco com sua teima (Farsa de Inês Pereira)

Cada um há-de regrar em pedir o que é razão (Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela)

Cada um sabe o que monta nas estrelas que olhar (Auto da Feira)

Come e folga, terás boa vida (Diálogos sobre a Ressurreição)

Dá-me a mim dinheiro e ao Demo conselho (Auto da Feira)

Dar o seu a cujo é (Auto da Alma)

Do satisfazer nasceu a melancolia (Farsa dos Almocreves )

É errar mandar o soberbo a negociar cousas que hão-de ser feitas per manda (Breve Sumário da História de Deus)

Em cinza t’hás-de tornar (Auto do Juiz da Beira)

Em todo tempo há lugar o que Deus quer (Auto da Barca do Purgatório)

Estar com a candeia na mão (Quem Tem Farelos?)

Fala com Deus, serás bom rendeiro (Diálogos sobre a Ressurreição)

Filho de clérigo és, nunca com feito farás (O Clérigo da Beira)

Filho não comas, não rebentarás (Diálogos sobre a Ressurreição)

Impossível é vencer batalha contra a ventura quem ventura não tem (Romagem de Agravados)

Isso é quem porcos há menos em cada muita lhe roncam (Auto da Índia)

Já a burrinha jaz o pego (Romagem de Agravados)

Julgai pelas obras e não pela cor (Breve Sumário da História de Deus)

Maior é o ano que o mês (Farsa de Inês Pereira)

Mais corre a Mofina vinte vezes qu’a raposa (Auto da Mofina Mendes)

Mais quero asno que me leve (do) que cavalo que me derrube (Farsa de Inês Pereira)

Mais quero em quem m’adore de quem faça com que chore (Farsa de Inês Pereira)

Mais vale asno que me carregue que cavalo que me derrube (Farsa de Inês Pereira)

Muita água há em Borratém e no poço tinhoso (Pranto de Maria Parda)

Na festa sem comer não há gaita temperada (Auto da Mofina Mendes)

Não chegues à forca que não te enforcarão (Diálogos sobre a Ressurreição)

Não comas quente não perderás o dente (Diálogos sobre a Ressurreição)

Não é pau de boa lenha, nem lenha de bom madeiro (Auto da Feira)

Não é sisudo o juiz que tem jeito no que diz e não acerta no que faz (Auto da Mofina Mendes)

Não peques na lei, não temerás rei (Diálogos sobre a Ressurreição)

Não se tomam trutas a bragas enxutas (Auto do Juiz da Beira)

Não sejas pobre morrerás honrado (Diálogos sobre a Ressurreição)

Nunca peçais dinheiro que ganhastes por amores (Auto do Juiz da Beira)

O dinheiro anda acossado e o prazer vagabundo ( Auto Pastoril Português)

O jogar poucas vezes aproveita (Auto da Lusitânia)

O muito não é nada quando quer que não é bom (Auto da Lusitânia)

O que não haveis de comer, deixai-o a outrem mexer (Farsa de Inês Pereira)

Onde não há cordança/não há lei, festa nem dança (Auto Pastoril Português)

Ou seja sapo ou sapinho, ou marido ou maridinho, tenha o que houver mister, este é o certo caminho (Farsa de Inês Pereira)

Para que é envelhecer esperando pelo vento? (Auto da Índia)

Por bem quer mal haver (Auto Pastoril Português)

Quando perderes põe-te de lodo (sossego) (Diálogos sobre a Ressurreição)

Quando te dão o porquinho/vai logo co baracinho (Triunfo do Inverno)

Quem bem renega bem crê (Auto da Barca do Purgatório)

Quem chora ou canta, fadas más espanta (Diálogos sobre a Ressurreição)

Quem com mal anda, chora e não canta (diálogos sobre a Ressurreição)

Quem dinheiro tem fará tudo o que quiser (Floresta de Enganos)

Quem muito pede muito fede (Pranto de Maria Parda)

Quem não faz mal não merece pena (Diálogos sobre a Ressurreição)

Quem não mente não vem de boa gente (Diálogos sobre a Ressurreição)

Quem não pede não tem (Ao Conde de Vimioso)

Quem quer fogo que busque a lenha (Pranto de Maria Parda)

Quem quiser comer comigo traga em que se assentar (Pranto de Maria Parda)

Quem sempre faz mal poucas vezes faz bem (Diálogos sobre a Ressurreição)

Quem só se aconselha só se depena (Diálogos sobre a Ressurreição)

Quem tem tempo e espera tempo, tem maré e espera maré, tem vento e espera vento, não teve conhecimento da fortuna que cousa é (Auto da Lusitânia)

Se nada ganhares, perdê-lo-ás todo, se sempre perderes não sejas siseiro (Diálogos sobre a Ressurreição)

Se tu te guardares, eu te guardarei (Diálogos sobre a Ressurreição)

Todalas cousas criadas tem seu fim determinado (Triunfo do Inverno)

Todo (o) bem se vai ao fundo (Auto Pastoril Português)

Todo o humano deleite há-de dar consigo em terra (Auto da Mofina Mendes)

Toma tu o que te dás em paga do que desejas (Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela)



ALGUMAS EFEMÉRIDES GIL-VICENTINAS


1460-1469

Gil Vicente nasceu possivelmente nesta década e, segundo D. António de Lima, em Guimarães.

1502

Na noite de 7 para 8 de Junho foi representado o Monólogo do Vaqueiro, o primeiro ensaio dramático de Gil Vicente, ao nascimento do futuro D. João III. Na esteira de Juan de la Encina e de Lucas Fernandez, G.V. imitou neste Auto a linguagem dos pastores de Salamanca, que é a linguagem dos seus primeiros Autos.

                    É representado o Auto Pastoril Castelhano.

1503

É representado o Auto dos Reis Magos.

1504

É representado o Auto de S. Martinho.

1505

Se não há erro de rubrica, neste ano teria sido representado o Auto Quem tem farelos? (Farsa). Senão tê-lo-á sido em 1515.

                   Sermão perante a Rainha D. Leonor.

1509

                    É representado o Auto da Sibila Cassandra.

É representado o Auto da Índia (farsa).

1511

                   É representado o Auto dos Quatro Tempos.

1510

É representado o Auto da Fé (a Fé fala em português).

1512

Documento de 4 de Fevereiro, pelo qual G.V., procurador dos mesteres de Lisboa, é nomeado “Mestre da Balança da Moeda”, da mesma cidade.

É representado o Velho da Horta.

1513

É representado o Auto Exortação da Guerra (tragicomédia).

1515

É representado Quem tem farelos (?).

1517

Neste ano, muito provavelmente, e até 7 de Março, G.V. representa o Auto da Barca do Inferno (auto de devoção).

1518

Neste ano foi representado em Lisboa, “ em a noite de Endoenças” o Auto da Alma (auto de devoção).

É representado o Auto da Barca do Purgatório (em Lisboa, às matinas do Natal) (auto de devoção).

1519

Em 22 de Abril é representado o Auto da Barca da Glória (auto de devoção como as outras “embarcações”, mas em castelhano.

1520

G.V. entende-se com os vereadores da Câmara de Lisboa para os festejos da entrada de D. Leonor, terceira mulher de D. Manuel I.

É representado o Auto de Deus Padre, Justiça e Misericórdia

1520-1521

Auto da Fama

Cortes de Júpiter

Auto das Ciganas.

1522

Pranto de Maria Parda.

D. Duardos (Tragicomédia em castelhano

ano).

1523

Entre meados de Julho e fins de Setembro é representado em Tomar, a D. João III, a Farsa de Inês Pereira (farsa).

É representado em Évora, às matinas do Natal, o Auto Pastoril Português, (auto de devoção em que G.V., põe em cena pastores portugueses).

Auto de Amadis de Gaula.

1524

Em Fevereiro foi representado o Auto dos Físicos (farsa).

Comédia do Viúvo.

Frágua de Amor.

1525

É representado o Auto do Juiz da Beira.

Em 17 de Novembro morre a rainha D. Leonor, viúva de D.João II, protectora de G.V.

1526 (ou 1528)

É representado em Almeirim o Auto Breve Sumário da História de Deus (auto de devoção), seguido de Diálogo sobre a Ressurreição.

1527

É representada em Coimbra a Comédia sobre a divisa da cidade de Coimbra.

É representada em Coimbra, depois de 15 de Outubro, a Tragicomédia pastoril da Serra da Estrela.

É representada em Coimbra a Farsa dos Almocreves

Auto das Fadas.

Nau de Amores

1528(?)

É representado o Auto da Feira (auto de devoção).

Auto da Festa.

1529

Triunfo do Inverno.

O Clérigo da Beira.


1531

G.V., em carta a D. João III, escrita em Santarém, confessa-se “vizinho da morte”, isto é, bastante velho.

Jubileu de Amores (representação).

1532

É representado o Auto da Lusitânia, ao nascimento do príncipe D. Manuel, filho de D. João III.

1534

Provavelmente em 1 de Março foi representado o Auto da Cananeia, em Odivelas.

É representado o Auto de Mofina Mendes, às matinas do Natal (auto de devoção).

1536

G.V. representa o seu último Auto, Floresta de Enganos (comédia).

1536 - 1540

Morre G.V., provavelmente em Évora (em 1537?).

1562

Sai a 1ª edição das Obras Completas de G.V., com o título de Compilaçam e preparada pelos filhos Luís Vicente e Paula Vicente. Nesta edição incluíram-se 43 Autos (com o Monólogo da Visitação) e ainda Obras Miúdas.


As peças constantes desta lista são de tipos muito diferentes, quer sob o ponto de vista temático quer sob o da estrutura teatral. Mas o facto de serem, quase todas, criações originais que não se integram em géneros de características anteriormente definidas pela experiência literária, torna impossível uma classificação sistemática. A imaginação prodigiosa de Gil Vicente, o seu gosto pelas peças compostas de elementos contrastantes e também o facto de o seu teatro ter sido composto ao sabor dos pedidos e as circunstâncias (datas do calendário litúrgico, nascimento de príncipes, acontecimentos festivos da corte) contribuem ainda mais para agravar esta dificuldade.

Na compilação, publicada pelos filhos do escritor em 1562, as obras são divididas em cinco livros:

1º Obras de devoção;

2º Comédias;

3ºTragicomédias;

4º Farsas;

5º Escritos diversos.


É muito provável que esta arrumação seja do próprio Gil Vicente, porque se sabe que ele em vida começou a trabalhar na organização da compilação, limitando-se os filhos a juntar ao trabalho já feito «as obras que faltavam» e de que puderam ter notícia. Mas, de facto, não se consegue hoje entender bem a diferença entre comédias, e também tragicomédias, e também a caracterização das farsas aparece pouco clara.


Das várias classificações que têm sido propostas pelos críticos modernos a que se nos afigura mais criteriosa é a de António José Saraiva, na sua obra Teatro de Gil Vicente - Portugália Editora, 1959:


Podemos distinguir os seguintes géneros:

O auto pastoril, monólogos ou diálogos de pastores, com frequentes recheios de lirismo folclórico;

A moralidade religiosa, versando o tema da redenção, com figuras alegóricas;

As narrações bíblicas, ou de vidas de santos, como o Auto de Mofina Mendes, o Breve Sumário da História de Deus ou o Auto da Cananeia;

A fantasia alegórica, em parte proveniente dos momos, e que lembra as nossas «revistas», como o Auto da Lusitânia, o Auto da Feira, a Romagem dos Agravados;

A farsa episódica, que tem por assunto um simples quadro ou uma série deles soltos, como Quem tem farelos (?), o Juiz da Beira;

O auto narrativo que é a transposição teatral de um romance ou de um conto, seja um romance de cavalaria, como D. Duardos, seja uma história realista de amor, como o Velho da Horta, seja um conto de costumes, como o Auto da Índia ou a Inês Pereira.

Considerando a estrutura formal destes géneros, podemos reduzi-los a três tipos: a alegoria, o quadro, ou episódio focando uns flagrantes da vida real, e a narrativa.


Independentemente da classificação de certas obras (O Velho da Horta e o Juiz da Beira, parecem-nos alegorias, em que a história aparentemente central é apenas o símbolo da realidade satirizada), esta classificação abrange os tipos fundamentais do teatro vicentino.


Para se compreender melhor um pouco do contexto vicentino, podemos continuar com António José Saraiva, Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval - Public. Europa América:


«Deve observar-se que Gil Vicente não era um escritor no sentido em que o são Camões, Sá de Miranda ou Arnould Gréban, isto é, um autor de textos literários. A sua actividade estava mais dependente de circunstâncias estranhas à obra literária: a ajuizar pelas didascálias da 1ª edição das suas obras, ele tinha a seu cargo celebrações, comemorações e saraus do Paço. Segundo dois documentos publicados por Braamcamp, ele foi enviado oficialmente a Lisboa «pera por sua ordenança se fazerem algumas cousas e autos para entrada nossa e da Rainha...», superintendendo em «oficiais de quaisquer ofícios que seja» e nas «pinturas e as cousas e cadafalsos». Por isso um auto de Gil Vicente pode constituir no seu conjunto um espectáculo com variedade e atracção suficientes para distrair um serão, «uma festa», como ele próprio chama ao seu Triunfo do Inverno, no prólogo: «imaginei uma festa à nossa Júlia modesta (a infanta recém-nascida)... - a qual festa será esta» (segue-se o argumento do auto). A unidade, não apenas de acção, mas ainda de género literário, era muitas vezes sacrificada a esta circunstância exterior; e a exibição de quadros cénicos, bailados, música e guarda-roupa ocupava por vezes no conjunto artístico um lugar tão importante como o texto literário...»


Continuando com António José Saraiva, História Ilustrada das Grandes Literaturas (1º vol.):

«Gil Vicente apresenta-nos tipos sociais como o Frade, o Fidalgo, a Alcoviteira, o Escudeiro, a Menina Burguesa. Os tipos psicológicos, como o Velho Enamorado, são excepções do teatro vicentino.

No seu conjunto, portanto, este teatro dá-nos um espelho satírico da sociedade portuguesa, que interessa duplamente como depoimento acerca desta sociedade e como expressão da ideologia do seu autor.

Gil Vicente fala e observa da corte onde se encontra instalado e que lhe impõe dadas condições. Assim é que os seus autos cavaleirescos reflectem a mentalidade típica da nobreza palaciana congregada nos serões do Paço - em contradição com a inspiração realista e plebeia do resto da sua obra. Assim é, também, que o elogio das guerras ultramarinas, a exaltação do espírito de cruzada, na Exortação da guerra, no Auto da Fama e noutras obras, se integra dentro da orientação política e ideológica da corte portuguesa. Dependente do Rei, Gil Vicente servia a sua orientação política, por vezes de maneira bem imediata, como na citada Exortação da Guerra, em que o clero português é censurado por se recusar a entregar as terças dos rendimentos eclesiásticos que o Papa concedera à Coroa para custear a guerra em África.

Por outro lado, porém, Gil Vicente observa a realidade sob um ângulo que não é propriamente o do Paço. Isto possibilita a largueza, a diversidade e a relativa objectividade do seu depoimento, que não chega todavia a alcançar a amplidão e a crueza do que nos oferecera, quase um século antes, Fernão Lopes.

A sátira vicentina está cheia de duplicidades. Vemo-lo atacar violentamente a nobreza, e ao mesmo tempo exaltar os ideais típicos da mesma nobreza; vemo-lo elogiar a corte em termos encarecidos e simultaneamente mostrar a corrupção, a venalidade e o espírito de rapina que a caracteriza: vemo-lo atacar os Judeus, e por outro lado apresentar no palco os aspectos simpáticos da sua vida, e defendê-los até, em carta a D. João III, contra as perseguições incitadas pelo clero de Santarém...»

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«Gil Vicente não aparece, no início da sua carreira teatral, como um produto desta tradição mal conhecida. A primeira peça vicentina, o Auto da Visitação, é um simples monólogo de um Vaqueiro, concebido para festejar o nascimento de um príncipe, e filia-se directamente em representações de outro poeta palaciano, o castelhano Juan del Encina, cuja linguagem inclusivamente imita. A corte portuguesa era bilingue, sendo o casal régio, durante a maior parte do século XVI, português e castelhano. Por via dos contactos entre as cortes peninsulares, Gil Vicente achava-se mais atento aos poetas palacianos do resto da Península do que à realidade que a sua própria terra lhe oferecia fora da corte. Assim é que os seus primeiros pastores têm a propriedade singular de falar, não o português rústico, mas um dialecto semi-castelhano, semi-leonês, o saiaguês, que Juan del Encina, trouxera para a cena».


Um dos aspectos pouco divulgados da vida de Gil Vicente, tem a ver com as perseguições que lhe foram movidas no fim da vida, talvez reflexo da instituição da Inquisição em Portugal, que D. João III pediu ao Papa em 1531. Maria de Lourdes Saraiva, aborda esta questão na introdução da sua obra Gil Vicente-Sátiras Sociais - Livros de Bolso Europa-América, 109 :


«A PERSEGUIÇÃO NO FIM DA VIDA

Ignora-se a data exacta da morte, sabendo-se apenas que ocorreu antes de 1540 (um documento de Abril desse ano contém a frase Gil Vicente que Deus perdoe) e depois de 1536, ano em que foi representada a última peça, a comédia Floresta de Enganos.

Mal estudada até agora, a comédia contém elementos decisivos para o estabelecimento da biografia de Gil Vicente. Por ela ficamos sabendo que, em virtude de ter sido considerado suspeito de heresia ou, pelo menos, desrespeitador da disciplina da fé, foi perseguido e proibido de se exprimir com a liberdade com que anteriormente o fazia. O prólogo da comédia afirma-o com toda a clareza. Não temos elementos seguros para saber em que consistiu o castigo, mas, além de uma referência a prisão (que pode ter apenas sentido figurado), existe alusão a um desterro de dois anos fora da corte.

Em outras duas obras de Gil Vicente se encontra o eco da perseguição sofrida: a tradução do salmo Miserere, que contém um angustiado apelo de clemência dirigido a D. João III, e o Auto da Cananeia, representado em Odivelas.

Isto explica o silêncio de Gil Vicente e a sua ausência da corte entre 1533 e 1536. Na verdade, o Auto da Mofina Mendes, que vem referido a 1534, é seguramente de 1531, visto referir-se aos clérigos que, após o terrível tremor de terra de Janeiro daquele ano, andavam a aterrar as populações convencendo-as de que as causas dos terramotos eram os pecados humanos. E o Auto da Cananeia foi escrito efectivamente em 1534, mas é o único auto que não foi feito a propósito de facto ocorrido na corte, nem a pedido de gente da corte, nem representado na corte.

Talvez exista alguma relação entre a perseguição e a queixa que, no fim do ano de 1531, o bispo de Brindisi dirigiu a um secretário do papa, a propósito de um auto de Gil Vicente a cuja representação assistira em Antuérpia e no qual expressamente pedia que «Sua Santidade fizesse a esse respeito qualquer admoestação paterna». O auto Jubileu de Amores satirizava a questão das indulgências em termos tão vivos que o bispo dizia que ao escutá-lo, julgava «achar-se na Saxónia e ouvir Martinho Lutero». A representação da Romagem dos Agravados, em 1533, deve ter agravado muito a situação: em nenhum auto conhecido a sátira social e anticlerical é tão violenta e contundente. Não são já os simples frades devassos que aparecem na cena, mas o alto clero; chega-se, falando dos bispos, a dizer que estão a enfiar mitras em cabeças de asnos.

Esta perseguição pode explicar alguns aspectos da biografia vicentina (a questão da divergência das duas assinaturas, o facto de o trabalho de compilação não ter sido concluído, o longo intervalo entre a data da morte e a da publicação das obras, apesar do enorme interesse que sabemos que elas continuaram a suscitar). Mas talvez mais importante que isso é a contribuição que nos dá para entender Gil Vicente.

Na verdade, o prólogo da Floresta de Enganos é o único texto em que Gil Vicente surge em cena como Gil Vicente, isto é, como autor dos autos, e profere palavras que não se destinam a divertir ninguém, mas, bem ao contrário, a fazer meditar sobre o exemplo da sua vida. A última imagem que nos deixou de si mesmo foi a do pensador perseguido, amarrado a uma censura que pretende impedi-lo de falar em público e lhe recomenda que, se quiser falar, fale em casa, onde não corre perigo algum. Era a recomendação que todos, certamente, lhe faziam, mas que ele recusa. E aproveita a última oportunidade que tem de falar perante o rei e diante toda a corte para dizer que, apesar de perseguido, vexado, condenado, sabe que a verdade estava do seu lado; e se o castigaram é porque ninguém gosta de ouvir as verdades.

Era o eppur si muove do velho lutador. Não se sabe quanto tempo depois disso viveu ainda. Mas foi aquela a sua última representação.»



PORTUGAL E O MUNDO NA ÉPOCA DE GIL VICENTE

1460

Protesto, nas Cortes de Lisboa, das largas doações à nobreza por parte de D. Afonso V.

Cortes de Évora.

António de Noli descobre Cabo Verde.

Revolta da Catalunha.

Abertura em Antuérpia da primeira bolsa internacional de comércio.

1461

Morte de Carlos VII de França. Sucede-lhe Luís XI.

1462

Povoamento de Santiago (Cabo Verde).

1463

Constituição dos Estados Gerais dos Países Baixos.

1463-94

Vida de Pico della Mirandola.

1465

Cortes da Guarda

1468

Cortes de Santarém.

Os nobres castelhanos impõem Isabel como herdeira de Henrique IV de Trastâmara.

1469

O mercador Fernando Gomes fica responsável pelo comércio da Guiné.

Casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão.

1470

Nuno Gonçalves pinta um retábulo para a capela do Paço de Sintra.

1471

Tomada de Arzila.

Abandono de Tânger pelos Muçulmanos.

Cortes de Lisboa.

1471-1528

Vida de Albrecht Durer.

1472-73

Crise cerealífera.

Cortes de Coimbra.

1473-1542

Vida de Copérnico

1474

Morte de Henrique IV de Castela. Proclamação de Isabel e Fernando.

1475

Criação do título de barão.

Guerra com Castela.

1476

Criação do título de visconde

Batalha de Toro


1477

Primeiro esboço de orçamento.

Batalha de Nancy; morte de Carlos, o Temerário.

1478

Cortes de Lisboa.

1479

Tratado de Alcáçovas.

Morre João II de Aragão. Sucede-lhe seu filho Fernando (V de Castela, II de Aragão).

1480

Imprensa xilográfica (em Leiria); impressão de Coplas (...) do condestável D. Pedro.

Início da actividade do Tribunal da Inquisição em Sevilha.

1481

Morte de D. Afonso V.

D. João II sobe ao trono.

Cortes de Évora.

Lutas contra a nobreza; supressão de coutos.

Reivindicação de reguengos alienados à nobreza.

Estabelecimento da Inquisição em Espanha; Torquemada.

1482

Construção do Castelo da Mina.

Cortes de Santarém.

Guerra generalizada em Itália provocada por Veneza.

Botticelli: Nascimento de Vénus.

1492-92

Guerra de Granada.

1483

Execução do duque D. Fernando, 3º duque de Bragança.

Diogo Cão descobre o rio Zaire.

Cortes de Santarém.

Morte de Luís XI. Sucede-lhe seu filho Carlos VIII.

Nascimento de Martinho Lutero.

1484

Assassínio do 4º duque de Viseu, por D. João II.

1484-86

Marcílio Ficino traduz Platão.

1487

Abolição do Beneplácito Régio.

Pragmática proibitiva de sedas e bordados.

Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança.

Impressão de obras judaicas.

1489

Primeira impressão de um livro em Lisboa.

1490

Cortes de Évora.

1492

Criação do Hospital Real de Todos-os-Santos (Lisboa).

Ordem de expulsão dos judeus residentes em Espanha, que entraram em grande número em Portugal.

Tomada de Granada pelos Reis Católicos.

Descobrimento da América por Cristóvão Colombo.

Gramática castelhana de António Nebrija.

1493

Negociações luso-espanholas sobre o domínio dos mares.

Alexandre VI divide os novos mundos entre Espanha e Portugal.

Regresso de Colombo.

Nasce Rabelais.

1494

Tratado de Tordesilhas.

1495

Morre D.João II.

Aclamação de D. Manuel I.

1496

Expulsão dos Judeus de Portugal.

Reabilitação da Casa de Bragança.

Impressão (em Leiria) do Almanach Perpetuum de Abraão Zacuto.

De Republica Gubernanda per Regem, de Diogo Lopes Rebelo.

Organização de um serviço militar regular em Espanha.

Alexandre VI confere a Fernando e Isabel o título de “Reis Católicos”.

1497

Viagem de Vasco da Gama para a Índia.

1498

Cortes de Lisboa.

Decide-se a criação das Misericórdias.

Morte de Carlos VIII de França. Sucede-lhe Luís XII.

1499

Fundação da Universidade de Alcalá.

Celestina, de Fernando de Rojas.

1500

Descoberta oficial do Brasil, por Pedro Álvares Cabral.

1501

Miguel Ângelo: Pietá de S. Pedro.

1502

Cortes de Lisboa.

É semeado, pela primeira vez, em Portugal, milho.

Estabelece-se uma feitoria em Cochim (Índia).

Sufocado o levantamento dos muçulmanos de Granada, oferece-se-lhes como alternativa o baptismo ou a expulsão. A medida foi extensiva aos mudéjares de Castela.

1502-36

Período da produção da vasta obra de Gil Vicente.

1503

Estabelece-se um acordo comercial com os banqueiros Welser para venda de mercadorias da Índia.

Afonso de Albuquerque parte para a Índia. Cochim converte-se em fortaleza nos governos de D. Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida.

Casa da Contratação de Sevilha.

Ruptura entre a França e Aragão.

Publica-se o Mundus Novus, de Américo Vespúcio.

1503-19

Gioconda, de Vinci.

1504

Terminam as guerras de Nápoles, a qual durante dois séculos permanecera unida à monarquia hispânica. Morte de Isabel I “ A Católica”.

1505

Reforma das Ordenações Régias Portuguesas.

Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira.

D. Francisco de Almeida é nomeado vice-governador da Índia.

1505-06

Efémero reinado de Joana e Filipe, o Formoso. (Castela).

1506

Levantamento antijudaico em Portugal de que resultou o morticínio de cerca de três mil pessoas.

Monopólio do Estado Português do Comércio de especiarias.

1506-09

Grão Vasco pinta a Criação dos Animais.

1506

Fernando, rei de Aragão, governa Castela como regente.

1507

Os judeus portugueses são submetidos às leis gerais do Reino.

Afonso de Albuquerque assalta e conquista Ormuz.

1509

Publica-se o Regimento das Casas das Índias e Mina.

Criação do Conselho da Índias, em Espanha.

Henrique VIII sucede a Henrique VII em Inglaterra.

1509-55

Afonso de Albuquerque cria o Império Português do Oriente.

1510

Conquista de Goa

1510

ou 1519

Mapas de Jorge Reinel.

1511

Tomada de Malaca.

1512

Livro I das Ordenações Manuelinas.

É expulsa a dinastia pró-francesa de Navarra, que se une, sem perder a autonomia a Castela.

1512-14

Crónica de D Duarte, de Rui Pina.

1512-16

Concílio de Latrão.

1513

Livro II das Ordenações Manuelinas.

Publicada a Exortação da Guerra, de Gil Vicente.

1514

Embaixada de D. Manuel I junto do papa Leão X.

Publicação das Ordenações Manuelinas.

Construção da Torre de Belém.

O Livro da Marinharia, de João Lisboa.

Crónica d’el-rei D. Afonso V, de Rui de Pina.

1515

Albuquerque, governador da Índia, regressa a Ormuz.

Crónica d’el-rei D. João II, de Garcia Resende.

Crónica dos Senhores Reis de Portugal, de Cristóvão Rodrigues Acenheiro.

1515-18

Obras, de Francisco Sá de Miranda.

1516

Editados os Regimentos e Ordenações da Fazenda. Editado o Regimento de Évora.

O Príncipe, de Maquievel.

Utopia, de Thomas More.

Rolando, o Furioso, de Ariosto.

1516-17

Regência do cardeal Cisneros (Espanha).

1517

Criação do Terreiro do Trigo, em Lisboa.

Os Portugueses ocupam Cantão.

Fernão de Magalhães põe-se à disposição dos reis espanhóis.

Publicação de noventa e cinco teses de Lutero contra as indulgências.

1517-56

Reinado de Carlos I (Espanha). Os Espanhóis ocupam Iucatão.

1518

Lopo Soares de Albergaria funda a Fortaleza de Ceilão.

1519

Atlas de Lopo Homem-Reinéis.

1519-21

Conquista do México por Hernán Cortés.

1519-22

Partida da frota de Fernão Magalhães. Viagem de circum-navegação.

1520

Conclusão da reforma dos forais portugueses.

Ordenações da Índia.

A Espanha revolta-se contra os ministros flamengos de Carlos V. Junta de Ávila.

1521

Morte de D. Manuel I.

D.J oão III ascende ao trono.

Os rebeldes espanhóis são esmagados em Villalar.

Dieta de Worms.

Excomunhão de Lutero.

1522

Os Portugueses estabelecem com regularidade a ligação Cochim-China.

Contra os Juízos dos Astrólogos, por António de Beja.

Erasmo: Colóquios.

1524

Conferência de Badajoz.

Erasmo: Tratado do Escravo Arbítrio.

Surgimento do anabaptismo na Suíça.

1525

Batalha de Pavia. Prisão de Francisco I de França.

1525-26

Cortes de Torres Novas.

1525-80

Vida de Camões.

1527

Primeiro recenseamento da população portuguesa ordenado por D.João III; cerca de 1 200 000 habitantes.

As tropas imperiais assaltam e saqueiam Roma.

1530

Plano de colonização do Brasil.

Funda-se o Colégio de França.

1531

D. João III requer ao Vaticano o estabelecimento da Inquisição em Portugal.

1531-33

Conquista do Peru por Francisco Pizarro.

1532

Criada a capitania do Espírito Santo no Brasil.

Oratio pro Nostris, de André de Resende.

Rabelais: Gargântua.

1534-36

Revolta do Peru contra Pizarro.

1535

Cortes de Évora.

Francisco Faleiro: Arte de Marear.

Leão Hebreu: Dialoghi di Amore.

Aires Barbosa: Antimoria

Expedição vitoriosa de Carlos I de Espanha a Tunes.

1535-1600

Vida de Luís de Molina (Espanha).

1536

Estabelecimento da Inquisição em Portugal.

Fernão de Oliveira publica Gramática.

União do País de Gales com a Inglaterra.

Execução de Ana Bolena.

Édito de Lyon.

1536-39

Supressão dos conventos em Inglaterra.

1537

Transferência da Universidade para Coimbra.

Tradução do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes.

1538

Lei contra a mendicidade.

D. João de Castro escreve o primeiro dos três roteiros: Roteiro de Lisboa a Goa

Introdução da imprensa no México.

Excomunhão de Henrique VIII de Inglaterra.

1538-39

D. João de Castro escreve o segundo roteiro: Roteiro de Goa a Diu.

1539

Início da actividade do Santo Ofício; cardeal D. Henrique, primeiro inquisidor-geral.

Damião de Góis publica Comentarii rerum gestarum in Índia.

Organização definitiva da Companhia de Jesus.

1540

Fundação da Companhia de Jesus em Espanha.

Chegada dos Jesuítas a Portugal.

Fracasso de Carlos I de Espanha ao tentar a conquista de Argel.

1545

Abertura do Concílio Ecuménico de Trento.

1547

Primeiro índice português, manuscrito, de livros proibidos.

1547-1616

Vida de Cervantes.

1557

Morte de D. João III.

1562

O Cardeal D. Henrique assume a regência do Reino de Portugal.

1563

Fim do Concílio de Trento.

1564

Nasce William Shakespeare (m. 1616)

Nasce Galileu (m. 1642)



ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DO SARDOAL NO MESMO PERÍODO (1460 - 1560)


Documentos existentes no Arquivo Municipal:


1 de Janeiro de 1460: Carta de convenção feita entre os juízes, procurador do concelho e homens bons, reunidos no Paço da Audiência, por ordem do Corregedor para estabelecerem no Sardoal uma estalagem. Foi convidado Vicente Vasco para estabelecer a dita estalagem, o qual aceitou o convite, com a condição, porém, que aceitaram todos os moradores, de não dar pousada aos passageiros, sob pena de certas multas, visto que o dito Vicente Vasco se obrigou a fazer a dita estalagem e sustentá-la durante a sua vida.

24 de Julho de 1462: Carta de escambo feita entre os juízes, procurador e mais oficiais do lugar do Sardoal e Gonçalo Anes e sua mulher Maria Anes, em que estes deram ao concelho uma horta e fontes de água que nela estão, junto ao ribeiro da Madalena, com o qual ribeiro parte e eles juízes e mais povo deram em troca a ele Gonçalo Anes, um chão para nele se edificar, que era do concelho, no sítio da Bagaceira.

16 de Janeiro de 1471: Carta de confirmação, dada aos moradores do Sardoal, por El-Rei D. Afonso V, das liberdades, privilégios e franquias que os reis seus antecessores haviam concedido a este povo.

29 de Março de 1488: Carta de compra feita pelo concelho do lugar do Sardoal, a Fernão Gomes e a seus irmãos, todos do Sardoal, de uma fonte com o seu chão, que está no regato de Paio, que parte com o chão de Rui Lourenço e com Diogo Moreno, pelo preço de oitocentos réis brancos. Escritura pelo tabelião do Sardoal, Diogo Filipe.

19 de Março de 1507: Título da posse, medição e confrontação do rossio da Fonte do Vale da Gala, por parte do Concelho de Sardoal. Servia nesse ano de juiz ordinário o honrado Henrique Lopes e Jorge Delgado, escudeiro e João Alves, criado do senhor D. Francisco, vice-rei nas partes da Índia, oficiais da povoação. Os sobreditos juiz e oficiais foram ver uma contenda que era entre Sebastião Dias, clérigo de missa e o Concelho, sobre um pedaço de chão que fora recusado ao dito juiz, que o dito Sebastião Dias, metia em sua horta.

11 de Fevereiro de 1513: SENTENÇA DO POÇO DA RATINHA: Queixando-se os moradores da Rua do Poço a El-Rei, de que os oficiais da Câmara haviam vendido o chão em que estava o Poço e que sendo este entupido lhes causava prejuízo porque abasteciam as suas casas e lagares com a água deste poço, El-Rei mandou informar aos juízes e vereadores que responderam que era verdadeira a queixa dos moradores, porém que não eram eles que haviam causado o dano, mas sim os seus antecessores, o que visto por El-Rei, mandou vir perante ele Diogo Gonçalves que havia comprado ao concelho o dito chão e lhe fez ver esta demanda e a necessidade deste poço e anuleis por minha sentença a dita venda por nenhum valor e que o dito concelho volte a abrir o poço, conclui a sentença. Dada no dito lugar do Sardoal aos 11 dias do mês de Fevereiro de 1513, por D. Francisco Tavares, Corregedor com alçada na Comarca da Estremadura. Francisco da Cunha a fez. Registada pelo escrivão da Câmara, Gil Vaz, aos 13 de Novembro de 1536.

1 de Agosto de 1523: Carta original de El-rei D. João III, escrita em Tomar, para D. António, Regedor, a fim de este mandar tomar conhecimento da suspeição que os moradores do lugar de Sardoal puseram ao Juiz de Tomar, na causa que traziam com o concelho de Abrantes, sobre a divisão do território entre os dois concelhos.

5 de Novembro de 1528: Carta de confirmação de El-Rei D. João III, do alvará passado por El-Rei D. Manuel, em que declarou a pedido dos moradores do Sardoal, qual o sentido que devia aplicar-se a uma sentença do concelho de Abrantes, relativa aos tabeliães e pessoas que celebrassem actos públicos.

9 de Novembro de 1528: Carta original de El-Rei D. João III, confirmando as mercês que El-Rei D. João II e El-Rei D. Manuel fizeram ao concelho e moradores do lugar do Sardoal, concedendo-lhe jurisdição nos feitos cíveis e de almotaçaria. Nesta Carta vem copiada a carta original de D.João II de que se faz menção e bem assim a confirmação de El-Rei D. Manuel II.

9 de Novembro de 1528: Carta original de confirmação de mercê, dada aos moradores do Sardoal, confirmando a mercê feita por D. Manuel aos ditos moradores, concedendo-lhes jurisdição no crime. Nesta carta vem copiada a carta de El-Rei D. Manuel, a que se refere e é bastante curiosa.

10 de Agosto de 1532: Carta original de El-rei D. João III em que faz mercê ao lugar do Sardoal da demarcação do termo de vila, o qual vem pormenorizadamente descrito e demarcado.

9 de Abril de 1533: Carta de mercê feita por El-Rei D. João III à Câmara da vila do Sardoal, para que a aldeia de Alferrarede (actual S.Simão), continue a ter juiz com vara e jurisdição, como tinha quando era termo de Abrantes.

6 de Dezembro de 1534 : Alvará do Corregedor da Comarca de Abrantes, Mário Dias, dirigido aos juízes e vereadores da Câmara do Sardoal, para darem recebedor para cobrar as sisas, em conformidade com o regimento de sua Alteza, que ordena no décimo terceiro capítulo que sejam obrigados os juízes e vereadores e dar recebedores nas vilas e lugares onde não os houver.

9 de Outubro de 1535: Alvará do licenciado Mário Dias, Corregedor da Comarca de Abrantes, para o Juiz dos Órfãos do Sardoal, com muita brevidade, fazer cumprir o regimento de Sua Alteza, que adiante se segue, para boa fiscalização e arrecadação dos bens dos órfãos.

12 de Outubro de 1535: Alvará de El-Rei, para o licenciado Mário Dias: “Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. Com esta vos envio um regimento que mandei fazer sobre a arrecadação do dinheiro dos órfãos que tenho por bem que se arrecade e ponha em mão e poder de pessoas abonadas e se não dê mais ao ganho como por o dito regimento.”.Este documento acha-se aqui mutilado e depois continua providenciando sobre depositários e seguem os capítulos de um regimento assaz providente.

29 de Novembro de 1538: Provisão de El-Rei D. João III, para o Corregedor da Comarca de Abrantes em que ordena que durante o tempo de três anos toda a pessoa que matar lobo e o entregar inteiro receberá por cada um mil réis e por cada cabeça duzentos e cinquenta réis.

3 de Maio de 1541: Provisão de El-Rei D. João III, para o Corregedor de Abrantes e para os oficiais da Vila do Sardoal, proibindo que se façam escadas nas ruas do Sardoal, para se não danificarem as ruas direitas e as estreitas se poderem servir.

12 de Julho de 1541: Termo de fiança dado por Fernão Vaz para servir o ofício de Escrivão dos Órfãos, ao que obriga todos os seus bens, dando por fiador, Simão Vaz, escudeiro.

20 de Outubro de 1541: Termo de fiança dado por Pero Bugalho para poder servir o ofício de Juiz dos Órfãos. Obrigou todos os seus bens e deu por fiadores João Dias Ferreira e Álvaro Ferreira.

15 de Julho de 1542: Auto de nomeação em Câmara de três besteiros, para suprirem a falta de três falecidos. Servia de anadel da Companhia dos Besteiros do Sardoal, Fernão Gomes. Gozava da regalia de apresentar à Câmara os besteiros aptos para o serviço de El-Rei,mas não tinha o direito de os nomear. Segue-se a relação dos besteiros que serviam no ano de 1542.

22 de Outubro de 1544: Alvará de El-Rei D. João III para os juízes e vereadores do Sardoal, dizendo que sendo ele, El-Rei, sido informado de que no mês de Setembro passado haviam despregado a fechadura da Casa da Câmara e das arcas e cofres em que nela estava a eleição dos juízes e oficiais e furtaram elevaram a dita eleição. Mandou que, daí em diante, a eleição se guarde em um cofre de três fechaduras em casa do escrivão da Câmara, das quais fechaduras terão os dois vereadores mais velhos cada um sua chave e o escrivão a outra.

29 de Dezembro de 1545: Carta de El-Rei D. João III a D. António para se proceder a nova eleição da Câmara, por se ter furtado a que estava feita: “ D. António, eu El-Rei, vos envio muito saudar. Vi a carta que me escreveste sobre a eleição dos juízes e oficiais da vossa Vila do Sardoal que dizeis se furtou da Casa da Câmara, por ser necessário fazer outra eleição. Tenho por bem que se faça outra eleição.” Manuel da Costa a fez em Évora, a 29 de Dezembro de 1545.

11 de Abril de 1553: Provisão de El-Rei ordenando ao Corregedor de Tomar, para publicar nas vilas de Abrantes e do Sardoal, para que nenhuma pessoa, por tempo de três meses, leve ou mande levar às ditas vilas lenha de sobro, nem carvalho para queimar e tragam ou mandem trazer da terra das Mouriscas, onde a poderão arrancar de piorno, sob pena de prisão e de mil réis de multa.

23 de Fevereiro de 1554: Provisão de El-rei D.J oão III, ordenando que nenhuma pessoa possa cortar piorno nas terras das Mouriscas, com fouce ou outra ferramenta que não seja alferce ou outra ferramenta que arranque ou estronque o piorno.



OUTROS DOCUMENTOS DO MESMO PERÍODO EXISTENTES NO ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO:


De D. Afonso V: Carta de confirmação de privilégios - Livº 16, fls. 8 e Livº IV da Estremadura - fls. 161 v.; Carta de Mercê de bens a Afonso de Meira - Livº 28 - fls 84; Carta sobre a Festa do Espírito Santo - Livº 4 da Estremadura, fls.50

De D. João II: Carta aos seus moradores para estarem sujeitos à jurisdição de Abrantes - Livº 2 - fls. 54 e Livº 3º da Estremadura - fls. 226; Carta sobre a administração do Hospital - Livº 3º da Estremadura - fls. 201; Carta sobre a administração da Justiça - Livº 4 - fls. 44, Livº 2º da Estremadura - fls. 270 v e Livº 52 de D. João III - fls. 134.

De D. Manuel I: Alvará aos moradores do Sardoal sobre certa pena contra os tabeliães - Livº 52- fls. 134 v.; Carta sobre a Administração da Justiça - Livº 29, fls. 60, Livº 3º da Beira, fls 8 v., Livº 2º da Estremadura, fls. 270 v. E Livº 52 de D.João III - fls. 154.

De D. João III: Alvará de mercê de um olival a António Cordeiro - Livº 68 - fls.319 v.; Carta aos moradores sobre certa pena contra os tabeliães - Livº 52 - fls. 132v.; Carta de elevação do lugar de Sardoal à categoria de Vila, Livº 52, fls. 132; Carta de demarcação do termo, Livº 16, fls. 121; Doação da Vila, renda, jurisdição e padroado a D. António de Almeida, Livº 9 - fls. 91 e seguintes.

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