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Qual é a relação entre Política e a coisa pública?

Publicado a 23/03/2010, 13:47 por Luís Gonçalves

Não precisamos fazer análises muito profundas para saber que a relação é clara e evidente. À Política cabe traçar directrizes que visem atingir o bem comum, respeitando a multiplicidade de opiniões e ideologias, além de gerir a coisa pública com zelo e moralidade.
Outrossim, devemos ter sempre presente que o bem comum é, em última análise, a realização de uma política que vise sanar problemas sociais, tais como a desigualdade, a pobreza e a fome, bem como garantir serviços como a educação, saúde, saneamento básico e criação de empregos. No entanto, tendo em vista a formação político-social de cada membro da sociedade, a busca desse bem comum, e a consequente acção, pode variar, partindo desde uma intervenção mais rigorosa dos entes públicos, até à chamada intervenção mínima.

É certo que num regime democrático deve prevalecer a liberdade de expressão e deve-se possibilitar a todos emitir a sua opinião, para que haja um debate esclarecedor, com vista a ser traçado o melhor caminho para se atingirem aqueles fins.

Pois bem, estas são algumas das características do regime em que vivemos. Porém, observando o quadro político actual e relembrando outros casos semelhantes, é impossível não concluir que algo está a faltar.

Para gerir a coisa pública e também editar leis que vão influenciar o destino social e dos bens públicos, torna-se necessário que aqueles que estiverem envolvidos nesse processos estejam suficientemente isentos de qualquer influência para agir melhor na busca daquela finalidade social.


A perversão que campeia nos actos políticos começa a ser tão grave que, de muitos lados, chegam clamores de alerta avisando para as consequências que esta situação está a desencadear a todos os níveis da governação. Porque, se o que se passa a nível nacional é verdadeiramente vergonhoso, não deixa de ser tanto ou mais desastroso aquilo que acontece a nível do poder local. É que, por enquanto, para a governação a nível nacional ainda existem critérios de selecção que obrigam a que apenas os que possuem determinadas competências possam aspirar a atingir os cargos mais elevados do poder. Mas, o que se passa a nível do poder local é terrivelmente desastroso. As "felgueiras" e os "isaltinos" são apenas a parte visível de um iceberg que ameaça conduzir o país para os abismos profundos do oceano de lodaçal em que toda esta gente parece apostada em navegar.


Já repararam que, a nível do poder local, muitos dos que ocupam cargos importantes, nunca desempenharam funções que os habilitassem para o exercício desses cargos, nem tiveram qualquer formação específica que os habilitasse para o exercício dessas funções?
Não há muitos anos, havia uma tal exigência no exercício dos cargos políticos que Francisco Sá Carneiro podia clamar, como quem invoca uma regra sagrada, que "a política sem ética é uma vergonha". Se fosse hoje, a sua frase seria mais um grito de desespero do que a evocação duma forma normal de encarar a política

Partindo do pressuposto (válido) que a política exige ética, moral e acima de tudo exige que os interesses colectivos sejam colocados acima dos interesses individuais e dos partidos, é facilmente constatável que nos dias de hoje existe uma enorme lacuna em relação à articulação éticapolítica.

Se por um lado é do senso comum que o exercício da profissão política é uma das mais nobres (se não a única), uma vez que exige dos seus dirigentes responsabilidades que apenas são compatíveis com grandes qualidades morais, por outro verifica-se que esta imagem, em relação aos políticos actuais, é cada vez menos visível.

Questões como o desemprego, a precariedade ou até mesmo a marginalidade são habitualmente falados e discutidos aquando de umas ou outras eleições. Mas então e resultados? Todos opinam, todos apresentam soluções, todos prometem… Mas quase nenhum cumpre. Com estes pequenos exemplos fica claramente explícito que a classe política viola frequentemente toda a ética que possa existir. Pois os deveres éticos que, não só os cidadãos devem cumprir mas principalmente os agentes políticos se devem reger, estão completamente esquecidos não fazendo parte dos discursos nem mesmo da postura que estes assumem perante a sociedade.

Com a atitude que os actuais políticos vêm a adoptar ao longo do tempo, verifica-se um aumento de descredibilização e desinteresse da sociedade perante os máximos do poder que se tem apurado, por exemplo, pela abstenção nas eleições. A população sente-se atraiçoada pelas promessas não cumpridas: promessas essas apregoadas aos “quatro ventos” e que já não convencem (quase) ninguém.

E, por exemplo, as questões relacionadas com o ambiente? Em que posição é que estas aparecem nos discursos políticos? Pois é! Quando o que toca ao coração dos portugueses numa altura de crise é o dinheiro e o emprego, há que esquecer o que “não interessa” para angariar votos úteis. É exactamente esta falsidade política que me preocupa e é aqui que eu considero a falta de articulação ético – política mais grave e deveras preocupante. Numa altura em que problemas ambientais estão a invadir a sociedade não só a nível local mas global, grandes dirigentes políticos deixam de lado este tema dos grandes debates ou, quando o debatem, fazem-no porque a sociedade está preocupada nesse exacto momento com essas questões.

A classe política “esqueceu-se” da sua verdadeira missão: além de tentar conquistar o poder, as suas acções devem ser dirigidas para o bem comum, o bem da sociedade, que não é fácil definir mas que tem sempre que se procurar. Ao invés disso, respira-se uma busca incessante pelos interesses pessoais e partidários de cada dirigente.

É urgente encontrar uma alternativa para não se tornar uma sociedade democrática num conjunto de cidadãos apartidários.


NOTAS SOLTAS

I –Site municipal: Uma ferramenta pouco utilizada

Li, há poucos dias, na II Série do Diário da República um aviso da Câmara Municipal, publicitando a discussão pública da Tabela de Taxas do Município de Sardoal, com a indicação de que os interessados poderiam consultar o documento na Secção de Expediente, no edifício dos Paços do Concelho. Pode parecer tudo normal, mas eu não posso deixar de perguntar: Porque não a publicação da proposta de alterações no site do Município de Sardoal, onde a sua consulta seria mais cómoda para todos, tanto mais que a tabela de taxas em vigor se encontra lá publicada?

II – Procissão dos Passos do Senhor com um circuito mais curto ou em curto-circuito?

Em primeiro lugar uma declaração de interesses: Sou Irmão da Irmandade da Vera Cruz ou dos Santos Passos e, também, como muitos, não compareci na Procissão dos Passos do Senhor que se realizou no último domingo, por não concordar com as alterações introduzidas no seu percurso. Em minha opinião não existem razões de natureza litúrgica, por mais respeitáveis que sejam, que justifiquem uma repentina alteração de uma tradição multissecular.

Sobre o que se passou em torno da Procissão dos Passos do Senhor do ano de 2010, opto, para já, pelo silêncio. Primeiro porque não disponho de informação suficiente para efectuar uma análise isenta. Em segundo lugar porque o grande respeito que tenho pelas tradições religiosas da Vila de Sardoal e a minha vontade de as ver preservadas me impede de deitar mais lenha para a fogueira, deixando aqui o meu sincero apelo para que impere o bom senso e a serenidade de todos os intervenientes nas seculares cerimónias religiosas da nossa terra!  

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