Início‎ > ‎Curiosidades‎ > ‎

Lugares

LUGARES

 

            “ É no presente onde se situam as nossas obrigações e no passado onde repousam as nossas recordações que reside o futuro onde se dirigem as nossas esperanças.”

Frederico Ozanam

 

            PASSADO

            O passado é aprendizagem e um acumular de experiências (e se possível de riqueza).

            É a base tudo. E a experiência conquistada no passado diz-nos que acreditar e aprender compensa.

 

            PRESENTE

            O presente é a altura em que o conhecimento se materializa. É quando as grandes questões (onde, como e porquê?) encontram resposta e se transformam em decisões.

            É o efémero instante que faz a ponte entre o passado e o futuro.

 

            FUTURO

            É quando tudo se concretiza. No futuro, geram-se e gerem-se expectativas, desenham-se cenários, acompanham-se tendências e, em princípio, colhem-se frutos.

 

 

ALGUNS LUGARES DO MEU PASSADO, DO MEU PRESENTE E (ESPERO) DO MEU FUTURO

 

LAPA

ENCANTO E MISTÉRIO

 

As sombras

na superfície de si mesmas,

parecem mais profundas nas águas

só por serem fugidias

e vagas

 

Afinal meras imagens

de pinheiros, penedias,

cheiro vegetal das margens.

 

Enquanto uma voz, daquelas a que Camões chamava rudas

ainda hoje me repete

o que tantas vezes me disse:

 

“Não te iludas,

Só tens olhos de superfície.”

 

“A auto análise infalível – José Gomes Ferreira: POESIA VI”

            A Lapa é, para mim, um espaço de referência afectiva desde que o conheço e desde que me reconheço. Porquê? Não sei muito bem!

            Talvez porque os “tabus” da educação sexual de há perto de meio século tivessem sérias aberrações, como sempre tiveram, que não permitiam explicar, às crianças, as origens da vida humana e, muito menos, como e porquê nasciam os bebés e, na minha aldeia, Entrevinhas, quando uma criança questionava um adulto, perguntando-lhe de onde tinha vindo, a resposta mais usual fosse a de que o pai e a mãe a tinham ido buscar à Lapa, onde a Senhora da Lapa a tinha guardado numa gruta secreta, à espera que a fossem buscar!...

            Devo confessar que só com quase seis anos de idade percebi que andava a ser enganado, quando nasceu um primo meu, numa 2ª feira, dia 29 de Setembro de 1958, último dia da Festa de Entrevinhas, também chamada “Festa da Cabra”, em que tive oportunidade de o ver pouco tempo depois de nascer, amorosamente amparado pelos braços da mãe, minha tia, que eu tinha visto pouco tempo antes com uma grande barriga e sem tempo, nem energia, para ir à Lapa, sozinha, buscar aquele filho, nem o meu tio o poderia ter feito porque curtia havia algumas horas uma valente bebedeira, que naquele tempo era um apanágio da “Festa da Cabra” e também me tinha apercebido da azáfama da “Comadre” Generosa, que era, então, com a “Comadre” Emília, uma das parteiras “oficiais” da aldeia.

            Percebi melhor e de forma definitiva que os bebés não vinham da Lapa, cerca de um ano depois, quando nasceu outro dos meus primos, no Hospital da Misericórdia do Sardoal, sendo necessária uma cesariana, com algumas complicações para a parturiente que teve de ficar internada vários dias...

 

            Pouco tempo depois estive à beira de morrer afogado na que então se chamava “Praia da Lapa”. Num dia de muito calor, a miudagem de Entrevinhas, foi para a Lapa nadar ou chapinhar, um pouco abaixo da Capela, onde existia um pequeno e repentino fundão, em que eu caí, e se não fosse o Vítor Bicho, alguns anos mais velho do que eu, teria engolido tanta água que ocuparia o lugar do ar nos meus pequenos pulmões, de tal forma que em muito pouco tempo teria deixado de respirar. Não vejo o Vítor Bicho há muitos anos, mas soube que o destino da vida não lhe sorriu e que esteve vários anos preso, mas estou-lhe eternamente grato, porque sem aquela sua intervenção há mais de quarenta anos, eu não estaria, agora, a escrever estas memórias...

 

            A cerca de 20 metros a jusante da Capela, na margem direita da ribeira, ainda hoje se pode ver um buraco quase redondo, com cerca de meio metro de diâmetro, de que não se consegue ver o fundo, que entra no monte, quase horizontalmente e que constituiu um grande enigma para a miudagem do meu tempo. Um dia, tentando descobrir-lhe o cumprimento, carregámos muitas canas para o local que atámos umas às outras, à medida que as íamos introduzindo no buraco

 

 

MOINHOS DE ENTREVINHAS

 

UM D. QUIXOTE PARA VÁRIAS DULCINEIAS

 

Aqui a lembrança

perde, de súbito, o rosto.

Pasta de sangue e névoa,

Labirinto escuro na claridade do dia

que só começa a iluminar-se ao sol posto

quando de repente

sinto na mão

que me guia

a cegueira ardente

dos olhos da imaginação.      

 

               José Gomes Ferreira – POESIA VI

 

 

VILA DO SARDOAL

JANELA DA VILA E DA VIDA

 

Todas as manhãs

a Vila desperta cedo,

mas lentamente, à medida

que o sol invade as ruas,

os telhados e os bancos de jardim

 

Em cada gesto, em cada cumprimento

e em cada passo apressado está a expectativa de um dia melhor.

Toda a Vila acorda com os olhos no futuro, dia após dia.

Uma terra autêntica é assim: tem na sua gente o motor do seu dinamismo e do seu crescimento.

 

Nos dias de festa, as manhãs são ainda mais movimentadas e cheias de vida.

O coração da Vila bate com mais força.

A festa é um espaço de encontros e reencontros, onde aromas, cenários e ruídos se misturam e se confundem.

 

Cada um dá o melhor de si para que todos tenham aquilo a que têm direito.

Um pequeno pormenor pode ser um pretexto para dois dedos de conversa em que se pode descobrir uma história e aprender uma lição.

 

É assim que a Vila vai crescendo e que a sua gente vai ganhando a vida.

Dia após dia, com confiança no futuro e em harmonia com os outros. Mas de bem connosco.

 

Dou os bons dias aos passantes e às gentes do lugar.

Na ténue claridade da manhã, deixo para trás esses espaços mais ou menos enobrecidos, esses instantes de um tempo morto, quais sombras difusas do passado e regresso às claridades do presente, com um rádio ali por perto a musicar-me o espírito e o silêncio da manhã pardacenta.

 

Sem imaginação não vamos a lado nenhum.

 

Sardoal, 19 de Abril de 2001

 

            Sabendo-se que o processo de modelação da cultura se relaciona com espírito e técnica, sagrado e profano, oralidade e forma escrita, passado e progresso e no fundo tudo quanto exprime a esperança e a inquietação.

Comments