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Gestão de Recursos Humanos

Publicado a 09/12/2009, 13:38 por Luís Gonçalves   [ atualizado a 12/12/2009, 09:01 ]
Advertência prévia: A Câmara Municipal de Sardoal (CMS) transformou-se, nas últimas duas décadas, na maior entidade empregadora do concelho de Sardoal. Esta constatação não configura qualquer tipo de orgulho por esta situação, antes deve ser entendida como uma manifestação de desgosto pela situação existente, por parte do autor destas linhas, quer enquanto munícipe, quer enquanto responsável autárquico (vereador) da CMS, durante cerca de 12 anos.

Quando na década de oitenta do século passado encerrou a SARDAN, uma fábrica de malas que era, então, a principal entidade empregadora do concelho de Sardoal, foi criado, à escala concelhia, um grave problema de desemprego que «obrigou» a Câmara Municipal de Sardoal a absorver uma fatia substancial das pessoas que ficaram desempregadas, situação que se veio, sucessivamente, a agravar, com o encerramento de uma série de fábricas de pequena dimensão na área das indústrias tradicionais (fabricação de malas e transformação de madeiras). Durante grande parte da década de noventa a indústria da construção civil conseguiu absorver uma boa parte da mão-de-obra desempregada, na maioria sem qualificação profissional, mas a relativa crise com que este sector se debate nos últimos anos, voltou a criar, ainda que com menor expressão, algum desemprego a que a CMS voltou a ter que dar resposta, directamente ou através da integração de muitos desses desempregados em programas ocupacionais do IEFP.

Esta introdução serve para deixar claro que a absorção através da integração no quadro de pessoal do Município de Sardoal de muitos dos desempregados referidos no parágrafo anterior, torna mais necessária uma aposta na sua qualificação.

 É sabido que a Administração Local autárquica enfrenta um novo ciclo de modernização, orientado pelo princípio da igualdade de oportunidades, consagrado à prestação de serviços de crescente qualidade aos cidadãos. Para tal, são necessários expressivos investimentos na formação, na qualificação e na requalificação dos meios menos humanos.

Os sistemas autárquicos estão a experimentar importantes modificações internas, associadas à emergência de uma nova cultura organizacional, à afirmação de um novo paradigma fundado prioritariamente na valorização das pessoas.

Este novo paradigma exige a motivação, a participação e a responsabilização de todos os funcionários e agentes da Administração Local, designadamente dos seus dirigentes e deve motivar o desenvolvimento do trabalho em equipa, a promoção do espírito crítico e criativo, a valorização da iniciativa pessoal e a apreensão de conhecimentos de natureza interdisciplinar.

Mas a aceleração das mutações organizacionais e laborais, de natureza tecnológica e metodológica, exige, por sua vez, uma acrescida capacidade de adaptação a novas realidades, a flexibilização e a diversificação dos conteúdos funcionais e a concepção holística de programas de formação.

A este propósito, as Autarquias Locais terão de desenvolver a sua capacidade de conciliação entre a gestão quotidiana, norteada por objectivos de curto prazo, e a antevisão e antecipação dos desafios do futuro, orientada para objectivos de longo prazo.

Entretanto, o triunfo do pensamento global, associado à generalização das redes de informação sem fronteiras, não dispensa a acção local. Nesta perspectiva, os programas de formação autárquica terão de prestar a devida atenção às diferenças e especificidades locais, a fim de se colocarem ao serviço de processos de desenvolvimento localmente sustentados.

Nas sociedades contemporâneas, marcadas pela busca incessante da racionalidade económica e pela afirmação da competitividade e da concorrência, as Autarquias Locais não poderão ficar indiferentes às dinâmicas instaladas. Por isso mesmo, deverão procurar alcançar patamares superiores de produtividade e de qualidade.

Na era da ciência e da técnica, as organizações autárquicas, escassamente dotadas de recursos humanos altamente qualificados, não poderão perpetuar práticas administrativas incipientes e rudimentares. Contrariamente, terão de valorizar o conhecimento científico e técnico, terão de apostar no conhecimento de vanguarda e na inovação.

 

Escrevi este texto em Outubro de 2005, a pedido de uma licenciada em Recursos Humanos, que na altura se encontrava a realizar uma pós-graduação na área da Gestão de Recursos Humanos e, nele, tentei sintetizar algumas ideias que considero fundamentais para uma correcta gestão de recursos humanos num pequeno município, como o de Sardoal, sendo esta a área que considero mais sensível na gestão municipal, quer pela sua relevância social, quer pela relevância financeira que lhe está associada.

Para ilustrar o que afirmo recordo o facto de o Município de Sardoal ter, em finais de 2008, 176 funcionários, que geraram uma despesa superior a 2.500.000€, que corresponde a cerca de 63% do total das despesas realizadas pelo Município naquele ano.

A importância desta área exige um conhecimento profundo da realidade e, por isso, tomo a liberdade de lançar um desafio aos responsáveis pela Gestão de Recursos Humanos no Município de Sardoal:

Contratem uma empresa especializada para avaliar aquela gestão ou, caso esta contratação se mostre muito dispendiosa, realizem o seguinte exercício, de grande simplicidade: Exijam que cada funcionário do Município elabore um relatório em que descreva qual foi o trabalho, por si realizado, no último dia, na última semana, no último mês e no último ano. Este relatório deve conter indicadores objectivos que permitam a quantificação do trabalho realizado.

Tenho quase a certeza de que iriam receber um número significativo de respostas em branco ou com meia dúzia de linhas. Estarei enganado?

Para finalizar, permitam-me uma ironia, quiçá uma graçola de oportunidade:

Tem causado grande furor a proposta do PSD para ser criada, na Assembleia da República, uma Comissão de Inquérito para analisar as vicissitudes da distribuição dos computadores Magalhães e, com maior incidência, a actividade da Fundação para as Comunicações Móveis (FCM), uma fundação privada criada para gerir capitais públicas, que permite a contratação de empresas para fornecimento dos computadores necessários à implementação dos programas e-escolas e e-escolinhas , nos quais foram já aplicadas centenas de milhões de euros, sem, para o efeito, haver necessidade de realizar concursos públicos.

Trata-se de um género de «filme» em que o Governos do Partido Socialista se tem especializado, que vai estrear no «cinema» da Assembleia da República dentro de pouco tempo.

Também num «cinema» perto de nós, se encontra em exibição um «filme» de argumento similar, em especial no que respeita à fuga aos procedimentos concursais, que apesar de ter uma muito menor escala dos meios financeiros envolvidos, não deixa de ser um remake do filme em exibição na Assembleia da República.. Só que por aqui, vive-se na habitual pasmaceira e não se prevê qualquer comissão de inquérito ou similar. É tudo tão normal que até a anormalidade é normal!...

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