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Festas Religiosas do Concelho de Sardoal (II)

SEMANA SANTA

Semana que precede a Solenidade Pascal, começando em Domingo de Ramos e terminando em Sábado Santo. Primitivamente, comportava apenas as reuniões comuns a todas as semanas da Quaresma, isto é, as de domingo e as de quarta e sexta-feira. Com o decorrer do tempo, foram-se-lhe introduzindo elementos diversos e sobreposições que tornaram pouco inteligível a figuração simbólica do Mistério da Redenção que nela se comemora. Entre esses elementos importa distinguir:

  1. Os que provêm das primitivas assembleias cristãs, com as suas leituras e cânticos e a figuração dos diversos actos da tragédia que se desenrolou do Cenáculo* ao Sepulcro;

  2. A veneração local das recordações históricas conservadas em Jerusalém e transportadas mais tarde, simbolicamente, com as relíquias da Paixão;

  3. A expressão dos vários mistérios dentro do quadro litúrgico das horas canónicas, abrangendo todos os dias da semana.


O Domingo de Ramos comemora a recepção triunfal de Jesus em Jerusalém no primeiro dia da última semana da sua vida, e a preparação imediata para o baptismo que, outrora, era conferido no Domingo de Páscoa.

A procissão com os ramos de palma e oliveira começou a celebrar-se em Jerusalém no século IV e encontra-se descrita na Peregrinação de Etéria (cerca dos anos 385 - 393). Fazia-se a primeira bênção dos ramos num quadro litúrgico que comportava os principais elementos da Missa dos Catecúmenos. Seguia-se a distribuição e a procissão dos ramos e a missa, na qual se canta a Paixão de Jesus segundo S. Mateus. Na terça-feira é a Paixão segundo S. Marcos, na quarta segundo S. Lucas e na sexta segundo S. João. Foi em Roma que se estabeleceu este uso de ler separadamente as quatro narrativas. Na Gália e na Hispânia só se lia a Paixão na sexta-feira.

É nos últimos três dias que se concentram as principais cerimónias. A fim de facilitar a assistência dos fiéis, a Igreja antecipa para a véspera os ofícios de Matinas* e Laudes* que deviam fazer-se de noite; por isso se chamam Ofícios de Trevas. Estes ofícios têm um carácter de tristeza e são acompanhados de ritos simbólicos muito significativos. A antecipação do ofício de quinta-feira, levou a dar ao dia anterior a designação de Quarta-Feira de Trevas. Na Quinta-Feira Santa celebravam-se, outrora, três missas: a primeira era precedida da absolvição solene dos penitentes públicos e da sua reintegração na Igreja; a segunda era acompanhada da sagração dos Santos Óleos; a terceira comemorava a instituição da Eucaristia e celebrava-se à tarde. A missa actual é a missa romana da instituição eucarística, mas associando-se a essa recordação o pensamento da Paixão.

O Sacerdote consagrava duas hóstias, uma das quais de reserva para o dia seguinte. No fim da missa, esta hóstia era conduzida procissionalmente para um altar, armado de luzes onde ficava num cálix para a comunhão do Sacerdote na Sexta-Feira. Depois desta procissão realizava-se a cerimónia da desnudação dos altares, despojando-os de todas as toalhas. Ficava só a Cruz, com os castiçais. À tarde, celebrava-se a cerimónia do Lava-Pés, chamada desde o século XIV Mandato, pois durante ela cantava-se a antífona* Mandatum novum do vobis. Ao fim da tarde cantavam-se as Matinas e Laudes antecipadas da sexta-feira. A piedade dos fiéis levava-os às igrejas, em visita ao altar da Sagrada Reserva. Em várias terras do País, ainda se conserva o uso de fazer à noite a procissão do Ecce homo ou Senhor da Cana Verde. A Sexta-Feira Santa um dia de luto que comemora a Paixão e a Morte do Senhor. Na linguagem litúrgica tem o nome de Parascere (preparação) designação que lhe davam os Judeus por causa dos preparativos para a celebração de sábado. É um dia alitúrgico, isto é, em que não se celebra propriamente a missa.

As cerimónias de manhã começavam com leituras, cânticos e orações a que se seguia a Paixão segundo S.João. Vinham depois as chamadas orações solenes por todas as ordens da hierarquia e por todas as categorias de fiéis e infiéis. Seguia-se a Adoração solene da Cruz e o Canto dos Impropérios. Terminada a Adoração da Cruz, formava-se a procissão para ir buscar a Hóstia Consagrada, reservada na véspera. O rito em que o Sacerdote a comungava chamava-se a missa dos pressantificados. A piedade dos fiéis preenchia a tarde deste dia com várias cerimónias. Em quase todo o País celebra-se ainda a Procissão do Enterro do Senhor, conservada no rito bracarense. Lembra-se a dor de Nossa Senhora pelo desaparecimento do seu Filho, em especiais actos de devoção e nos Sermões da Soledade.

Em virtude de um decreto da S. Congregação dos Ritos (9-11-1951), as Matinas e Laudes não podem antecipar-se na recitação pública; não há, pois, Ofício de Trevas na sexta-feira. O Sábado Santo, na primitiva Igreja, era um dia privado de liturgia própria, sem Ofício, sem Missas, sem Horas Canónicas. Só ao cair da noite se abria a Vigília Solene da Páscoa. No decurso do tempo, esta Vigília foi-se antecipando até começar de manhã. A partir de 1953 foi estudada uma reforma completa das Cerimónias da Semana Santa, cujos efeitos só se vieram a sentir após o Concílio Vaticano II, sendo o itinerário litúrgico actual da Semana Santa,  o que a seguir se apresenta de forma resumida:

 

DOMINGO DE RAMOS:

a) - PROCISSÃO DOS RAMOS: - Precedida da bênção ritual tem lugar neste dia a Procissão dos Ramos, que sai da Capela do Espírito Santo para a Igreja Matriz (até há alguns anos saía da Igreja da Misericórdia), a lembrar a entrada festiva de Jesus em Jerusalém. Com ela pretende a Liturgia levar os Cristãos a reconhecer e a afirmar a messianidade e realeza de Jesus de Nazaré. Uma afirmação pública e solene pelo que o mais indicado é fazer a Procissão de uma igreja para aquela onde vai ser celebrada a Eucaristia.

B) - MISSA: Em contraste com o carácter jubiloso da Procissão, os textos da Missa, particularmente as Leituras que incluem o relato da Paixão estão já voltadas para a Paixão e Morte do Senhor.

 

SEGUNDA, TERÇA E QUARTA-FEIRA:

A mesma tonalidade dolorosa persiste nos textos da Missa e da Liturgia das Horas.

 

QUINTA - FEIRA SANTA:

a) - MISSA VESPERTINA - CEIA DO SENHOR: A Missa é sempre a presença actuante do Mistério Pascal, mas no espaço em que a Liturgia celebra a “ocorrência histórica” deste Mistério reveste-se de mais actualidade e de outro dinamismo. Transporta-nos mais directa e vivamente ao momento em que o Salvador a instituiu e celebrou em ligação e por antecipação com a sua Morte e Ressurreição.

Dentro dela e situando-nos no contexto que a envolveu, até se repete o gesto simbólico de Jesus, de lavar os pés aos Apóstolos - O Rito do Lava - Pés. Carregado embora de emoção, não pode sobrepor-se ao conteúdo da celebração da Eucaristia.

Determinando que os Apóstolos repetissem os seus gestos e palavras sobre o Pão e o Cálice - Fazei isto em memória de mim” - entende-se que Jesus instituiu o Sacerdócio Ministerial neste mesmo momento.

B) - PROCISSÃO EUCARÍSTICA: A celebração termina com a trasladação do Santíssimo Sacramento para lugar apropriado, onde vai ficar à adoração dos fiéis. Nos primeiros séculos apenas se guardava no secretarium, provavelmente na sacristia para o ofício dos pressantificados de Sexta-Feira Santa, porque neste dia não se celebrava ( e não se celebra) a Eucaristia. Apenas comungava o Clero, hoje também os fiéis.

 

SEXTA -FEIRA SANTA:

Dia alitúrgico. Assim designado primitivamente porque não se celebrava o acto central da Liturgia, a Missa. Entende a piedade cristã que assim tem que ser se Cristo está morto.

Há, todavia, uma acção sagrada dita sinaxe alitúrgica” pela razão exposta. Hoje diríamos uma celebração da palavra dentro de um esquema que comporta, para além dos habituais elementos ligados com o pensamento do dia, sumariamente, Leituras (uma delas o relato da Paixão), Oração Universal, Adoração da Cruz, Comunhão.

O pensamento dominante, a Redenção operada por Jesus Cristo (inseparável da sua morte) na qual os cristãos se integram, de modo privilegiado e vital pela Comunhão.

 

SÁBADO SANTO:

Melhor se diria: VIGÍLIA PASCAL. A Semana Maior” tem o seu ponto culminante no Mistério Pascal e a celebração deste atinge o seu auge na preclara, insigne Vigília Pascal, a primeira, a maior de todas as vigílias. Nesta Vigília Sacrossanta não se trata de recordar ou comemorar o maior acontecimento da história da salvação humana e mesmo da história humana, mas de actualizar a sua misteriosa eficiência e assim é, na medida em que a Igreja o vive, o faz seu, na medida em que morre e ressuscita com Cristo. Nem pode ser de outra forma, na linguagem paulina, Cristo é a cabeça, a Igreja o corpo. O que se passou com a cabeça passa-se necessariamente com o corpo, se é que há identificação deste com a Igreja.

Daí a importância da Vigília Pascal do ponto de vista histórico, litúrgico e teológico. Para aquilatar do sentido cristão duma comunidade nem precisamos de mais: basta observar como por ela é celebrada, vivida e participada a Vigília Pascal.

 

RITOS PRINCIPAIS:

A Vigília Pascal que tem como móbil e escopo* o Mistério Pascal (Morte e Redenção de Cristo) assenta esquematicamente nos dois Sacramentos primordiais: O Baptismo que insere o homem na Igreja, portanto no Mistério da Salvação, no Mistério Pascal e a Eucaristia que põe ao nosso alcance, através da celebração o Mistério da Morte e Ressurreição do Senhor.

Estes Sacramentos são envolvidos num conjunto de ritos destinados a preparar e a inserir os cristãos no grande acontecimento salvífico.

 

1ª Parte

a) - Rito da Luz

b) - Liturgia da Palavra

c) - Rito da Água com a Profissão de Fé (incluindo como desejável algum

      Baptismo)

 

2ª Parte

Eucaristia

A Eucaristia de hoje tem o Aleluia, o Júbilo, como pano, como música de fundo para empregar a imagem corrente. O triunfo de Cristo Ressuscitado que o Cristão proclama vibrantemente e faz seu.

 

QUINTA - FEIRA SANTA NO SARDOAL

UM MOMENTO ESPECIAL

 

Notícias publicadas na Imprensa Regional, por volta de 1890, referem o retomar da grande tradição das Cerimónias Religiosas da Semana Santa na Vila de Sardoal, com particular destaque para as Capelas enfeitadas com flores e verdura, quando sob a orientação do Cónego Anacleto da Fonseca Morais, atingiram grande brilhantismo, igualmente referido nas citadas notícias, de onde se pode inferir que as referidas Cerimónias tem uma existência, no mínimo, secular.

 

Quando, na tarde de Quinta-Feira Santa se abrem as portas das Igrejas e Capelas da Vila de Sardoal e se podem apreciar os artísticos arranjos de flores e verdura que atapetam o seu chão, quais quadros temporários dos discípulos do Mestre de Sardoal (cujo principal núcleo de pinturas se encontra na Capela do Sagrado Coração de Jesus, da Igreja Matriz de Sardoal), que souberam guardar e transmitir os seus segredos de geração em geração, ao longo dos séculos, tem-se a sensação de que a Primavera, por estes lados, foi antecipada, quem sabe se a pedido expresso da VILA - JARDIM, que assim quer manter viva a tradição de enfeitar as suas Igrejas e Capelas, na Semana Santa.

Trata-se de uma exposição de rara beleza (distribuída pela Igreja da Misericórdia e pelas Capelas do Espírito Santo, da Senhora do Carmo, de Santa Catarina, de Sant’Ana e do Senhor dos Remédios), mesmo quando a aparente ingenuidade dos motivos ornamentais é compensada pela harmonia das cores e disposição das luzes, que só pode ser apreciada nesta altura e nesta terra, fruto da inspiração, anualmente renovada, dos artistas anónimos que tecem com pétalas e folhas, muitas vezes separadas uma a uma, estas tapeçarias perfumadas, que julgamos originais do Sardoal, sinais de uma cultura popular sedimentada ao longo dos séculos, sempre renovada nos motivos e nas formas, mas sempre constante na sua religiosidade e no amor à sua Terra.

É na Igreja Matriz que se iniciam as Cerimónias Religiosas de Quinta-Feira Santa, que tem, como já se referiu, um lugar especial na Liturgia Católica, porque celebra a ocorrência deste Mistério da Fé e porque transporta os fiéis ao momento em que o Salvador a instituiu e celebrou em ligação e antecipação com a sua Morte e Ressurreição. Por isso se repete o gesto simbólico de Jesus Cristo, de lavar os pés aos Apóstolos - o Lava-Pés - em que tem especial participação a Irmandade do Santíssimo, com as suas opas* vermelhas.

À noite sai da Igreja da Misericórdia a Procissão do Senhor da Misericórdia ou Procissão dos Fogaréus”, com o Sermão do Mandato na Igreja de Santa Maria da Caridade, a cargo da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, cujos Irmãos, envergando opas negras, nela se integram, seguindo uma ordem que de acordo com uma notícia publicada no “JORNAL DE ABRANTES”, de 7 de Abril de 1935, deve ser a seguinte:

Abre a Procissão um Irmão com o Senhor da Misericórdia.

1º - Seguirá o Secretário da Mesa com vara preta;

2º - O Tesoureiro com a bandeira e dois Irmãos, de cada lado com lanternas;

3º - Um Mesário com uma vara;

4º - O primeiro painel com duas lanternas;

5º - Um Mesário com uma vara;

6º - O segundo painel com duas lanternas;

7º - O terceiro painel com duas lanternas;

8º - O quarto painel com duas lanternas;

9º - A Irmandade da Misericórdia com tochas acesas;

10º -O Padre com o Senhor, indo dos lados quatro Irmãos com lanternas;

11º - O Provedor com a sua vara, ladeado por outros elementos oficiais:

Entre a Irmandade e o Senhor irá o Corpo Eclesiástico.

A Vila prepara-se, especialmente para esta Procissão, iluminando com pequenas lanternas as janelas, varandas e sacadas do seu percurso, criando efeitos estéticos de rara beleza. A partir de 1997 foi realizada uma experiência apagando a iluminação pública em parte do trajecto da Procissão, que foi repetida em 1998, mais alargada, que permite aos participantes, situarem-se no tempo em que não existia iluminação pública na Vila de Sardoal.

A centenária Filarmónica União Sardoalense, acompanha a Procissão, sendo utilizados archotes para iluminar as partituras, facto que poderá justificar a designação de Procissão dos Fogaréus”.

 

 

SEXTA - FEIRA SANTA

 

A Sexta-Feira Santa é um dia alitúrgico, assim designado porque não se celebra a Missa. Entende a piedade cristã que assim tem que ser, se Cristo está morto. Há, todavia, uma acção sagrada dita sinaxe alitúrgica”, pelas razões já expostas. Hoje, diríamos, uma celebração da palavra dentro de um esquema que comporta, para além dos habituais elementos ligados ao pensamento do dia, sumariamente: Leituras (uma delas, o relato da Paixão do Senhor); Oração Universal; Adoração da Cruz e Comunhão.

No Sardoal, mantêm-se abertas as Capelas enfeitadas e à noite, mais cedo que no dia anterior, sai a Procissão do Enterro do Senhor, em que participam, tanto a Irmandade da Vera Cruz ou dos Santos Passos, como a Irmandade do Santíssimo Sacramento, com um percurso pelas Ruas Velhas, até à Igreja de Santa Maria da Caridade e regresso à Matriz, onde, de seguida, se realizam as Cerimónias do Enterro do Senhor.

 

DOMINGO DE PÁSCOA

 

Na Procissão da Páscoa da Ressurreição, pretende-se retratar a alegria pelo triunfo de Cristo Ressuscitado que os Cristãos proclamam, vibrantemente, como sua.

A Matriz de Sardoal parece ter mais luz e está decorada com muitas flores. Os paramentos dos Sacerdotes são de cores mais alegres e para a Procissão da Ressurreição, que sai da Matriz, com um percurso mais curto que o das Procissões dos dias anteriores, na zona central da Vila de Sardoal. As ruas são atapetadas com flores e verduras e nas janelas de muitas casas são colocadas as colchas mais ricas e bonitas, criando um ambiente solene, mas de Festa e Alegria.

 

Visitar o Sardoal nestes dias é aproveitar uma oportunidade única, que só acontece nesta altura.

A Semana Santa é no Sardoal, de facto, um momento especial!

 

CONFRARIAS OU IRMANDADES:


Pela sua participação nas Festividades Religiosas e pela sua tradição secular, as CONFRARIAS OU IRMANDADES, justificam uma referência histórica especial neste trabalho:

 

São associações de fiéis, constituídas organicamente, para o incremento do culto público. As Irmandades ou Confrarias regulam-se pelo Código de Direito Canónico (Cân. 707-719), além do que dispõem os seus estatutos particulares. Não podem existir sem decreto formal de erecção, e não devem erigir-se senão em igrejas ou capelas públicas ou ao menos semi-públicas, e costumam ter altar determinado.

São especialmente instituídas para os que desejam as vantagens de acção prática que oferecem as organizações religiosas, mas que não sentem vocação para entrar nas verdadeiras ordens religiosas. Em alguns casos aparecem como filiadas a estas últimas, como as Ordens Terceiras de S. Domingos e de S .Francisco.

Os abusos a que as Confrarias deram ensejo, celebrando sob pretextos piedosos, banquetes e espectáculos que terminavam às vezes em tumultos e homicídios, e a rivalidade entre umas e outras foram a causa de Francisco I, de França, as ter proibido, assim como outros soberanos, e que a Igreja as regulamentasse.

Canonicamente regeram-se pela Constituição de Clemente VIII (1604) e pela de Paulo V (1610). Requerem-se para a sua fundação, o consenso do ordinário, que examina os seus estatutos e a quem compete dar ou negar a sua aprovação. Podem fundar-se em todas as Igrejas, embora a Congregação do Concílio Tridentino (1595) proibisse as de varões nos Conventos das religiosas. Clemente XIII proibiu duas confrarias do mesmo santo numa só povoação, exceptuando as sacramentais e as de doutrina cristã, que devem funcionar em todas as paróquias.

Na Idade Média grande número de confrarias se instituíram sem reconhecimento da Igreja, como os Irmãos Apostólicos e os Flagelantes, os quais, por algum tempo tolerados pela Igreja, incorreram depois na sua censura e perseguição. Foram também espécies de confrarias religiosas, as corporações de que provieram os franco-mações. Primeiro acusados de tender para o agnosticismo, vieram depois a sê-lo de ateísmo. Quase todas as organizações profissionais da Idade Média tiveram, de acordo com o espírito do tempo, carácter religioso, e esse aspecto da sua actividade era no espírito dos fundadores de tanta importância como a sua finalidade secular. Em muitos casos, os oficiais formavam uma corporação, organizavam-se, independentemente desta, numa confraria religiosa, para em comum praticarem os actos de devoção. Cada confraria tinha como a corporação respectiva, um santo padroeiro. Outras confrarias que se estabeleceram com sanção da Igreja, dedicaram-se à acção religiosa e, sob a sua influência directa, à realização de muitas obras práticas de caridade, como a assistência aos estrangeiros, viajantes, desprotegidos, doentes, etc.

Merecem ser citadas por todos os motivos as instituições portuguesas das Casas de Misericórdia. Os estatutos e práticas das Confrarias não são obrigatórios para os confrades, não constituindo pecado a sua não observância. Está proibido o vínculo do juramento e não se podem obrigar as Confrarias a acudirem aos actos de culto, tais como procissões, preces, etc. Entre as Confrarias merecem especial menção as já citadas sacramentais, que têm por fim fomentar o culto do Santíssimo. Devem funcionar em todas as paróquias, especialmente para o Viático aos doentes, Procissões de Corpus Christi e outros actos solenes.

Em 1758, a Igreja de S. Tiago e S. Mateus do Sardoal tinha quatro Irmandades. A primeira era a de S. Pedro, chamada dos Clérigos Pobres, que são os que faziam a dita Irmandade. A segunda era a do Santíssimo Sacramento. A terceira a da Vera Cruz ou dos Santos Passos. A quarta a da Senhora do Rosário.

 

IMAGEM - Significado Litúrgico

 

Na antiga lei, era proibido aos judeus fazerem qualquer imagem, figura ou estátua e prestar-lhes culto (Ex. XX,4). Essa proibição foi rigorosamente observada, apesar das tentativas em contrário (4º Reis, XVIII, 4). Nos primeiros tempos, os cristãos evitaram também o uso de imagens e pinturas. Ainda no princípio do século IV, o Concílio de Elvira determinou não admitir pinturas nas paredes das igrejas (Cân. 36). Todavia, já então estavam em uso as pinturas nas catacumbas e não tardaria que se multiplicassem as imagens de todas as espécies, com o desenvolvimento do culto público. Seriam no começo simples adornos, mas em breve receberam piedosa veneração, consagrada pela liturgia. No século VIII, como os Judeus e os Muçulmanos se escandalizassem com o culto das imagens, alguns bispos orientais, lembraram ao imperador a conveniência de o suprimir. Em 726, Leão III, o Isáurio, publicou um édito a proibir esse culto e ordenou a destruição das imagens em todos os edifícios sagrados ou profanos. Foi o iconoclasmo. Continuaram esse programa os imperadores Constantino Coprónimo e Leão V, o Arménio. Só durante a regência de Teodoro, uma assembleia reunida em Constantinopla resolveu restabelecer o culto proibido. Para comemorar este facto, instituiu-se com o nome de “festa da ortodoxiauma procissão anual que se celebrou pela primeira vez a 19-II-842 e nunca mais se interrompeu. Contra os iconoclastas, o culto das imagens teve ardorosos defensores, como S. João Damasceno e S.Teodoro Estudita. Por seu lado, os concílios foram precisando o pensamento da Igreja, especialmente o 2º de Niceia, reunido em 787. O culto das imagens é somente relativo, porque elas não passam de representações do seu protótipo; e concede-se-lhes apenas uma veneração distinta da adoração reservada a Deus. Insistiu nesta doutrina, contra os protestantes, o Concílio de Trento (Sess. XXV): “A honra que se presta às imagens, refere-se aos originais que elas representam, de modo a que, beijando-as, descobrindo-nos e prostrando-nos diante delas, adoramos Jesus Cristo e honramos Jesus Cristo e honramos os Santos de que elas são figuras.”

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