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Notícias de há 100 anos (VIII)

JORNAL DE ABRANTES

4 de Junho de 1911

O Acto Eleitoral

O acto eleitoral realizou-se aqui com toda a ordem, e liberdade, sendo grande a

concorrência de eleitores.

Na semana anterior tinha um grupo republicano realizado comícios de propaganda

nos Valhascos, Cabeça das Mós, Alcaravela, S. Tiago, Andreus e Entrevinhas. Muita

gente havia de profetizava pouca concorrência à urna e portanto um fiasco para os

propagandistas, no entanto os factos demonstraram o contrário porque a percentagem de votantes foi de 60% o que representa uma vitória, porque pouco maior foi a de Lisboa, onde a educação e a instrução do povo é em mais elevado grau.

Isto vem provar que o povo se emancipou da tutela monárquica que sobre ele pendia

e que está pronto a contribuir quando em si couber, para a consolidação da República,

como sendo o ideal que mais se coaduna com as aspirações das sociedades modernas.

Foi a primeira vez que os eleitores não se viram assediados com pedidos de votos e

imposições de toda a espécie; por isso eles se mostravam alegres e sorridentes, ao deitar o voto com toda a liberdade sem se estarem a esconder de A ou B para que não vissem em quem iam votar, como é bela a liberdade!

Entraram na urna 569 listas que deram o seguinte resultado:

Dr. Ramiro Guedes – 569 votos

Dr. João José Luís Damas – 387 votos

Capitão António Maria Batista – 381 votos

João Augusto Silva Martins – 105 votos

Carlos Maria Pereira – 54 votos

Castro Melo Ribeiro – 48 votos

Alberto Marques – 8 votos

A Comissão Política discordando da maneira como o Directório escolheu os candidatos, apresentou a sufrágio dos seus eleitores uma lista em que se encontravam os três primeiros candidatos, que como se vê obtiveram a grande maioria de todo o concelho, causou aqui grande impressão e grande júbilo o facto de serem eleitos os Srs. Drs. Ramiro Guedes e João José Luis Damas, que aqui são bastante conhecidos, e com certeza sem prejudicar a Pátria pugnarão para tudo o que possa contribuir para o engrandecimento do círculo que o elegeu.

Aos dois ilustres deputados endereçamos as nossas entusiásticas saudações.

 

JORNAL DE ABRANTES
4 de Junho de 1911

Nova Empresa de Viação

Acaba de estabelecer-se na vila de Abrantes, a Empresa de Viação de Francisco

Moleirinho, com carros para todos os serviços. O público tem a lucrar com o benefício

que deriva da concorrência. Ver anuncio na secção respectiva.

 
Anuncio

Nova Empresa de Viação de Francisco Moleirinho. Abrantes, Rua do Cabo, pegado à antiga Cocheira Dupin. Esta nova empresa está montada em condições a bem servir o público mais exigente, pois tem bons carros e gado.

 

9 de Julho de 1911

Festas nos Andreus

Teve lugar nos dias 29 e 30 de Junho nesta pitoresca aldeia a festividade da N.S.ª da

Saúde e S. Guilherme:

Alvorada no dia 29 despertou-nos a tradicional gaita de foles.

Às 9 horas deu entrada a Banda União Sardoalense que depois dos cumprimentos de

estilo percorreu as ruas juntando fogaças que moçoilas, joviais e garridamente vestidas, vinham ofertar à senhora.

Houve missa em que foi celebrando o Revº Ventura, acolitado pelo Revdº Alpalhão

e Silva Martins. De tarde bailes campestres por todos os cantos, os rapazes dirigiam

às raparigas idílios amorosos e os velhos como já não sentissem o calor da mocidade

prestavam homenagem ao Deus Baco em fartas e copiosas libações.

A música no coreto sob a regência do hábil maestro Sr. Lopes, executou algumas peças

do seu vasto repertório.

À noite fogo de artifício do afamado pirotécnico de Mouriscas, Francisco Marques

Amante, o que agradou a todos, e, para todos os lados os mesmos idílios e mesma

harmonia.

No dia 30 houve missa pelo Revº Alpalhão, de tarde bailes campestres à noite

queimaram-se algumas peças de fogo e deitou-se um lindo aeróstato que subiu

maravilhosamente, à sua subida um grupo de rapazes entoou a Portuguesa.

A fachada da Igreja e o coreto nas duas noites esteve iluminada a acetileno, o que

produziu um lindo efeito.

Eis como passaram 2 dias e 2 noites sem que uma nota triste viesse transtornar o brilho da festa e alegria dos camponeses.
 

Zig Zag

Utensílios para lagar de azeite

Vende-se uma prensa móbil, de grande força, máquina a vapor com força a 5 cavalos,

moinhos e outros utensílios pertencentes a lagar.

Quem pretender dirija-se a J.M. Pires Coelho. Sardoal, Valhascos.

20 de Agosto de 1911

Dr. Armando Mora

Concluiu a sua formatura em direito este nosso ilustre amigo.

Estudante aplicado e inteligente, conseguiu atravessar toda a sua vida académica

contando bastantes distinções, e este ano apesar de fazer o 4º e 5º ano obteve a

classificação final de distinto, o que para ele não só representa uma glória, mas também uma justa e merecida compensação para o seu árduo e extenuante trabalho.

Foi pelo seu esforço, dedicação e trabalho que conseguiu sempre impor-se à admiração dos seus professores, que nele viam uma vasta inteligência aliada a uma grande força de vontade.

Quem com ele finaliza com tanto brilho a sua vida académica, com certeza que na

advocacia ou magistratura há-de ser sempre uma figura de destaque que se há-de impor pelos seus métodos profissionais e pessoais.

Ao novo bacharel e sua exmª família as nossas calorosas felicitações.
 

De regresso de Coimbra chegou ontem a esta vila o Exmº Sr. Dr. Armando Mora.

Os seus amigos prepararam-lhe uma manifestação de simpatia tendo ido alguns à

estação de Alferrarede esperá-lo.

A sua entrada na vila foi anunciada por girândolas de foguetes e vivas à sua passagem.

À noite a Filarmónica União Sardoalense foi cumprimentá-lo percorrendo em seguida

as ruas da vila.

3 de Setembro de 1911

Festas nos Valhascos

É nos próximos dias 10 e 11 que se realizam nos Valhascos, as tradicionais festas de

N.S.ª da Graça, que promete, este ano ser revestida de grande brilhantismo, para o que não se têm poupado a esforços os seus promotores.

Além da missa a grande instrumental, fogo de artifício dos hábeis pirotécnicos da

aldeia, José Lourenço Galinha e Henrique Alves Ameixoeira.

 

2 de Outubro de 1911

Teatro no Sardoal

É hoje que aqui se realiza a festa artística do actor António Barbosa, subindo à cena

pela primeira vez a comédia em dois actos “A Mosca Branca” e alguns monólogos

e cançonetas, terminando o espectáculo com a comédia do teatro ginásio em

Lisboa “Espada e Noiva”.

Debutam neste espectáculo as amadoras Aurora Mascarenhas e Ester Garcia, e os

amadores, Diamantino Garcia, José Maria Santos, Joaquim Maria Serras e Lúcio

Grácio.

Atendendo à simpatia que o beneficiado goza entre os sardoalenses é de crer que este

modesto artista, tenha uma enchente completa.

O espectáculo é dedicado à direcção da Sociedade Filarmónica Sardoalense.

JORNAL DE ABRANTES

29 de Outubro de 1911

Sardoal - Correspondências

Aurélio Neto

Acaba de ser transferido de administrador deste concelho para o da Covilhã este nosso

ilustre amigo.

Desde da implantação da República que está à frente deste concelho, tendo sempre

desempenhado o seu cargo, com inexcedível e comprovada competência.

Veio para este concelho, onde rareavam os elementos republicanos e sai de cá deixando uma forte corrente de simpatia pela República muito em especial nalgumas freguesias do concelho onde a propaganda se fez com mais persistência. E isso deve-se não só a propaganda que ele e outros dedicados republicanos fizeram, mas também à sua correcta orientação administrativa.

A todos atendíamos com a mesma boa vontade e dedicação, e afoitamente o dizemos

saiu de cá sem ter cometido a mais pequena arbitrariedade, ou mais leve e represálias fosse contra quem fosse.

Por isso, ao vê-lo sair, não podemos ocultar o nosso pesar porque sabemos que o futuro nos demonstrará que ele faz cá falta.

Ao povo da Covilhã enviamos as nossas felicitações por ir ter como administrador um

republicano da velha data, intransigente em princípio e de convicção radicadas por vinte anos de luta política.
 
Novo Administrador

Tomou posse da administração deste concelho o Exmº Sr. António José da Silva.

Esta foi conferida pelo ex administrador Sr Aurélio Neto.

Ao acto assistiram alguns cavalheiros desta vila, tendo falado o Sr. Aurélio Neto, em

seu nome e dos republicanos daqui. Falou sobre a sua administração neste concelho, e o mau caminho que a República aqui queria enveredar.

O Sr. Silva agradeceu a todos a sua competência e declarou que não fazia política de

partidos nem homens, mas sim política republicana.

Oxalá que assim suceda, porque terá sempre os nossos aplausos, pois que, a dar-se

o contrário, também o combateremos, mas esse combate será sempre do campo da

lealdade e da correcção.

Tem sido sempre esta a nossa linha de conduta, e continuará sendo, porque de outro

modo, não entendemos política. Acima dos homens estão sempre os princípios.

 
12 de Novembro de 1911

Correspondência – Sardoal

Há tempos que aqui estavam destacados policias de Santarém, fazendo guarda dos

olivais para evitar que a azeitona fosse roubada. Eram pagos pelos proprietários, que

para esse fim se quotizaram, visto ser em extremo benefício, pois assim evitam os

abusos que no ano passado se deram, porque, muita gente havia que não se limitava a

apanhar a azeitona no chão, preferiam a que estava na oliveira, porque era mais fácil de apanhar e de melhor qualidade.

Ora isto assim não podia ser, pois o Sr. Governador Civil entende que deve ser e trata

de mandar recolher os guardas ao distrito obedecendo não sei a que razões nem a que

critério. Mistérios que desvendaremos...

Esta ordem surpreendeu-nos imenso, porque ainda há pouco tempo ouvimos dizer a

suas excªs “os polícias estarão o tempo preciso e necessário e subsistir-se-ão para não

criarem relações”.

Os seus actos estão desmentidos as suas palavras de uma maneira tão frisante que nos

dá a impressão que á frente do distrito está um homem que melhor seria que o tivessem mandado para o regedor da aldeia de Paio Pires.

Esta é a verdade, a Câmara Municipal, como defensora dos interesses e regalias

municipais, compete reagir contra tal ordem, para mostrar ao Sr. Governador Civil, que não estamos no regime do posso, quero e mando, mas sim num regime democrático, em que todo o cidadão tem o direito de exigir o respeito que é devido à sua propriedade, pois que, só a ele exigem o pagamento das contribuições. Ao Sr. Administrador do concelho como delegado do governo e fiscal da lei, compete informar de quanto é prejudicial ao proprietário a falta de policiamento e que a sua estadia aqui, em nada prejudicava o governo e a câmara, pois eram pagos pelos particulares.

A ordem do Sr. Governador Civil não poderá ser mantida, a não ser que sua excª. ande

estudando novas teorias socialistas, em que o roubo seja preconizado como elemento depurador da sociedade, por muito útil e benéfico, porque, a ser assim, penitenciar-nos-emos de termos escrito estas minhas e lhe diremos: viva o socialismo moderno.

O Administrador deste concelho acaba de determinar que os sinos das igrejas desta vila não toquem mais de dois segundos por cada acto que se realiza nas igrejas.

Proibiu expressamente que eles toquem antes do sol nascente e depois de por o sol, a

não ser em caso de incêndio, que é obrigado, a qualquer hora e o tempo que for preciso.

Medidas como esta são sempre louváveis, porque não afectam crenças de ninguém e

acabam com esses toques constantes que para ali havia, que só serviam para incomodar quem residia próximo da igreja.

Mas o que é necessário, é que a sua ordem seja cumprida, porque nesta terra as medidas sensatas têm vida efémera. A ver vamos.

 
JORNAL DE ABRANTES

26 de Novembro de 1911

Correspondência-Sardoal

O correio da estremadura no seu último número, vinha-nos criticando por crermos que a polícia andasse guardando os olivais, mas a sua critica, era feita com aquela fina piada, que tanto a caracteriza nos seus momentos de bom humor que não resistimos à tentação de lhe responder, para patentearmos o nosso reconhecimento por não ter proporcionado a ocasião de mais uma vez mostrar-nos as incoerências do Sr.Governador Civil, pelos modos é o órgão lá de casa.

Diz-nos o prezado colega, que a missão de polícia, não é guardar oliveiras, nem fazer

serviços idênticos.

Pois nós dir-lhe-emos, que mais de uma vez temos visto polícias ao serviço de

particulares, desde que estes lhe paguem.

Tenha em vista o que se vê por toda a Lisboa, famílias que se retiram para fora

deixaram a sua casa guardada por um ou mais policias.

Olhe colega, ainda há dias os jornais diziam que a casa do Sr.José Luciano, estava

guardada por 3 polícias, sendo um pago por ele.

Pois não será o caso aqui idêntico?...

Positivamente que é; porque cá também os particulares que lhe pagavam para guardar

as suas propriedades, que hoje vêem constantemente roubadas, para honra e glória do

Sr.Governador Civil.

Para que os guardas não devem servir, é para distribuir discursos pelos domicílios, nem para entregar convites para manifestações expontâneas, isto é que não é admissível num regime democrático, a não ser que enveredássemos pelo mesmo caminho donde o Sr.Governador Civil vem, de fazer caciquismo ao lado da Sr.ª Condessa da Junqueira.

Siga o caminho que as comissões republicanas daí lhe estão indicando porque para

chefe do distrito, está mais que provado que não tem capacidade nem competência.

Não queremos terminar sem procurar ao nosso ilustre colega, que tão entusiasta é na

defesa do chefe do distrito, porque é que ele cá mandou os policias guardar os olivais se não era essa a missão deles?

Porque é que depois de ter dito à nossa visita “que eles estariam cá até serem precisos se necessário fosse se substituiriam para não criar relações”?

Porque é que ele disse mais tarde a outros cavalheiros”que não tinha pensado em retirá-los apelando até para testemunho do chefe da policia do distrito”? Porque seria então que ele depois de tudo isto os mandou retirar?

Porque é um incongruente, um incompetente, um cacique.
 
Não acha colega?

 

10 de Dezembro de 1911

Padre João Lopes Andrade

Agradecimento

José Lopes Andrade e Américo Lopes Andrade, vêm por esta forma agradecer a todas

as pessoas que se dignaram acompanhar à sua última morada o nosso filho e irmão

e muito especialmente ao reverendo Pároco de Constância pela sensível alocução

proferida à beira da sepultura e a todo o povo de Santa Margarida que desde o começo da fatal doença até à última jazida tão carinhosamente manifestou o seu grande amor que lhe merecia o seu pároco.

 
5 de Dezembro de 1911

Correspondências – Sardoal

Higiene e Saneamento

Vamos hoje tratar de um assunto que muitos reputarão da mínima importância, mas que nós entendemos ser de máxima importância, porque é indispensável para o bem estar de todos os povos, porque o seu desenvolvimento progressivo, é como um clique que se opõe à entrada ou propagação de qualquer doença com carácter epidémico ou idêntico.

Além disso, quem visita uma terra para o que olha primeiro, é para o estado de asseio

ou imundície em que se encontra; e que todos os visitantes saíram bem impressionados deve ser a preocupação constante de todos os sardoalenses.

Pois senhores as ruas do Sardoal estão num estado de imundície que causa repulsão aqui e além vemos dejectos de toda a espécie e qualidade e isso não admira, porque há mais de dois meses que não são varridas.

Alega-se por isso a falta de verba no orçamento, pois é por isso mesmo que nós

abordámos hoje este assunto, porque estando para se confeccionar o novo orçamento,

nele seja incluída a verba indispensável para tal serviço, ou então que se crie um lugar

de varredor.

Era esse o meio mais prático e económico, temos aí um homem a quem se paga 120 ou 140 réis diários para tratar da iluminação, eleve-se este ordenado a 200 réis e teremos logo quem faça esse serviço e trate da limpeza das ruas, não só varrendo-as, mas também evitando que outros as sujem sem cair na alçada do código das posturas.

Aí fica o alvitre, a câmara que estude e verá se temos ou não razão no que afirmámos.

Canalizações de esgoto, também não temos, pois é necessário que se mande estudar

uma rede geral de canalização e que todas as vereações que transitem pelo nosso

município incluam todos anos no orçamento verbas para elas, e no fim de poucos anos,

teremos a canalização completa e então poderemos acabar com o despejo da água para a rua, como agora tem de fazer todos os que tem quintais.

É também preciso que se ponha em prática, o que mandam os códigos no que respeita

a caiação dos prédios, porque há por aí algumas ruas principais que são uma verdadeira vergonha.

Para que o Sardoal progrida e prospere é necessário trabalharem e trabalharmos muito

porque de mais necessita ele.

 

O dia 1º de Dezembro também aqui foi festejado.

De madrugada houve toque de alvorada pela Filarmónica União Sardoalense e à noite

tocou em frente do edifício dos Paços do Concelho que estava iluminado, assim como

edifícios particulares.

Nesse mesmo dia foi colocado na sala das sessões do nosso município o retrato do Dr.

Manuel de Arriaga venerando presidente da República.

Achamos justa e merecida homenagem mas entendíamos que deveria ser precedida de

uma sessão solene a colocação do retrato, embora para isso se tivesse de escolher outro dia, visto aquele, o povo do concelho não vir aqui, por ser dia de trabalho.

Já depois de escrita a correspondência, chega-nos a notícia que a Associação dos

Artistas resolveu tomar a iniciativa da fundação de um centro republicano, e que em

breves dias abrirá a inscrição de sócios.

Alegre notícia e desde já declaramos que merece toda a nossa simpatia, por isso no

próximo número falaremos mais detalhadamente.

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