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Acordar tarde ou sair cedo?

Publicado a 25/11/2009, 15:49 por Luís Gonçalves   [ atualizado a 26/11/2009, 02:45 ]

Há muitos anos o saudoso Dr. Manuel José Baptista contou-me uma história que, por sua vez, lhe tinha sido contada quando era adolescente, por alguém que ele identificou na altura, mas cujo nome esqueci, sendo que esse esquecimento não tem qualquer relevância. Recordo-me de, na altura, o Dr. Baptista me ter dito que a história não tinha qualquer fundamento histórico, pertencendo ao domínio da ficção, podendo até considerar-se uma lenda.

Seja como for e porque a referida história me parece interessante e pode ter alguma actualidade, vou contá-la, com a devida vénia, tal como me recordo de a ter ouvido contar.

 

“Lenda da demarcação do termo»

 

Quando, em 22 de Setembro de 1531, D. João III, elevou à categoria de Vila, o antigo lugar de Sardoal, mandou que fosse demarcado um novo termo (limites) mais consentâneo com a nova categoria que passava a ter, o que motivou veementes protestos, por parte da Vila de Abrantes que nas suas reclamações referia o facto de Sua Majestade lhes ir tirar o melhor que Abrantes tinha.

Mas esses processos não foram tidos em atenção e el-rei nomeou o Dr. Dinis Roiz, como seu enviado especial para coordenar o processo de demarcação do novo termo para o concelho de Sardoal, que imporia a vontade régia aos Homens Bons das duas Vilas.

Até aqui tudo o que referi faz parte da verdade histórica, está documentado e pode ser comprovado, mas a partir daqui entra-se no reinado da ficção ou da lenda.

Consta que o Dr. Dinis Roiz, não conseguindo obter o acordo das duas partes sobre o local onde seria colocado o primeiro marco, determinou um procedimento aceite pelas duas partes em demanda, que foi o seguinte:

Num determinado dia, ao romper do dia, os representantes dos homens bons de cada concelho, reunir-se-iam à porta das respectivas Casa da Câmara e aí aguardariam que no Castelo de Abrantes fosse disparado um tiro de bombarda, que seria o sinal para que as comitivas partissem ao encontro uma da outra, seguindo a pé, pela Estrada da Beira, no troço que liga as duas Vilas e onde se encontrassem seria colocado o primeiro marco, a partir do qual seria feita a demarcação do novo termo, de acordo com o que se encontrava regimentado.

As comitivas encontraram-se no local ainda hoje denominado Marco, a poucos metros do limite sul da Zona Industrial de Sardoal, a menos de três quilómetros das Casas da Câmara do Sardoal e a cerca de nove quilómetros das Casas da Câmara de Abrantes.

 

Ainda hoje não se sabe o que de facto aconteceu nesse dia longínquo, nem creio que alguma vez se venha a saber. Para mim três coisas podem ter acontecido:

  1. A comitiva de Abrantes saiu antes do disparo da bombarda?
  2. Os do Sardoal deixaram-se dormir?
  3. A comitiva do Sardoal parou no caminho, primeiro para o mata–bico e depois para tomar o pequeno-almoço (desjejum)?

 

Não sei como esclarecer estas dúvidas, mas já tirei as minhas ilações que, por respeito aos Sardoalenses, em que me incluo, não divulgo.

 

Peço aos meus leitores que não vejam nesta lenda qualquer tentativa de ressuscitar os fantasmas de uma rivalidade histórica que, ao longo dos séculos, de forma mais ou menos evidente, sempre existiu entre os dois municípios vizinhos mas que, nos tempos que correm, não tem qualquer justificação.

É, cada vez mais, necessário que os autarcas dos dois concelhos ponham de lado eventuais complexos de superioridade ou inferioridade e procurem soluções comuns para muitos dos problemas sociais e económicos que afectam a nossa região. A dimensão geográfica e económica dos dois municípios não é comparável, mas isso não impede que se possa estabelecer entre eles um relacionamento com benefícios mútuos, em áreas como a educação, a saúde, o emprego, os transportes, etc.

Pela relevância deste tema, prometo que voltarei a abordá-lo, numa próxima oportunidade.


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