Pró-Sardoal!
Aos
seus Munícipes
e aos
povos
circunvizinhos
que desejam
pertencer a
este Concelho!
Foi
em 1532
que o
Concelho de
Sardoal foi
desmembrado do
concelho de
Abrantes, mas
já muito
antes dessa
data o
Sardoal, como
aldeia, tinha
as suas
justiças com
jurisdição apartada ─
juiz, procurador,
alcaide ─ e
se lhe
dava o
nome de
concelho. Pelos
documentos existentes
na Câmara
Municipal se
verifica que
de longa
data existiram
desinteligências entre
Abrantes e Sardoal
notando-se que
muitas vezes
este levou
a melhor.
No referido
ano de
1532 foi
demarcado o concelho de
Sardoal na
parte que
hoje é
freguesia do
Souto pelo
Codes abaixo
até ao
Zêzere. Seguindo
Zêzere até
á Cabeça Ruiva, e dai
em direcção
a Carvalhal, ─ cujo
traçado se vê
no croquis
apresentado ─ tendo vivido
com esta
área até
1836, data
em que uma
reforma administrativa
o aumentava
com a
freguesia do
Souto e
Mouriscas, sendo
logo após
reduzido por outra
reforma á actual área,
em virtude
de pressões politicas
feitas por
Abrantes. Por esta breve resenha histórica verifica-se que só
ao Parlamentarismo conveio desfazer a anterior delimitação do
concelho em virtude de os parlamentares, por este círculo, terem de
“atender mais aos interesses de Abrantes”, nunca permitindo
“delimitações” que reduzissem a sua área enormemente longa…
Vastíssima!
Com efeito, quando aos
deputados, “por-aqui”, era demonstrada a “flagrante injustiça"
infligida ao Concelho do Sardoal, todos eles sistematicamente
retorquiam (não obstante a inteira razão deste povo, por eles
próprios reconhecida, e “quantas vezes confessada!”) que os seus
interesses parlamentaristas se oponham à que a “nossa questão”,
embora justa, fosse levantada contra Abrantes que lhes assegurava os
“triunfos-polticos…” com uma soma de votos consideravelmente
superior á do Sardoal!
Ora, é desta injustiça,
filha dilecta (como tantas outras) do nosso defeituoso
parlamentarismo, que o Povo se queixa...
É por causa dessa
iniquidade que os povos, nomeadamente das Sentieiras ─
freguesia do Souto, das Lercas e Entre-Serras ─ freguesia de
Mouriscas, exteriorizam o seu constante descontentamento, alias
bem digno da ponderação dos poderes públicos. Esses povos,
considerando-se emancipados e livres, e somente impelidos pelo
natural motivo da sua revolta, porque também não toleram a coacção
anacrónica do “antigo-caciquismo”, apenas clamam justiça!
Nada mais.
Por isso, eles,
defendendo os seus legítimos interesses, desejam, ansiosamente, que
o Antigo Concelho, a que pertenceram, seja aumentado com as suas
aldeias e lugares, visto que, como se verifica na elucidativa
demonstração topográfica, inclusa, a distancia a que se encontram
é, incomparavelmente, mais próxima do Sardoal!
Há, por exemplo, povos
que, para atingirem a sede do seu Concelho, em Abrantes, onde são
forçadas a comparecer, calcorreando extensões de 4 e 5 léguas,
exclusivamente para pagamento de Contribuições, e outras
formalidades burocráticas, têm de atravessar todo o Concelho do
Sardoal, quando é certo ser precisamente, nesta localidade,
que lhes fica ao “pé da porta, e á mão de semear”, que esses
povos agitam e fomentam todas as relações da sua vida Comercial
e social!
Sob o ponto de vista de
administração Municipal, não teme o Sardoal confronto com a sua
ilustre e antiga rival Abrantes, porque ao acabar o ad valorem
não se aproveitou do disposto no n.º 2 da Lei n.º 999 que lhe
permitia cobrar mais receitas, pois ainda hoje mantém as taxas sobre
as contribuições de 30% á urbana, 50% á rústica e 30% á
industrial. Abrantes elevou as suas percentagens ao máximo e
aproveitou-se do disposto no n.º 2 da Lei 999 agravando de tal modo
as contribuições, que o comércio viu-se obrigado a reclamar, junto
do Governo, pelo seu manifesto exagero. Em compensação de tais
agravamentos, que melhoramentos tem feito nas povoações
pertencentes á freguesia do Souto e nas aldeias de Sentieiras,
Lercas e Entre-Serras?
Quase um abandono
completo, conforme declarações insuspeitas que temos ouvido, e
sabemos serem verdadeiras. E tanto assim, que a Imprensa numa recente
correspondência do Souto, afirmava que os caminhos agora ali
reparados, o não tinham sido desde o tempo dos romanos! ─
(sic) ─ E, numa outra informação, habitantes da referida
freguesia reclamavam em virtude da câmara mandar proceder a
reparações de caminhos, que razão alguma justificava, antes
doutros de muito mais reconhecida importância! Abrantes, não tem,
pois, direito em querer a actual delimitação do Concelho!
Esta afirmação não é
somente nossa:
Algumas individualidades
de maior destaque no seu próprio “elemento-oficial” não
defendem o “propósito-abrantino”; pelo contrario, em conversas
particulares, teem declarado que tal obstinação (não obstante “as
maiores competências e boas vontades” dos seus vereadores)
resultará sempre má administração municipal!
Evidentemente, a qualquer
vereação, num Concelho de 31 mil e tal habitantes, abrangendo
uma área de 697,10 km2, não será fácil deslocar-se,
sem prejuízos de bem sensíveis do erário municipal, para
fiscalizar, e certificar-se da razão de ser das obras em
realização, ou a realizar, em locais demasiadamente afastados da
sede do Concelho. ─ “In medio consistit virtus!”
Por muito que pretendamos
iludir-nos, a nós próprios e á lógica, é impossível.
O absurdo ressalta-nos
sempre flagrante, bem nítido ─ evidente.
Ao passo que Abrantes se
compraz dilatando, improficuamente, a vista pela excessiva vastidão
da sua área, o Sardoal asfixia entre “fronteiras tacanhas”,
embora, financeiramente, respire melhor que Abrantes…
Simplesmente o nosso
protesto, ao focar tão esdrúxulo paradoxo, serve para justificar os
manifestos prejuízos dos povos que outrora, neste concelho,
desfrutaram maiores comodidades e mais salutares interesses.
E é o regresso a esse
bem-estar social que os referidos povos ambicionam. Tanto mais que o
Concelho de Sardoal, voltando á posse da área que
pretende lhe seja reanexada, reduziria, em face da tua nova soma de
receitas, a percentagem de 50 % das suas despesas obrigatórias com o
seu funcionalismo para 25%.
Assim, e sem ter de
aumentar o quadro dos seus empregados, reduzido ao mínimo pela lei
orçamental, poderia, sem dúvida, administrar mais eficientemente
que Abrantes - , Mais, ainda:
Dispensaria, sempre que
fosse necessário, em benefício dos respectivos povos
reintegrados neste Concelho, toda a receita, a cobrar,
proveniente dessa pretendida anexação!
E, note-se bem: ─
Nesse caso, o Município nenhum obstáculo encontrará na sua marcha
administrativa, podendo dirigir e fiscalizar, “devidamente”,
todos os serviços públicos a realizar, em virtude de ficar sendo
ainda pequeníssima a extensão do seu Concelho, comparada àquela
com que Abrantes ficaria!!!
Assim, por tudo quanto
fica exposto, se compreende que os povos das aldeias acima referida,
com pelo conhecimento de que pelos respectivos Ministros fora
distribuído o projecto do novo Código Administrativo e
considerando ocasião oportuna para as suas reivindicações,
manifestassem, mais insistentemente, através dalguns dos seus
conterrâneos, os seus desejos de pertencerem ao Sardoal,
desmembrando-se, de vez, da tutela concelhia abrantina, no que
justamente foram atendidos e elucidados pelos sardoalenses, a quem se
dirigiram, e pelos quais lhes foi indicada a forma de expressarem a
sua pretensão perante o Governo do Pais.
Ora, a esta natural
atitude, muito legítima e digna dalguns sardoalenses, que traduzem a
vontade geral pela restauração do seu antigo concelho, ao qual
desejam ver restituída a área que lhe fora extorquida por Abrantes,
foi respondido, injustamente, e de forma grosseira, num jornal
desta região, por sinal, dando mostras de péssimo dignificador da
nobre e civilizadora missão da Imprensa!
Também entre os dois
Concelhos foram trocados “documentos oficiais”. Ao de Abrantes…
respondeu a Câmara do Sardoal, oportuna e devidamente…
Correspondência trocada.
Oficio n.º 978 da Câmara
de Abrantes de 27 de Maio de 1930:
«A Comissão
Administrativa do Município de Abrantes tendo conhecimento de que
alguns indivíduos desse concelho, nomeadamente alguns representantes
da Câmara, têm percorrido diversos lugares da freguesia do Souto e
o de Sentieiras incitando os respectivos habitantes a pedirem a
anexação dessas povoações ao concelho de Sardoal, vem lavrar o
seu protesto pela deslealdade dessa congénere lamentando que o
argumento apresentado aos munícipes seja o de que, no concelho de
Sardoal se não cumpre a lei. Este facto, que é grave, caracteriza a
má fé e a incorrecção dos indivíduos nele empenhados. Esta
Comissão Administrativa, que seria incapaz fosse a que pretexto for
(sic) de se meter em aventuras de tal natureza, regista com
pesar o vosso procedimento.»
Oficio n.º 209 de 30 de
Maio de 1930 da Câmara de Sardoal respondendo ao que antecede:
«Ex.mo Senhor
Presidente da Comissão Administrativa do Município de Abrantes.
As conclusões
injustas expressas em termos impróprios no vosso oficio n.º 978,
levam-nos a devolver o referido oficio, lamentado a vossa manifesta
falta de ponderação.»
Resposta da Câmara de
Abrantes:
«Ex.mo Snr.
Presidente da Comissão Administrativa do Município de Sardoal.
«Pelos mesmos motivos
mas sem razão da parte de V. Ex.as devolvo o vosso ofício
n.º 209 de ontem.»
Este oficio foi devolvido
sem mais considerações num envelope aberto.
Bem diversa foi a atitude
de Abrantes (através dum seu elemento de mais representação
oficial) mandando aos Valhascos, por um emissário natural desta
aldeia (entre portugueses traidores houve algumas vezes)
prometer 30 contos para obras ali a realistar, se a maiores dos seus
habitantes assinasse no sentido de pertencer ao concelho de Abrantes.
Da nossa atitude, podemos garantir, com a certeza que nos é dada
pela razão que vos assiste ─ a vós, povos, que durante
séculos a estes concelho pertencestes ─ que justiça será
feita, logo que aos ilustres homens públicos que nos administram,
seja passível o tempo para serem atendidas as vossas tão dignas
quão justas reclamações. E então, (a não que, por infelicidade
de todos, a velha politica torne a assentar arraiais) jamais Abrantes
poderá tornar a administrar-vos ou a julgar-se com esse direito.
O Sardoal
não teme Abrantes, pois a seu lado tem o Direito que o há-de
conduzir á vitoria!
Uma comissão de
Sardoalenses.