3. O Jantar

Comparativamente com o texto anterior, vale a pena transcrever parte de uma notícia publicada no “JORNAL DE ABRANTES”, de 26 de Fevereiro de 1908, respeitante ao jantar da festa da sagração de D. António Alves Ferreira, natural de Valhascos, como Bispo de  Martinopolis (Viseu), que ocorreu no dia 26 de Janeiro de 1908:

O JANTAR

O jantar começou às 9,5 horas da noite e terminou cerca das 3 horas da madrugada, correndo sempre no meio de um indescritível entusiasmo.

O salão onde foi servido achava-se ricamente ornamentado com vistosas colchas de seda e damasco, verdura e grande profusão de flores e lindamente iluminado com 7 lustres de cristal, a velas, sendo um ao centro e os demais dispostos sobre a mesa.

À entrada dos convidados no salão, a velha Filarmónica Sardoalense executava num vistoso coreto que se erguia em frente ao salão do palácio dos antigos fidalgos Moura e Mendonça, o Hino da Carta, tocando também várias peças de música, até à meia-noite, hora a que foi dispensada.

A mesa percorria toda a volta do salão e comportava 61 convidados.

À cabeceira estava o novo Bispo, D. António Alves Ferreira e ao seu lado direito  os Senhores Ministro da Justiça, D. Francisco José, Bispo de Lamego, Dr. Serras e Silva e a família do novo Bispo e ao lado esquerdo D. António Barroso e D. Mateus Xavier.

Numa sala contígua achava-se outra mesa, igualmente bem disposta para 20 pessoas.

O jantar foi variadíssimo, sendo o menú o seguinte:   

Consomé à la tête de veau; petits patês à la Reine; Poisson à l’homlandaise; sauce de huitres aus câpres; Génisse à la Financiére; Perdaux aux champignons; gelatine de pouples tuffées, à l’aspic; saumon à l’Itallienne; Dindon tuffées au cresson; Asperges sauce à l’Anglaise; Gelée de fruits; Charlottes Rouusse; Pudings à la Brésillienne; Oeufs à la Portugaise; Pudings à la Diplomate; Vin du Porto; Madeira, Colares, etc.”

Discursaram no fim do jantar D. António Alves Ferreira, Bispo de Viseu(novo), D. António Barroso, Bispo do Porto, D. Francisco José, Bispo de Lamego, Dr. Teixeira de Abreu, Dr. Serras e Silva, Cónego Mora, Dr. Manuel Pinto Montenegro, Padre António Basso, Padre Francisco Correia Ventura, Germano Silva, jornalista, José Alexandre, Júlio Bivar Salgado, Dr. Avelino Figueiredo, Dr. Anacleto da Fonseca Matos Silva, Dr. Miguel Ferreira de Almeida, Dr. José Frutuoso da Costa e António Dias Conde. Salientaram-se nos seus discursos os Bispos, Ministro da Justiça e Dr. Serras e Silva.

 Ao terminar D. António Alves Ferreira, agradeceu a todos por o terem acompanhado neste dia tão solene e as provas de consideração e estima que lhe acabam de tributar.

Não surpreende que com aquele menú e com tantos discursos o jantar tenha durado seis horas...              


Como já referi, este trabalho não pretende ser um tratado de gastronomia, mas apenas um repositório de algumas memórias e tradições.

Muitas vezes os grandes prazeres da culinária são feitos de pequenas coisas e resultado de circunstâncias especiais.

Lembro-me sempre do provérbio chinês que refere: “A fome é o melhor molho do mundo... Por isso, os pobres comem sempre com vontade!”  e também uma expressão do meu saudoso Amigo Sr. José Alves dos Reis, que costumava dizer que um petisco só é verdadeiramente bom quando se come tudo e se pode afirmar: “Estava bom! Ainda comia mais um bocadito... Mas acabou-se!...”

Para mim, um lauto banquete não é aquele em que sobra muita comida, mesmo que os comensais comam que nem alarves!...

Por isso me lembro com saudade de muitas iguarias da minha infância e juventude. Sem nunca ter sofrido o flagelo da fome, também não vivi, nesses tempos um mundo de abundância e variedade alimentar. As ementas rurais desse tempo assentavam no que a família tinha capacidade para produzir. Os produtos hortícolas, a matança do porco, as sardinhas, o bacalhau, o pão de milho, eram a base da alimentação. Mesmo assim não posso esquecer as sardinhas fritas albardadas, os “figos secos(passas) fritos albardados” (e para quem não saiba “albardar” significa  envolver a fritura com massa de ovos e farinha), as “petingas assadas no forno”,as batatas, também assadas no forno, espetadas num arame zincado, tipo colar, depois de bem lavadas e esfregadas com sal, os “peixinhos da horta”-feijão verde, previamente cozido em água e sal ou na boca da panela, atado num molho e depois frito albardado em massa de farinha e ovos. O molho de tomate, delicioso refogado de tomate, cebola, alho, com rodelas de chouriço e pedaços de presunto, com ovos mexidos. Os ovos estrelados, que quando era miúdo eram temperados com açúcar. As “coalhadas”  de Maio, feitas de massa para o queijo com açúcar. Os pastéis feitos com o resto da massa das farinheiras. E nas matanças do porco, o grão com arroz, a cebolada de fígado, o osso do peito guisado com batatas, os “carriços”  e quando se enchiam os chouriços, os pequenos pedaços de carne temperada, assados na brasa...

E tantos outros petiscos saborosos que seria exaustivo enumerar, mas que ainda me fazem crescer água na boca, só de os recordar!...

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