Reflexões‎ > ‎

Hipnose (quase) Geral

Publicado a 25/05/2010, 10:04 por Luís Gonçalves
Não sei se sou eu que ando a bater mal da cabeça e por isso tenho dificuldade em compreender e aceitar muitas coisas que se passam à minha volta, quer em termos nacionais, quer em termos locais ou se é o País e o Concelho de Sardoal que vivem numa situação de hipnose colectiva que impede muitas pessoas, talvez uma grande maioria, de tomarem consciência da triste realidade em que vivemos.

Inclino-me para esta segunda hipótese e explico porquê:

Há cerca de 40 anos fui assistir a um festival de magia que se realizava no Parque Mayer, em Lisboa, onde aconteciam algumas sessões de hipnotismo, uma arte ou poder que, então, me fascinava, pelo que me sentei na primeira fila, para poder ver tudo com mais detalhe e atenção e, eventualmente, poder ser escolhido como parceiro para um número de hipnotismo. Como era minha expectativa não tardou muito que o hipnotizador solicitasse a presença de voluntários no palco, dispostos a serem hipnotizados. Mesmo temendo o ridículo de algumas situações idênticas que vira na televisão, não me importei de ser o primeiro voluntário a poder viver uma situação nova que me ajudasse a perceber o fenómeno do hipnotismo.

Mas, para meu desgosto, as minhas expectativas saíram goradas e, sem embargo dos muitos esforços desenvolvidos pelo artista, a verdade é que ele não me conseguiu hipnotizar e passado algum tempo regressei ao meu lugar, esperando poder gozar o espectáculo, tranquilamente, a partir daí.

Mas tal não foi possível porque depois de ver goradas três ou quatro tentativas de hipnotizar outros voluntários, o hipnotizador pediu-me que saísse da sala porque, dizia ele, eu tinha um poder especial, uma espécie de magnetismo, que o impedia de se concentrar e de aplicar os seus poderes.

Nunca mais assisti a espectáculos de hipnotismo ao vivo, mas algumas vezes em que, em sessões privadas, me dispus a ser hipnotizado, a verdade é que nunca pude viver essa sensação, invocando os hipnotizadores o tal poder especial que me tinha sido apontado no Parque Mayer, como justificação para o facto de não me conseguirem hipnotizar.

 

Talvez resida aqui a explicação para o facto de eu não ter sido atingido pela hipnose colectiva que o nosso País, em geral, está sujeito, mas que também incide de forma intensa sobre o Concelho de Sardoal.

Não sei se sou ou não detentor dos tais poderes especiais que impedem que eu seja hipnotizado, mas quero acreditar que sim, como também quero acreditar que não sou a única pessoa a deter aquela capacidade, porque sinto que existem muitos seres pensantes que, como eu, conseguem sentir, de forma especial, a gravidade da crise que afecta quer o nosso País, em geral, quer o Concelho de Sardoal, em particular.

Medidas as distâncias, sinto que estão neste grupo dos que não se conseguem hipnotizar pessoas como os Doutores Medina Carreira, Silva Lopes, José Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, os Engenheiros João Cravinho e Henrique Neto, entre muitos outros que nas mais diversas áreas teimam em olhar a realidade de frente, sem medo de denunciar as razões e os responsáveis por tão calamitoso estado de coisas. Deixou-nos, recentemente, alguém que, também, nunca foi hipnotizado: refiro-me ao Professor Saldanha Sanches, com quem muitas vezes discordei em termos ideológicos, mas que sempre respeitei e apreciei como grande defensor dos valores democráticos.

 

Sem querer alongar-me na busca de razões para este estado de coisas, não resisto a transcrever, com a devida vénia, um post que li, há dias, no blogue «Portugal dos Pequeninos», onde, sem grande esforço, pode ser encontrada uma das razões do estado comatoso em que o País se encontra:

 

«FEIOS, PORCOS E MAUS

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas de limpeza após combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, a interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem
pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.


Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos — tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza em cima de tudo.


A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director - executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro»

 

In http://portugaldospequeninos.blogspot.com/


Comments