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Intervalo Para Balanço

Publicado a 04/08/2010, 07:26 por Luís Manuel Gonçalves   [ atualizado a 09/08/2010, 06:40 ]
Aprendendo com Ruy Barbosa

A leitura deste pensamento de Ruy Barbosa de Oliveira (1849-1923), eminente jurista, político e escritor brasileiro, colocado, há poucos dias pelo Pacheco Pereira no seu blogue Abrupto, suscitou-me uma reflexão sobre os tempos actuais e pode conter a chave para encontrar uma explicação para a desmotivação, uma epidemia que afecta muitos membros da nossa comunidade, traduzida na falta de vontade, de garra, de iniciativa e de objectivos, que conduz à moleza do comodismo. É uma praga contagiante que só encontra paralelo na inveja, outra praga que leva tudo à frente. É uma pala que muitos mantêm, virada para o umbigo dos outros e que mina a alma.

Devo confessar que, também eu, apesar de não me sentir desmotivado, me sinto tentado a viver no comodismo da inacção, deixando correr o marfim no remanso do meu cantinho, poupando os meus estimados leitores ao azedume das minhas reflexões, dando sentido ao aforismo popular: «Quem quiser bolota, que trepe!»

Afinal que espero eu, para mim e para os meus desta minha terra chamada Sardoal, a quem muito dei, a troco de quase nada e que ao longo dos tempos tem sido, para muitos, tão má mãe e tão boa madrasta? Devo confessar, com muita desilusão, que já não espero nada!

Dir-me-ão que estou a ser muito egoísta, que devo pensar nos outros, na nossa comunidade, em geral. Mas qual está a ser o papel dessa comunidade? Que tipo de preocupações manifesta com o declínio evidente que se manifesta na nossa terra? Como reage aos sinais que dia a dia se acumulam desse declínio? Como se posiciona perante os sinais de incúria e desleixo que dia a dia se avolumam?

O que constato é que a maioria dos meus conterrâneos gosta de viver nesta pasmaceira, esperando aproveitar algumas migalhas que vão caindo do orçamento municipal, preferindo vender a consciência e o espírito crítico a troco de pequenas benesses, preferindo passar despercebidos, por forma a que não se dê por eles, para não comprometer a possibilidade de virem a ser bafejados pela sorte de uma oportunidade de emprego para si ou para os seus.

Apenas vislumbro uma possibilidade de os ver reagir às injustiças que assolam o nosso quotidiano e essa reacção só vai acontecer quando as sentirem na sua própria pele. Enquanto isso não acontecer irão deixando para os «outros» a responsabilidade de reagirem, porque é sempre aos «outros» que cabe essa responsabilidade, porque, como é usual dizer-se, não estão para se chatear!

Às vezes tenho a impressão de que por aqui impera a filosofia dominante dos  sportinguistas ferrenhos (também chamados «lagartos»), que ilustram o seu anti-benfiquismo militante preferindo as derrotas do Benfica às vitórias do seu clube. É este o espírito de muitos sardoalenses (também «Lagartos») que não se importam de passar mal, desde que os seus conterrâneos passem pior.

Outra característica interessante que alguns sardoalenses têm, assenta no facto de gostarem muito de fazer favores com aquilo que é dos outros, especialmente quando têm alguma autoridade sobre a coisa pública, por irrelevante que seja.

A pouca massa crítica que ainda existia na sociedade sardoalense, a pouco e pouco, está a desaparecer. E, onde estão alguns dos representantes dessa capacidade de intervenção crítica que se evidenciaram nas últimas três ou quatro décadas? Muitos foram-se embora em busca das oportunidades de vida que aqui não tiveram e os poucos que ficaram passaram a fazer parte da corte situacionista, onde a permanência se paga com a veneração, vulgarmente designada por adulação, com o comodismo e o silêncio que tem, necessariamente, que existir quando se engolem sapos vivos.

São opções de vida que cada um pode e deve assumir livremente, ainda que a liberdade individual, no seu sentido poético e filosófico, tenda, aos poucos, a desaparecer.

Dando sentido ao meu estado de espírito decidi suspender, por tempo indeterminado, as minhas reflexões pessoais e políticas, que há vários meses vinha colocando neste espaço, reservando para mim a decisão sobre a oportunidade de as retomar quando me apetecer, passando a utilizar este blogue, exclusivamente, como espaço de divulgação da história do Sardoal, tarefa a que me dedico há muitos anos.

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